Ensaio

Tudo tem arte, arte tem tudo – ou como fui parar no YouTube

Acontece que estamos em plena era digital. Mesmo este jornal, que já foi impresso, agora circula virtualmente. As redes sociais estão aí, para o bem e para o mal, e têm uma penetração gigantesca…

Sylvia Werneck – ABCA/São Paulo

Todos que temos a crítica de arte como ofício sabemos que o espaço para este tipo de reflexão nos veículos de comunicação de grande circulação vem diminuindo gradativamente há muitos anos. As razões para isto são várias e não necessariamente relacionadas entre si, ao menos não diretamente. Há a questão (positiva, por certo) do aumento da parcela de pessoas alfabetizadas e, portanto, do público leitor de jornais e revistas, mesmo que este percentual ainda esteja bem longe do que poderíamos chamar de universalização da informação. Por outro lado, há que se levar em consideração que o conhecimento sobre arte e o acesso a ela continuam sendo extremamente elitizados. Um fator mais externo, mas que não pode ser desprezado, é o crescimento do neoliberalismo, um modelo socioeconômico que valoriza as aptidões técnicas, voltadas à produção de mercadorias e serviços, e menospreza qualquer tipo de pensamento que não possa ser diretamente transformado em bem de consumo.

Evandro Prado, Fidel Castro fala à Eco 92, 2006. Instalação: 500 latinhas de refrigerante e áudio. 400 x 600cm.

O fato é que a crítica de arte está confinada na universidade e nas poucas revistas especializadas, cuja manutenção é, sem dúvida, um esforço quase abnegado. Podemos dizer que somos sonhadores remando contra as circunstâncias. Aos que têm a oportunidade de trabalhar com curadoria, é aberta uma via por onde exercitar o músculo analítico, ainda que com menor frequência, já que se trata de uma atividade limitada no tempo e no espaço. De todo modo, ainda assim a distância entre autor e receptor permanece grande, deixando a arte fora do horizonte da maior parte da população.

Pessoalmente, vejo o ofício de escrever sobre arte como um tipo de mediação,  uma maneira de aproximar o público da produção, porque arte, especialmente a contemporânea, pode ser bastante hermética. Na verdade, não vejo muito sentido em escrever apenas para iniciados. Me motiva mais despertar o interesse de um leitor leigo, ou provocar outras chaves de interpretação em quem já tem familiaridade com o mundo da arte. Sempre que escrevo um texto, procuro mostrar primeiro para alguém que não é da área, porque é esta pessoa que eu quero que entenda o que eu estou dizendo. Os especialistas não precisam das minhas palavras, e ainda que suas opiniões sejam valiosíssimas para o meu aperfeiçoamento e eu me mire em seus exemplos, não são eles que me vêm à mente quando imagino o leitor que me lê.

“Falar sobre arte em uma plataforma de vídeos exige adaptações – do papel para a tela, da mesa do evento acadêmico para o cenário, mas sobretudo de tempo…”

Acontece que estamos em plena era digital. Mesmo este jornal, que já foi impresso, agora circula virtualmente. As redes sociais estão aí, para o bem e para o mal, e têm uma penetração gigantesca. Há cerca de cinco ou seis anos, comecei a pensar em abrir um canal de YouTube para falar sobre arte, mas não tinha a menor ideia de como concretizar a ideia, que ficou, então, como um projeto em latência. Em meados de 2020, já com a pandemia em curso e com os picos de tormentas cerebrais que vêm e vão em decorrência do isolamento forçado, o projeto voltou a rondar meus pensamentos, desta vez com mais clareza. Precisaria de uma parceria, alguém que dominasse os aspectos técnicos de filmagem, edição e comunicação nas redes sociais. Pensei em meu amigo Henrique Luz , que, além de ter estes talentos, também é do campo da arte. Ele rapidamente abraçou a empreitada, mas outros seis meses se passariam até que finalmente conseguíssemos levar o primeiro episódio ao ar. Era necessário ter uma vinheta de abertura que transmitisse o conceito, e a artista Leila Monsegur produziu uma animação magnífica a partir de obras de grandes artistas escolhidas por mim e por Henrique.

Animação feita pela artista Leila Monsegur.

Falar sobre arte em uma plataforma de vídeos exige adaptações – do papel para a tela, da mesa do evento acadêmico para o cenário, mas sobretudo de tempo. O tempo da leitura de um texto é um, de uma apresentação de vídeo é outro, e isto altera todo o processo de elaboração do que se quer discutir. A escolha dos temas é o mais fácil, pois somos bombardeados por informações ininterruptamente, mas a seleção dos artistas e obras que se relacionam com estes assuntos exige de mim uma agilidade que é testada até o limite, já que a proposta do canal, batizado de Artemtudo, é produzir um vídeo novo a cada semana. Apesar das obras serem complexas, é preciso “dançar conforme a música”, e esta, no universo do YouTube, tem minutos contados. O desafio é fazer isto respeitando tanto a relevância dos trabalhos quanto a inteligência do espectador. Em suma, fazer a tradução necessária, mas não condescendente, da carga de significados em conteúdo que possa ser comunicado na velocidade da rede. Aqui entra uma outra mudança no processo de escrita – a crítica em seu formato tradicional é uma atividade individual e solitária. Para um canal, ainda que eu desenvolva o texto com a mesma introspecção, conto com eventuais sugestões contextuais e imagens adicionais que Henrique agrega durante a edição do vídeo, que ajudam a tornar minha fala mais dinâmica para quem assiste.

Néle Azevedo, Vida para todo o planeta!, 2021. Folhas de louro bordadas e máscara de tecido.

“O potencial transformador da arte só consegue ser ativado quando uma obra provoca reflexão, quando nos leva a questionar por que as coisas são como são…”

O Artemtudo é uma oportunidade de aproximar as pessoas da arte através de assuntos que as afetam em suas vidas cotidianas, fora do circuito de exposições. O potencial transformador da arte só consegue ser ativado quando uma obra provoca reflexão, quando nos leva a questionar por que as coisas são como são. Portanto, a iniciativa tem um viés educativo e reflexivo, acreditamos que podemos contribuir para difundir artistas e provocar pensamento crítico. Por fim, é um “não-lugar” de resistência frente ao atribulado momento social e político que já estávamos vivenciando, e que a pandemia serviu para escancarar. Não é um canal neutro, não somos neutros, não acreditamos em neutralidade.

Toda pessoa tem suas convicções e seus posicionamentos, e os do Artemtudo são declarada e abertamente progressistas. Por isso os temas são sempre aqueles que estão na base do que acontece na política e no comportamento das sociedades, como racismo, poder, futuro, peste. É preciso falar sobre essas coisas, a arte fala sobre essas coisas, mas nem sempre a mensagem crítica fica clara para todos, pois exige certa familiaridade com a linguagem visual. É esta a motivação para entrar no universo do YouTube, onde é possível fazer esta ponte entre arte e realidade para um público ampliado. Pessoas que questionam tendem a ser cidadãos mais conscientes de seu papel na construção de suas comunidades. Para mim, a crítica de arte pode provocar estas reflexões, mas apenas quando não se restringe a quem tem acesso à Torre de Marfim. A tecnologia me ofereceu um caminho e eu decidi trilhá-lo.  Só o futuro dirá até onde é possível chegar, mas a estrada está, até agora, se mostrando agradável.

Rosana Paulino, Sem título, 1998. Série diário da solidão. Aquarela, caneta hidrográfica, grafite e crayon s/ papel . 25,4 x 17,7cm.

n° 56 – Ano XIX – Março de 2021 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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