n° 53 – Ano XVIII – Março de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Artigo

Vírus e Arte

“Os nossos governantes poderiam pensar numa ajuda emergencial para os artistas plásticos que, em sua maioria , são pessoas de poucos recursos: comprar uma obra de cada um, que já tenha um caminho definido, uma reserva emergencial. Esta obra pode ser distribuída entre prédios públicos, melhorando muito o aspecto frio das repartições…”

César Romero – ABCA/Bahia

Nestes tempos hamárticos de Coronavírus, quarentena, politicagem rasteira, quando o dinheiro é o problema, somos obrigados a ficar em casa, uma “prisão domiciliar”. O vírus existe e é terrível.

A quarentena é sufocante, mas necessária para o controle da pandemia. Tempos difíceis para os artistas visuais. Artistas em sua maioria não entendem de gestões, vivem o mais simples, criam seus produtos, vendem e vivem disso. Durante a quarentena, podemos ter certos ganhos. Como: atualizar o currículo buscando fazer um completo e outro um resumo bem enxuto. Escrever projetos, escrever seu programa teórico, pendências que esperavam por tempo, revisar sua arte, ver possibilidades e saídas, fortuna crítica, avaliar sua carreira, rever novos conceitos, estoques de ideações, situar-se no meio artístico, trocar com os colegas informações, atualizações sobre arte, nas mídias sociais e leituras de livros de arte ou clássicos da literatura. Ainda alongamentos, relaxamentos, corrida estacionária, basta um (metro quadrado), exercícios respiratórios.

Arthur Barrio, Livro de Carne. 1978-1979. Foto: Divulgação.

A monotonia pode dar lugar à criatividade. Picasso (1881 – 1973) pintou a Guernica (1937), um manifesto contra a violência, durante a Guerra Civil Espanhola. Francisco de Goya (1746 – 1828), pintou as Guerras Napoleônicas e os horrores sofridos pelos espanhóis. A pintura “3 de maio de 1808” é referência no Brasil pós golpe militar de 1964, surgiram obras de artistas que protestaram contra a ditadura especialmente Artur Barrio (foto), com suas Trouxas Ensanguentadas, Antonio Manuel, Cildo Meirelles, entre outros. Os nossos governantes poderiam pensar numa ajuda emergencial para os artistas plásticos, que em sua maioria são pessoas de poucos recursos: comprar uma obra de cada um, que já tenha um caminho definido, uma reserva emergencial. Esta obra pode ser distribuída entre prédios públicos, melhorando muito o aspecto frio das repartições. Empréstimos exclusivamente para compra de materiais de trabalho como lápis, papel, tintas, pincéis, sprays, telas, o que for necessário. Disponibilizar medicações gratuitas para portadores de doenças crônicas e que não são oferecidas pelo governo através do Ministério da Saúde (SUS). Pode-se pensar em palestras, leilões de arte, feiras de arte, consórcios via mídias sociais. O setor cultural brasileiro é responsável por 4% do PIB nacional e emprega mais de 5 milhões de pessoas. Segundo o IBGE têm 300 mil empresas de pequeno e médio porte.

O vírus vai passar a quarentena também e os meios de comunicação vão ter que se reinventar. Na dor a humanidade vai aprender o altruísmo, o amparo e a solidariedade.

Vírus e Arte II

Artur Barrio, Abstrato, guache , 23 x 30 cm. Foto: Divulgação.

Artistas são pessoas iguais às outras. O diferencial é que trabalham com um produto sensível que é a Arte. Estamos na Terceira Guerra Mundial, onde o inimigo atacou quase todos os países do globo. Não adiantam as armas sofisticadíssimas, a espionagem, as estratégicas de guerra dos países bélicos, com forças armadas poderosíssimas como Estados Unidos, Rússia, China e Índia. O vírus em seu silêncio, na invisibilidade a olho nu, ataca indiscriminadamente, ricos e pobres, negros, brancos e amarelos, esquerda e direita, tornando todos iguais. Pelo vírus estamos em “prisão domiciliar”, todos somos terceiro mundo buscando salvação.

O coronavírus (foto) é hoje a personagem mais famosa e ameaçadora do mundo. Derruba bolsas de valores, ameaça a economia do mundo, mata pessoas.

As TVs bombardeiam quase em tempo integral as fatalidades. Informar é um dever dos órgãos de comunicação, mas focar toda a programação, inclusive com imagens repetidas no mesmo canal, traz dessossego e sofrimento.

O que mais mata no mundo é a fome.

Parece que o mundo parou no coronavírus, notícias outras não são valorizadas nem outras doenças.

Arthur Barrio, Trouxa de sangue, 1959. 20 x 30 cm. Foto: Divulgação.

A coluna fez uma pequena pesquisa com artistas visuais. A pergunta era a mesma: como você está enfrentando a quarentena? De uma forma geral as respostas eram muito iguais, mas destacamos algumas: aproveitando o tempo para criar, medo do desemprego, porque grande parte dos artistas visuais tem fontes alternativas de renda. Medo do futuro recessivo, falta de dinheiro, insônia, pesadelos, fantasias catastróficas, monotonia, medo de perder o poder criativo, separações de casais, somatizações como azia, náuseas vômitos, dor de cabeça, hipertensão. Brigas por motivos banais, aumento do peso, queda de cabelo, micção a todo instante, não poder comer o que quiser, rever memórias desagradáveis, ansiedade, falta de ar, depressão, nostalgia, solidão, embotamento criativo, angustia, privação da academia de ginástica, da praia, da família, continência de ver e tocar amigos, medo das visitas ansiosas que vem sem avisar, falta de dinheiro e falta de perspectivas, interferências por emoções no processo criativo, perda de contato com a realidade externa. Desorientação quanto a data e dia da semana, perda de estímulos, desinteresses sexual, impotência, frigidez, anorexia, barba por fazer, depilações postergadas, diminuição da autoestima e da autoconfiança. Todos são a favor da quarentena.

É claro que falaram dos aspectos positivos que se pode resumir em tempo para resolver pendências, a esperança de uma vacina ou medicação que cure e que passe logo esta fase.

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