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Ensaio

“Macuco”, de Mauricio Adinolfi “: um poema visual sobre a solidão

O filme é cadenciado pelo balanço úmido do movimento próprio das águas do mar, do canal ou da chuva.

Sylvia Werneck – ABCA / São Paulo

El mar
Diego no conocía la mar.
El padre, Santiago Kovadloff, lo llevó a descubrirla.
Viajaron al sur.
Ella, la mar, estaba más allá de los altos médanos, esperando.
Cuando el niño y su padre alcanzaron por fin aquellas cumbres de arena,
después de mucho caminar, la mar estalló ante sus ojos.
Y fue tanta la inmensidad de la mar,
y tanto su fulgor, que el niño quedó mudo de hermosura.
Y cuando por fin consiguió hablar, temblando, tartamudeando, pidió a su padre:
—¡Ayúdame a mirar!
Eduardo Galeano, em El Libro de Los Abrazos

Cena do filme “Macuco” – Foto: Divulgação.

Ao ser perguntado sobre por que deu a seu filme o título de “MACUCO”, o artista Mauricio Adinolfi explica que, além da sonoridade divertida da palavra, este era o nome original do bairro onde foram feitas as filmagens deste seu primeiro curta; bairro dos mais antigos da cidade portuária de Santos e que hoje é a região por onde as catraias fazem a travessia pela Bacia do Mercado. Para aqueles não familiarizados com a história da cidade, provavelmente o que vem à mente é que macuco é um pássaro.

Pássaro cujo nome científico, curiosamente, é Tinamus Solitarius. Por que “curiosamente”? Porque o filme de Adinolfi é, em grande medida, um poema visual sobre a solidão. Não que não se possa ver ali, numa nota mais sutil, suas costumeiras preocupações com as mudanças decorrentes da expansão urbana desordenada e a perda do equilíbrio ambiental e características culturais de Santos. Mas, de maneira um tanto distinta do seu modus operandi, em que o elemento humano aparece indiretamente como grupo, numa abordagem mais sócio-antropológica, aqui a escala fica mais íntima, as gentes são representadas em close físico e afetivo através das personagens do homem e da mulher, por sinal atores nascidos na região. Mas “MACUCO” não se resume a Santos, ou às catraias daí. O fato é que o que o filme aborda não está localizado geograficamente – ao contrário, poderia ser qualquer lugar do mundo, já que angústias e solidões são coisa de gente. De toda a gente.

“Tudo é sutil e delicado e, surpreendentemente, pouco tropical. O céu está quase sempre nublado…”

Cena do filme “Macuco” – Foto de AnaK.

Macuco, a palavra, tem ritmo seco e curto. O filme, ao contrário, é cadenciado pelo balanço úmido do movimento próprio das águas – sejam estas do mar, do canal ou da chuva. Amparada por uma trilha sonora minimalista e melancólica, composta pelo estoniano Arvo Pärt, e em alguns trechos, pelo canto exótico e dissonante de baleias jubarte, a narrativa (se é que se pode chama-la assim, dado seu desprendimento do conceito convencional de trama) se desenrola em fragmentos intercalados. Ora seguimos este casal que não se olha e não se toca, ora acompanhamos o tenso avançar de um pequeno barco através do canal, abaixo das ruas por onde corre o cotidiano agitado. É evidente que o elemento privilegiado de “Macuco” é o mar, ou seja, a água, mas há certa generosidade poética que abre espaço também para o ar, a terra e o fogo.

Tudo é sutil e delicado e, surpreendentemente, pouco tropical. O céu está quase sempre nublado, e nas paisagens exibidas a paleta é rebaixada, tende aos tons outonais. Como se a melancolia, a incomunicabilidade e a solidão que perpassam toda a obra se recusassem à circunscrição geográfica e se propusessem universais, como de fato são.

Nas primeiras cenas predominam os tons azuis, alaranjados e ocres, tanto nos grandes cargueiros que passam pelo porto transportando cargas igualmente laranjas e azuis, quanto nas roupas do casal que, a bordo de outro barco, observa a movimentação desses navios, de uma escala tão impressionante que é difícil imaginar que aí vão outras pessoas. Nos momentos intercalados da travessia solitária da catraia, que coloca o espectador na posição do condutor (ou, quem sabe, do próprio barco), a proa azul e vermelha que vence uma água turva contrasta com um entorno acinzentado e esmaecido. Picos de aflição são proporcionados a cada vez que se aproxima um túnel e o vão parece pequeno demais. Mas o barco insiste. O casal insiste em existir no mesmo ambiente, mas sem compartilhar mais que a existência. Não se olham, não se tocam, não dizem nada. Ela parece buscar o sagrado através de uma conexão com a natureza, enquanto ele se concentra em atividades práticas, do aqui e do agora. Há uma cena em que giram os corpos, um diante do outro, sem nunca cruzarem olhares. Estão sempre juntos, mas totalmente separados. Se um está caído, o outro está de pé, e um pequeno curso d’água entre eles reforça a impossibilidade desta comunicação que nunca se concretiza. Mas a vida segue. O barco segue, avançando por sob os túneis cada vez mais longos e difíceis de vencer com a maré mais alta, que ameaça fazer a catraia se espatifar contra as vigas do teto.

Cada trecho vencido é um alívio, até que vem o último túnel, o mais longo e o mais escuro deles. Lampejos de claridade vão ficando cada vez mais raros, até que o breu toma conta. Mas, de repente, chega-se ao mar e é possível ver que essa cobertura esbranquiçada é, sim, o céu. É quase um parto, e o encontro com a luz é uma celebração modesta, mas, quem sabe, otimista. Talvez valha a pena. Talvez haja um propósito, um norte para o qual seja alvissareiro navegar.

Cena do filme “Macuco” – Foto: Divulgação.

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