Artigo

Will Cotton: a realidade como ficção ou a ficção como realidade?

Com fatura impecável, suas pinturas brincam com cenários fantásticos ao mesmo tempo em que refletem identidades culturais diversas

Sandra Makowiecky e Luciane Ruschel Nascimento Garcez – ABCA/Santa Catarina

Will Cotton (1965) é um artista norte-americano, ainda pouco presente no Brasil, embora bastante reconhecido nos Estados Unidos e Europa, tendo feito trabalhos com artistas de peso, como a cantora Kate Perry, as atrizes holliwoodianas Elle (fig. 1) e Dakota Fanning, assim como a empresa francesa Ladurée, líder na manufatura dos delicados doces macarons. Cotton trabalha com pinturas, desenhos, escultura, vídeo e gravura.

Com fatura impecável, suas pinturas brincam com cenários fantásticos ao mesmo tempo em que refletem identidades culturais diversas, questionando o estatuto da imagem na história da arte assim como o estatuto da imagem da celebridade no contemporâneo, problematizando a pintura em relação às imagens publicitárias, deslocando um e outro.

Fig. 1 – Will Cotton. Cupcake (2015). Óleo sobre tela. Dimensões: 92 x 72 cm. Retrato de Elle Fanning. Fonte da imagem: http://willcotton.com/paintings/2015.html

Cotton foi o diretor artístico do videoclipe de Katy Perry de 2010, California Gurls (fig. 2), baseado em temas e imagens de suas pinturas. Perry abordou o artista com interesse em seu trabalho, que posteriormente se tornou uma referência visual central para o vídeo. Cotton criou adereços originais para o conjunto, incluindo um tabuleiro de jogo tridimensional, Candy Land, usando produtos de confeitaria e doces reais. Ele trabalhou em estreita colaboração com o diretor do vídeo, Matthew Cullen, da Motion Theory, e sua equipe criativa, para recriar cenários em tamanho real inspirados em suas pinturas. Cotton Candy Katy, uma pintura da cantora reclinada em meio a nuvens de algodão doce (fig. 3), também foi usado como capa do álbum de Perry, Teenage Dream[1].

Fig. 2 – Katy Perry em cena, foto do videoclipe de California Gurls, Will Cotton foi diretor artístico. Fonte da imagem: http://willcotton.com/projects/katy-perry.html
Fig. 3 – Will Cotton. Cotton Candy Katy (2010). Óleo sobre tela. Dimensões: 183 x 214 cm. Fonte da imagem: http://willcotton.com/paintings/2010.html

“Dono de uma poética impactante, onde retratos em grandes dimensões, (pré)figurando os retratos renascentistas da realeza,  dividem espaço com cenários e paisagens fantásticos”

Por sugestão de Will Cotton, os chefes da Ladurée criaram um sabor de macaron, chantilly com infusão de gengibre, a partir do qual Cotton fez uma pintura retratando uma de suas modelos favoritas, a cantora Hannah Cohen, com vestido creme chantilly, como a encarnação do novo macaron (fig. 4). A pintura foi apresentada em uma caixa Ladurée, que foi vendida na “colette art DRIVE-THRU at alquhemist”, na Miami Basel, e na boutique da Ladurée em New York.

Fig. 4 – Will Cotton. Projeto Ladurée para macarons (2013). Fonte da imagem: http://willcotton.com/projects/laduree.html

Dono de uma poética impactante, onde retratos em grandes dimensões, (pré)figurando os retratos renascentistas da realeza,  dividem espaço com cenários e paisagens fantásticos, que num primeiro momento nos conduzem ao mundo de doces das fábulas de João e Maria, para num segundo olhar nos mostrar um mundo mais sombrio, onde os doces não representam o mundo infantil, mas problematizam várias questões contemporâneas, como os “doces”, apelido dado a certas substâncias tóxicas; e os doces no consumo exaltado de açúcar, num contexto cada vez menos saudável da sociedade americana, em contrapartida à fome vigente em diversos cenários. Os doces de Will Cotton não são inocentes. Sobre este mundo fantástico e utópico feito literalmente de doces, Cotton menciona o paradoxo do prazer e vício, onde este último suga o sujeito e o coloca num mundo à parte. Nas palavras do artista,

Nos anos 90, quando comecei a trabalhar com as imagens utópicas de paisagens doces, eu estava em um período muito hedonista da minha vida. Era tudo bebida, drogas e busca de prazer. Decidi usar a metáfora da terra dos doces para descrever as coisas que estava experimentando de uma forma que parecia universal para mim. Doces são uma indulgência que todos nós experimentamos e, como as drogas, existem apenas para o prazer (COTTON, 2020, s/p)[2].

Seus retratos não são representações em pintura das fotografadas, são narrativas a serem descobertas, onde a história da arte se faz presente em cada pincelada.  Quando questionado sobre o que seria uma obra-prima, o artista responde: “De vez em quando, encontro uma obra de arte que continua a se desdobrar e se revelar com o tempo. Este é o melhor e mais raro tipo de arte”[3].

Em sua última exposição, The Taming of the Cowboy, na Galeria Templon em Bruxelas (finalizou em 31/07/2020), o artista nos apresenta temas mais polêmicos, segundo ele, alinhados ao momento político nacional americano. Após passar uma temporada no interior do país, em um legítimo rancho, ambiente de cowboys, o artista mergulhou neste universo, até então só conhecido por ele através das imagens idealizadas no cinema. No período, Cotton vinha trabalhando imagens de cavalos e unicórnios, depois da temporada entre os cowboys, consegue unir as duas temáticas em uma narrativa que vem problematizar questões de várias ordens, que cabe explicitar.  “Suas grandes pinturas a óleo ostensivamente clássicas retratam um encontro surpreendente entre cowboys triunfantes e seus corcéis fantásticos: unicórnios rosa”[4] (figuras 5 e 6). O que o artista faz é unir em imagem duas figuras que permeiam a cultura americana como símbolos de uma sociedade: o cowboy que desbravou o oeste selvagem, e o unicórnio que se refere à infância perfeita e cultivada das crianças do American Way of Life.

Fig. 5 – Will Cotton. Flying Cowboy (2019-2020). Óleo sobre tela. Dimensões: 244 x 183 cm. Fonte da imagem: http://willcotton.com/paintings/2020.html
Fig. 6 – Will Cotton. Marshmallow Cowboy (2019-2020). Óleo sobre tela. Dimensões: 190 x 127 cm. Fonte da imagem: http://willcotton.com/paintings/2020.html

A figura do cowboy evoca certa essência masculina que é compartilhada em diversas culturas, além da norte-americana, e com frequência esta imagem é associada à liberdade e violência. O artista vem contrastar a esta expressa masculinidade a figura de um unicórnio rosa, que remete a uma certa mitologia do contemporâneo frente a uma série de brinquedos que tomou conta do imaginário infantil nas últimas duas décadas, e também questionando: será o cowboy tão real (ou tão ficção) quanto o unicórnio? Segundo o artista, em entrevista a William J. Simmons, para a Bomb Magazine[5], “Meu trabalho não é dizer a verdade. Trata-se de usar uma linguagem simbólica e atores para contar uma história. Quando eu pintava predominantemente mulheres, meus pontos de referência eram Vênus e garotas pin-up. Eu estava procurando arquétipos acima da individualidade” (COTTON, 2020, s/p).

Cotton vai então confrontar a imagem clássica do personagem que reflete a cultura norte-americana, o cowboy, com o brinquedo que ser tornou popular entre meninas de várias idades, não só enquanto objeto, mas replicado em filmes infantis, estamparia de roupas, etc., refletindo o consumismo exacerbado, também muito discutido nesta sociedade, e (re)construindo a iconografia vigente do cowboy americano. É importante notar que o artista não desconstrói a figura, que representa um espírito muito valorizado na cultura dos estados Unidos, e não sem razão, pois fala da bravura e ousadia de homens que se aventuraram a conquistar novas terras, e faz parte da sociedade deste país honrar suas memórias e valorizar seus heróis. Will Cotton não desfaz esta conduta, o que nos traz é uma ressignificação em relação a duas imagens simbólicas, sem desconstruí-las, mas agregando leituras, significados, percepções. O artista constróis outras possíveis analogias.

“E segue comentando sobre esta experiência, onde a realidade cowboy se apresenta a ele como algo a ser repensado em imagens que não as do cinema, ver o cowboy e seu simbolismo na cultura americana de outras formas”

A exposição em Bruxelas (fig. 7) apresenta pinturas e desenhos inspirados nesta viagem ao Wyoming, terra de cowboys, e também na Camargue, França, terra dos cavalos selvagens. Na entrevista a Simmons[6], o artista segue refletindo sobre a trajetória que desembocou nesta exposição:

Foi durante uma residência artística em um rancho no Wyoming em 2018 que me apaixonei pela mitologia em torno do clássico cowboy americano. Quando comecei a fazer os esboços, ficou claro para mim que o personagem precisava ter uma aparência arrojada e heroica para chamar nossa atenção. Claro, o mito do cowboy é, ao mesmo tempo, complexo; meu interesse em emparelhá-lo com o unicórnio era abordar alguns de seus traços de caráter mais negativos. Ele é um homem imperfeito, fora de contato com o feminino, inicialmente um intruso na terra dos unicórnios, que pode então passar por uma transformação. (COTTON, 2020, s/p)

Fig. 7 – Vista da exposição em Bruxelas, The taming of the cowboy (2020), Galeria Templon. Fonte da imagem: http://viewingroom.templon.com/en/will-cotton/

E segue comentando sobre esta experiência, onde a realidade cowboy se apresenta a ele como algo a ser repensado em imagens que não as do cinema, ver o cowboy e seu simbolismo na cultura americana de outras formas, mesmo com o olhar daquele que nasceu no país dos cowboys, mas nunca esteve na realidade destes. Até então o cowboy era para Cotton um símbolo, após a experiência, passar a ser real.

Normalmente, o nosso esforço como artistas é ir mais fundo no sentido de desvendar a complexidade do assunto em uma visão mais matizada da realidade. No meu caso, estou nos apontando de volta para esse tipo mais básico de entendimento, para esquecer nosso preconceito intelectual contra a generalização e abraçar a irrealidade do puramente simbólico. Quando pinto um cowboy, não é uma pessoa que tem sua própria história de vida, passado e futuro; é a totalidade de todos os cowboys na realidade, na ficção e na imaginação coletiva (COTTON, 2020, s/p)[7].

O trabalho de Will Cotton nos leva de imediato a duas questões. A primeira se reporta à frase acima, proferida por ele, que nos faz lembrar da essência das tragédias gregas. Nas tragédias, as máscaras contribuíam para configurar a classe social, a idade e o estado emocional dos personagens. Nas comédias, as máscaras apresentavam traços caricaturais, como nos personagens de Aristófanes, que representavam homens públicos como Eurípides, Ésquilo ou Sócrates, ou apresentavam elementos fantásticos, como as cabeças de pássaros que ornamentavam o coro. O termo grego para máscara, prosopon, significa também rosto ou personagem.

A máscara torna possível a representação mimética dos mitos em forma dramática. O ator mascarado também pode explorar a fusão entre diferentes identidades, essências ou categorias da experiência: macho e fêmea, humano e bestial, estranho e amigo, iniciado e profano. A máscara torna-se assim essencial na experiência teatral com indício da vontade do público em submeter a ilusão ao jogo, à ficção, em esbanjar energias emotivas em algo que está conotado como fictício ou outro (SEGAL, 1994, p.188)[8].

As máscaras contribuem para a atribuição de um caráter não-realístico ao espetáculo. Ao ver em cena atores masculinos com máscaras femininas, utilizando em suas falas tons e timbres de voz masculina, o público ateniense certamente não estava preocupado com a identificação entre o ator e o personagem, mas estava ciente de participar de uma experiência estética em que havia imitação e não transposição do real. A utilização das máscaras nos remete diretamente à esfera da ficcionalidade do espetáculo teatral grego, em uma sociedade em que todas as esferas da produção e da recepção da arte estavam subordinadas à concepção de arte como imitação.

A imitação artística do real operada pelo teatro grego antigo encontrou nas máscaras um mecanismo poderoso, e o seu caráter estilizado nos ensina muito sobre as diferenças entre o gosto estético dos espectadores antigos e dos contemporâneos (BOURSCHEID, 2008, p.30)[9].

“Algumas pinturas de Will Cotton nos aplicam uma chave na cabeça. É fato que as tendências simbólicas contemporâneas atestam mudanças significativas na dinâmica social, que, com a globalização e excesso de mídias, reduziram drasticamente a possibilidade de dissenso no interior da sociedade”

Tratar de máscaras não é a nosso ver, um desvio do tema. Trata-se de uma analogia. Como o artista afirmou, ele deseja reforçar a necessidade de esquecer nosso preconceito intelectual contra a generalização e abraçar a irrealidade do puramente simbólico, assim, ao pintar um cowboy, o faz pensando na totalidade de todos os cowboys na realidade, na ficção e na imaginação coletiva.

O segundo aspecto diz respeito à beleza. Esta é uma das funções da arte: tornar visível a beleza do mundo. Will Cotton pode ilusoriamente nos ofertar o belo, deixando claro que concordamos com a proposição de Sócrates (personagem do diálogo platônico) de uma inesperada não-definição: aquilo que é belo é difícil[10]. Talvez haja poucas coisas na arte mais complexas e intrigantes do que estes conceitos, em frase que pode sugerir a interpretação do “belo” como algo de que não se pode dar uma definição universal e inteligível. Seriam os trabalhos de Will Cotton belos? Roger Scruton, no livro Beleza (2013)[11],  nos convida a refletir a respeito da beleza e do lugar que esta ocupa em nossas vidas, e defende que a beleza é um valor real e universal ancorado em nossa natureza racional, que o senso do belo desempenha papel indispensável na formação do nosso mundo. Para o autor, que lida com o conceito de beleza em termos filosóficos, julgá-la é algo que diz respeito ao gosto, e o gosto talvez não tenha nenhum fundamento racional. No prefácio do livro (p. 11) nos aponta o caminho, afirmando que a beleza pode ser reconfortante, perturbadora, sagrada e profana; pode revigorar, encantar, atemorizar. Mas jamais é vista com indiferença; exige nossa atenção.  Como diz Schama (2010), as obras de arte gostam da nossa atenção e nos devolvem sentidos ocultos, inimaginados.

[…] a grande arte tem péssimos modos. A silenciosa reverência das galerias pode levar você a acreditar, enganosamente, que as obras-primas são delicadas, acalmam, encantam, distraem – mas na verdade elas são truculentas. Impiedosas e astutas, as maiores pinturas lhe aplicam uma chave na cabeça, acabam com sua compostura e, ato contínuo, põem-se a reorganizar seu senso de realidade […] Tudo bem, mas para que serve a arte realmente? ( SCHAMA, 2010, p. 10-17)

Algumas pinturas de Will Cotton nos aplicam uma chave na cabeça. É fato que as tendências simbólicas contemporâneas atestam mudanças significativas na dinâmica social, que, com a globalização e excesso de mídias, reduziram drasticamente a possibilidade de dissenso no interior da sociedade. Queremos dizer que o que importa à arte é manter sua capacidade de interrogação, manter em sua própria estrutura essa passagem pelo mundo sensível, com sua matéria turva e resistente. A obra de Cotton é uma obra que nos oferece essa oportunidade.

 

NOTAS:

[1] Mais informações ver site do artista, http://willcotton.com/index.html com acesso em 09 de agosto de 2020.

[2] Por email com autora, em agosto de 2020.

[3] Idem.

[4] Press release da exposição, disponível em: https://www.templon.com/pdf/expo/pdf_668_us.pdf, com acesso em 20 de agosto de 2020.

[5] Disponível em https://bombmagazine.org/articles/archetypal-portraits-will-cotton-interviewed/ com acesso em 18 de agosto de 2020.

[6] Idem.

[7] Ibidem.

[8] SEGAL, Charles. O ouvinte e o espectador. In: VERNANT, Jean-Pierre. (org.) O homem grego. Lisboa: Editorial Presença, 1994. p. 173-198.

[9] BOURSCHEID, Marcelo.  Encenação e performance no teatro grego antigo. 42 f. Monografia (Curso de Letras Português – Grego, Bacharelado em Estudos Literários). Universidade Federal do Paraná. Curitiba.  2008

[10] PLATÃO. “Hípias Maior” In: Diálogos. São Paulo: Edipro, 2016. p. 271-2.

[11] SCRUTON, Roger. Beleza. São Paulo: É Realizações, 2013.

n° 57 – Ano XIX – Março de 2021 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Leave a Reply

ÚLTIMAS EDIÇÕES

Translate

English EN Português PT Español ES