n° 40 – Ano XIV – Dezembro de 2016  →   VOLTAR

Artigo

São Paulo e os desenhos de uma história

Ao percorrer as transformações históricas e o fluxo imigratório que moldam a cidade nos quatro séculos de sua existência, reconhece-se que os diversos povos que a constituem delimitam os espaços de uma memória coletiva singular que trazem identidade à cidade

Alecsandra Matias – ABCA/São Paulo

Inicialmente um triângulo, que saltou para além do Vale Anhangabaú e criou um reticulado (…). Depois, com os primeiros bairros modernos, Pacaembu e Jardins, criou-se o oitavado (…). E depois todos esses padrões, com suas anomalias, se projetaram para uma névoa de bairros periféricos que substituíram os subúrbios modestos e bucólicos da época anterior a 1954. De repente, esse sistema de loteamentos populares se amplia; se desdobra e vem uma estrutura nebular no entorno do tentacular. Azis Ab´Saber (WILLER, 1994, p. 5)

 A cartografia de São Paulo é mediada por muitos desenhos, como lembra Azis Ab’Saber, no início triangular; depois reticulado; oitavado e, hoje nebular. Todos esses desenhos, delimitados por monumentos, bens patrimoniais e determinantes históricos, constituíram a cidade contemporânea. Tal como um palimpsesto esses lugares de memória agregam o novo, o antigo e as perspectivas vindouras; são marcas de pertencimento do espaço urbano ou, ainda, modos de ocupação do território que trazem o sentimento de “em casa”, nos quais aquelas narrativas caras aos habitantes permanecem; se mesclam às novas leituras vindas do cotidiano e se transformam incessantemente às gerações futuras. Porém, como desvelar o triângulo histórico e as demais formas da cidade sem reconhecer as memórias que sobrevivem no jogo das relações de poder que existem no espaço urbano? Reconstituir essas memórias parece ser um caminho possível através do mapeamento dos principais monumentos que ainda hoje guardam os desenhos da cidade.

O crescimento do povoamento de São Paulo, criado em 25 de janeiro de 1554, a partir da construção do Colégio dos Jesuítas, tem como principal fator a seleção do sítio geográfico – uma elevação estratégica, colinas entre os cursos dos rios que levam ao interior, confirmando o local como porta e caminho mais eficiente para entrar nos domínios do sertão e das minas de ouro. São Paulo, em sua constituição colonial, resiste até o início do século XIX. A cidade, nascida ao redor do colégio jesuítico, cresce balizada pelas construções religiosas (São Francisco, São Bento, Carmo e do Colégio) e sobre o Espigão Central, o chamado Triângulo Histórico.

A tradição da invocação de Nossa Senhora da Luz data do século XVI e fornece as condições para as edificações centrais da cidade. O local é, originalmente, chamado de Campo do Guaré; é caminho de Santana, às margens do Rio Anhembi. Nesse lugar, se constitui o bairro da Luz e seu primeiro monumento, o convento da Luz, maior testemunho arquitetônico e religioso remanescente do século XVII. O bairro adquire nova configuração em meados do século XIX, mesmo período, no qual a cidade de barro recebe suas primeiras edificações em tijolos, técnica introduzida pelos ingleses, a partir da construção de estações das estradas de ferro em 1865. A influência dos ingleses na cidade está associada à via férrea, ao bairro da Luz, a transações e empréstimos de bancos e aos reflexos das companhias estrangeiras no investimento da urbanização da cidade e à Companhia City.

Ao longo da via férrea formam-se novos bairros e instalações fabris instalados ao longo do eixo leste-oeste da cidade, pouco acima das várzeas alagáveis do Tietê (o desenho reticulado se esboça nesse período). A via férrea The São Paulo Railway Brazilian Limited, conhecida como a Inglesa, inicia os trabalhos em 1860, consegue ligar Santos à capital, em 1865, e atinge Jundiaí no ano seguinte. Esse primeiro ramo do sistema ferroviário paulista é considerado o mais difícil e também o mais importante, pois a ele ligam-se as demais redes ferroviárias, tornando-se responsável pelo escoamento da produção do planalto paulista pelo Porto de Santos. Por consequência, a estação da Luz transforma-se na “porta de entrada da cidade”. O “boom” da imigração traz gente de diferentes costumes. Ao redor da Estação da Luz surge um novo centro comercial e, em torno da Sorocabana, o bairro residencial aristocrático dos Campos Elíseos.

Vista interna da Estação da Luz, porta de entrada da cidade. Foto: Gisele Falcari Ramos da Silva, 2014

A Estação da Luz juntamente com as edificações do Museu de Arte Sacra (convento da Luz), da Pinacoteca do Estado de São Paulo (antiga, Escola de Belas Artes), Parque da Luz (antigo, Jardim Botânico), da Sala São Paulo, Estação Pinacoteca (ambas, localizadas em antigos escritórios da Estação Sorocabana e que nas décadas de 1960 e 1970, abrigaram o DEOPS – Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo) e do Museu da Língua Portuguesa (em dependências da própria Estação da Luz e que hoje passa por recuperação depois de um trágico incêndio no final de 2015), formam, atualmente, o Complexo da Luz – uma aglomeração de aparelhos culturais que está sendo, progressivamente, revitalizada e revigorada pela frequência de milhares de pessoas ao dia.

Estação da Luz: cotidiano. Foto: Gisele Falcari Ramos da Silva, 2014

Capital do café

 A virada do século XIX para o século XX marca a transição do regime imperial para o republicano: a República proporciona descentralização política com maior autonomia regional. Nesse período, São Paulo se destaca no país por ter iniciado, em sequência ao ciclo econômico do café, o ciclo industrial. Bairros novos, como os Jardins e o Pacaembu trazem o desenho oitavado da cidade. A cafeicultura altera a passagem do antigo arraial paulistano, de sertanista para a capital do café, com transformações dos lampiões a gás para a energia elétrica dos canadenses, novos bondes e os trilhos da estrada de ferro. Cabe ressaltar que as políticas de imigração, em São Paulo, no período imperial estão ligadas à ocupação de áreas de fronteiras ao Sul e ao Sudeste e à necessidade de suprir a mão-de-obra cafeeira. Junte-se a isso o conceito de branqueamento da raça para a construção de uma nova nação brasileira branca, moderna e civilizada.

Criam-se núcleos coloniais para os agricultores, com a distribuição de lotes de terra a imigrantes que devem utilizar o trabalho familiar, financiado pelo governo imperial. Também se instalam as colônias de parceria, de iniciativa particular, com ônus dividido entre fazendeiros e colonos – grande lavoura nas quais os imigrantes são empregados. Os imigrantes são atraídos por possibilidades de fortuna e essas são promessas dos agentes de propaganda do governo. Os comissariados cuidam da propaganda para atrair imigrantes e orientam o trabalho dos agentes que, espalhados por cidades europeias, convencem as pessoas a se transferir para o Brasil.

A implantação das estradas de ferro e a ligação com o porto de Santos até o interior facilitam a chegada das levas de imigrantes até a Hospedaria dos Imigrantes (hoje, convertida em Museu do Imigrante), em São Paulo. A Hospedaria de Imigrantes é construída no bairro do Brás, em 1887 porque nesse local cruzam-se os trilhos das duas ferrovias que servem a cidade de São Paulo: a antiga Central do Brasil, que vem do Rio de Janeiro, onde desembarcam muitos imigrantes, e a São Paulo Railway, que vem de Santos. Da Hospedaria seguem para as fazendas de café no interior do Estado. A Estação da Luz é, praticamente, a primeira visão da cidade para esses imigrantes.

A infraestrutura e a economia cafeeira motivam o fluxo migratório para a área urbana. Já se sente a presença e a pluralidade étnica que toma conta da cidade. Em 1913, por exemplo, a cidade de São Paulo, apresenta cerca de 70% de habitantes de origem estrangeira (TIRAPELI, 2007, p. 2010). O empenho das autoridades concentra-se na preservação do uso dos idiomas ibéricos. Na capital paulista, há, então, cerca de setenta escolas primárias de imigrantes que alfabetizam suas crianças no idioma de seus países. A cidade de São Paulo sente a presença de portugueses, espanhóis, negros, germânicos, belgas, franceses, árabes e japoneses. Porém, os italianos transformam-se na grande massa de mão-de-obra, particularmente, operária e artesã da cidade em permanente construção. Dominam, a partir do emprego do estilo eclético, as técnicas de edificação de prédios e casarios que são realizados por artífices, professores e alunos do Liceu de Artes e Ofícios. A imigração italiana é considerada verdadeiro símbolo do movimento imigratório, em especial, pelo contingente que corresponde a 42% dos imigrantes (1,4 milhão do total de 3,3 milhões) que entram no território nacional entre 1870 e 1920, período amplo da grande imigração (TIRAPELI, 2007, p. 257).

Deslocando-se das lavouras de café à paisagem urbana paulistana, como operários das fábricas têxteis nos bairros de várzeas do Tamanduateí e à margem direita do Tietê, ao longo da via férrea, os imigrantes implantam vilas, ruas e edifícios monumentais. Os italianos tornam-se os melhores e mais disputados arquitetos e construtores, substituindo as linhas francesas dos edifícios pelas neorrenascentistas italianas, como se vê no Edifício-Monumento do Ipiranga, no Teatro Municipal, no Edifício Martinelli, entre tantos outros. Os monumentos escultóricos dos artistas italianos também tomam conta das praças, como os realizados em homenagem ao músico brasileiro Carlos Gomes e ao compositor italiano Giuseppe Verdi, além de Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo e do Monumento à Independência no Ipiranga. Instituições culturais, como a Bienal, museus, teatros e até a indústria cinematográfica têm como mecenas os peninsulares. No bairro dos Campos Elíseos persistem marcas dos capomastri, e, especialmente nos bairros da Mooca e do Bexiga, o espírito italiano sobrevive no sotaque, nos costumes e na arquitetura singela.

No movimento de industrialização e urbanização impelido à cidade de São Paulo, nas primeiras duas décadas do século XX, a expansão da cidade além dos centros (velho e novo) exige a implantação de mais viadutos e avenidas. O novo urbanismo conquista espaços: os primeiros quarteirões que ainda possuem casas coloniais são demolidos, e nas ruas e praças perfilam edifícios ecléticos. A velocidade dos carros e aviões, bem como as atividades esportivas e as noturnas invadem a cidade moderna. Durante a Semana de Arte Moderna, a “Paulicéia Desvairada”, expressão cunhada pelo crítico de arte Mário de Andrade, toma consciência de sua importância nas artes, na política e no desenvolvimento do restante do país. O adjetivo “novo” está em todas as manifestações. As características cosmopolitas da cidade motivam o modernismo, abrigando numerosos artistas estrangeiros. Esses artistas, cada qual à sua maneira, imprimem marcas pela cidade: o Futurismo dos italianos; o Expressionismo dos imigrantes da Europa Central, as tendências modernas parisienses e os imigrantes proletários das primeiras décadas do século XX revolucionam as artes e a cultura paulista, logo disseminadas por todo o país.

A partir de 1934, Getúlio Vargas, então presente do país, limita a entrada de estrangeiros no Brasil, incentivando o movimento migratório interno, que já vinha ocorrendo em pequenas proporções já no início do século. Passam a chegar a São Paulo, em número cada vez maior, brasileiros oriundos de outras regiões do país. São mineiros, mato-grossenses, goianos, nortistas, nordestinos vitimados pelas constantes secas e atraídos pelas oportunidades de emprego, particularmente no setor de construção civil da cidade. Esses migrantes também se unem em lugares específicos da cidade, misturam-se na Bela Vista, no Brás, em Santana, entre outros bairros – às vezes em pontos periféricos ou regiões metropolitanas. São Paulo confirma sua vocação de metrópole, por intermédio de cidades nos seus arredores que a servem como “dormitórios”, entre elas, as cidades da região do ABC paulista e outras próximas aos seus limites. Esse é o início da estrutura nebular da cidade que persiste até hoje. Dessas regiões, emerge a mão-de-obra que ergue os grandes edifícios que nascem na cidade a partir dos anos de 1940 e 1950.

Museus, os guardiões da memória

Durante a década de 1950, São Paulo tem grandes arranha-céus. Torna-se necessária a aquisição de ares internacionais. Nessa tarefa, a criação de museus modernos em São Paulo acrescenta novas funções para além de serem os guardiões da memória. Eles trazem o glamour das artes internacionais para a cidade que, a essas alturas, já está tomada pela ânsia do moderno e desponta como candidata à cidade cultural com a criação do MASP (Museu de Arte de São Paulo), MAM (Museu de Arte Moderna) e MAC USP (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo). O MASP, iniciativa de Assis Chateaubriand, proprietário dos Diários Associados (forte cadeia de jornais, revistas, rádios e TV – espalhada por todo o território nacional, naquele período), tem como mecanismo de mecenato a capitalização de recursos e a visibilidade para seus “colaboradores”. Não são poupados recursos para trazer conferencistas, para a aquisição e doação de obras, investimento em mostras e publicações e para a criação da ação educacional. Já o MAM SP, iniciativa de Francisco Matarazzo Sobrinho (o Ciccillo), membro da elite empresarial e intelectual, altera a relação entre passado versus presente, uma vez que o presente depositado nos museus representa um legado, uma espécie de monumento-memória para as gerações futuras. Porém, acima de tudo, a constituição do museu, congrega ideais políticos e econômicos relacionados ao fenômeno de metropolização, industrialização, desenvolvimentismo e alianças com os Estados Unidos.

Com a criação dos museus, a arte moderna ainda figurativa assimila a abstração trazida pelas Bienais do Museu de Arte Moderna de São Paulo. O neoconcretismo e o abstracionismo dos grupos formados pelos nipônicos convivem com a abstração geométrica do Leste Europeu e da Itália. Em 1963, o MAM SP encerra suas atividades, transferindo seu acervo para a Universidade de São Paulo, propiciando a composição do MAC USP – ponto inicial de uma nova forma de gestão de acervo e de tratamento das obras de arte. A USP torna-se a primeira universidade no hemisfério sul a dispor de significativo acervo de obras de arte e o seu museu a ser o primeiro no país com a denominação “museu de arte contemporânea”. Através de suas atividades, jovens artistas, entre 1960 e 1980, assimilam as tendências, como a pop art norte-americana, seguida do abstrato expressionista e, o pós-modernismo, colocando de vez a arte brasileira nos circuitos das grandes exposições e do mercado mundial.

Ao percorrer as transformações históricas e o fluxo imigratório que moldam a cidade nos quatro séculos de sua existência, reconhece-se que os diversos povos que constituem a delimitam os espaços de uma memória coletiva singular que trazem identidade à cidade. Identifica-se a tendência de imigrantes da mesma nacionalidade fixarem residência em bairros específicos: italianos no Brás, Bexiga, Belém, Mooca e Bom Retiro; japoneses e chineses na Liberdade, alemães no Brooklin e em Santo Amaro; árabes na região do mercado, judeus no Bom Retiro, após 1920 e Higienópolis; coreanos, atualmente, também, no Bom Retiro e arredores; russos, poloneses e, especialmente, lituanos na Vila Zelina, iugoslavos na Mooca e no Belém, armênios na Luz; e outros. Eles marcam a cidade através de seus monumentos – rastros de uma memória que lhe é bastante cara.

Arte e humanização 

Após a ditadura militar que atinge o Brasil entre os 1964 e 1985, acompanhando os movimentos de redemocratização do país, os monumentos erigidos na cidade abandonam o aspecto comemorativo e tentam suprir a necessidade de expressão cultural da cidade – espaços como a Praça da Sé, o Parque Ibirapuera e as estações do metrô buscam emergir as memórias da cidade, atribuindo mais valor à sensibilidade estética do que ao “sentimento cívico” ou de evocação da história de uma “nação” que se tem anteriormente ao fim da ditadura. Artistas de variadas nacionalidades se incubem da missão de humanização dos espaços públicos a serem vividos por essa população múltipla. Na década de 1990, vale ressaltar um dos espaços de rememoração mais recentes da cidade: o Memorial da América Latina, fundado em 1989, no bairro da Barra Funda, principal símbolo da interação dos povos latino-americanos, engendrado a partir dos ideais de Darcy Ribeiro e da arquitetura de Oscar Niemeyer. Assim, as tradições locais são compartilhadas e transformam São Paulo em verdadeiro mosaico do Brasil. São Paulo é cidade partilhada. Porém, há pedaços desta cidade mais italianos, espanhóis, nordestinos ou orientais, onde o sentimento de identificação é mais forte – esses são os chamados lugares da memória.

Construção de São Paulo, painel de Maria Bonomi no metrô Jardim São Paulo, duas faces 300 x 600 cm x 300 x 270 cm.  A artista realiza a metáfora de uma cidade em vários planos, da superfície aos subterrâneos. Nesse mural existe uma árvore que pertence aos dois mundos, o de cima e o de baixo, o da superfície e o da caverna. A copa e as raízes. Foto: Gisele Falcari Ramos da Silva, 1998

Em São Paulo, os lugares representam irrupções afetivas e simbólicas da memória em seu diálogo constante com a história. A conservação de museus e monumentos necessita de atribuição de significado para que a memória não se esvazie de todo. Um lugar de aparência puramente material, como um depósito de arquivos, “só é lugar de memória se a imagem o investe de uma aura simbólica”, afirma Nora (1993), ou seja, o lugar precisa exprimir significado. Esse lugar de memória envolve o tempo, a mudança e a história:

O lugar de memória deve parar o tempo, bloquear o trabalho do esquecimento, fixar um estudo de coisas, imortalizar a morte, materializar o imaterial para (…) prender o máximo de sentido num máximo de sinais, é claro, e é isso que os torna apaixonantes: que os lugares da memória só vivem de sua aptidão para a metamorfose, no incessante ressaltar de seus significados e no silvado imprevisível de suas ramificações (NORA, 1993, p. 32).

Nora constrói a noção de lugares da memória que, segundo o autor, servem para garantir a fixação de lembranças e de sua transmissão e estão impregnados de simbolismos porque caracterizam acontecimentos ou experiências vividas pelos grupos, ainda que muitos de seus membros não tenham participado diretamente de tais eventos. Em São Paulo, os espaços da memória estão ligados aos sentimentos de desraizamento e de pertencimento que são complementares. A cidade é um conglomerado arquitetônico mesclado por pessoas vindas de diversos locais do Brasil e do mundo. O sentimento de “em casa” e de “estrangeiro” apresentam-se fortemente nesse ambiente urbano.

Embora, São Paulo proponha espaços globalizados cotidianamente, sua população está longe de traços identitários homogeneizados. A vocação cosmopolita da cidade advém do movimento de industrialização pós-1920. Por três séculos, São Paulo tem casas de barro e sofre com chuvas e umidade permanentes, características do clima tropical de altitude. Quando completa seu quarto centenário em 1954, atinge um tamanho inesperado.

Hoje, São Paulo é a terceira maior aglomeração urbana do mundo. É uma imensa megalópole circundada por cidades-satélites industriais – que, anteriormente, constituíam-se em reduções indígenas e, mais tarde, na década de 1950, “cidades dormitórios”. Seus bairros, ruas e avenidas carregam as memórias desta transformação e, principalmente, dão condição à cidade de proporcionar o sentimento de “em casa” para muitos povos. Como cidade contemporânea é fragmentada e transitiva. Porém, o diferencial está no reconhecimento dessa condição.

Desde sua fundação, São Paulo recebe indivíduos de outros locais, configurando-se em local múltiplo. Os monumentos que registram as memórias fundantes da cidade estão espalhados pela malha urbana e garantem essa condição. As relações que envolvem as memórias evocadas nos espaços adquirem maior complexidade quando se evocam as dimensões de uma cidade como São Paulo, em permanente ebulição econômica, social, cultural, política e artística. A cidade se transforma em um tecido de 60 mil ruas e avenidas, mais de 3 milhões de prédios, casas, indústrias e escritórios, 5 milhões de veículos e 10 milhões de habitantes que dispõem de memórias individuais e coletivas expressas em diversas manifestações artísticas diariamente (PINHO, 2003, p. 45).

Os desenhos cartográficos de São Paulo estão ainda presentes, permeados por intervenções contemporâneas e memórias compartilhadas. Os monumentos que marcam a cidade podem ser lidos como a expressão do desejo que pode estar em todos os lugares e em todos os tempos. Já não se absolutiza questões referentes aos agrupamentos, tais como: gênero, classe social, etnia, nacionalidade ou sistema social. A própria noção unificada e estável de subjetividade passa por profundas alterações. O conceito de identidade deve partir do pressuposto de que a identidade só existe em relação ao “outro”, ao “diferente”. Por essa leitura, a identidade e a diferença são marcadas uma pela outra, são interdependentes e produzidas em um mesmo processo, sem que se conforme hierarquia – pelo contrário o que ocorre é uma ação concomitante. A alteridade, então, torna-se peça-chave que inter-relaciona tempo e espaço. Essas intervenções são responsáveis pela construção de um lugar, no qual os indivíduos, concomitantemente, resgatam o registro de suas memórias (o sentimento de “em casa”). São Paulo guarda todos esses espaços da memória em sua contemporaneidade.

Vista do Minhocão. Foto: Cícero dos Santos, 2014

 

Referências

AJZENBERG, Elza. Ciccillo – Acervo MAC USP. São Paulo: MAC USP, 2006.

BONOMI, Maria. Arte Pública. Sistema Expressivo/Anterioridade. In: LAUDANNA, Mayra. Maria Bonomi: Da Gravura à Arte Pública. São Paulo: Imprensa Oficial/EDUSP, 2008.

CARNIER JÚNIOR, Plínio. A Imigração para São Paulo: A Viagem, o Trabalho, As Contribuições. São Paulo: P. Carnier Júnior, 1999.

CEM ANOS DE LUZ. São Paulo: Dialeto Latin American Documentary, 2000.

Depoimento de Azis Ab´Saber. In: WILLER, Claudio. “A Cidade e a Memória – Um Passeio pela São Paulo dos anos 50, em Companhia de Quem esteve lá”. Revista do Museu da Cidade de São Paulo – Histórias e Memórias da Cidade de São Paulo no IV Centenário. São Paulo: Departamento do Patrimônio Histórico/Secretaria Municipal de Cultura/Prefeitura do Município de São Paulo, ano I, no. 1, 1994.

LOURENÇO, Maria Cecília França. Museus Acolhem Moderno. São Paulo: EDUSP, 1999.

LYOTARD, Jean-François. A Condição Pós-Moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História. São Paulo: PUC SP. N° 10, p. 12. 1993

OLIVEIRA, Alecsandra Matias. A Poética da Memória: Maria Bonomi. São Paulo: ECA USP, 2008 (tese apresentada ao Programa de Artes Visuais da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo).

PINHO, Diva Benevides. Juventude Urbana – Arte e Cooperativas Contribuindo para a Inclusão Social. In: AJZENBERG, Elza. Metáforas Urbanas. São Paulo: MAC USP/PGEHA, 2003.

REIS FILHO, Nestor Goulart. Victor Dubugras – Precursor da Arquitetura Moderna na América Latina. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005.

TIRAPELI, Percival. São Paulo: Artes e Etnias. São Paulo: Editora da UNESP/Imprensa Oficial, 2007.

n° 40 – Ano XIV – Dezembro de 2016  →   VOLTAR

SalvarSalvar

SalvarSalvarSalvarSalvarSalvarSalvar

Leave a Reply

EDIÇÃO 40

ÚLTIMAS EDIÇÕES

Translate

English EN Português PT Español ES