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Antônio Diogo da Silva Parreiras. Uma breve história de um pintor perene.
Katia De Marco

O período entre os anos de 2010 e 2012 configura-se em momento oportuno para rememorarmos a história de um grande pintor brasileiro. Para, brevemente, falarmos da integração da sua obra com à sua vida, quando arte e história brasileiras se encontram.

Em 2010 comemorou-se o sesquicentenário de nascimento de Antônio Parreiras e em janeiro de 2012, o Museu Antônio Parreiras comemorará setenta anos de existência, aberto ao público em 1942, como o primeiro Museu brasileiro dedicado a um único artista.

O MAP abriga acervos de destacada importância histórica e artística dentre as obras de arte pertencentes aos acervos dos equipamentos culturais do Governo do Estado do Rio de Janeiro, vinculados à Superintendência de Museus, órgão da Secretaria de Estado de Cultura; somando as seguintes coleções:

• Coleção Antônio Parreiras – pinturas, desenhos, documentos, fotografias, objetos pessoais e de trabalho que pertenceram ao pintor;

• Coleção Arte Brasileira do século XIX e XX – obras adquiridas pelo pintor Antônio Parreiras e outras aquisições oriundas dos prêmios e aquisições dos Salões Fluminenses a partir de 1942. Doações e obras da antiga coleção do Serviço de Difusão Cultural do Estado do Rio de Janeiro;

• Coleção Arte Estrangeira do século XVI, XVII, XVIII e XIX – obras adquiridas pelo pintor Antônio Parreiras e outras aquisições.

• Coleção Alberto Lamego – adquirida pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro em 1949. São obras representativas das escolas Flamenga, Holandesa, Italiana e Portuguesa.

Antônio Parreiras (1860-1937) desponta na história da arte brasileira a partir da última década do final do século XIX. Por sua verve naturalista, poderia se dizer que foi um “ecologista” antes do seu tempo, epígono no espírito de preservação da natureza, no seu registro poético através da pintura, mediante inúmeras expedições que realizou por diversas temporadas, imerso nas inóspitas serras fluminenses e florestas de outros estados. Na sua simplicidade como viajante andarilho, levava consigo apenas um cavalete, pincéis e tintas, e costumava ter a companhia de poucos amigos pintores, em prol do sacerdócio da pintura livre e da ode à natureza.

Como característica de seu temperamento intempestivo e independente, mantinha significativa autonomia diante de regras e preceitos acadêmicos ou políticos, o que levou-o a trilhar seu próprio caminho, pleno de uma vida longa, intensa e autêntica, repleta de desafios e conquistas.

Antônio Diogo da Silva Parreiras nasceu em 1860, em Niterói, descendente de uma família de imigrantes portugueses que aportaram no Brasil no mesmo período da comitiva real em 1808. Viveu a ambiência histórica e política de interseção entre a Monarquia e a Proclamação da República, passando por episódios históricos marcantes para o Brasil como a Guerra do Paraguay e a Abolição da Escravatura, até a sua morte no ano em que se instituiu por Getúlio Vargas, o Estado Novo, em 1937. Tanto D.Pedro II como o Presidente Getúlio Vargas tiveram contato e admiração expressa para com a obra de Parreiras, assim como inúmeras outras personalidades históricas de seu tempo.

Apesar de revelar desde a adolescência habilidades para o desenho, esboçando seu talento em caricaturas livres, não teve grandes incentivos por parte dos familiares na condução de sua carreira artística. Seu pai o conduzia para que se capacitasse em uma profissão tradicional e estimulou que fosse a própria ourivesaria, sua profissão. Em 1874 ele falece e Parreiras abandona os estudos para ajudar nas despesas de casa. Desorientado, ainda por anos, sem achar sua real vocação, tentou manter-se em diversos empregos, mas não perdurava em nenhum deles.

Em 1881, ao se casar aos 21 anos com Quirina da Silva Ramalho, buscou um meio de subsistência. Enveredando-se no comércio, abriu uma loja de calçados que em pouco tempo fechou as portas. Viveu uma fase de apuros financeiros, desorientação profissional e sofre um grande baque ao perder o primeiro filho aos cinco meses.

Justamente neste período conturbado de sua vida, matricula-se em 1883 como aluno na Academia Imperial de Belas Artes, iniciando assim seus estudos artísticos somente aos 23 anos, na reconhecida instituição de formação e de difusão das artes plásticas no Brasil Colônia, implantada pelo imperador Pedro II. Ingressou na cadeira intitulada “Paisagem, Flores e Animais”, como pupilo do pintor paisagista alemão Johann Georg Grimm (1846-1887). Seu professor, importante influência em sua obra, inovou no rigor dos métodos do ensino acadêmico, estimulando a compreensão de que o paisagismo tratava-se de uma pintura realizada exclusivamente ao ar livre, com flexibilidade para a expressão sensível e a captação de cores e luz tropicais, contrariando métodos formais no atelier, destoando dos preceitos dos pintores que formaram a Missão Francesa, pintando, de certo modo, tal como os impressionistas experimentavam na França sincronicamente, com pinceladas livres e ligeiras, fluidas em cores discretamente mais luminosas e vibrantes.

Em pouco tempo de estada, Antônio Parreiras abandona a Academia, juntamente com seus colegas pintores, acompanhando seu mestre, o qual pede demissão da instituição em 1884 por problemas de incompatibilidade de pensamentos e métodos com os dirigentes da Escola. Dissidentes, fundam o Grupo Grimm em Niterói, no bairro da Boa Viagem, próximo a residência do professor. Formava o grupo, os amigos de Parreiras, colegas de turma, os artistas: Domingo Garcia y Vasquez (1859-1912), Hipólito Boaventura Caron (1862-1892), Giovanni Battista Felise Castagneto (1862-1900), Thomas Georg Driendl (1849-1916), que substituía o professor esporadicamente, Joaquim José da França júnior (1838-1890) e Francisco Joaquim Gomes Ribeiro (1855-1900). Sua primeira pintura foi um estudo a óleo de um trecho da paisagem no antigo Largo da Lapa, realizada em 1883, já integrado à chamada Escola da Boa Viagem ou, mais conhecido como Grupo Grimm.

As praias do litoral de Niterói, emolduradas pelo contorno do relevo da baía de Guanabara, com toda a sua exuberância ainda intocável, entre o contraste do mar e das montanhas, somando-se às incursões desbravadoras pelas serras virgens da Mata Atlântica, foram os cenários idílicos para as imersões inspiradoras transformadas em pinturas singulares. O Grupo Grimm viveu intensamente uma libertação expressiva na história da Pintura Brasileira, testemunhou grandes amizades e algumas rusgas ferrenhas entre seus membros, longe da rigidez dos cânones e da clausura da Academia, através da curta convivência de apenas dois anos, porém intensa nos estudos e nas vivências conjuntas de reflexão e prática artística.

Daí em diante, Parreiras inicia sua trajetória profissional como pintor. No ano seguinte, o artista recebe a visita do Imperador Dom Pedro II em sua exposição realizada no atelier do fotógrafo Insley Pacheco, à Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro. Interessado em comprar uma pintura que já havia sido vendida, o Imperador pede para que Parreiras reproduza outra idêntica, mas, com certa ousadia, o pintor se nega, sugerindo realizar uma tela com características semelhantes. Em agosto de 1886, o artista entrega a pintura O Rio Santo Antônio, no Palácio Imperial.

Depois de enfrentar sérias limitações financeiras, sua situação começa a melhorar quando foi indicado para realizar uma exposição a convite da Princesa Isabel e do Conde D’Eu. Surpreendentemente vende aproximadamente 20 telas, e por certa ironia, uma para a Academia Imperial das Belas Artes, submetida a julgamento pela congregação da instituição.

Mesmo diante do reconhecimento da sua obra, o pintor passou a ser alvo de inúmeras críticas do meio acadêmico, que de maneira recorrente afirmavam serem suas paisagens desabitadas, em telas de grande formato, incompletas e de composição precária. Já na época, fiel ao seu estilo predileto na pintura de paisagens, quando ele mais se aproxima da expressão modernista, Parreiras já destoava das teorias e normas vigentes, pregando, a não obrigatoriedade de inserção de figuras em uma obra de arte. Assim preservava-se das imposições do academicismo, sem necessariamente comprometer-se com os novos preceitos modernistas, mantendo sua característica singular de autonomia expressiva.
Roma, Veneza e os Alpes italianos fizeram parte do seu roteiro e aprendizado na Europa, para onde retornaria várias vezes, principalmente para a França, onde passaria a usar em suas paisagens a figura humana, por sugestão de alguns críticos e amigos como Victor Meirelles, ainda assim com características muito próprias. Ao convocar em seu atelier, modelos para uma seleção, devido ao seu interesse em exercitar a pintura de figura humana, conhece Laurence Palmire Martignet, que passa a posar frequentemente para a pintura de suas telas, com quem no futuro viria a se casar pela segunda vez.

De volta ao Rio de janeiro dois anos depois, integra a primeira exposição Geral de Belas Artes organizada após a Proclamação da República, ocasião em que recebe uma medalha de ouro e também vende algumas pinturas pela Academia. A seguir, é nomeado professor da disciplina de “Paisagem” na Academia de Belas Artes e, repetindo o feito, lá não permanece por muito tempo, como era de se esperar, e abandona a academia mais uma vez. Funda, então, em Niterói a ”Escola do Ar Livre”, inspirada na escola de Grimm do passado. Trilhando a verve dos pintores românticos no culto à natureza, promoveu inúmeras excursões para o interior durante toda a sua carreira artística. Em 1889 fica gravemente enfermo após contrair febre palustre ao voltar de suas excursões à Teresópolis e à Serra da Bocaina. No ano seguinte, recupera-se da doença e em 1902 cria um curso de pintura só para mulheres.

Seguindo o ofício de viver da pintura, submetia-se a encomendas governamentais e de pessoas abastadas, as quais criticava alegando não terem sensibilidade perante às artes, de modo geral. Passa a pintar quadros históricos de grandes dimensões, tematizados por importantes momentos solenes do Brasil, encomendados por autoridades públicas de vários estados brasileiros. Mesmo nas encomendas, não se eximia em dar a sua percepção e seu olhar aos personagens e às cenas históricas. Vale ressaltar que as pinturas históricas eram um gênero mais valorizado no meio de arte da época, superando ao de paisagem. No entanto, o incomodava o fato de o pintor histórico ter que priorizar a versão do fato em detrimento da criação. Ele não abria mão em mesclar as duas coisas nas suas pinturas históricas.
Em 1893, expõe em São Paulo e devido ao sucesso, parte para concretizar sua aspiração em construir uma residência-atelier, convidando para elaborar o projeto , o renomado arquiteto da época, Ramos de Azevedo. Na Rua Tiradentes, 47, em Niterói, constrói bela mansão, transformada em 1942 no Museu Antônio Parreiras. No local o pintor promoveu inúmeras exposições, como uma alternativa de divulgar seus trabalhos de maneira independente, sem interferências do meio de arte e de critérios de escolhas. Tinha persistente preocupação com a crítica que já de maneira ampla abordava a sua obra, ora favoravelmente, ora de maneira menos elogiosa, principalmente contra seu espírito arrebatado. Vaidoso e empreendedor preferia respondê-las em seus textos na imprensa, através do pseudônimo La Vigne, o que em vários momentos despertou polêmicas. Em 1894, passa a escrever efetivamente para o Estado de S. Paulo, O Fluminense, o Jornal do Commercio, entre outros.

Nos anos que se seguem, Parreiras começa e se estabilizar em seu sucesso e reconhecimento público, promovendo diversas exposições com seus quadros magistrais e realizando significativas vendas, além de obter grande atenção da imprensa. Faz-se interessante observar que ao mesmo tempo em que abalava o status quo da época, com suas pinturas de nus, com seus textos críticos e posturas personalistas, ele também sabia tirar partido para si dos desafios e oportunidades que surgiam, vivendo a contraditória combinação entre ser independente e estar incluído nas esferas do poder econômico e político, sem comprometer-se ou perder sua autenticidade como pintor. Sem dúvida, esta habilidade rara, gerava irritação em setores das elites intelectuais.

Entre 1906 e 1920 viaja com frequência à Europa, fixando-se por longas temporadas em Paris onde manteve alguns ateliers e realizou importantes trabalhos e exposições. Na “Cidade Luz”, em plena Belle Époque, amadurece o romance com sua modelo dileta e pinta inúmeros nus femininos, ousados e arrebatadoramente belos. Seus trabalhos foram expostos em importantes salões da época, só abertos aos grandes nomes da pintura européia. Destacam-se na sua produção do período, as obras Fantasia (1909), Frinéia (1910), Dolorida (1911), Flor Brasileira (1913), entre outras. Na verdade, estas vivências no exterior, muito pouco mudaram a sua visão estética e sua maneira de pintar. A vida européia não o arrebatava por suas seduções. Ele continuava afirmando que o seu país e sua terra eram o melhor lugar para se viver.

Dentre as suas pinturas históricas, amplamente distribuídas por várias partes do Brasil, temos a sublinhar a encomenda do Presidente da República Campos Salles, para o Tribunal Superior Eleitoral, iniciada em 1898 e entregue em 1902, o monumental díptico Os Desterrados , relacionado ao descobrimento do Brasil, a Fundação da Cidade de Niterói, destinada à Câmara Municipal em 1909, A Conquista do Amazonas, encomenda em grande formato para o Governo do Pará, em 1907, a Proclamação da República de Piratini, encomendada para o Palácio do Governo do Rio Grande do Sul , além de diversas outras. Tornou-se o pintor nacional que mais realizou quadros históricos no Brasil, transformando-se em um grande intérprete da História Brasileira na transição republicana.

Em 1922, após o falecimento de sua primeira esposa, Parreiras casa-se pela segunda vez e retorna ao Brasil trazendo sua nova esposa Laurence Palmire Martignet, para morar na sua residência com as famílias dos filhos Olga e Dakir, este, esmerado pintor e seu pupilo.. Ela foi por muitos anos, após a sua morte, a guardiã da sua obra, permanecendo até o fim da vida como moradora na residência da família, mesmo depois de ter sido desapropriada para tornar-se o Museu Antonio Parreiras em decreto de 1941.

Eclode no Brasil a Semana de Arte Moderna em 1922, a qual Parreiras não se engendra, abordando o movimento à distância, com postura reticente diante da emergente tendência estética.

Um episódio dentre diversas outras passagens de sua vida após 1900, ilustra o seu reconhecimento e triunfo diante da arte brasileira no início do século passado. Em 1925, foi eleito o mais célebre pintor vivo brasileiro, pela revista Fon-Fon, com 20 mil votos advindos de várias partes do país.

Suas pinturas são assimiladas favoravelmente pelo gosto público, apesar da resistência de alguns dos seus contemporâneos, já embalados pelo ritmo conceitual e estético dos ventos modernistas. Entretanto a obra de Parreiras, se não mergulhou formalmente nesta vertente inovadora, manteve-se independente em tratar a natureza tropical exuberante do país de maneira singular e luminosa na paleta de cores nativas, e por preferir pintar a natureza in loco, o homem comum, mesmo enquanto personagem histórico, e a expressão sensual da mítica feminina.

Em 1926 publica seu livro de memórias, “História de um pintor contada por ele mesmo”, que o conduziu à Academia Fluminense de Letras. Nesta obra romântica, Parreiras relata, de maneira simples, franca e despretensiosa, episódios marcantes da sua biografia, pensamentos, idéias, tristezas e alegrias, momentos especiais enfim, onde o lirismo do seu olhar de artista, enriqueceu sua narrativa compondo palavras e desenhos, depoimentos e impressões de um artista que traduziu sua vida em História através da sua arte.
Em 1936, já doente e debilitado, Parreiras recebe e realiza com dificuldades a sua última grande obra que foi o tríptico “Fundação da Cidade do Rio de Janeiro”, encomendado pelo Prefeito Pedro Ernesto.

No seu último ano de vida, retoma sua reclusão à natureza na serra de Miguel Pereira e retorna à grandiosidade da sua obra de paisagem, que nunca abandonou, despedindo-se com as derradeiras telas “A Tarde” e “O Fogo”, que selam no auge dos seus 77 anos, longe de uma decadência senil, sua visão indômita da vida.

Kátia de Marco – outono de 2010
Diretora do Museu Antônio Parreiras
Crítica associada à Associação Brasileira dos Críticos de Arte - ABCA / Rio de Janeiro


Fontes Bibliográficas:
LEVY, Carlos Roberto Maciel. Antônio Parreiras: pintor de paisagem, gênero e história. Rio de Janeiro: Editora Pinakotheke, 1981
PARREIRAS, Antônio. História de um pintor contada por ele mesmo. 3º edição. Brasil-França 1881-1936. Niterói, RJ. Editora Niterói Livros, 1999, Prefeitura Municipal de Niterói.
GRIMBERG, Piedade- texto do catálogo da exposição homônima do livro autobiográfico, realizada na Caixa Cultural em 2008, no Rio de Janeiro.
GULLAR, Ferreira – artigo publicado na revista ISTOÉ, em 01/07/1981, intitulado “Um sensível rebelde do fim do século”.
CARREIRO, Aline – monografia de graduação de Museologia apresentada na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2005.