Artigo

“Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”[1].
Pensar e escrever sobre arte

O presente texto é uma homenagem a Mariza Bertoli com quem aprendi sobre a militante crítica latino-americana

Alecsandra Matias de Oliveira – ABCA/São Paulo

Para Mariza Bertoli[2].

[1] Paradoxalmente, a frase é de Monteiro Lobato (1882-1948) que ao escrever a crítica Paranoia ou Misticismo, no jornal O Estado de S. Paulo, sobre a exposição de 1916 da jovem Anita Malfatti protagoniza a reação conservadora frente aos primeiros ares do modernismo nacional. Com a avaliação da história, podemos perguntar: será que ele “mal viu”?

[2] Convidada por Mariza Bertoli (in memoriam) para uma mesa-redonda no VII Edição do Fórum Permanente Arte e Cultura da América Latina. O outro lado do muro, em setembro de 2018, no Memorial da América Latina, a missão atribuída a mim era a palestra “Sugestões para pensar e escrever sobre a obra de arte”. O presente texto nasce desta reflexão é uma homenagem a Mariza Bertoli com quem aprendi sobre a militante critica latino-americana.

Um jovem ao observar uma tela de Pollock disse odiar arte.  Por que aquelas cores e respingos de tintas devem ser valorizados? A obra de arte afronta como “o enigma da esfinge”; revela o desconhecimento – e o que “eu não conheço, eu repudio”. Esse duelo entre o jovem e o expressionismo abstrato foi o testemunho de Maria de Lourdes Riobom, historiadora e pesquisadora portuguesa, num congresso internacional. Ela nos deu o insight: a arte exige iniciação, requer estudo, aquisição de repertório. Caso contrário, a obra – a primeira materialidade da arte – expõe a “ignorância” e, simultaneamente, não oferece relações estéticas e políticas para serem usufruídas. Na ausência de afinidades, emerge o ódio e o res(sentimentos).

Há alguns anos, nas salas de aula e em eventos científicos, escutamos indagações interessantes, tais como: o que devo fazer para me tornar um crítico de arte e/ou um curador? No fundo, essa pergunta reverbera em como pensar e escrever sobre arte? Como ser mediador entre artista e público, enfrentando os res(sentimentos)? Desconfio de uma resposta linear sobre isso. Talvez, não haja! Mas, creio que, na essência, a arte ensina a “desaprender” os princípios das obviedades que são atribuídas aos objetos, às coisas.

A primeira camada de “desaprendizagem” vem dos livros, da busca do conhecimento e da análise da escrita da história da arte. Desde antes da virada do século XXI, algumas vertentes da pesquisa em artes têm ganhado força. Nas últimas décadas, a história da arte e a história da arte brasileira vêm sendo reescritas. Apesar da grande produção já existente sobre a história da arte pré-colombiana, latino-americana, asiática e africana, permanecem lacunas na discussão teórica sobre essas vertentes em toda a sua pluralidade. A perspectiva decolonial surge cada vez mais forte nos novos estudos. Porém, os grandes compêndios ainda são necessários para a iniciação. Evidentemente, depois, é preciso fazer uma segunda leitura para desconstruir conceitos embrenhados nesses manuais da História da Arte.

Geralmente, essas publicações estendem-se da arte rupestre à arte contemporânea – numa missão hercúlea. Um dos compêndios mais famosos é História da Arte, escrito por Ernst Gombrich, com sua primeira edição datada de 1950 (já estamos para lá da 16ª. edição), é considerado um trabalho seminal de crítica e de introdução acessível às artes visuais. Sua escrita é cronológica, da pré-história, passando pelos gregos, renascimento até o modernismo e os primeiros ares do pós-moderno. Por isso mesmo, não permite outro caminho que não seja o do entendimento de uma arte linear e evolutiva – sem dúvidas e sem retrocessos. Visto como complemento necessário à História da Arte, o livro de Arnold Hauser, História Social da Arte e da Literatura amplia a abordagem do primeiro. Ele reúne resultados vindos da pesquisa dedicada à sociologia da arte, da música e da literatura, contudo, o ponto central ainda é a arte europeia.

Já Julian Bell, em Uma Nova História da Arte, constrói sua narrativa a partir de parâmetros temporais e dentro desses a arte desenvolvida em diversas fronteiras geográficas. Parece trazer uma nova perspectiva, ao admitir que influências estéticas sejam transpostas do oriente ao ocidente e vice-versa. Porém, o autor usa os termos “civilizações maiores e menores” para distinguir as condições das produções culturais. Nesse sentido, ainda é uma narrativa que não consegue subtrair da arte europeia a hegemonia das criações e técnicas artísticas – o autor ainda vê o eurocentrismo como coluna vertebral da história da arte. Com todos os “poréns” necessários, essas produções são relevantes para pensar a escrita da história e repensar suas perspectivas presentes. Só é possível a desconstrução, quando sabemos o que está edificado.

Revista ArtForum. Foto: Reprodução.

“Com tradição no mercado editorial, revistas internacionais, tais como, Foam Magazine, Artforum e Aínas Magazine, de modo impresso e/ou online, mostram novas propostas e tendências da arte atual…”

As revistas especializadas também são ferramentas nessa “desaprendizagem”; são peças gráficas ágeis que podem nos mostrar o mais emergente das artes visuais. Aqui vale referência às revistas, como a Klaxon, a Acadêmica e a Bellas Artes, entre as décadas de 1920 e 1940, que contribuíram para o debate das artes no ambiente nacional. As grandes e pequenas exposições, as feiras, os grandes eventos, as propostas em desenvolvimento e os novos propositores surgiam e surgem nas páginas periódicas. Nas últimas décadas, temos um mercado editorial brasileiro bastante profícuo para esse tipo de publicação, entre as mais conhecidas, Select, ARTE!Brasileiros e DasArtes. Essas revistas têm em sua equipe articulistas respeitados nos seus respectivos campos de atuação. Elas buscam pautas que possam enriquecer a reflexão sobre o cenário da arte contemporânea.

Ainas Magazine, 3 de setembro de 2018. Foto: Reprodução.

Com tradição no mercado editorial, revistas internacionais, tais como, Foam Magazine, Artforum e Aínas Magazine, de modo impresso e/ou online, mostram novas propostas e tendências da arte atual. São peças gráficas que mostram uma profusão de estilos e imagens que desconcertam o leitor de primeira ordem. O apelo visual é fortíssimo, mas o textual dá o suporte mínimo necessário. As duas primeiras revistas são escritas em inglês e têm articulistas vindos de muitas partes do mundo. Aínas Magazine é a mais nova das revistas abordadas (2001), publicando textos no idioma dos autores convidados: o plano consiste permitir que artistas e críticos pudessem apresentar suas proposições nos seus idiomas originais – uma “Torre de Babel” semântica que, de certo modo, desloca o eixo hegemônico representado pelo idioma inglês. Ao final, a leitura dessas publicações abre novos horizontes: são portfólios, entrevistas e proposições que agitam o “pensar a arte”.

Evoca-se aqui também a leitura dos textos escritos pelos artistas: seus projetos, manifestos, entrevistas e estudos disseminados pelas mídias impressas e digitais. Isto porque a arte nasce da pesquisa técnica e estética; da busca de sentidos desses produtores – que durante o período modernista e ainda mais na atualidade escrevem sobre seus processos criativos e sobre suas preocupações no campo da arte. Somem-se ainda cursos, mesas-redondas, debates e outros eventos que se propõem ao exercício do “pensar a arte”. Esse mergulho proporciona repertório, cria léxico, dá margens e parâmetros e acessa novas experiências.

O contato direto com a obra em exposições, galerias e museus é outra “camada de desaprendizagem” imprescindível. O contato com o objeto artístico provoca, instiga, estimula os sentidos. Retira da ordem pré-estabelecida, sugerindo novos modos de organização da vida e do mundo (e por que não da escrita?). O enigma da obra, que à primeira vista, exige contemplação e provoca medo, nos dá as passagens da memória, do conhecimento e das projeções futuras – ações que acontecem no embate entre a obra e corpo, como nos ensina Merleau-Ponty. Essas passagens fornecem apreensão e percepção do mundo e podem ser traduzidos em escrita de reflexão e de inquirição.

Como último pensamento (mas, sem pretensão nenhuma de desfecho), remete-se ao comentário de Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas: “viver é perigoso… o mais difícil não é ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra”. Escrever e pensar sobre arte é suspender-se a cada tarefa; é o exercício de buscar referências no acervo já existente e atualização das novas propostas que surgem todos os dias – é pegar o ofício pelo “rabo da palavra”.

Referências:

GOMBRICH, E. H. A História da arte. Rio de Janeiro: LTC, 2000.

HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura, São Paulo: Martins Fontes, 2000.

BELL, Julian. Uma nova história da arte. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

n° 55 – Ano XVIII – Setembro de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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