JORNADA ABCA 2025 - INTERSECÇÕES CRÍTICAS: AMEAÇAS, MEMÓRIAS E REINVENÇÕES NAS ARTES E SEUS ESPAÇOS

Jornada ABCA: Um Exercício de Escuta e Construção Crítica

Alessandra Simões Paiva, presidente da ABCA, gestão 2025-2027

A imagem de capa desta publicação — a fachada do Arsenale, pavilhão de entrada da Bienal de Veneza, inteiramente pintada em 2024 pelo coletivo indígena Mahku, do Acre –  oferece uma poderosa metáfora para pensar o lugar das artes e de suas institucionalidades no Brasil contemporâneo. Enquanto o país se apresenta no principal evento internacional das artes visuais por meio de um gesto de presença ancestral, que afirma outras epistemes e modos de existir no mundo, aqui dentro seguimos confrontados com a fragilidade e a descontinuidade de nossas próprias instituições culturais. Esse contraste – entre a potência simbólica de uma ocupação que ressignifica o espaço de um dos maiores símbolos da arte ocidental e a precariedade cotidiana das estruturas que sustentam o campo artístico brasileiro –  evidencia o quanto ainda precisamos repensar as bases que legitimam, abrigam e mantêm a arte no país.

Foi nesse horizonte de tensões e possibilidades que a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) realizou, nos dias 10 e 11 de setembro de 2025, em São Paulo, a Jornada ABCA, congresso anual da entidade, cujo tema foi Intersecções Críticas: ameaças, memórias e reinvenções nas artes e seus espaços. O congresso propôs um debate crítico sobre os diferentes modos de existência dos espaços e instituições de arte no Brasil contemporâneo – em meio às tensões entre precarização, apagamento de acervos, negligência pública, por um lado; e práticas de resistência, reinvenção e cuidado coletivo, por outro.

A proposta foi que as temáticas do evento girassem em torno das estratégias adotadas por museus, centros culturais, espaços independentes, coleções públicas, acervos privados e arquivos para enfrentar, simultaneamente, ameaças estruturais e desafios cotidianos. Ao mesmo tempo, o evento também procurou refletir sobre como estes espaços têm produzido respostas singulares que preservam e atualizam a função pública e simbólica da arte.

Além de mesas redondas, organizadas pela associada Sylvia Werneck, e Grupos de Trabalho interno, o congresso reuniu comunicações que procuraram transitar entre as seguintes temáticas: casos de fechamento, descontinuidade ou precarização institucional; políticas públicas de cultura (ou sua ausência) nas esferas federal, estadual e municipal; o papel da iniciativa privada na manutenção da memória cultural; práticas de resistência, rearticulação comunitária e reinvenção institucional; experiências de gestão crítica, financiamento alternativo e construção de autonomia; e desafios contemporâneos da crítica e da curadoria diante dessas transformações.

Os textos aqui publicados, como resultado das comunicações, mostram o quanto a crítica de arte, em suas múltiplas formas de atuação, permanece como um campo vital de pensamento e de mediação cultural. As contribuições reunidas nesta Jornada revelam não apenas diagnósticos sobre as crises e os impasses que atravessam o sistema das artes no Brasil, mas apontam para práticas e modos de fazer que reimaginam suas possibilidades de existência. Assim, a Jornada ABCA 2025 reafirma a importância da crítica como exercício de escuta, análise e proposição.

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