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Artigo

Os horizontes entre Arte e Ciência

Schenberg organiza uma História da Ciência que rompe a dicotomia racional-irracional, passando por teorias que vão do “zero árabe” ao “nada hindu”; das “flutuações caóticas do campo ao Nirvana”, vão do Ocidente ao Oriente.

Elza Ajzenberg – ABCA / São Paulo

Mario Schenberg. Foto: Divulgação.

A originalidade dos enfoques de Mario Schenberg alarga os horizontes da Ciência e da arte, tornando-as uma aventura viva e atraente. Lembrando um pensador clássico, de raciocínio denso e aberto – curiosamente falando ou meditando com os olhos quase sempre fechados – aguça a atenção dos estudiosos sobre conceitos fundamentais da física, passando pelas ideias de Newton, Maxwell, Leibnitz e o pensamento oriental. Nunca perde de vista a questão central: “O grande problema que está diante da física é o problema da vida”[1]. As suas explicações conceituais motivam os conhecimentos a fluírem – em ziguezagues ou em espiral -, passando com desembaraço do científico ao artístico, ganhando novos caminhos e correlações.

Nessas correlações a intuição desempenha papel fundamental. Para ele a criação científica está relacionada com a intuição e esta com a atividade artística: “… assim como o artista que olha para o rosto de uma pessoa e vê coisas que os outros não veem, e mostra através de um retrato que faz. Podem existir coisas tão misteriosas que ele revela, que às vezes a pessoa sabe, às vezes não sabe, ou vem a saber depois. Assim são esses grandes físicos que têm a capacidade de descobrir coisas que os outros não veem”[2].

Schenberg organiza uma História da Ciência que rompe a dicotomia racional-irracional, passando por teorias que vão do “zero árabe” ao “nada hindu”; das “flutuações caóticas do campo ao Nirvana”, vão do Ocidente ao Oriente. Desenvolve sua História da Ciência com perspectivas de saídas múltiplas. Para ele o cientista deve ter uma atitude aberta, deve ter dúvidas, “suspeitar das coisas”. O cientista “- tem que estar sempre na margem do desconhecido (…). No conhecido está o tecnólogo. E o que está na margem do desconhecido é o problema da vida (…)”[3].

“Desde cedo a Europa, principalmente a França, lhe aguça o olhar pelos monumentos artísticos. Mais tarde, nos Estados Unidos, desenvolve conhecimentos sobre a História da Arte, fotografia e museus …”

É impossível separar a vida de Schenberg, tanto do desenvolvimento científico, quando do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, como também de discussões dos problemas emergentes do país. Participa com frequência dos debates políticos, econômicos e educacionais. Entretanto, outra fundamental vertente em sua vida é o permanente interesse pela Arte. Desde cedo a Europa, principalmente a França, lhe aguça o olhar pelos monumentos artísticos. Mais tarde, nos Estados Unidos, desenvolve conhecimentos sobre a História da Arte, fotografia e museus. Expõe trabalhos fotográficos no Observatório de Yerkes, na Universidade de Chicago. Tempos depois, viaja várias vezes ao Orienta, estudando e estabelecendo paralelos entre a filosofia oriental e as propostas científicas e artísticas.

Mario Schenberg. Foto: Divulgação.

Ao comentar as fronteiras entre o conhecido e o desconhecido, recorre sempre ao pensamento chinês e às instituições, procurando enfatizar correlações entre a ciência e o processo criativo. Por exemplo, para ele o grande matemático não raciocina como “uma calculadora ou computador”, ou como o “cérebro novo” que o ocidental valoriza tanto. A sabedoria maior está ligada ao cérebro mais antigo, dos orientais. O grande matemático usando essa sabedoria é “antes uma espécie de poeta”. Ele cria teorias matemáticas como se fosse uma criação poética[4].

“Elabora e analisa significativo acervo de documentação a respeito de artistas, tais como: Volpi, Flávio de Carvalho, Waldemar Cordeiro, Portinari, Mário Gruber, Aguilar, Maurício Nogueira Lima e Tozzi…”

No Brasil, envolveu-se com movimentos e grupos artísticos, estendendo as suas correlações de conhecimentos ao campo da crítica de arte. Elabora e analisa significativo acervo de documentação a respeito de artistas, tais como: Volpi, Flávio de Carvalho, Waldemar Cordeiro, Portinari, Mário Gruber, Aguilar, Maurício Nogueira Lima e Tozzi. Nos anos 60 participa da organização de salas especiais da Bienal de São Paulo e do júri nacional de seleção. Os seus textos percorrem importante evolução da História da Arte no Brasil, entre os anos de 1940, 50, 60, 70 e 80.

São de especial importância, nos anos de 1960, os estudos sobre Arte e Tecnologia e os Movimentos Concretistas e Neoconcretistas. Nesses anos, por exemplo, está muito ocupado em traçar paralelos entre os planos do inconsciente e do consciente, na captação da realidade. Ao traçá-los, reforça o papel da fantasia artística ou da “imaginação fantástica”. Para Schenberg: “Numa época em que os progressos científicos e tecnológicos levam a uma transformação das condições da vida (…), torna-se impossível captar a realidade em seu movimento rapidíssimo sem uma fantasia poderosa e aberta aos maiores paradoxos. A imaginação fantástica pode tornar-se um guia para a ação mais eficaz do que o simples raciocínio lógico no mundo de hoje e, sobretudo, no de amanhã”[5].

Schenberg propõe um conjunto complexo e denso para ser investigado. As suas contribuições não estão suficientemente divulgadas, sendo que boa parte de sua visão estética não está registrada e permanece nas trocas orais que manteve com vários artistas. Por esse motivo, pesquisadores de várias áreas e instituições estão somando esforços para promoverem o estudo das reflexões estéticas de Schenberg e, dando continuidade à sua tarefa, propõem construir um quadro mais orgânico e abrangente da pesquisa artística.

Esse denso conjunto constitui o referencial de partida para as pesquisas e atividades que vêm sendo realizadas pelo Centro Mario Schenberg de Documentação da Pesquisa em Artes – ECA USP junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

Mario Schenberg. Foto: Divulgação.

Histórico: Doação do Arquivo Schenberg.

O acervo do Centro Mario Schenberg de Documentação da Pesquisa em Artes – ECA USP constitui-se a partir de doação do físico e crítico de arte Mario Schenberg em 1989. É formado por hemeroteca pessoal, livros de arte do próprio Schenberg, catálogos de exposições, periódicos e, principalmente, cerca de 400 originais das críticas de arte do professor (grande parte corresponde ao período de 1963 e 1987, com 32 títulos referentes a movimentos e grupos artísticos). Contém, ainda, manuscritos, cartas, recortes de periódicos, fotografias e discos. A organização desse material torna possível aquilatar o pensamento estético de Mario Schenberg.

 

Referências:

AGUILAR, José Roberto. O mundo de Mario Schenberg, São Paulo, Casa das Rosas, 1997.

AJZENBERG, Elza (coord.)  Arte e Ciência. São Paulo, ECA USP, (Schenberg, 4), 1996.

GOLDFARB, José Luiz e GUINSBURG, Gita K. (org.). Mario Schenberg: Entre-vistas. São Paulo, Perspectiva, 1984.

GOLDFARB, José Luiz. Diálogos com Mario Schenberg. São Paulo, Nova Stella, 1988.

GOLDFARB, José Luiz. Voar também é com os homens: O pensamento de Mario Schenberg. São Paulo, EDUSP, 1994.

HAMBURGER, Amélia Império. Nota Bibliográfica e Entrevista com Mario Schenberg: São Paulo: Instituto de Física USP, 11984.

OLIVEIRA, Alecsandra Matias de. Schenberg: Crítica e Criação. São Paulo: EDUSP, 2011.

SCHENBERG, Mario. A Representação Brasileira na IX Bienal de São Paulo.In: SCHENBERG, Mario. Pensando a Arte. São Paulo: Nova Stella, 1988.

SCHENBERG, Mario. Pensando a Física. São Paulo: Brasiliense, 1984.

 

Notas:

[1] SCHENBERG, Mario. A Representação Brasileira na IX Bienal de São Paulo.In: SCHENBERG, Mario. Pensando a Arte. São Paulo: Nova Stella, 1988, p. 194.

[2] HAMBURGER, Amélia Império. Nota Bibliográfica e Entrevista com Mario Schenberg: São Paulo: Instituto de Física USP, 11984, p. 24.

[3] SCHENBERG, Mario. Pensando a Física. São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 51.

[4] HAMBURGER, Amélia Império. Nota Bibliográfica e Entrevista com Mario Schenberg…op.cit., p. 25.

[5] SCHENBERG, Mario. Pensando a Física… op. cit, p. 97 e 98.

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