n° 53 – Ano XVIII – Março de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Artigo

Sobre lampejos em tempos de pandemia

A Covid-19 vem potencializar a crise na cultura evidenciando a necessidade de políticas públicas que possam atender, proteger e apoiar a diversidade das manifestações culturais do País.

Priscila Arantes – ABCA/São Paulo

Regina Silveira, Limiar (Vagalume), 2020. Video Projeçāo. Produçāo: VJ David Santos.

Parte 1:

Vagalumes

Em Articolo dele lucciole (1975) Pier Paolo Pasolini, poeta e cineasta italiano, descreve o desaparecimento dos vagalumes; fenômeno ocorrido na Itália nos primeiros anos da década de 60 em decorrência da poluição do ar e dos rios.

O artigo publicado originalmente no Corriere dela Sera, em julho de 1974, trata, como uma espécie de lamento, da morte dos vagalumes, metáfora utilizada para indicar as aparições figurativas de resistência ao mundo do terror. Pasolini acreditava que o fascismo havia triunfado e se apresentava, nas décadas de 1960 e 1970, muito mais terrível do que durante o regime de Mussolini.  Os meios através dos quais o modo de vida dominante se expandia, buscando domesticar os desejos e a padronizar os sujeitos, tinha desestruturado as “formas-desvio” situadas para além dos lugares hegemônicos. Neste cenário, as luzes múltiplas e delicadas dos pequenos vagalumes, potência errática e não redutível à ordem instituída, tinham sido ofuscadas pela grande luz emitida  pelos holofotes, projetores e aparelhos a  partir dos quais  se  executava  o  projeto de homogeneização dos sujeitos e de  genocídio cultural.

Em Sobrevivência dos Vagalumes, Georges Didi-Huberman retoma Pasolini mas com algumas diferenças. Ele argumenta que por mais poderosos que sejam os maquinismos totalitários utilizados para os silenciamentos, devemos crer que há sempre a possibilidade dos lampejos que conseguem escapar.  Formas-rasurantes que resistem e acenam exatamente para outras formas de vida que não aquelas legitimadas pela ordem estabelecida.

O genocídio cultural a que se refere Pasolini tem sido uma constante no Brasil, em um país governado por forças extremamente conservadoras que não têm, pela arte e pela cultura, o mínimo apreço.  São muitos os golpes sofridos pela cultura nos últimos anos: a redução do papel do Estado no desenvolvimento de políticas públicas e de apoio à diversidade cultural, a progressiva diminuição do investimento orçamentário na área, o acirramento das disputas acerca da Lei Federal de Incentivo à Cultura, as ações de censura e retaliação às obras e temas que desagradam o governo federal, o aparelhamento e o desmonte de órgãos fundamentais para a soberania cultural do país como o IPHAN.  A extinção do Ministério da Cultura em 2019, substituído por uma Secretaria inserida no Ministério da Cidadania e realocada no Ministério de Turismo, com a perda da autonomia, representatividade e diminuição de orçamento para a pasta, são alguns dos exemplos do desmonte da cultura que vêm se alastrando no país.

De acordo com o Sistema de Informações e Indicadores Culturais do IBGE 2007-2018, publicado em dezembro de 2019, a área cultural, considerando toda sua cadeia produtiva, representa em torno de 5,7% da força de trabalho do país, quase 5,2 milhões de trabalhadores; o que não é pouco. No entanto o que se percebe, é a total falta de reconhecimento e compromisso, por parte do governo federal, com a área.

A pandemia da Covid-19 vem potencializar esta crise, evidenciando a necessidade de políticas públicas que de fato possam atender, proteger e apoiar a diversidade das manifestações culturais do país.

DE FORA PRA DENTRO (still do trabalho de Lucas Bambozzi, 2017-2020) Vejo sombras se movendo nas paredes. São formas distorcidas, monocromáticas, às vezes abstratas, que trazem pra dentro o que acontece nas árvores e nas ruas, a partir do que se move, uma fresta por onde entra o mundo desvirtuado lá de fora.

Parte 2:

 #PaçoEmTodoLugar

Os museus foram uma das primeiras instituições fechadas pelas medidas de prevenção ao contágio da Covid-19 e vêm enfrentando inúmeros desafios: assegurar a saúde dos funcionários, através dos trabalhos home office, manter a segurança e a limpeza dos espaços físicos e de suas coleções, rever contratos de parceria e pagamento para fornecedores, elaborar medidas relacionadas aos contratos de trabalho dos funcionários, bem como estabelecer novas formas e modelos de interação com o seu público.  Sem previsão de abertura, muitas instituições tiveram que repensar sua programação voltando-se para ações nas plataformas digitais.

No caso do Paço das Artes, temos desenvolvido, desde o início do fechamento de nosso espaço, a ação #PaçoEmTodoLugar, alinhada com atividades da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo onde há o agrupamento e divulgação de ações virtuais (#CulturaEmCasa) de todos os equipamentos culturais.

Como fio condutor destas ações, escolhemos temas periódicos que se relacionam não somente com a memória da Instituição, mas também com exposições e atividades promovidas pelo Paço das Artes ao longo de sua história.  Cada tema funciona como um ‘disparador’ que norteia a programação do período: ações educativas, artísticas e interativas apresentadas em formatos diversos para os ambientes digitais da instituição (website, Instagram, Facebook, Twitter, Youtube e Linkedin), com o objetivo de manter o diálogo com o nosso público.

Curadorias de net art, mostras de vídeo, espaços de ativação online e no espaço  urbano, projetos artísticos desenvolvidos especialmente para o ambiente da rede, lives, cursos online, posts informativos, são algumas das iniciativas que o Paço das Artes tem  desenvolvido.

Não se trata, evidentemente, de transpor para o espaço digital projetos que faríamos no espaço físico, mas de pensar novos formatos curatoriais e de apresentação  cultural que possam oferecer um espaço de experiência efetivo junto ao público no espaço virtual.

Obviamente a discussão e a utilização dos meios digitais em sua relação com o campo da arte e da cultura não é recente. Museus digitais, exposições em plataformas  virtuais, utilização de realidade aumentada e realidade virtual para a produção de conteúdos culturais, catalogação de acervos artísticos e desenvolvimento de banco de dados para obras de arte são algumas das estratégias que encontramos em museus dentro e fora do Brasil. Não se trata, no entanto, de substituir o espaço digital pelo espaço da vivência física, mas não podemos negar que a utilização  das plataformas virtuais vieram para ficar.

A pandemia, e a necessidade de isolamento, chamou a atenção para uma série de questões relacionadas ao papel e aos formatos do museu que já vinham sendo realizadas pela área, tanto no que diz respeito à utilização das plataformas digitais, quanto ao papel social do museu e do esgotamento de um modelo hegemônico de museu: gastos exorbitantes para mostras blockbusters, desconexão da realidade museal com o seu entorno, descolamento das instituições com a realidade do país e com as diferenças e particularidades das vozes que permeiam o tecido social.  Se a lógica do museu espetáculo passou a ser a tônica de muitos espaços inseridos nas regras do consumo cultural, é importante, em épocas de isolamento social, de repensarmos o papel social do museu na sociedade.

Waldemar Cordeiro em seu Manifesto de Arteônica – neologismo criado a partir da fusão da palavra arte com eletrônica – publicado no  início dos anos 1970, acreditava que a utilização do computador e dos meios digitais como suporte e matéria-prima para a produção artística, poderia ampliar o acesso à cultura.  Pessoas de qualquer classe social ou localização poderiam ter acesso ao “original digital” de forma rápida e precisa e sem perda de informações da mensagem original. Obviamente o digital pode ser um forte aliado nestes novos formatos a serem incorporados pelos espaços culturais. Mas não apenas. Dentro deste novo contexto, e em um país tão diverso como o nosso,  torna-se cada vez mais necessário estabelecer diálogos entre o ‘dentro e o fora das redes’, sem corrermos o risco de criarmos, mais uma vez, um espaço desconectado da realidade social. Torna-se imprescindível, neste contexto, que os museus se desloquem e abram espaço para o diálogo com as comunidades e a diversidade dos atores culturais.

PRENÚNCIOS (still do trabalho de Lucas Bambozzi, 2019-2020) Uma pequena tempestade forma-se lá fora. As janelas estão fechadas, este é o ímpeto imediato, o de separar o dentro do fora. Mas o fascínio pela iminência da natureza se irrompe aqui dentro e traspassa os vidros. O que podem ser as catástrofes que habitam nossas insônias?

Parte 3:

Dentro e fora do Paço das Artes

A pandemia pegou de cheio o Paço das Artes que tinha acabado de abrir a primeira exposição na sua nova sede, no dia 25 de janeiro do presente ano: uma individual da artista brasileira Regina Silveira.

O título da exposição, Limiares , dialoga com a obra Limiar apresentada na mostra: uma vídeo-projeção onde a artista explora, assim como em outras obras de sua autoria, as possibilidades conceituais, expressivas, linguísticas e políticas da luz. Como em Étant donés de Duchamp, somos convidados a olhar por uma pequena fresta uma escritura luminosa da palavra luz: aqui imagem e escrita se misturam; a palavra luz dá espaço para a luz enquanto imagem e fonte luminosa.  Apresentada em várias línguas e alfabetos, a palavra dialoga ainda com o campo da escrita de povos e culturas diversas. Talvez aqui, o conceito luz ganhe um sentido quase que metafísico, como no trabalho de Duchamp: do início, daquilo que dá vida. Não por acaso a imagem e a palavra são acompanhadas por um som de respiração, que colocado ali estranhamente, nos dá a sensação de que a luz é um corpo que respira, um corpo que pulsa, vivo, neste novo começo, como na ocasião de inauguração da nova sede do Paço das Artes no antigo casarão Nhonhô Magalhães.

Limiares foi um dos primeiros motes das ações do #PaçoEmTodoLugar. Expandindo os trabalhos educativos que já tinham sido realizados para a formação de professores da rede pública, ministrados por Paulo Portella, oferecemos o curso “Anamorfoses” desenvolvido por Eduardo Verderame.  A artista Inês Raphaelian e o crítico Teixeira Coelho foram convidados para dar um depoimento em vídeo sobre as obras de Regina Silveira. Para finalizar o artista Lucas Bambozzi apresentou três obras em vídeo que dialogavam com o trabalho que Regina apresentou em Limiares, com um olhar sensível sobre as “janelas”.

Limiar que já foi instalação, agora sai do espaço do Paço das Artes e povoa a cidade; torna-se um vagalume pulsante que acende e apaga em nova obra da artista realizada em parceria com o VJ David dos Santos em um edifício no município de Diadema.

É esta dimensão criativa e transformadora da arte a da cultura que devemos estar atentos para podermos elaborar uma sociedade mais igualitária e solidária. Localizá-la exige outro modo de ver e outra política da luz, não rendida à sedução daquela que se apresenta como hegemônica ou única. Que os vagalumes possam brilhar em toda a sua intensidade nos diferentes territórios do nosso país!

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