Raul Córdula apresenta exposições no Centro Cultural Mercado Eufrásio Barbosa, em Olinda

A inauguração da primeira etapa do Centro Cultural Mercado Eufrásio Barbosa, em Olinda, é marcada por abertura de exposições. O espaço conta com duas galerias de arte, sob a curadoria de Raul Córdula.

A primeira exposição é “Olhares Pioneiros”, em referência aos primeiros movimentos coletivos na cidade-patrimônio surgidos nas décadas de 1960 e 1970, destacando o Movimento da Ribeira, criado a partir da parceria do prefeito Eufrásio Barbosa, em 1965, com um grupo de artistas formado por Adão Pinheiro, Ypiranga Filho, José Barbosa, Tiago Amorim, Guita Charifker, José Tavares, entre outros. A segunda exposição é a mostra “Tânia Carneiro Leão – Pinturas”, da filha de Eufrásio Barbosa, que acompanhou desde cedo o nascimento desses movimentos.

Abaixo, leia os textos de Raul Córdula.

 

Arte moderna e contemporânea em Olinda

“Olhares Pioneiros” e “Tânia Carneiro Leão – pinturas” são as exposições que inauguram as galerias 01 e 02 do Centro Cultural Mercado Eufrásio Barbosa – MEB, que o Governo do Estado de Pernambuco e a Prefeitura Municipal de Olinda entregam ao público, são as primeiras de um programa cuja ênfase é o importante conjunto de artistas olindenses ou ligados à cidade.

Ao todo no MEB temos seis espaços expositivos, sendo quatro ocupados com mostras permanentes e dois com mostras temporárias. As exposições permanentes são a Coleção de Arte Popular da Arquiteta Janete Costa Borsoi, os Ornamentos de Carnaval de Rua de autoria do “bonequeiro” Fernando Augusto Gonçalves, a Coleção de 40 Pinturas de Bajado e o Museu do Mamulengo, os dois últimos de propriedade da Prefeitura Municipal.

A primeira exposição que ocupa a Galeria 01 “Olhares Pioneiros”, à qual este texto é dedicado, (a Galeria 02 está ocupada pela exposição individual de Tânia Carneiro Leão) apresenta alguns dos primeiros artistas modernos que atuaram em Olinda. Temos que levar em consideração que a cidade parece hoje um bairro do Recife, mas nos anos de 1960, quando se iniciaram os fatos que narramos não era assim, o acesso de Recife para Olinda era mais difícil, vinha-se através do bonde e de estradas precárias que faziam as “cidades duplas” mais distantes. Isto foi uma das razões de antes da década de 1940 não se registrar vida artística, consequentemente arte moderna como havia no Recife.

Em relação à arte moderna, Recife é contemporâneo de São Paulo e Rio de Janeiro, tanto é que Vicente do Rego Monteiro foi um dos artistas que participaram da exposição da Semana de Arte Moderna de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo  (1), marco do movimento. Vivendo em Paris ele já era um artista do modernismo europeu. Além de Vicente, Cícero Dias, Lula Cardoso Ayres, o grupo dos Independentes capitaneados por Augusto Rodrigues (2), e ainda Abelardo da Hora, Francisco Brennand, Maria Carmem, Ladjane Bandeira, Wellington Virgolino e seu irmão Wilton de Souza, entre outros constituíam o que se pode chamar de artistas modernos do Recife, por muitos denominados de “Figuração do Recife”.

O que aconteceu em Olinda foi um pouco diferente, pois, com a presença, no fim da década de 1950, de Montez Magno e Anchises Azevedo, aqui surgiram os princípios da arte moderna não figurativa, chamada erroneamente de arte abstrata (3). Posteriormente a eles se juntou Adão Pinheiro que se incorporou ao ateliê deles e posteriormente aqui permaneceu fixando residência na Rua de São Bento 154 que sediou depois a Oficina 154. Adão atuou intensamente na sequência de movimentos culturais que ocorreram nos anos de 1960.

No entanto Montez, Anchises e Adão não foram os primeiros artistas modernos a viverem em Olinda. Em 1937 o político Francisco Julião fundou aqui o Centro Cultural Humberto de Campos – CCHC, e seu irmão Hugo de Paula, importante desenhista, pintor e ilustrador nos anos de 1950 da Revista O Cruzeiro, no Rio, instalou no CCHC seu ateliê, ministrando cursos de desenho e pintura e chegando até a fazer uma exposição individual na Prefeitura de Olinda que foi o Palácio dos Governadores dos tampos coloniais. Já Tiago Amorim, outro pioneiro, em depoimento intitulado “Entalhe de Olinda” cita como pioneiros também o pintor paisagista Rubens Sacramento, Clovis Vieira, Arlindo Souza, Carlos Ivan e Bajado.

Ribeira e consequências

Com a concessão que fez o Prefeito Eufrásio Barbosa em 1964, através de solicitação, em 1965 o grupo de artistas que teve à frente Adão Pinheiro e Ypiranga Filho, acompanhados por José Barbosa, José Tavares, Guita Charifker Tiago Amorim e Roberto Amorim, solicitaram ao Prefeito Eufrásio Barbosa, para ocupar com ateliês, oficinas, galeria de arte e bar o recém-restaurado mercado hortifrutigranjeiro da Ribeira que tinha sido antes abandonado por seus locatários. A proposta envolvia a criação da Cooperativa de Artes e Ofícios da Ribeira Ltda. Que passou a ser conhecida como Movimento da Ribeira. Adão era o Secretário de Turismo e Cultura de Olinda, portanto a solicitação foi do artista e também do político. O Movimento da Ribeira refundou Olinda como A Cidade dos Artistas. Isto proporcionou importantes transformações na comunidade. Uma delas veio a partir da percepção de Adão Pinheiro sobre o artesanato de madeira, especialmente as técnicas antigas do entalhe em madeira que ele, como restaurador do IPHAM, percebeu ser um saber que somente existia entre os restauradores de móveis antigos que havia aqui, entre eles o pai do pintor e entalhador José Barbosa. Adão instituiu então um curso de entalhe em madeira, técnica chamada desde então de “Talha de Olinda”, e orientou Tiago, José Barbosa e Manoel da Silva. Tiago cita que, no desenvolvimento deste núcleo de entalhadores, “Na Ribeira (…) aconteceu uma escola com figuras primitivas, Anjos e flores em oratórios e divisórias criadas pelos irmãos Andrade – Geraldo, João, Romildo e Tarcísio. Cita ainda Tiago nome de outros entalhadores, como Pacheco, Paudalho, Caxiado, Costa e Pedro Índio. Posteriormente Tiago criou uma equipe formada por Zé Oião, Henrique Cavalo, Saberé e Paulete, entre outros.

Outra escola se formou no Alto da Sé no tempo da Ribeira com o apoio de Dom Marcelo Carvalheira, Elimar e Silvia Coimbra. A Talha de Olinda hoje é menos frequente, alguns se tornaram escultores e outros a deixaram de fazer, mas os principais entre eles, José Barbosa e Tiago Amorim, continuam este belo e original saber.

Adão Pinheiro foi demitido da Secretaria de Turismo e Cultura por pressão sobre o Prefeito Eufrásio da bancada direitista da Câmara Municipal em 1965. O importante e prestigiado artista Vicente do Rego Monteiro substituiu Adão na Secretaria e assumiu o que restou do Movimento da Ribeira. Restou aos artistas da Ribeira fundar então, na residência e ateliê de Adão, a seu convite, a Oficina 154 que contou também com a participação do artesão e frade beneditino Emanuel Bernardo, Guita, Mariza Lacerda, Roberto Amorim, Sylvia Pontual e Ypiranga.

Na sequência dos acontecimentos foi criado, na casa número 164 da mesma rua, o Atelier + 10, tendo como participantes Anchises Azevedo, Delano, João Câmara, Jorge Tavares, Liedo Maranhão, Maria Carmem e Wellington Virgolino.

Outros artistas se instalaram em Olinda independentes de participações nos citados movimento, como o grande mestre xilogravador e pintor da Gilvan Samico, sua mulher Célida Peregrino, bailarina e pintora de paisagem e Marcelo Peregrino, o pintor filho do casal; Ney Quadros, que ainda no início de sua carreira foi estudar química tornando-se ao se formar professor da UFPE; Humberto Magno Aragão, também arquiteto formado em Salvador, casando-se com a pintora Iza Lins que ainda vive aqui com ateliê na Rua do Amparo. Frutos dessa união, seus dois filhos Catarina Lins e Paulo do Amparo se tornaram artistas de grande atuação. Ambos mistos de músicos, performers e artistas visuais. Vieram para cá também, alguns se instalando no Sitio Histórico e outros em outros bairros de Olinda, José Cláudio e seu filho, o pintor Mané Tatú; Giuseppe Baccaro, marchand de tableau italiano radicado em São Paulo que deixou lá a maioria de seus negócios e se mudou para cá fundando a Fundação da Criança no caminho para o monte; Tereza Costa Rego, pintora e muralista que viveu clandestinamente 18 anos na Europa como exilada política, tornando-se depois de seu retorno uma das artistas mais ativas do Nordeste; Roberto Ploeg, artista holandês estudante de teologia que veio ao Recife fazer mestrado sobre a Teologia da Libertação com orientação do próprio Dom Helder Câmara, e aqui se erradicou; Marcos Cordeiro, pintor, escritor e teatrólogo; Luciano Pinheiro, um dos expoentes da pintura não figurativa na atualidade; o desenhista Gim. (1)

Outras exposições coletivas como esta estão programadas para este Espaço Cultural que se instala no Mercado Eufrásio Barbosa restaurado e adaptado para cumprir a função de produzir, promover e divulgar a cultura nesta cidade também iluminada pelas mentes criativas de seus artistas em todas as categorias. Na programação das exposições veremos mostras como “A figura e seus limites”, onde sugerimos o diálogo entre a arte figurativa típica de Pernambuco e as brilhantes investidas na arte não figurativa; A arte dos intuitivos, também chamada de “arte naïfe”; “O Olhar Feminino na Arte”, que mostrará a presença das artistas mulheres da cidade; “A pintura de paisagem em Olinda”, que se refere à reinvenção dessa categoria de arte nos anos de 1980; “As Vanguardas” que aqui incede desde os anos de 1960 com presença de Montez Magno e Anchises Azevedo frequentam nossa cena visual, e que eco em artistas como Cuquinha, Juliana Notari, Juliana Calheiros, Humberto Magno, entre outros. 

Recife/Olinda cidade dupla

Dá-nos muito prazer comentar a qualidade da arte dessa geração pioneira que teve acesso a orientações diversas, como os cursos da Escola de Belas artes, com especialidade para o curso livre que acontecia em forma de oficinas coletivas cujos conteúdos foram ministrados por grandes artistas como, por exemplo, Lula Cardoso Ayres, Vicente do Rego Monteiro, Laerte Baldini ou Reynaldo Fonseca que orientaram os também grandes artistas da geração que os sucederam, como João Câmara, Ypiranga Filho – que depois se tornou um dos professores do curso acadêmico, Roberto Amorim, Jairo Arcoverde, entre outros.

Em momento mais recente houve uma série de cursos livres de desenho e pintura promovidos pelo Museu de Arte Contemporânea no período da direção do artista José Carlos Viana que também foi Secretário de Cultura da prefeitura do Recife. Ele reuniu solidariamente alguns dos principais artistas da cidade, como João Câmara, Maria Carmem, Delano, Roberto Lúcio, entre outros, para orientarem e interagirem na passagem de conhecimentos para os jovens artistas da época, como Flávio Emanuel, Maurício Silva, Roberto Ploeg, Margot Monteiro, entre outros que hoje se colocam como pessoas fundamentais da arte em Pernambuco. Embora por popuco tempo, isto correspondeu à ação dos cursos livres da Escola de Belas Artes da UFPE.

É importante lembrar que o Museu de Arte Contemporânea de Olinda – MAC, pertencente ao Estado, foi doado e inaugurado em 1966, instalado no edifício da Câmara e Cadeia Eclesiástica que estava recém-restaurada. O MAC foi o segundo dos três museus criados pela Campana Nacional de Museus Regionais, promovida pelo jornalista Assis Chateaubriand, proprietário na época dos Diários Associados, com o patrocínio de grande parte do empresariado nacional. Esta campanha foi inspirada em ideias do seu conselheiro, superintendentes dos Diários Associados na Bahia, o jornalista Odorico Tavares, cunhado do Prefeito Eufrásio Barbosa. A Senhora Yolanda Penteado dirigiu esta campana que ainda implantou os museus da Bahia, em Feira de Santana, e o da Paraíba, em Campina Grande. Em Olinda o MAC foi apoiado pela Senhora Helena Lundgren, na época proprietária da Fábrica Pernambucana de Tecidos, e teve como sua primeira diretora a pintora Mary Gondim. O MAC possui um pequeno, mas importantíssimo acervo da arte moderna brasileira e também exemplos raros da arte internacional, como cinco litogravuras de David Hockney e uma pintura de Adolph Gottlieb. Sua coleção de artistas de Olinda da década de 1960 forma o núcleo desta exposição.

Indispensável também é citar o Atelier Coletivo de Olinda, grupo liderado na década de 1980 por Giuseppe Baccaro, que cedeu como espaço de exposições a galeria que possuía na Rua de São Bento. Os artistas eram, além de Baccaro, Guita Charifker, Gilvan Samico, José Cláudio, Eduardo Araújo, Gil Vicente e José de Barros. O Atelier Coletivo de Olinda se reportava, em seu nome, ao antigo Atelier Coletivo do Recife criado por Abelardo da Hora na década de 1950. Os artistas deste coletivo tinham o hábito da pintura de paisagem, saiam em grupo para pintar ao ar livre como faziam os impressionistas, com isto reinventaram aqui nossa pintura de paisagem. Não há dúvida que isto refletiu na geração de jovens artistas da época, pois muitos deles se tornaram pintores paisagistas de grande qualidade.

Olhares Pioneiros

“Em Olhares Pioneiros” vemos com satisfação a excelência técnica de obras como uma composição de Roberto Amorim, pintor que nos deixou ainda jovem, onde está um jogo de formas trabalhadas com veladuras de um cromatismo neutro entre volutas e planos escuros, uma composição simbólica e informal poeticamente carregada de memórias barrocas como volutas e ornatos. Adão Pinheiro, na época pintor da figuração pernambucana, inteligentemente classificou a arte daqui de neobarroca, sendo esta pintura, a nosso ver, um reflexo desta ideia que transcendo a questão figurativa. O mesmo se vê na pintura de Ney Quadros, possuidor de forte simbologia geométrica e sensível que resolvia através de pontos aplicados na tela diretamente da bisnaga de tinta, denunciando o interesse pela busca de caminhos, pela invenção na arte. O mesmo sentimento neobarroco e não figurativo se vê no quadro de Jorge Tavares carregado de forte textura ou ainda na pintura de Maria Carmem. Mas as expressões não figurativas destes artistas não se limitam ao espírito barroco circundante, o que se chamava na época “arte de vanguarda” aqui estava presente através da obra de dois importantíssimos artistas: Montez Magno e Anchises Azevedo. Interessados na economia de recursos plásticos, ambos tinham o olhar voltado para a sensibilidade das expressões humanas básicas, como os sinais gráficos ligados ao gesto dom povo e projeções geométricas emanadas do inconsciente.

A pintura NORDESTE de autoria de Adão Pinheiro, por sua vez, é autobiográfica e icônica. Assinala a visão de um artista vindo do Rio Grande do Sul descobrir e incorporar à sua obra a sinalética nordestina, especialmente a contida na arte barroca colonial que temos em Olinda e em quase todo o Brasil. Vemos em NORDESTE quase que a defesa de sua tese neobarroca contida na abundância simbólica e formal. Fundamental é a obra de José Barbosa, filho de um marceneiro restaurador de móveis e também entalhador. Zé Barbosa despertou para a arte desde cedo e ao lado de Adão Pinheiro desenvolveu o entalhe em madeira na forma livre como foi praticada aqui no tempo do Movimento da Ribeira a partir de treinamentos dirigidos a jovens aprendizes que levaram este modo ao sucesso que teve na época. Zé Barbosa desenvolveu a “talha” até a escultura e a pintura, onde plasma o ambiente onírico imaginado sobre os céus de Olinda, principalmente. Outro novo barroco é Tiago Amorim, que foi monge beneditino e assumiu seu talento para a arte e para o sacerdócio, pois que ele se dedica à missão de passar para o outro, especialmente o jovem carente, seu saber criativo. Como Zé Barbosa e Adão, Tiago é um artista de múltiplos meios: pintor, entalhador, escultor e ceramista.

Ainda no território da tridimensionalidade temos Ypiranga Filho, escultor por excelência, mas também artista gráfico, gravador, pintor e praticante das estéticas pós-modernas que fizeram o elo da arte moderna com a contemporaneidade. Ypiranga foi um mestre de toda uma geração interessada na escultura amoldável, na assemblage característica dos anos 60.

Por fim dois pintores por excelência: Wellington Virgolino, na época, voltado para a arte dos aspecto sociais tão decantada pela geração que conviveu com Abelardo da Hora representado pela figura pintada de um menino pobre, o oposto das imagens que tornaram anos depois sua arte como objeto de desejo dos colecionadores; e José Tavares, pintor de paisagens, naturezas mortas e retratos como também era conveniente na Época. Tavares desapareceu no início da década de 1970, em Porto das Caixas, praia do litoral sul do Rio de Janeiro, deixando uma obra que se afirmava, na ocasião quando já distanciava dos aspectos acadêmicos, propondo                         inovações no trato tradicional da arte. A pintura que compõe esta mostra foi sua última paisagem, a vista em frente de sua casa.

Eis o início deste projeto de apresentação, e também de resgate, da arte dos artistas de Olinda. Esperamos poder chegar aos diversos níveis da diversidade cultural que é o nosso mais importante patrimônio, o patrimônio vivo, o povo da cidade, de qualquer cidade.

Raul Córdula

Olinda, junho de 2018

  1. Além de Vicente, participaram apenas desta importantíssima exposição, Anita Malfati, Di Cavalcanti, John Groz, Victor Brecheret e W. Haeleg.

(2) Integraram o Grupo dos Independentes, Augusto Rodrigues, Bibiano Silva, Carlos Holanda, Danilo Ramires, Elezier Xavier, Hélio Feijó, Luiz Soares, Manoel Bandeira, Nestor Silva e Percy Lau.

(3) Outros artistas não figurativos viveram em Olinda no início dos anos de 1960, como Humberto Magno, Ney Quadros e Roberto Amorim, Jorge Tavares, Lenine Medeiros, Iza do Amparo, Piedade Moura, (..).

 

***

 

Tânia Carneiro Leão e a casa da amizade

Que o Sítio Histórico de Olinda é um lugar de artistas todos sabem: de pintores, escultores, gravadores, desenhistas, músicos, de artistas contemporâneos em todas suas manifestações, de dançarinos, fotógrafos, cineastas, escritores, teatrólogos, poetas. Isto é mais do que sabido. Também é sabido que isto aconteceu entre as décadas de 50/60, com a presença aqui de artistas como Montez Magno, Anchises Azevedo e Adão Pinheiro, protagonistas da invenção da modernidade na arte daqui. É claro que a cidade, seu traçado colonial, sua arquitetura antiga e, sobretudo, a paisagem resultante de sua topografia, sempre foi fonte de prazer para o olhar. Por outro lado sendo Olinda uma cidade pequena que fica a cinco quilômetros de uma cidade grande, o espírito metropolitano do Recife sempre a alimentou de ideias novas, modernas e contemporâneas (no sentido artístico do termo).

Porém o que seria de um núcleo urbano cujo talento é a arte sem o papel de inteligências que apoiam, apoiaram e promoveram os protagonistas desta singularidade? Podemos citar inúmeras pessoas responsáveis por isto, num pequeno exemplo temos de cara Gilberto Freyre, não apenas com sua presença e amizades aqui, mas também por seu livro sobre a cidade magnificamente ilustrado por Manoel Bandeira, o pintor e desenhista. Também tivemos Assis Chateaubriand e seu cavalheiresco gesto de colocar aqui o Museu de Arte Contemporânea, fruto de sua Campanha Nacional de Museus Regionais. Finalmente Aloisio Magalhães que, como Secretário Nacional de Cultura empenhou sua vida para dar a Olinda o título de Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade. Citando estas três personalidades homenageamos inúmeras outras que caucionaram o status cultural desta cidade.

Sabemos, porém que foi mesmo em Olinda que o grande apoio surgiu através da Prefeitura que possibilitou o aparecimento de movimentos e instituições como, por exemplo, O Movimento da Ribeira apoiado pelo Prefeito Eufrásio Barbosa, e a Oficina Guaianases de Gravura, iniciativa do pintor João Câmara e um grupo de amigos onde se destacaram os artistas José Carlos Viana e Delano, e o arquiteto e preservacionista Antenor Vieira de Melo, também diretor da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Olinda, com o apoio do Prefeito José Arnaldo, e a Prefeita, hoje Deputada Federal, Luciana Santos apoiando o projeto proposto por Tereza Costa Rego “Olinda Arte em Toda Parte”.

Esta pequena introdução tem o propósito de falar sobre a exposição da pintora Tânia Carneiro Leão, uma das protagonistas desta singularidade que caracteriza nosso burgo.

Tivemos a ideia de convidar Tânia Carneiro Leão para iniciar a série de exposições da Galeria 02 na ocasião da inauguração do Centro Cultural Mercado Eufrásio Barbosa exatamente para homenagear este homem público cuja casa, onde ela ainda reside ao lado de seu Marido, o escritor e professor Carneiro Leão, membro do Conselho de Cultura do Estado, e Rodrigo Carneiro Leão, o filho do Casal e Consul Honorário do Uruguai, é atribuída ao arquiteto Louis Vauthier, foi território da intelectualidade pernambucana. A casa de Eufrásio Barbosa sempre foi, em Olinda, a casa da amizade.

Uma tentativa, mínima e falha certamente, de listagem, vamos iniciar pelo poeta Carlos Pena Filho, de quem Tânia é viúva, e que foi pai de sua filha Clara Pena, certamente trouxe seus pares, poetas locais de sua época. Do lado de sua mãe, Dona Otília, o seu irmão, o jornalista Odorico Tavares, superintendente dos Diários Associados da Bahia no tempo do famoso governador Balbino, que era um dos conselheiros de Assis Chateaubriand inclusive para assuntos de arte, sendo colecionador também, chegando a ter uma das grandes coleções de arte do Brasil conservada até hoje por sua família. Sabe-se da influência de Odorico na localização em Olinda do Museu de Arte Contemporânea – MAC, com seu importante acervo. Entre os amigos e frequentadores da casa de Eufrásio estavam Miguel Arraes, Mauro Mota, o casal Jorge Amado e Zélia Gatai, O pintor Di Cavalcanti, Capiba, Pelópidas da Silveira, Marcos Freire e Ascenso Ferreira.

Quando Eufrásio como Prefeito foi forçado pela Câmara Municipal a substituir Adão Pinheiro na sua Secretaria de Cultura o fez por Vicente do Rego Monteiro, contou-nos Tânia que, em sua humildade e respeito pela cultura, ele disse: “Olinda é diferente, é a cidade em que o Secretário de Turismo e Cultura é mais importante do que o Prefeito”. Definia Eufrásio nesta afirmação a vocação verdadeira de Olinda.

Nesta casa Tânia viveu cercada de artistas escritores e políticos, todos parentes e amigos da família. Dedicou-se ao antiquariato, comprando e vendendo obras, móveis e objetos antigos, e à poesia. Porém sua paixão é a pintura que exerce intensamente engajada no modernismo típico daqui, com seus aspectos regionais, mas não regionalistas. Esta diferença é fundamental por que sua pintura não exalta o folclore, tão pouco é arte naïfe, é a pintura de quem vê sua casa, seu jardim sua rua, sua cidade. Numa de suas séries de quadros ela pintou mapas recriados dos desenhos dos holandeses recolocando Olinda e Recife em seus lugares do passado, pois vivemos mais no tempo do que no espaço. O próprio Gilberto Freyre, pintor amador (não pintor de domingo, pois esta alcunha se deve aos que saiam de casa para pintar paisagens ao ar livre nos fins de semana), autor do Manifesto Regionalista, também não era folclórico, mas um amante do folclore, e também não era naïfe – como poderia um homem de cultura acadêmica como ele ser? – mas um  sabedor da arte moderna que exercia poeticamente, embora utilizasse alguns temas expressos pelo povo.

Tânia representa a atitude de quem não sacramenta o artista, mas a arte, mesmo que este mistério humano não se defina hoje em dia. Achamos fundamental o rito de exercer a arte sem balizamentos estéticos, mas dentro da ética social que faz dela uma atividade humana, independente de qualidades – o que não faltam na obra de Tânia – ou de rótulos teóricos. A arte também como “fazer”, como desejo e exercício do prazer.

Raul Córdula

Olinda, junho de 2018

 

 

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