n° 39 – Ano XIV – Setembro de 2016  →   VOLTAR

Reflexões

O ofício de viver com poesia

Tal como os surrealistas, Fernando Lemos engaja-se na busca de um “além do sentido”, confirmando a autonomia da linguagem em relação a seus usos sociais e às ideologias a eles associadas e abrindo caminho para “o aparecimento de um mundo novo…”

Annateresa Fabris – ABCA/São Paulo

Em 4 de maio, Fernando Lemos enviou-me um breve poema, não sei se intitulado “Humor”, que me parece bem significativo para uma análise de sua poética:
Sonho
É arte.
Viver
É ofício.
Morrer
É profissão
Sem
Aposentação.

A segunda estrofe trouxe à minha memória o título do diário do escritor italiano Cesare Pavese, publicado em 1952 sob o título de “Il mestiere di vivere” [O ofício de viver]. Redigido entre 1935 e 1950, o diário de Pavese é constituído de apontamentos fragmentários (pensamentos sobre a vida e a arte, sensações, sonhos, lembranças), que configuram um percurso autobiográfico e uma possibilidade ímpar de adentrar o laboratório de um escritor que entabula um diálogo consigo mesmo a respeito do ofício de poeta e do ofício de viver. O que Pavese entende por poesia pode ser resumido em alguns aforismas: “Para o artista o que conta não é a experiência, é a experiência interior”; “A poesia não é um sentido, mas um estado, não é um compreender, mas um ser”; “O poetar é uma ferida sempre aberta, por onde flui a boa saúde do corpo”.

Sem título, 1999.

Esse preâmbulo não tem a pretensão de traçar um paralelo entre as trajetórias de Pavese e Lemos, mas tão somente de propor uma possibilidade de reflexão sobre o modo pelo qual o segundo estende a ideia de poesia de maneira a abarcar sua produção visual. As ideias de experiência interior, estado/ser e ferida, apresentadas por Pavese, ecoam, a meu ver, numa declaração de Lemos a respeito de suas relações com o surrealismo. Ao afirmar: “A realidade é para nós uma coisa tão séria que não admitimos a possibilidade de ficarmos quites para com ela, apenas reproduzindo, com maior ou menor intenção, o seu cotidiano. É claro que é no cotidiano que agimos, no cotidiano deste mundo comum de todos – mas nele interessa-nos a dialética de transformações que contém. O que isto tem a ver com poesia é evidente. É por isso que não fui eu quem entrou pelo surrealismo mas o surrealismo que entrou em mim”, o artista nada mais faz do que inserir toda a sua vasta atividade criadora no âmbito de uma concepção de arte alicerçada não no que é dado a ver, mas no que está atrás e além do real fenomênico. A essa afirmação datada de 1952 pode ser somado um escrito recente de Lemos, no qual o ofício de ver/criar é colocado sob o signo do que não passa necessariamente pelos olhos. As perguntas suscitadas pelo contato com o surrealismo levaram-no a “espreitar com a mão”, a entrar “no chamado avesso, afirmação direito pleno, espaço de qualquer intriga, silêncio por gruta seca, cheirando coisa esquecida”. Igual a “abrir cofres”, o avesso não introduz na notícia, na narrativa, na crônica detalhada, e sim nos “pequenos recados”, nas lembranças que o artista deixa para si mesmo e que poderão ser transmitidos a outras gerações não como exemplos paradigmáticos, mas como possibilidades inerentes ao ato criador.

O que essas duas afirmações têm em comum é o pressuposto de que a tarefa do artista consiste em criar imagens a partir de dados extraídos do referente exterior, mas transformados, ou provenientes da atividade onírica e, por isso mesmo, impossíveis, se pensadas com as categorias da lógica corriqueira. Tal como os surrealistas, Lemos engaja-se na busca de um “além do sentido”, confirmando a autonomia da linguagem em relação a seus usos sociais e às ideologias a eles associadas e abrindo caminho para “o aparecimento de um mundo novo, cujo coeficiente de novidade é ainda aumentado quando as conotações não são já escolhidas voluntariamente, mas impostas apenas pelo inconsciente”. Ao negar a linguagem como comunicação, o surrealismo a transpõe para o âmbito da poesia, da atividade criadora: entregar-se a uma “irrupção de imagens” significa “fazer explodir o quotidiano, transgredir os seus limites, ir além do concebível e do dizível tais como os determina o pensamento majoritário”. O discurso majoritário é posto em xeque pelas “fendas do sentido” que afloram continuamente na poesia a fim de reafirmar a ruptura em relação à ordem existente. A ideia de Lemos de que foi penetrado pelo surrealismo ecoa na afirmação de Paul Eluard de que é “a poesia [que] deve fazer o poeta, não o inverso”, corroborando uma concepção segundo a qual o poeta autêntico é aquele que maltrata o real em nome do que este pode revelar, ou seja, em nome de um possível ilimitado, de um outro lugar a ser constantemente atualizado, como lembram Gérard Durozoi e Bernard Lecherbonnier. Não é isso que Lemos diz quando escreve “Quanto mais desejo/mais invento/o que vejo”, trazendo para o primeiro plano a dimensão da pulsão inconsciente, capaz de manipular o real e de dobrá-lo ao poder de emancipação que é próprio da poesia?

Eu poeta. Autorretrato, 1949-1952.

A centralidade do desejo na práxis surrealista é sublinhada por Octavio Paz, o qual define a poesia como metamorfose, mudança e operação alquímica. A partir de tais pressupostos, tudo o que existe no universo “se comunica, e se transforma sem cessar, um mesmo sangue corre por todas as formas e o homem pode ser, por fim, o seu desejo: ele mesmo”. Concebida como desejo, a poesia sabe que este é irrealizável, por querer ultrapassar seu objeto. Daí o recurso à violência contra a linguagem, a lógica e a ordem natural das coisas, como sublinha oportunamente Claudio Willer. Não faltam exemplos dessa violência na produção de Lemos, continuamente em busca daquelas imagens capazes de transformar o próprio desejo em realidade, mesmo sabendo da dificuldade de semelhante operação. Tendo como princípios a analogia e a correspondência, o artista manifesta, a todo o momento, a própria desconfiança em relação ao mundo fenomênico como sinônimo de realidade. A este contrapõe a intuição e a imaginação como instrumentos de configuração de uma nova ideia de realidade, que pode olhar para o mundo, não para legitimá-lo, e sim para transformar e transtornar, por meio do desejo, as imagens que se oferecem aos olhos.

Ditado do inconsciente

Na exposição “Alguém sonhando longe daqui” (Anexo Millan, 14 de maio-11 de junho de 2016), isso é evidenciado pelos desenhos, cujo caráter de traço/esboço, de “escrita automática” confere primazia ao ditado do inconsciente; pelas fotografias, marcadas por uma interrogação constante do real por obra do olhar interior; pelas reminiscências oníricas, repletas de imagens insólitas e grotescas, definidas “fotografias desenhadas” por Paulo Miyada em virtude de seu ponto de partida: “uma escuridão que a luz insiste em atravessar, queimar um pouco mais, tocar a tudo mesmo que por finas brechas, manipuladas pelo artista para coincidir com as formas que vislumbra, conscientemente ou não”.

Ao declarar que tudo pode ser refeito pela imaginação/desejo, inclusive a memória, Lemos pode ser aproximado, mais uma vez, de Pavese, o qual anotava em seu diário: “A riqueza da vida é feita de lembranças a serem esquecidas”. No caso do artista, esse esquecimento volta-se tanto para a descoberta do maravilhoso que se infiltra pelas brechas do real imediato, quanto para a investigação das camadas mais profundas da psique, confirmando, desse modo, a busca incessante de um outro lugar. Um lugar conformado pelo sujeito no momento em que envolve o objeto com seu desejo, apagando qualquer distinção entre criador e obra, vida e arte. Se assim não fosse, por que Lemos intitulou essa mostra “Alguém sonhando longe daqui”? Na realidade, o “longe daqui” é um “aqui mesmo” transfigurado pelo desejo, que transporta o sujeito para um espaço sem limites, mesmo sabendo que terá que voltar para um cotidiano a ser incessantemente transformado. É o que Lemos diz num texto datado do ano passado, intitulado “Avesso II”:
Sabemos que nossa existência tem duas vidas avessas, metade dormindo. Outra metade despertada.
Quando noite, território da criatividade fomentada no infinito: sonos, dormires, sossegos, paralelos, pesadelos, insônias, sonambulismo, promessas, julgamentos.
Ao despertar, dia é viver e ofício, tarefa metamórfica, herdado do sono, compromisso, fé ou desalentaçâo. Layout preparatório para arte final procedida, humana, desoculta.
Ao tomar o lugar do olho real, o olho interior faz com que o artista se comporte de maneira dialética em relação ao universo das aparências.

Sonho D, 2015.

Embora olhando para elas, não é atraído por sua presença efetiva, mas, antes, pelas projeções emanadas da memória e do sonho, materializando assim o desconhecido e o inconsciente, moldando a representação da realidade como irrealidade ou não realidade. Se, como escrevia André Breton, o que importa é a “representação interior da imagem presente ao espírito”, Lemos responde, sem dúvida, a esse imperativo com seu universo visual feito de ícones ambíguos e inquietantes, provenientes de um exercício contínuo da fantasia, da memória e do desejo.

Afirmar os direitos da poesia é uma forma de opor resistência a um universo mais e mais moldado pelo “capitalismo artista”, definido por Gilles Lipovetsky e Jean Serroy como “um novo modo de funcionamento que explora racionalmente e de maneira generalizada as dimensões estético-imaginárias-emocionais tendo em vista o lucro e a conquista dos mercados”. Estilização do cotidiano, o capitalismo artista busca uma integração generalizada da arte, do “look” e do afeto no universo consumista, a fim de “compensar” sua maior criação: uma paisagem econômica mundial caótica. Se for lembrado que o surrealismo é também uma atitude ética, empenhada em salientar a responsabilidade do artista para com a criação, não será abusado vislumbrar na defesa do avesso feita por Lemos uma tentativa de contrastar a ideologia dominante nesse momento, contrapondo a um “consumo ‘intimizado’” a própria intimidade mais profunda, tal como consubstanciada no sonho.

REFERÊNCIAS
A.S.O. Pequeno escândalo no Chiado. Diário de Lisboa, 12 jan. 1952. Breton, André. Position politique du surréalisme. Paris: Denöel/Gonthier, 1971.
Durozoi, Gérard; Lecherbonnier, Bernard. O surrealismo: teorias, temas, técnicas. Coimbra: Livraria Almedina, 1976.
Lemos, Fernando. Avesso ocultação, in Di Giulio, Pablo (org.). O real como enigma. São Paulo: Fass/Galeria Millan, 2016.
Lipovetsky, Gilles; Serroy, Jean. A estetização do mundo: viver na era do capitalismo artista; trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
Miyada, Paulo. Fernando Lemos: Alguém sonhando longe daqui (folheto da mostra homônima).
Pavese, Cesare. Il mestiere di vivere. Torino: Einaudi, 2014.
Willer, Claudio. Surrealismo: poesia e poética, in: Guinsburg, J.; Leirner, Sheila (org.). O surrealismo. São Paulo: Perspectiva, 2008.

n° 39 – Ano XIV – Setembro de 2016  →   VOLTAR

SalvarSalvar

SalvarSalvar

SalvarSalvar

Leave a Reply

EDIÇÃO 39

Translate

English EN Português PT Español ES