Artigo

Vivências de curadorias e a Arte no feminino

No Congresso Internacional em Zurique ou na exposição “Amor” no Rio de Janeiro, a luta histórica pela igualdade de gêneros

Zuzana Trepková Paternostro  ABCA – Rio de Janeiro

Não se trata de pura coincidência ter um universo globalizado, interligado em diálogos ou monólogos em escala permanente, seja em formato micro ou macro, porém em ondas contínuas resultando ainda em reverberações periféricas imprevisíveis. Uma delas me levou a participar, nos dias 6 e 7 de maio últimos, em mais um encontro profissional em Zurique, na Suíça: em foco, desta vez, o Simpósio Internacional de Curadoria Feminina (no título temático original, Curating in Feminist Thought).

A concepção do evento foi desenvolvida e sistematizada pelas curadoras Elke Krasny em conjunto com sua colega Cynthia Schwertsik que, a partir da organização do material sob o ponto de vista feminino, abordam temas e assuntos “femininos” sob diversos prismas tais como, dentre outros, os enfoques histórico, filosófico, geográfico, econômico e político.

Ambas as arquitetas citadas se notabilizaram no meio profissional internacional ao fundarem em parceria o grupo Plano B, cujos projetos utilizando instalação de som e projeção de slides− conhecidos por Last Name − identificam a dominação masculina na área de linguagem da edificação e nos estilos das cidades delas decorrente.

Embora este evento também tenha contado com a colaboração de um coletivo maior de mulheres profissionais, experientes no ramo de Curadoria, vale mencionar ainda aqui mais outras duas curadoras igualmente responsáveis pela realização deste Simpósio: Lara Perry e Dorothee Richter.

Estas abordagens em ideogramas encenam um mundo em que as relações humanas, no que tange ao gênero feminino, apresentam algumas das possíveis interpretações. Neste sentido vale citar, ao menos, a apresentação de Susanne Clausen e a de Dorothee Richter, mas o elenco é amplo. Em questão, fatos e situações se mesclam, misturando diversos aspectos sujeitos a incontáveis reapresentações. A compreensão pela apreciação nos remete, frequentemente, aos espaços mencionados como Cronos (ou “Crono”), seguindo quase como que um padrão os depoimentos (escritos ou falados) tal como se referem a eles as diversas criações.

De um modo geral, as projeções das artistas ou das próprias curadoras foram antecedidas por apresentações verbais. Outras ainda, curadoras de percurso profissional maior, analisaram longas etapas que se mostraram necessárias e indispensáveis − ou seja, imprescindíveis − para se alcançar seus objetivos propostos.

O primeiro dia do Simpósio foi realizado no Migros Museum (Migros − Museum für Gegenwartskunst), com destaque para a apresentação de Punk is Dada (Szuper Gallery), com vídeos de Martina Mullaney, Liv Wynter e Louise Fitzgerald. Neste mesmo espaço − um prédio avantajado com fachada de aspecto austero (o que não constitui nenhuma surpresa, já que sua função era eminentemente utilitária e produtiva) – nos deparamos com um interior incrivelmente acolhedor, plenamente ocupado e, sem nenhuma dúvida, sendo “apropriado” por dezenas de mulheres, a maioria constituída por jovens aspirantes além de algumas outras profissionais consagradas, personalidades oriundas do mundo da Teoria e da Crítica das Artes Plásticas contemporâneas.

Prédio do Museu MIGROS, em Zurique (Suíça)

Uma delas, com quem tive a oportunidade de conversar, foi Agata Jakubowska, doutora em História da Arte pela Universidade de Adam Mickiewicz em Poznan, na Polônia. Sua presença colaborou para a representatividade dos países envolvidos no evento e decididamente contribuía − assim como a participação da autora deste texto – para aumentar a diversidade da plateia presente. Apesar de internacional, o Simpósio contou com a presença maciça e esmagadora de participantes anglo-saxônicas e norte-americanas, indubitavelmente presentes já historicamente nas primeiras fileiras da luta pela igualdade de gêneros.

Mesmo no segundo dia do Simpósio, cujo palco durante o dia inteiro foi a Universidade de Arte de Zurique (Züricher Hochschule der Künste), a programação continuou rica e densa. As apresentações seguiram desenhando um perfil histórico, porém mais focado no presente, ao esboçarem as lentas conquistas e os avanços profissionais, especificamente referentes à condução curatorial feminina. Finalmente, em abordagens com maior ou menor sucesso, a grande maioria participante conseguiu visibilizar a nossa atualidade em linguagens compreensíveis, embora sujeitas a diferentes interpretações. O que, imagino, deva ter sido a própria intenção da proposta principal e o alvo temático do evento Curating in Feminist Though.

Interior da Universidade de Arte, em Zurique (Suíça)

Consoante uníssona dessa tendência do equilíbrio de gêneros e se somando ao esforço da inserção feminina na sociedade contemporânea, no Brasil está em exibição uma exposição itinerante intitulada Amor, que visitei no Rio de Janeiro. Procurando a seu modo, nela reconhecemos uma das formas de divisão do poder assim como a tentativa de sua apropriação por parte dos diferentes atores envolvidos. Também a busca por melhor representação e por maior visibilidade na Arte com linguagem feminina específica aparece exemplificada na maioria dos vídeos sendo exibidos.

Nesta exposição, o feminino perpassa a totalidade da mostra tanto pela curadoria quanto pelas artistas envolvidas, todas mulheres, como pela curadoria assinada pela brasileira Denise Carvalho, crítica de arte, e pela polonesa Monika Szewczyk, que espelham fielmente − contando com a produção de Cláudia Zarvos – o universo feminino.

Conforme analisa Arthur C. Danto em sua Crítica de arte após o fim da arte, nem sempre a liberdade na Arte contemporânea alcança algum propósito impactante ou duradouro. Por isso a apresentação da croata Duba Sambolec, com um vídeo calcado na experiência da sua cidade Ljubliana, para exibição na Academia de Belas Artes em Trodheim, na Noruega, repete um desfile de mulheres envergando uniformes militares e aparentando apenas superficialmente femininas.

De qualquer modo, acabam por impor uma frieza organizada, impessoal, e a reverência advinda da hierarquia do universo bélico. Sua NATO − Mulheres à espera insinua, mais do que apenas visualmente, a forma aparente e distraída da espera de uma promoção e a tão enganadora quanto eventual ascensão profissional. As participações dessas mulheres pouco adiantaram nas mediações da Paz, apesar de todo o talento e índole pacífica demonstrados diante do cinismo institucional característico do mundo atual, típico pela sua agressividade totalitária.

Duba SAMBOLEC: “NATO -Mulheres a espera, 2011-2013”

A exposição que figura com o subtítulo Mulheres do Leste Europeu conta com exibições de 20 artistas, sem representar toda a parcela geográfica que menciona. Ainda assim, pode justificar – parcialmente – o movimento artístico e feminino atual melhor circunscrito como Europa Central do que como Leste Europeu. Esta classificação é bastante típica para os brasileiros acostumados ao tamanho continental de seu país, e é naturalmente compreensível, mas carece de maior atenção ou mesmo mais e merecida importância. Afinal, não se trata de uma Olimpíada: por essa razão, é válida na dimensão que nos traz a produção das artistas, por exemplo, provenientes dos Bálcãs − justamente onde se insere a citada Duba Sambolec.

Poderíamos nos deter em outras criações estéticas, inclusive de quadros tradicionais, porém optei por uma artista tcheca: Katerina Sedá. Sua atenção é toda dedicada ao fato de ser uma mulher solitária, embora seja independente e pareça bem-resolvida em relação à maternidade, que seria a essência da “missão” ou da própria condição feminina. O vídeo registra o nascimento de sua filha e, a partir de então, ambas ficam sozinhas sendo que os cuidados, a educação e o crescimento desta criança ficam a cargo de uma única pessoa – a própria mãe. Assim, torna-se inevitável que o mundo emocional da criança gire em torno de sua mãe Katerina. A filha possui esta mulher como sua principal referência, apesar de eventuais encontros absolutamente esporádicos com o pai biológico e, mais tarde, também com o companheiro de Katerina. Não é sem motivo que o título do projeto reproduz a frase incansavelmente repetida pela menina: “Olhe para mim, mamãe!”

Esta seria a tônica das apresentações femininas nessa esfera de interesses e percepções diferentes. Nem melhores, nem piores: apenas distintas, diferentes entre si. Não almejam admiração nem exaltação e tampouco reprovação. Muitas propostas ficaram “no ar”. Pouco se sabe aonde pretendiam chegar. Seria a nossa própria ignorância o destino final pretendido? Seriam meras “doenças” do crescimento rumo à maturidade?

Para finalizar, há que se admitir o rompimento salutar das possibilidades de linguagens e, principalmente, a possibilidade de vislumbrar algo mais do que a simples e enfadonha conversa da arte secular sempre encerrada em símbolos e em iconografias interpretadas à exaustão.

 

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