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Artigo

A trajetória das Bienais está no Museu de Arte Contemporânea da USP

São momentos de aplausos, pressões, torcidas e celeumas. Hoje pode-se indagar sobre o mérito desses embates…

Elza Ajzenberg – ABCA / São Paulo

Tarsila do Amaral, Estrada de Ferro Central do Brasil na Exposição Visões da Arte no acervo do Museu de Arte Contemporânea (MAC). Foto: Cecília Bastos/USP Imagem.

A constituição do Museu de Arte Contemporânea da USP deve muito à ação de Francisco Matarazzo Sobrinho (Ciccillo), de Yolanda Penteado e aos esforços de artistas e intelectuais que participaram e continuam a participar das diversas ações desse Museu. Soma-se a esses fatos, a dedicação de todos os diretores e pesquisadores que se desdobraram para consolidar, ampliar e dar visibilidade à coleção. Nesse contexto, é importante não perder de vista o papel das Bienais na formação do acervo do MAC USP.

A partir de 1951, o MAM inicia a organização da Bienal e, entre os regulamentos do evento, há uma cláusula que dá origem às aquisições dos prêmios bienais[1], na qual toda obra adquirida por empresa e/ou instituição seria incorporada ao acervo do Museu. O Museu de Arte Contemporânea recebe essas aquisições no conjunto das 1.236 obras provenientes do acervo do MAM, quando da transferência para a Universidade de São Paulo. Assinala-se, na coleção inicial do MAC USP, o gosto pessoal de Ciccillo e Yolanda, pois estes doam suas coleções particulares e também a seleção realizada pelos júris das Bienais. Portanto, a formação do Acervo segue um cunho pessoal, mas também uma orientação profissional.

Em 1963, a Bienal torna-se uma Fundação, sem o compromisso quanto à doação dos prêmios. O declínio das doações oficiais não impede a constituição do maior conjunto de obras expostas nas Bienais de São Paulo. Deste conjunto, ficam 400 obras provenientes das Bienais, sendo que 215 são premiações, das quais está sendo extraído o núcleo ora em destaque, cerca de 100 peças. Entre essas estão os prêmios de pintura, desenhos, gravuras e tridimensionais, além da presença de algumas obras que foram destaques nas bienais.

O contato com os prêmios[2], através de obras do Acervo MAC USP, permite conferir e resgatar momentos do percurso das bienais. Essas premiações ocorrem de 1951 até 1977; entre 1979 e 1987, são interrompidas, retomadas em 1989 e interrompidas novamente. São momentos de aplausos, pressões, torcidas e celeumas. Hoje pode-se indagar sobre o mérito desses embates.

Aleksander Kobzdej, Escarpado, 1959. Foto: Divulgação.

“Da I Bienal participam 21 países. São trazidas 1800 obras, entre as quais trabalhos de alguns dos artistas mais importantes do século XX…”

A ideia de que São Paulo deveria organizar uma exposição internacional de artes plásticas surge em 1949, quando o Museu de Arte Moderna promove a mostra “Do Figurativismo ao Abstracionismo”. A ideia amadurece no ano seguinte, durante a Bienal de Veneza. Em 1951, Ciccillo Matarazzo lança-se à realização desse projeto. Assessorado por Lourival Gomes Machado e Sérgio Milliet, organiza a grande mostra em um pavilhão especialmente construído no parque Trianon, onde hoje está o prédio do MASP.[3] Da I Bienal participam 21 países. São trazidas 1800 obras, entre as quais trabalhos de alguns dos artistas mais importantes do século XX: Picasso, Léger, Rouault, Morandi, Max Ernst, Henry Moore, Max Bill e Alexander Calder, entre outros, ao lado de pintores brasileiros, como Portinari, Di Cavalcanti e Lasar Segall. Durante os 66 dias em que permanece no galpão do Trianon, a exposição é vista por 100.000 pessoas.

Os primeiros prêmios internacionais, no valor de 100.000 cruzeiros cada um, são distribuídos entre Roger Chastel – pintura –, da França, com seu quadro neocubista Namorados no Café e Max Bill – escultura –, da Suíça, cuja obra Unidade Tripartida causa impacto junto ao público[4]. Danilo Di Prete, com seu quadro Limões, conquista o primeiro lugar na categoria pintura nacional, enquanto o prêmio de escultura nacional vai para Victor Brecheret, com o O Índio e a Suassupara.

“A participação da delegação americana, com obras de Pollock, Rothko, Mark Tobey e De Kooning, de cunho expressionista abstrato, traz a constatação de que o eixo artístico estava se deslocando de Paris para Nova York…”

A I Bienal, da qual o MAC USP detém a maioria dos prêmios regulamentares (os chamados grandes prêmios), além dos de aquisição, é a porta de entrada para a abstração, em suas diversas faces, gerando o debate entre figuração e abstração que se estende por muito tempo no cenário artístico brasileiro.

A participação da delegação americana, com obras de Pollock, Rothko, Mark Tobey e De Kooning, de cunho expressionista abstrato, traz a constatação de que o eixo artístico estava se deslocando de Paris para Nova York. O júri da Bienal e a própria crítica brasileira insistem em não notar as transformações assinaladas por essa nova postura frente à arte. Prova disso, é que nenhum artista dessa delegação foi premiado e por esse motivo o MAC USP não possui nenhuma obra do expressionismo abstrato americano.

Giorgio De Chirico – O Enigma de um Dia na Exposição Visões da Arte no acervo do Museu de Arte Contemporânea (MAC). Foto: Cecília Bastos/USP Imagem.

No Acervo do MAC USP, entre os prêmios de aquisição, há abstratos líricos, como Baumeister e Magnelli, ambos membros do grupo “Abstraction-Crèation” e Afro Basadella, do movimento “Frente Nuovo delle Arti”. A premiação de Max Bill e as implicações resultantes dessa proposta influenciam profundamente jovens artistas brasileiros que a partir desse momento passam a buscar a Arte Concreta.  A linguagem adotada pela Abstração Geométrica alia-se ao desejo de modernização do país que permeia não somente o pensamento intelectual e artístico, como o político e econômico[5].

Ivan Serpa, que recebe o prêmio de aquisição, é um dos primeiros artistas concretistas no Rio de Janeiro, pontuando o início de um movimento inovador que se estende por toda a década de 1950. Ainda abstratos são os desenhos do alemão Uhlmann, dentro de um formalismo com origem na Bauhaus, e a escultura de Roszak, de caráter expressionista.

A figuração possui força maior na gravura, com os trabalhos dos italianos Viviane – Grande Prêmio – e Ciarrochi – prêmio aquisição -, dos ingleses Adams – prêmio aquisição – e Clough – prêmio aquisição -, do expressionismo de Goeldi – prêmio regulamentar – e Grassmann – prêmio aquisição, e dos europeus Minguzzi e Richier prêmios de aquisição.

Nessa I Bienal há também a ação das colônias estrangeiras, que adquirem obras de seus países, como por exemplo os portugueses, com telas de Botelho e Júlio Rezende, e os italianos, com um bronze de Fazzini e um óleo de Birolli. Sophie Tauber Arp – prêmio de aquisição – e Tarsila do Amaral – prêmio de aquisição – causam surpresa, pois os trabalhos são de momentos anteriores à Bienal, 1931 e 1924, respectivamente.[6] A justificativa repousa na qualidade e na oportunidade rara de enriquecer o acervo com obras ícones para a história da arte.

Através das premiações atribuídas na I Bienal, é possível perceber que o processo de seleção leva em consideração as tendências européias e não aceita ainda as novas tendências propostas pela arte norte-americana. Outro fator, tão significativo quanto este, se dá por conta das relações de Yolanda e Ciccillo com a arte européia, em especial França e Itália – fator evidente em suas coleções particulares. Essas relações influenciam os contatos realizados com artistas, críticos e empresários ligados ao MAM e às Bienais.

Em 1953, com a presença de mais de 6.000 pessoas, a II Bienal de São Paulo é inaugurada, sendo considerada uma das três mais importantes exibições de arte moderna do mundo, equiparada à de Veneza e à Carnegie International, de Pittsburgh, EUA. Com cerca de 4000 trabalhos, a II Bienal apresenta uma retrospectiva do Cubismo e do Futurismo, salas dedicadas a Picasso e Klee, além de obras de Laurens, Moore e móbiles de Alexander Calder. Laurens recebe o Grande Prêmio pela influência que sua escultura exerce na arte do século XX. Moore ganha o de melhor escultor estrangeiro e Bruno Giorgi o de melhor escultor nacional. Na pintura, o mexicano Tamayo obtém o prêmio de melhor pintor estrangeiro; Di Cavalcanti e Volpi dividem o prêmio de melhor pintor nacional[7].

Bruno Giorgi, Figura, 1951. Foto: Divulgação.

Em 1955, inspirada no exemplo da Bienal de Veneza, a III Bienal escolhe um artista vivo para simbolizar os movimentos contemporâneos da arte. O eleito é o pintor Fernand Léger, que recebe o grande prêmio. O conjunto de obras da III Bienal, no setor nacional, tem como artistas premiados: Milton Dacosta, pintura; Marcelo Grassmann, gravura; Carybé e Aldemir Martins, desenho.

A IV Bienal ocorre em clima de polêmica: acontecem diversas manifestações para que se anule a decisão do júri, porém Francisco Matarazzo Sobrinho garante o resultado final. A delegação da Alemanha envia trabalhos de Kandinsky, Klee, Gerhardt Marks e Munch. Os brasileiros rejeitados, em sua maioria por adotarem uma postura figurativa, protestam e conseguem que Giorgio Morandi, representante dessa corrente, seja contemplado com o grande prêmio de pintura.

Na V Bienal, o júri toma uma atitude conciliadora e concede o Grande Prêmio à escultora inglesa Barbara Hepworth, enquanto que os prêmios nacionais ficam com alguns artistas rejeitados da III Bienal, tais como Manabu Mabe, e com vários figurativos, tais como Marcelo Grassmann.

A partir da sexta edição, a Bienal não pode mais contar com o patrocínio exclusivo de Ciccillo. O aumento das delegações e o conseqüente crescimento de público tornam as bienais um sucesso, mas ultrapassam os limites econômicos do empresário. A solução é transformá-la em Fundação para que possa ser beneficiada com incentivos públicos. Contudo, nesse momento já está consolidado o evento.

Os dez primeiros anos de existência da Bienal motivam a internacionalização da arte no país, assim como sua ampliação e divulgação. A partir das bienais, jornais abrem suas seções especializadas em artes plásticas, multiplicam-se galerias e marchands e a arte transforma-se, também, em investimento.

“No percurso da Bienal, deve-se levar em conta a grande abertura para a reflexão estética e o espaço de liberdade que pode ser construído pela arte…”

O percurso histórico das bienais e, especialmente, o destaque de artistas, obras e movimentos através das premiações, provoca debates e críticas, porém constitui também importante eixo para o entendimento das profundas transformações na produção artística brasileira. O impacto museológico da aquisição desses prêmios para o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo é bastante significativo. O segmento do acervo que congrega desenhos, gravuras, pinturas e objetos tridimensionais, vindos das bienais, mostra a diversidade das tendências e a disparidade das obras no que se refere aos movimentos estéticos que entram no país.

Como “museu fórum”, o MAC USP está voltado à pesquisa e às interfaces do conhecimento, tem nesse referencial de premiações farto material para leituras especializadas e experimentações. Dessa forma, o museu tem o seu perfil internacional enfatizado, o seu rico acervo acrescido por obras representativas de diversos movimentos e uma grande abertura para a inserção da arte emergente.

De modo geral, a Bienal Internacional de São Paulo consolida uma proposta de cunho transformador, tornando-se ponte de comunicação do Brasil com as mais novas tendências artísticas – verdadeiro divisor de águas da arte brasileira tanto interna como externamente.

O impacto das primeiras bienais é grande. Embora tenham causado perplexidade, o visitante não pôde ficar indiferente diante das obras dos artistas de vanguarda. De fato, para o grande público, a Bienal passa a ser a oportunidade de entrar em contato direto com as obras de artistas consagrados. A Bienal torna-se o espaço para a democratização do conhecimento da arte internacional no Brasil.

Liuba Wolf – Pássaro na Exposição Visões da Arte no acervo do Museu de Arte Contemporânea (MAC). Foto: Cecília Bastos/USP Imagem.

Dessa forma, estabelecem-se as bases de uma nova etapa para a arte no país, não só no que se refere à sua titulação pelo acesso ao conhecimento de novas tendências internacionais, mas também à profissionalização e à criação de um mercado promissor para as obras de artistas brasileiros. A Bienal proporciona momentos para divulgação do modernismo brasileiro e de artistas emergentes.  A cada nova edição, jovens artistas vão sendo divulgados, renovando o panorama artístico brasileiro em diálogo, ou mesmo sob debate, com as manifestações artísticas internacionais.

A trajetória das Bienais Internacionais de São Paulo não é linear. Nessa avaliação crítica, são contínuos os questionamentos sobre as premiações das primeiras edições: deveriam ter ocorrido ou não? Um item sempre lembrado é a questão do núcleo histórico e retrospectivo, completando leituras e o seu caráter informativo-educacional. Outras questões levantadas envolvem até o sentido e os critérios de seleção. Apesar de todos os debates, não se pode ignorar a importância histórica e presente dessas grandes mostras.

No percurso da Bienal, deve-se levar em conta a grande abertura para a reflexão estética e o espaço de liberdade que pode ser construído pela arte. Soma-se, ainda, a mudança de mentalidade dos colecionadores com relação à arte brasileira, atraindo o investimento de órgãos públicos e da iniciativa privada. Deve-se assinalar também: a geração de novas atuações profissionais dentro do universo cultural; o estímulo à crítica; a formação de peritos na área artística e a ampliação da divulgação da arte em todos os meios de comunicação.

Maria Martins – A soma de nossos Dias na Exposição Visões da Arte no acervo do Museu de Arte Contemporânea (MAC). Foto: Cecília Bastos/USP Imagem.

Referências:

AMARAL, Aracy A. Acervo do MAC e as bienais. São Paulo: Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 1987.

AMARANTE, Leonor. As bienais de São Paulo, 1951 a 1987. São Paulo: BFB/Projetos, 1987.

ARTE NO BRASIL, São Paulo: Abril Cultural, 1979 (vol. II).

BIENAL 50 ANOS (1951-2001). Edição de Comemoração do 50º Aniversário da I Bienal de São Paulo, São Paulo: Fundação Bienal Internacional de São Paulo, 2001.

JARDIM, Evandro. C. F.P. Exposição das obras premiadas nas bienais internacionais de São Paulo. São Paulo: Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 1989.

LINS, Paulo de Tarso Amendola. Arquitetura e as primeiras bienais 1951 e 1953. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Carlos: São Carlos, 2000 (dissertação).

MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, Bienais no Acervo do Mac USP (9151-1985), São Paulo: Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 1987 (catálogo de exposição).

MUSEU LASAR SEGALL. Bienais e a Abstração: a década de 50, São Paulo: Museu Lasar Segall, 1978.

PEDROSA, Mário. Dos Murais de Portinari aos espaços de Brasília. São Paulo: Perspectiva, 1981.

ZANINI, Walter. MAC USP e Bienal: anos 1960-70. São Paulo: Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 1987.

 

Notas:

[1] “Todos os demais prêmios posteriormente instituídos se compreendem como sob cláusula de aquisição, passando as obras adquiridas à plena propriedade do Museu de Arte Moderna de São Paulo” (Catálogo da I Bienal de São Paulo, 1951).

[2] Entre as categorias de prêmios distribuídos pelas bienais, pode-se encontrar: os prêmios regulamentares (grandes prêmios), atribuição de certa quantia em dinheiro aos artistas pelo júri da Bienal; prêmios de aquisição, a obra e adquirida por empresas e/ou instituições e doada ao Acervo do MAM SP e, prêmios especiais, indicados pelo júri da Bienal.

[3] BIENAL 50 ANOS (1951-2001). Edição de Comemoração do 50º Aniversário da I Bienal de São Paulo, São Paulo: Fundação Bienal Internacional de São Paulo, 2001.

[4] A obra Unidade Tripartida, pertencente ao Acervo do MAC USP, encontra-se na exposição “Beyond Geometry: Experiments in Form 1940s−70s”, emprestada ao Los Angeles County Museum of Art (LACMA).

[5] ARTE NO BRASIL, São Paulo: Abril Cultural, 1979 (vol. II).

[6] A obra de Tarsila do Amaral foi adquirida pela Reitoria da Universidade de São Paulo e a obra de Sophie Tauber Arp foi o Banco Nacional Imobiliário. MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, Bienais no Acervo do Mac USP (9151-1985), São Paulo: Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 1987 (catálogo de exposição).

[7] BIENAL 50 ANOS (1951-2001). Edição de Comemoração do 50º Aniversário da I Bienal de São Paulo, São Paulo: Fundação Bienal Internacional de São Paulo, 2001.

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