Especial

“Um pequeno milagre”

Assim, a artista Maria Bonomi define o seu processo criativo na elaboração das esculturas para o Prêmio abca

Alecsandra Matias de Oliveira  ABCA – São Paulo

Dona de uma trajetória impressionante na recente história da arte brasileira, Maria Bonomi é uma artista reconhecidamente completa: gravadora, escultora, pintora, muralista, curadora, figurinista, cenógrafa, doutora em artes e professora. Inquieta e revolucionária, nos anos de 1970, ela quebra o paradigma da gravura tradicional de pequenos formatos e imprime memórias vividas à leitura das obras. No seu processo criativo, geralmente, Bonomi parte de uma anotação ou registro, ou seja, a experiência vivida é parte integrante da memória visual que será transportada à matéria. Nas décadas seguintes, a passagem para as gravuras de grandes formatos, os tridimensionais e os murais marcam presença definitiva no repertório da artista.

A xilogravura é o caminho da criação – mesmo quando o suporte final não é a madeira ou o papel – o sentido gráfico de seus trabalhos prevalece seja qual for o suporte. Os sulcos e os moldes se fazem constantes não somente no bidimensional, mas atrevem-se no tridimensional. O tema torna-se ponto crucial – é a marca do tempo e dos fatos memoráveis. Mesmo quando a expressão é abstrata, a artista transmite uma mensagem. Seu percurso estético está profundamente comprometido com a arte pública, a política, a cidadania, as memórias e as narrativas que movem o passado e o cotidiano das pessoas.

Diante do convite para criar o novo troféu para prêmio abca 2015, Bonomi confessa que o processo criativo se sucedeu como um pequeno milagre. Não é a primeira vez ela que recebe a encomenda de um troféu: a artista já criou inúmeros, como por exemplo, o da Editora da Universidade de São Paulo, o da Fundação Bunge e o da APETESP de Teatro, entre outros. Ela particularmente confessa que gosta de receber encomendas porque sempre faz referências aos ofícios medievais e renascentistas. Porém, o da abca 2015 lhe surgiu como desafio, a partir de uma forma preexistente e como uma joia que foi trabalhada até que narrasse uma história – até que contemplasse a intimidade da premiação; a razão de ser da encomenda.

No fundo a reflexão sobre a essência do prêmio abca está no exercício da função da crítica de arte: “o fazer dentro de um fazer”, ou seja, ao crítico cabe a árdua tarefa de executar um novo trabalho dedicado a uma obra já concebida. Coube a Maria Bonomi transmitir esse aspecto às formas do prêmio através de processos que envolvem a argila, o gesso, a cera perdida, o entalhe, a fundição e a gravação. Foram seis pontos de manipulação até a peça final. O duro labor das mãos torna-se o diferencial do prêmio abca 2015 que segundo a artista não foi tratado como uma escultura e, sim, como uma joia trabalhada de modo intimista, com minúcia e muita delicadeza.

Nas formas do prêmio abca, o embate entre o sólido e o vazio; entre o rígido e a libido; entre as inquietudes e a organização. Por fora, em bronze, as formas geométricas preconizam a ordem, a austeridade e normatização que voluntária ou involuntariamente a crítica impõe à criação artística. Por dentro, em latão, Maria Bonomi fez linhas de gravuras que carinhosamente chama de “alminhas”. Elas são moldadas a partir de símbolos conhecidos e menos conhecidos e dão a medida de desorganização do processo criativo. Simultaneamente, às “alminhas” atribui-se os desvios, os deleites e as incertezas que cercam o fazer da crítica de arte. Fixado em três pontos, o troféu recusa-se ao molde tradicional do pedestal.

De modo artesanal, a tiragem da peça é pequena. São 16 peças, sendo 10 destinadas às categorias da premiação dos artistas visuais, curadores, críticos, autores e instituições culturais vencedores da edição 2015 – aqueles que se destacaram durante o ano passado e receberam os votos de membros da Associação espalhados pelo território nacional. Cada prêmio traz a inscrição com a denominação ABCA, a categoria da premiação e o nome do premiado, ou seja, a partir da epígrafe cada peça é única.

As outras 6 peças são destinadas às homenagens – neste ano, Antonio Santoro, Maureen Bisilliat e Paulo Bomfim – e, aos destaques – Aracy Amaral, Instituto Olga Kos Inclusão Cultural e Percival Tirapeli. As homenagens e os destaques se distinguem das peças destinadas à premiação. Elas não têm “alminhas”; apresentam somente a estrutura geométrica e recortada. À altura de suas trajetórias, esses profissionais e instituição não necessitam domar suas inquietudes, estão além das perturbações. Seus percursos são experientes e estáveis.

Ao final da premiação o que cada contemplado levará consigo é mesmo um pequeno milagre – uma narrativa sensível – do que representa o exercício da crítica e da divulgação da arte no Brasil. Parabéns a ABCA pelo convite feito a Maria e felizes são aqueles que ganharam essa pequena infinita joia.

 

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