Mostra

Um olho que não para de olhar

A busca de Ricardo Ramos sob o rigor do traço, a alma e a identidade do retratado

Néri Pedroso  ABCA – Santa Catarina

“O espírito do pintor deve fazer-se semelhante a um espelho que adota a cor do que olha e se enche de tantas imagens quantas coisas tiver diante de si.”
Leonardo da Vinci

Nascido em Lages, morador de Florianópolis, Ricardo Ramos é um dos mais discretos artistas do Estado. O conjunto de trabalhos reunidos sob o título “O Eu e o Outro”, apresentada em 2015, na Galeria Municipal Pedro Paulo Vecchietti, conta com a legitimação de Jayro Schmidt no texto homônimo e reuniu as séries “Caras e Personas”, “Sudário ou Decapitados” e “Livro de Artista”. Pintura figurativa vigorosa, a produção embaralha fantasia e realidade para pensar a existência humana. É um trabalho que guarda, segundo Ramos, “o vigor do traço e capta a alma do retratado ou imaginado, ninguém ou todos nós”.

Graduado em desenho e em artes visuais e pós-graduado em pintura pela Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), Ramos cursou pintura mural, pintura e desenho na Faculdade de Belas Artes, na Universidad Complutense de Madri, na Espanha. No currículo, mostras individuais e coletivas demonstram uma constante inserção no circuito de arte nas três últimas décadas, entre as quais destacam-se a participação no 1º Salão de Artes de Itajaí (1992), o 2º Guinter de Pintura no MAC/SP (Museu de Arte Contemporânea/SP/1995) e a mostra na Galeria Universidad Complutense de Madri, na Espanha (1996). Em Florianópolis, em 2014, mostrou “Dois Pesos e Duas Medidas”, no Espaço Lindof Bell, e integrou o livro “Desenho de Monstro”. “Sobrevoo” aconteceu na Fundação Cultural Badesc, em 2013.

“A busca perdida da perfeição”, uma impulsão que o artista carrega, pode ser um fio condutor para uma possível leitura desta poética que de imediato traz à mente a célebre frase “o inferno são os outros” do filósofo Jean-Paul Sartre. Os retratos fundem-se numa identidade fragmentada, na dualidade. Os corpos não são espetacularizados, fogem do parâmetro kkkk (do facebook), da supremacia da felicidade e do bem-estar. O que se instaura é deformação, desfiguração, sobreposição, o eu, os outros, o tormento demoníaco. A vida sem sossego, onde tudo escapa na brutal velocidade da era da comunicação.

Na recente mostra “Desenho de Monstro”, na Fundação Badesc, o trabalho (objeto) revolve no abominável desejo de roubar. Para isso, o artista retoma o gesto de Teseu e o olho das Greias, personagens da mitologia grega. As três irmãs, nascidas velhas, são obrigadas a dividir um olho e um dente, conforme a necessidade. Perseu para matar uma delas, Medusa, precisa enfrenta-las como guardiãs do caminho da morada das Górgonas. Decide, então, roubar o olho, o que as faz dormir. Assim, sem perigo, cumpre a façanha.

“Na representação no mínimo realista e assustadora, em que digitais em vermelho dimensionam a ação de Perseu”, Ramos denuncia “a estupidez humana”. Curiosamente, em vez de usar um único opta por 16 olhos e os coloca no jardim, dentro de um ninho, outra imagem com forte teor simbólico.

O outro, o eu são sempre da ordem da monstruosidade nesse pensamento artístico. Enfim, uma produção que no seu conjunto joga o espectador para o desconforto e mudez, porque a escolha dos signos se dá pela instabilidade. Nada é estável, ali só há aflição, abismo, sonho e latência, um olho que não para de olhar, o mesmo olho/rosto sempre presente nas pinturas, um espelho que absorve e devolve como vômito. Pintura que expõe a atividade da alma, carrega o mundo, o interior e o exterior, o fora e o dentro.

 

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