n° 51 – Ano XVII – Setembro de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Artigo

Um novo e surpreendente Bacon. Agora, com todas as letras.

A extensa exposição monográfica apresentada no Centro Pompidou em Paris, revela o impacto que algumas obras poéticas, literárias, filosóficas e teatrais tiveram sobre as duas últimas décadas da vida do pintor

Sheila Leirner, de Paris, especial para o Arte&Crítica

Quando temos a certeza de conhecer um artista, ele pode ser reavaliado por olhos diferentes dos nossos e descobrimos que nos iludimos. Esta é a grande qualidade de exposições críticas como as que o Centro Pompidou pratica há algum tempo em Paris. Graças a elas, somos apresentados a outros Magritte, Mondrian, Duchamp e, agora, a um novo, surpreendente e imprevisível Francis Bacon (1909-1992). Por meio de 50 pinturas (trípticos, retratos e autorretratos) intimamente relacionadas a seis obras poéticas, literárias, filosóficas e teatrais, percebemos como a cultura e o conhecimento puderam abrir as portas do imaginário do mestre, estimulando a criação de imagens.

Esta retrospectiva intitulada “Bacon com todas as letras” (até 20 de janeiro de 2020) revela o impacto que Ésquilo, Nietzsche, Joseph Conrad, Georges Bataille, Michel Leiris e T.S. Eliot, extraídos da biblioteca de mais de mil livros do artista, tiveram sobre as duas últimas décadas de sua vida. Por esta razão, a mostra é permeada por salas sem quadros, apenas com vitrinas onde encontram-se seus livros usados que nos fazem imaginar como ele os leu e releu. Ali, ouvimos também os áudios de atores que leem alguns trechos. Não longe, ficam os trabalhos que têm relação com o que está sendo lido.

Francis Bacon, nu feminino em pé na porta (1972) – Foto: Divulgação.

É uma maneira totalmente nova de apresentar um artista visual. Um percurso que nos desprende da visão estereotipada que temos dele. Descobrimos que a sua criação não pode ser compreendida num vácuo, apenas como objeto estético auto narrativo. Mas que Bacon é um homem que lia livros, poesia, jornais, conhecia o mundo, a política e o seu tempo. Vemos o quanto ele e a sua pintura não podem ser dissociados de tudo isto e também das ideias e eventos políticos que permearam o século 20. Ele banhava-se na cultura, de corpo e alma. Só talento não teria bastado. Bacon não seria Bacon sem conhecimento.

“No fundo, Bacon estava ligado a autores que compartilharam uma concepção do mundo inequivocamente realista…”

Além disso, a sua obra quase que inteiramente sexual, erótica e homossexual passa pela autobiografia, arte e história da arte. Mesmo Duchamp está presente em alguns trabalhos. Dá para entender perfeitamente a sua identificação com Bataille e Leiris. Num filme de 1985 projetado no final do percurso da exposição, Francis Bacon explica a sua relação “intelectual” com o surrealismo. Diz ele que “respeita o movimento e entende como foi interessante”, porém não gosta especialmente da pintura surrealista. E conta, por outro lado, como os cineastas Serguei Eisenstein e Luis Buñuel foram importantes para ele. No fim da entrevista, diz: “Afinal, nada é mais surrealista do que Shakespeare e Ésquilo…”.

No fundo, Bacon estava ligado a autores que compartilharam uma concepção do mundo inequivocamente realista, “o que mostra”, segundo Didier Ottinger, o competente e sensível curador da exposição, “a compatibilidade de princípios contraditórios”. Do diálogo sobre a beleza apolínea até o exagero dionisíaco analisado por Nietzsche, e a fusão da energia vital com as forças destrutivas instauradas por Bataille, os autores do templo literário de Bacon têm em comum, e não por acaso, o mesmo sentimento e igual disposição para detectar o trágico.

Francis Bacon, Édipo e a Esfinge após Ingres (1983). Foto: Divulgação.

A escolha do período, também é inédita. Bacon, um dos artistas mais célebres da segunda metade do século 20, sempre foi considerado mais criativo no início, com as famosas variações a partir do retrato do Papa Inocêncio X de Velásquez, do autorretrato de Van Gogh, dos açougues e jaulas. Mais uma ilusão. Envelhecendo, é que ele se torna intensamente apurado, livre, extremo. É neste momento que toma mais riscos.

Dado que o pintor é visto sob o ângulo inusitado de sua erudição e curiosidade, entramos no olho de um furacão perturbador, insolente, violento, cruel e totalmente imprevisível. Em nossa volta reina o caos e agradecemos ao artista por isso. Nada vale mais do que a consciência. Tudo que houve de pior no século passado se concentra na sua obra. Bacon pinta com as tripas e o seu corpo dilacerado, antecipando até mesmo a própria morte.

Tríptico de 1986-1987 (Estate of Francis Bacon/ADAGP, Paris and DACS, London 2019/Prudence Cuming Associates Ltd).

Mas a pintura do mestre tem ligação também com a História. Em um de seus trípticos de 1986-1987 (aqui reproduzido), a Europa no século 20 pode se resumir às guerras que quase a destruíram, às oposições ideológicas que durante tanto tempo a dividiram. A primeira imagem mostra o presidente americano Woodrow Wilson descendo a escada do Quai d’Orsay, em 1919, onde tinha dado o retoque final no tratado que seria imposto à Alemanha vencida. A terceira nasce de uma reportagem sobre o local do assassinato de Trotsky em 1940, no México. Um Trotsky que, segundo Bacon, parece menos o mártir do stalinismo do que o ideólogo, o ator maior de uma revolução que contribuiu para abalar a ordem mundial. E, entre as duas, John Edward, amante do pintor, é a imagem do sentimento, prazer, e da inocência, um corpo que vacila – não sobre um degrau como os políticos, mas – em simbólico e precário pedestal. Como para nos avisar que o amor, a cultura e a arte são frágeis. Sempre ficam em perigo diante do preconceito e sob sistemas insidiosos, alimentados por ideologias antidemocráticas.

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