n° 49 – Ano XVII – Março de 2019  →   VOLTAR

Ensaio

A força de um acadêmico que nunca deixou de ser

Jangadeiros, retirantes e camponeses do Ceará são, ao lado de paisagens e figuras europeias, o retrato de uma época aos olhos do inquieto Raimundo Cela. Acadêmico para uns, modernista para outros: um clássico para sempre.

Ricardo Viveiros – ABCA / São Paulo

Raimundo Cela, Arrastão – Reprodução de autoria desconhecida.

Desde os anos 30 e até um pouco depois do fim da Segunda Grande Guerra podemos observar desenvolvimento na arte moderna além das fronteiras do Rio de Janeiro e de São Paulo — onde “fervilhava” a cultura no Brasil. Enquanto Vicente do Rego Monteiro se contrapunha, em Pernambuco, ao trabalho convencional dos pintores “herdeiros” de Telles Júnior, no Ceará, distanciado do que chamava “modismos”, Raimundo Cela, seguia indiferente às notícias dos avanços conquistados na “Semana de Arte Moderna”, de 1922, evento promovido pelos tais “modernistas” paulistas. Indiferente à nova estética, Cela pintava a dura vida de seu povo com emoção e qualidade.

O pintor nasceu Raimundo Brandão Cela, aos 19 de julho de 1890, em Sobral (Ceará). A cidade dista da capital, Fortaleza, 230 quilômetros. Embora no sertão, a “Princesa do Norte” sempre foi centro de debate político, econômico e cultural. Mãe brasileira e professora, pai espanhol e mecânico de automóveis, Cela viveu sua infância em Sobral e sua adolescência em Camocim (CE), à época uma vila de pescadores ainda mais distante de Fortaleza (373 quilômetros). Na primeira cidade, o calor terrível da caatinga. Na segunda, a temperatura suavizada pelo vento do mar. Uma paisagem rica, colorida, cheia de inspiração para o menino que desenhava tão bem na escola.

A mudança para Camocim foi determinante. Cela passou a sonhar mais. Embora criado sob severos padrões de comportamento, ousava “viajar” nos movimentos das grandes velas dos barcos para, quem sabe, a distante terra do pai. Embalado pelas histórias que lhe contava sua mãe, “dona” Maria Carolina, o jovem artista aproveitava a vida à beira-mar e queria ir mais longe, para algum lugar no futuro onde pudesse aprender e aprimorar seu talento nas artes plásticas. Inicialmente, foi para a capital de seu estado onde estudou no Liceu do Ceará, depois seguiu para o Rio de Janeiro ingressando na Escola Nacional de Belas-Artes e na Escola Politécnica da Universidade do Brasil (fez Engenharia por exigência do pai).

Na “Belas-Artes”, foi aluno de Eliseu Visconti, um admirador que o incentivava porque, entre outros méritos, Cela sempre obtinha o primeiro lugar. Na Poli, a mesma coisa. Parece demasiado? Não era. Ele ainda trabalhava e praticava esportes. Formou-se, com distinção, em ambas as faculdades, atuando como desenhista em emprego público (no qual ingressou por concurso) e remando nas poucas horas vagas.

Raimundo Cela, Filtrando o mar – Reprodução de autoria desconhecida.

“O artista desembarca em Paris, França, com o objetivo principal de aprimorar seu trabalho, razão do prêmio conquistado que o levara ali para três anos de estudos…”

Em 1917, Cela conquista o prêmio de “Viagem ao Estrangeiro” na disputada “Exposição Geral de Belas-Artes”, com a tela “Último diálogo de Sócrates”. Espera dois anos para formar-se engenheiro, planeja a viagem e somente em 1920 chega à Europa. O artista desembarca em Paris, França, com o objetivo principal de aprimorar seu trabalho, razão do prêmio conquistado que o levara ali para três anos de estudos. Dificuldades iniciais não lhe permitem ter um estúdio em Paris, como alternativa visita outros países aprendendo arte: Inglaterra, Bélgica e Holanda. Volta à “Cidade Luz” e se instala em seus  arredores, Dampierre — pequena aldeia, à uma hora de trem.

A vida no pós-guerra era dura, e bastante cara. Cela até pensou em ir para a Espanha, terra do pai. Não foi preciso, superou as adversidades e, mais tarde, conseguiu um atelier próximo da capital francesa, a menos de uma hora de bonde do centro. O artista adoece, vítima de uma hemorragia cerebral. Interrompe vários trabalhos que vinha realizando para atender encomendas, inclusive do Brasil. A vida austera e sacrificada que levava, acabou por tirar-lhe a saúde. Seus trabalhos, em água forte e óleo, inscritos no “Salão de Paris” são elogiados pelo público e pela crítica.

Cela, na Inglaterra, estudou com o famoso gravador e litógrafo Frank Brangwyn. E aproveitou bem os ensinamentos. Foi considerado um “mestre” pelos organizadores do Salon, um título com valor de prêmio, obtido por poucos. Quando iria caminhar para o reconhecimento internacional, a doença o faz retornar ao Brasil. Por questões de ambiente para melhor recuperação, opta por viver em Camocim. Pouca gente entendia sua maneira introspectiva de ser, fruto da sua rígida criação paterna. Era definido por muitos, como “esquisito”.

Raimundo Cela, Retirantes – Reprodução de autoria desconhecida.

“Cela é o pioneiro da gravura no Brasil. E não só foi um grande e premiado mestre nessa técnica, reconhecido na Europa, como ainda um dedicado professor de muitos artistas brasileiros…”

Cela distancia-se do ambiente cultural; nos círculos artísticos brasileiros e europeus comenta-se que ele não produz mais. Por questão de sobrevivência, o artista assume a direção da usina de energia elétrica da cidade, afinal era engenheiro. Na verdade, nunca parou de desenhar, gravar e pintar. Cela foi, por muitos, tomado como morto. Passada uma década, o artista já recuperado volta a Fortaleza. Havia se casado e tinha um casal de filhos. O pintor e professor Mário Barata, auxilia Cela a retomar suas atividades artísticas. Juntos, fundam o Centro Cultural de Belas Artes, na capital cearense. Era a década de 40, quebrando um jejum nacional e internacional de muitos anos, o artista volta a expor.

Cela é o pioneiro da gravura no Brasil. E não só foi um grande e premiado mestre nessa técnica, reconhecido na Europa, como ainda um dedicado professor de muitos artistas brasileiros. Mas, acima de tudo, soube também desenhar e pintar com a mesma emoção e qualidade empregadas na gravura. Um acadêmico por excelência, ele serve-se dos fundamentos técnicos do desenho para dar equilíbrio às telas num trabalho de linearidade perfeito. Ao mesmo tempo, surpreende ao usar manchas e se aproveitar da luz de maneira criativa, num inventivo pictórico de pura intuição. Uma arte só possível de entender a quem já viu os movimentos de um jangadeiro na brava lida da pescaria.

A obra de Cela nos revela alguém que pode até ter sido anacrônico quanto às transformações estéticas de uma época, mas que por outro lado sempre esteve comprometido com a essência de um povo sofrido. Gente que até hoje luta para sobreviver. E foi entre a técnica conservadora e a temática engajada com a realidade social de seu tempo que Cela se tornou o acadêmico mais modernista da arte brasileira. O modo de pintar do artista, revela um compromisso com a liberdade em texturas ricas, vibrantes, cheias de abstração próprias dos vanguardistas. Embora, ao mesmo tempo, traga uma arte estruturada dentro da geometria do também engenheiro Cela. Uma arte tão elegante quanto ele foi, na vida pessoal e profissional. Raimundo Cela morreu no Rio de Janeiro, em 6 de novembro de 1954, aos 64 anos. Foi pintar o céu do Ceará, desenhar cunhãs-anjos e gravar o Padre Cícero na lua, ao lado de São Jorge.

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