n° 44 – Ano XV – Dezembro de 2017  →   VOLTAR

Artigo

Impasses e saídas: arte, crítica e curadoria de artes visuais

Uma das atitudes que caracterizam a figura do curador em oposição à do critico de arte é a sua capacidade de privilegiar as ideias e não apenas o aspecto formal da obra.

João J. Spinelli – ABCA / São Paulo

Claudio Tozzi, exposição “Passato Imediato – Presença Italiana na Arte Brasileira”, 2012 – Foto: Divulgação.

Como profissão, a função do curador de arte – diferentemente do imaginário – é muito antiga: imperadores, reis, grandes comerciantes, clero e a nobreza em geral utilizaram os seus préstimos. Cabia ao curador selecionar, comprar e preservar as coleções de objetos de arte dos palácios e castelos, que com o passar dos séculos se transformaram em inúmeros museus ativos até os dias atuais.

Alex Vallauri, exposição “São Paulo e Nova York como suporte”, MAM SP, 2013 – Foto: Divulgação.

Além de adquirir a produção de artistas locais, muitos curadores viajavam por toda Europa para visitar e comprar obras de importantes artistas e ou de negociantes de arte, para serem incorporadas às coleções que eles administravam para os seus respectivos patrões.

Em muitos países europeus, essas coleções se transformaram em museus nacionais, como por exemplo, na cidade de Praga, no antigo Palácio Sternberg, atual Museu Nacional de Praga (formado por um conjunto de coleções) é possível ver obras de Brueghel, Goya, Rivera, Tiepolo, Cranach, Rubens, Van Dyck, Rembrandt e, entre tantos outros, Albrecht Dürer, selecionadas pelos antigos curadores dessas coleções.

No entanto, em pleno século XXI ainda se discute se a arte requer ou não mediação. Alguns artistas se posicionam radicalmente contra e afirmam que ninguém pode se colocar entre eles e suas obras. Porém, não podemos esquecer que, segundo Hans Ulrich Obrist a função do curador já aparece introduzida “em profissões preexistentes relacionadas à arte, tais como diretor de museu ou centro cultural”, culminando com a presença de pesquisadores, críticos e ou historiadores de arte egressos de cursos de artes visuais e de história da arte implantados nas últimas décadas nas principais universidades e formam profissionais habilitados, que se decidem pela função curatorial, pela crítica ou historiografia da arte.

Alex Vallauri, exposição “São Paulo e Nova York como suporte”, MAM SP, 2013 – Foto: Divulgação.
Alex Vallauri, exposição “São Paulo e Nova York como suporte”, MAM SP, 2013 – Foto: Divulgação.

“A modernidade obrigou os museus europeus e norte-americanos a se adaptarem aos novos tempos…”

No Brasil, em especial a partir da década de 1970, a Universidade de São Paulo – USP implantou o pioneiro curso de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) em Artes Visuais, cursado não apenas pelos profissionais paulistas, mas por um grande número de professores das principais universidades brasileiras.

A modernidade obrigou os museus europeus e norte-americanos a se adaptarem aos novos tempos. Por isso, progressivamente introduziram exposições temporárias em espaços contíguos às principais obras dos seus respectivos acervos, como uma forma de inserir e valorizar a produção mais recente de artistas que despontavam como novos valores de então.

No Brasil, em São Paulo, em 1945 o crítico de arte Sergio Milliet antes da criação do MASP (1947) e dos Museus de Arte Moderna de São Paulo (1948) e do Rio de Janeiro (1949) implantou um acervo de Arte Moderna na Biblioteca Mário de Andrade e, com Maria Eugênia Franco realizou mostras com obras de artistas brasileiros ainda não conhecidos, hoje nomes significativos da arte nacional: Candido Portinari, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e entre tantos outros Flávio de Carvalho. Felizmente esse conceito de expor novos valores ao lado de consagrados, não foi extinto.

Apesar de um número ainda significativo de artistas desconsiderar o trabalho de curador, muitos não apenas reconhecem o seu ofício: Niki de St. Phaille elogiou o trabalho do curador/diretor Pontus Hultén, do Museu de Estocolmo, afirmando: “ele tem alma de artista e não apenas de diretor de museu”.

Ao se apresentarem, aparentemente, como profissões opostas Crítica e Curadoria muitas vezes se complementam.  É função do critico de arte apontar falhas e indiciar acertos, e a do curador selecionar e estrategicamente posicionar as melhores obras à procura de uma situação ideal que se aproxime ao máximo do pensamento estético de cada artista.

Foto de Alex Vallauri, exposição “São Paulo e Nova York como suporte”, MAM SP, 2013 – Foto: Divulgação.

“Uma das atitudes que caracterizam a figura do curador em oposição à do critico de arte é a sua capacidade de privilegiar as ideias e não apenas o aspecto formal da obra…”

A partir do fim da Segunda Guerra Mundial, a função do curador, em especial nos Estados Unidos e Europa, se consolida e adquire contornos cada vez mais relevantes. Em 1950, segundo o curador Pontus Hultén “tudo era infinitamente mais fácil. As pinturas não tinham o valor que tem hoje. Você podia levar obras de Mondrian para o museu de táxi”.

Frans Meyer, diretor do Museu de Arte da Basiléia, Suíça, que como Harald Szeemann, também se considerava um organizador e não um curador de arte, pois organizava suas primeiras mostras – diferentemente do que acontece hoje – “com uma pequena equipe (…) se estivéssemos preparando uma exposição com obras de Paris, íamos de caminhão até lá e trazíamos as pinturas nos mesmos”.

Hercules Barsotti, exposição “Passato Imediato – Presença Italiana na Arte Brasileira”, 2012 – Foto: Divulgação.

Esse procedimento também foi adotado nas primeiras Bienais Internacionais de São Paulo, que coletavam no Porto de Santos, também em caminhões abertos, as obras que chegavam da Europa, Ásia e Estados Unidos, inclusive o grande painel Guernica de Pablo Picasso – até hoje uma das obras mais representativas do século XX – que também viajou de caminhão do Porto de Santos até São Paulo para participar, ao lado de outras pinturas desse mesmo artista, da II Bienal Internacional de São Paulo.

Uma das atitudes que caracterizam a figura do curador em oposição à do critico de arte é a sua capacidade de privilegiar as ideias e não apenas o aspecto formal da obra. Por isso Johannes Cladders afirmou: “afinal de contas com o devido respeito ao trabalho dos artistas, a arte deve seguir em frente! Eu sempre tentei descobrir onde estavam as idéias inovadoras, onde uma idéia nova estava surgindo… no sentido de que arte define a arte”. Ele também declarou “que é o artista que cria a obra, mas é a sociedade que a transforma em obra de arte (…) nenhum artista cai do céu, todos surgem de alguma tradição.”

“Hoje os críticos de arte foram perdendo seus espaços nos principais jornais e revistas do país e progressivamente foram substituídos por jornalistas, que salvo exceções, se transformaram em meros replicadores de textos promocionais /releases de exposições…”

Luis Sacilotto, exposição “Passato Imediato – Presença Italiana da Arte Brasileira”, 2012 – Foto: Divulgação.

No Brasil, até os anos 80, a crítica de arte ocupou um lugar de destaque, não somente entre os museus, galerias de arte e nos principais jornais do país, mas em especial junto aos próprios artistas. Sergio Milliet, Mário de Andrade, Maria Eugenia Franco, Quirino da Silva e entre outros, Geraldo Ferraz, não apenas criticavam as exposições, mas atuavam muitas vezes como amigos que ajudavam os artistas menos favorecidos indicando suas obras para serem adquiridas pelas famílias mais ricas da cidade de São Paulo. Mário de Andrade, inclusive sugeriu que uma escultura premiada em Paris de Victor Brecheret (na época com dificuldades econômicas) fosse adquirida pela família de Yolanda Penteado, outros tempos… hoje os críticos de arte foram perdendo seus espaços nos principais jornais e revistas do país e progressivamente foram substituídos por jornalistas, que salvo exceções, se transformaram em meros replicadores de textos promocionais /releases de exposições.

Assim a antiga função da verdadeira critica quase foi extinta. Felizmente, conta na atualidade, com a contribuição de pesquisadores de arte egressos dos cursos de Pós-Graduação, que além de suas elaboradas pesquisas acadêmicas, fundaram em suas universidades inúmeras revistas que documentam não apenas a produção histórica, consagrada da arte brasileira, mas em especial uma parcela significativa da produção dos principais artistas contemporâneos.

Um dos mentores da Documenta de Kassel 4, Jean Leering destacava que os espaços expositivos deveriam ser usados como meio de construir pontes interdisciplinares, que dissolvessem as fronteiras entre a arte e a vida. Diálogos catalisadores, conexões entre a arte e o publico. Para ele, o curador deveria ser um ajudante do artista. Já, para Harald Szeemann “o curador tem que ser flexível. Algumas vezes ele é o criado, outras vezes o assistente e às vezes ele fornece ao artista ideias como apresentar seu trabalho; na exposição coletiva ele é o coordenador; nas exposições temáticas, o inventor. Mas a coisa mais importante sobre curadoria é fazê-la com entusiasmo, amor e um pouco de obsessão”.

Alex Vallauri, exposição “São Paulo e Nova York como suporte”, MAM SP, 2013 – Foto: Divulgação.

“No Brasil a aliança entre artistas, curadores, críticos, diretores de museus e colecionadores ainda não foi totalmente cristalizada…”

Enfim artistas, críticos, curadores, diretores de museus, colecionadores deveriam atuar em conjunto interdisciplinarmente. Em 2006, Anne D’Harnoncourt (Diretora do Museu de Arte da Filadélfia), definiu o curador como alguém “ que cria conexões entre arte e o publico (…) claro que os artistas fazem isso muito bem e, há alguns que, de certo modo não precisam de um curador ou não querem um curador; que preferem um tipo de interação direta. Mas eu vejo os curadores como possibilitadores, como pessoas que são loucas por arte e querem dividir essa loucura com outras pessoas. Acho, porem, que eles também têm que ter muito cuidado para não impor suas reações, seus próprios preconceitos a outras pessoas (…) Os curadores abrem os olhos das pessoas para o prazer da arte, para a força da arte e para o seu caráter subversivo”.

No Brasil a aliança entre artistas, curadores, críticos, diretores de museus e colecionadores ainda não foi totalmente cristalizada. Ela é constantemente agravada pela posição de uma parcela de artistas plásticos que além de não aceitar a legitimidade da profissão de curador questionam a eficácia e a qualidade dos projetos curatoriais. No entanto, essa objeção já foi mais intensa e perdura entre os artistas de gerações anteriores. A aceitação mais evidente é dos novos artistas, que não só valorizam o curador, como fazem questão de incluir, com destaque, em seus próprios currículos, a efetiva participação dos mesmos.

Por isso muitos curadores admitem valorizar ao máximo a liberdade do artista, se esforçam para da melhor maneira possível se apresentarem com a mente suficientemente aberta e lúcida para aceitar os novos mundos que os artistas revelam em sua dimensão mais radical.

Kaspar König ressalta a invisibilidade como elemento fundamental de uma curadoria. Para ele, “de um lado estão tradicionalmente as obras de arte – não os artistas, mas as produções deles; e do outro, o público; e nós (curadores) estamos entre eles. Se fizermos bem o nosso trabalho desapareceremos atrás deles”.

No entanto, ao constatar a recente marginalização de funções significativas do universo artístico, em 2008 Daniel Birnbaun afirmou que o critico “foi marginalizado pelo curador, que, por sua vez, foi posto de lado pelo consultor, pelo administrador e – mais importante – pelo colecionador e pelo negociante de arte”. em seguida acrescentou:  “ e as bienais foram eclipsadas pelas feiras de arte …”.

Alex Vallauri, exposição “São Paulo e Nova York como suporte”, MAM SP, 2013 – Foto: Divulgação.

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