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Exposição

Percival Tirapelli, ou a atemporalidade do Barroco

O Sagrado, na obra do artista, não está na esfera das coisas concretas, apenas. Está naquele âmbito que mescla a experiência transcendente  com a consciência de uma alteridade mais profunda…

Rogério Prestes de Prestes – ABCA / São Paulo

Exposição na Casa Ranzini. Foto: Percival Tirapelli.

O conjunto de catorze obras que Percival Tirapelli expôs na Casa Ranzini, mostra apresentada até o final de setembro, trouxe mais uma faceta de sua coerente e variada personalidade criadora: além de virtuose aquarelista e pintor de obras abstratas gestuais de grande porte em acrílico e óleo, ele também é um pintor barroco contemporâneo dos melhores.

Embora, para alguns, chamar uma produção contemporânea de barroca possa soar estranho, é preciso citar a atemporalidade do barroco como um conjunto de características visuais e procedimentos criativos recorrentes ao longo da História da Arte. Temos essa consciência desde que Friederich Nietzsche (1844-1900) publicou em 1872 “O nascimento da tragédia no espírito da música”. Nesta obra, anterior ao pessimismo que veio a nortear sua produção filosófica, o pensador disserta sobre as origens, mágicas e míticas, das artes, que hoje entendemos como campos distintos do conhecimento humano, malgrado seus começos entrelaçados. A obra investiga especialmente música, dança e teatro, mas desde então, muitos de seus conceitos têm sido aplicados também à análise de literatura e artes visuais.

Uma de suas proposições mais conhecidas é a de que a história da arte, ocidental, pelo menos, é uma sequência alternada de estilos opostos, por ele definidos como Apolíneos (em consonância com Apolo, deus do equilíbrio e da razão) e Dionisíacos (em consonância com Dionísio, deus do exagero e da embriaguez, dos estados alterados de consciência). No ponto de vista apresentado por Nietzsche, o Barroco histórico seria o estilo dionisíaco por excelência, temporalmente situado entre o Renascimento — apolínio na sua recuperação dos ideais estéticos clássicos greco-romanos — e o Neoclassicismo, idem. Sem esquecer, entretanto as transições produzidas pelo Maneirismo e, posteriormente, pelo Rococó.

Exposição na Casa Ranzini. Foto: Percival Tirapelli.

Ocorre que esse barroco atualiza-se, ou melhor, irrompe, de tempos em tempos, ou, depois das Vanguardas Europeias – que mudaram as formas de se mudar a arte – , a todo momento. Ainda mais hoje, no contexto que muitos historiadores denominam “Pós-Moderno”, conceito que podemos mesmo caracterizar, na arte, pela simultaneidade de estilos e tendências estéticas. Por exemplo, o diretor José Celso Martinez Corrêa, com suas produções teatrais performáticas (excedem as “peças”, no sentido comum do termo, definidas pelo texto dramático e pelo modelo do palco italiano), pela via da “carnavalização” proposta por Mikhail Bakhtin (1895-1975), explora a vertente dionisíaca como poucos criadores da contemporaneidade o fizeram. Neste sentido, seria sua obra também barroca?

Outro tipo de exuberância barroca — menos transgressora e mais transcendente –, orgulhosamente assumida por Tirapelli num diálogo intertextual com aquele período histórico, perpassa pelo domínio evidente do desenho, tanto da figura humana com anatomia perfeita, quanto de estruturas arquitetônicas em perspectiva exata. Percival, além das habilidades artísticas inequívocas (que não são novidade a ninguém, em tantos anos de carreira dedicados à produção e ao ensino de artes visuais), assume o barroco pictórico como diálogo de fato com obras históricas das séries plástica (pintura e escultura) e arquitetônica. Suas pinturas apresentam, inclusive, o procedimento altamente erudito da citação, encontradiço na literatura.

Exposição na Casa Ranzini. Foto: Percival Tirapelli.

Sim, ele não apenas representa mimeticamente as imagens brasileiras de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, de Nossa Senhora das Dores, esta, de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730-1814), além de anjos de Manuel da Costa Ataíde, ou Mestre Ataíde (1762-1830), como quem meramente quisesse retratá-las. Tampouco os detalhes dos ornatos de Orazio Grassi (1583-1654), como também do mais suntuoso trompe l’oeil de Andrea Pozzo (1642-1709), ambos na catedral de Santo Inácio de Loyola, Roma. Nesta exposição, Percival apropria-se destes e de outros elementos emblemáticos da iconografia barroca para ressignificá-los a partir de um ponto de vista estritamente pessoal. Veja como isso ocorre: na mesma tela convivem imagens de origens diversas, integradas por meio de pinceladas vigorosas e de elementos contextualizadores “etéreos”, como céus e nuvens, e imaginários, como partes de colunas, ornatos, volutas.

Há também a presença marcante de outros elementos que promovem a unidade entre as formas representadas. São aqueles não miméticos, como as texturas, ora mais suaves, ora mais evidentes, que incorporam às obras sugestões temporais “factivas”, como se fossem palimpsestos de uma escritura de caligrafia absolutamente pessoal e reconhecível, resultante de sua marcante personalidade criadora.

Exposição na Casa Ranzini. Foto: Percival Tirapelli.

A cor também extrapola a mimese, sendo uma das componentes que atrai o olhar para as obras, pois é dotada de uma vibrante sensualidade (no sentido de ser particularmente prazerosa para o sentido da visão). As escolhas do artista passam pelo repertório tradicional do estilo, como manifestou-se tanto na Europa – os matizes “ricos”, como o vermelho escarlate ou púrpura e os azuis profundos, cobalto e ultramar – quanto no Brasil: os matizes terrosos, do ocre e amarelos translúcidos a verdes mais escuros e intensos. A presença do ouro e do cobre em detalhes das figuras e de alguns fundos das composições não somente recria o luxo próprio do barroco, como também cumpre função semelhante àquela que desempenhava no barroco histórico, principalmente português e brasileiro: a de simbolizar o sagrado, gerando um contexto compartilhado pelas pinturas da exposição.

O Sagrado, na obra de Percival Tirapelli, não está na esfera das coisas concretas, apenas.  Está naquele âmbito que mescla a experiência transcendente — que pode sim, ser desencadeada pelos sentidos físicos da percepção das formas estéticas da natureza ou da arte – com a consciência de uma alteridade mais profunda, que nasce da união de uma introspecção meditativa a uma convicção de que a matéria não é suficiente para justificar a arte, a natureza, a existência.

“Perspectivas Barrocas” comunica não apenas o sensório, mas o sensível: o desejo profundo de integrar as diversas dimensões da mente e da experiência individuais a elementos impalpáveis que, paradoxalmente, dentre as produções humanas, apenas a arte, material, concreta, pode expressar.

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