n° 51 – Ano XVII – Setembro de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Destaque

Quando a arte não tem fronteiras

A Bienal Internacional de Curitiba realizada em 16 cidades da América do Sul e a participação da UDESC em integrar Santa Catarina na rota internacional de arte contemporânea incentivam artistas de todo o Brasil

Sandra Makowiecky, Juliana Crispe e Francine Goudel – ABCA /Santa Catarina e UDESC

A história da Bienal de Curitiba e o POLO SC:  Memórias são importantes para uma história que veio para ficar.

Anualmente, a ABCA realiza Jornadas de debates com o intuito de reunir importantes críticos de arte e pesquisadores, para refletirem sobre problemáticas da área. Com o título Gestores e críticos: interfaces, a Jornada ABCA 2016 foi realizada no Museu da Escola Catarinense, em Florianópolis, em uma iniciativa da Regional Sul da Associação Brasileira de Críticos de Arte. Os objetivos do evento estiveram direcionados à abertura de uma profícua interlocução entre gestores de instituições atuantes no campo das artes visuais no País com foco nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Em uma das mesas do evento, contou-se com a participação de Luiz Ernesto Meyer Pereira, presidente da Bienal de Curitiba, que apresentou as diversas atividades da Fundação, que incluem mostras de arte e atividades paralelas. Em uma declaração otimista, destacou que esforços institucionais coletivos e práticas colaborativas são caminhos a serem percorridos, pois acredita muito no trabalho em grupo.

Ao final do evento, após percorrer as instalações do museu, Luiz Ernesto se dirigiu à Sandra Makowiecky, consultando sobre uma eventual participação do espaço para sediar uma mostra da Bienal em 2017. Imediatamente a proposta foi aceita.

No início do ano de 2017, veio a confirmação e Sandra Makowiecky estende o convite para Francine Goudel e Juliana Crispe, que aceitaram e logo começaram a construção desse processo. As atividades da Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba no ano de 2017 se realizaram no Museu da Escola Catarinense e na Fundação Cultural Badesc. No ano de 2019, expandiram-se de forma intensa. Foram distribuídas em oito espaços expositivos na cidade de Florianópolis, e, na avaliação de muitos, é o mais importante trabalho de mobilização artística já acontecido em Santa Catarina.

Juliana Crispe, Sandra Makowiecky e Francine Goudel, curadoras e organizadoras da 13ª e 14ª Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba – POLO SC. Foto: Juliana Crispe.

Uma mobilização muito grande com equipe mínima, patrocínios e apoios mínimos, mas desejo máximo de colocar Santa Catarina na rota internacional de arte contemporânea e de dar visibilidade à produção que se realiza no estado, por sinal, de excelente qualidade.

A proposta do grupo curatorial em SC sempre foi privilegiar artistas que produzem em Santa Catarina. Tal estratégia está se mostrando exitosa com uma enorme coesão dos artistas que, mobilizados, reconhecem o trabalho realizado e se sentem representados, pois as possibilidades de participação tanto em 2017 quanto em 2019, sempre incluíram representações de diversas regiões do Estado.

No ano de 2019, tivemos mais um motivo de entusiasmo. Juliana Crispe foi contemplada com o Prêmio Jovens Curadores 2019 pela Bienal de Curitiba, reconhecimento por sua trajetória como pesquisadora e pelos projetos que já realizou. Trabalhando há doze anos como curadora, Juliana já realizou mais de 100 projetos curatoriais. Ao falar sobre a premiação, ela ressalta que o prêmio potencializa o que é produzido no estado em contexto nacional e internacional. Para Juliana, o prêmio é como desdobramento de um trabalho que já faz há muitos anos, de dar voz a um maior número possível de artistas de distintas gerações. Juliana Crispe e Francine Goudel também administram o Espaço Cultural Armazém – Coletivo Elza, criado em 2016 da união de um coletivo de mulheres de diferentes profissões, em um ambiente que serve como uma plataforma propulsora de ações voltadas ao cuidado e fortalecimento de mulheres e crianças, com foco na ampliação do acesso da comunidade à cultura, assim, produzindo visibilidade aos artistas catarinenses.

Juliana Crispe. Prêmio Jovens Curadores Bienal Internacional de Curitiba 2019. Foto: Rodrigo Sambaqui.

“Fronteiras em Aberto, tema central da 14ª Bienal Internacional de Curitiba, investiga a noção de fronteira em sentido ampliado, pela concepção dos curadores Adolfo Navas e Tereza de Arruda…”

A Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba encontra-se em sua 14ª edição e está sendo realizada em 16 cidades de países da América do Sul, Europa e Ásia. No Brasil, além de Curitiba, Londrina, Maringá, Cascavel, Ponta Grossa, Florianópolis, São Paulo e Brasília recebem exposições da Bienal. Fora das fronteiras do nosso País, participam as cidades de Assunção (Paraguai), Montevidéu (Uruguai), Buenos Aires e Rosário (Argentina), Paris (França), Bruxelas (Bélgica), Roma (Itália) e Chengdu (China).

Fronteiras em Aberto, tema central da 14ª Bienal Internacional de Curitiba, investiga a noção de fronteira em sentido ampliado, pela concepção dos curadores Adolfo Navas e Tereza de Arruda. O conceito sugere algo em expansão, uma fronteira que já não pertence apenas ao território, à geografia política.

Segundo os curadores, “nossa época vive um grau de incerteza tal que as noções físicas e simbólicas de local, lugar, fronteira têm sofrido uma grande erosão e transformação, para o bem e para o mal. Agora já sabemos que há fronteiras reais e também invisíveis que se contradizem e estabelecem litígios nada pacíficos. Que a fronteira pode ser várias coisas ao mesmo tempo”.

“Além de exposições o Polo SC da 14ª Bienal de Curitiba traz 19 produtos culturais, apresentações e propostas que permeiam as linguagens da performance, música, literatura, artes cênicas, áudio visual…” 

Em Florianópolis, a 14ª Bienal de Curitiba organiza o POLO SC da edição, que realiza uma grande panorâmica do cenário de produção atual de Artes Visuais no estado, ofertando 23 exposições coletivas e individuais, em oito espaços expositivos da cidade, que configuram suas propostas dentro do tema conceitual da edição: “Fronteiras em aberto”.

Além de exposições o Polo SC da 14ª Bienal de Curitiba traz 19 produtos culturais, apresentações e propostas que permeiam as linguagens da performance, música, literatura, artes cênicas, áudio visual, e que integraram a programação dentro do evento MULHER ARTISTA RESISTE, realizado no mês de agosto de 2019 no Espaço Cultural Armazém – Coletivo Elza.

Também dentro da programação acolhemos outras exposições que estariam acontecendo na mesma época nos espaços-sedes da Bienal em Florianópolis, baixo o subtítulo FRONTEIRAS COLABORATIVAS. Este procedimento teve o intuito de dar visibilidade a propostas já firmadas nos locais, no sentido de contribuir conceitualmente com a noção das Fronteiras em Aberto.

A curadoria da Polo SC da 14ª Bienal de Curitiba, composta por Francine Goudel, Juliana Crispe e Sandra Makowiecky, desenvolveu uma programação de julho a dezembro de 2019, em oito espaços expositivos da capital catarinense, acreditando que a proposta no estado possa gerar um intercâmbio entre os países sede, promover a profissionalização do setor artístico, bem como a visibilidade dos artistas que aqui produzem e as instituições que fomentam tal produção.

PÁGINAS AVULSAS, de Clara Fernandes – FRONTEIRAS COLABORATIVAS

As obras da exposição Páginas Avulsas, da artista Clara Fernandes, estão em processo desde 2001. Nesta mostra Clara trama entre materialidade, linguagem e conceito, relações temporais que se perfuram, criando ressignificações no agora.

Na leveza das páginas, Clara incorpora o papel de narradora que recebe matérias e lança-as em movimento, disparando diferenças, devolvendo o que recebe em histórias abertas, fluídas.

Vista da exposição Páginas Avulsas, de Clara Fernandes. MASC, 2019. Foto: Marcio Martins.

O ARTISTA VECCHIETTI EM COLEÇÃO, de Pedro Paulo Vecchietti, curadoria de Clara Fernandes – FRONTEIRAS COLABORATIVAS

O artista Pedro Paulo Vecchietti (1933-1993), tinha em casa a influência do pai cartógrafo, designer de publicações, em uma época onde o processo gráfico era realizado de maneira artesanal. Desta herança gráfica e por influência da história da arte e da emergente vanguarda brasileira da Nova Tapeçaria Moderna, Vecchietti buscou na tapeçaria uma linguagem para seu pensamento. Entre os anos de 1991 e 93 trabalhou na reprodução das Vinhetas em tear manual no atelier da artista Clara Fernandes. O artista Vecchietti em coleção é uma mostra que seleciona as peças que contam essa trajetória.

Vista da exposição O artista Vecchietti em coleção, de Pedro Paulo Vecchietti. MASC, 2019. Foto: Marcio Martins.

NINGUÉM CONSEGUE SEGURAR O AR, de Fran Favero, curadoria de Francine Goudel, Juliana Crispe e Sandra Makowiecky

A exposição de Fran Favero experimenta as aproximações e atravessamentos possíveis entre paisagem, corporeidade e linguagem no território de fronteira. Esse processo se dá sob a influência da condição fronteiriça, da margem, que transcendem a tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, alcançando outras falas, escritas e escutas.

Apresenta vídeos, fotografias, trabalhos sonoros e outras proposições que acionam fluxos por entre orlas e palavras memoriosas e fronteiriças.

Still do vídeo Duas margens, 2019, de Fran Favero. Foto: Divulgação.

MULHER ARTISTA RESISTE, Organização de Francine Goudel, Gika Voigt, Juliana Crispe e Virginia Vianna

MULHER ARTISTA RESISTE pretende reafirmar o que historicamente os livros e os arquivos apagaram. Traz produções realizadas por mulheres de diferentes áreas de atuação que pretendem falar de arte, mas também pensar a amplitude de nossos espaços e Políticas Públicas para as Mulheres.

Durante o mês de agosto de 2019, distintas linguagens entre artes visuais, artes cênicas, dança, música, literatura se juntam para pensar o que é produzido por mulheres e como um organismo vivo, com 19 ações programadas para o evento

Participantes: Liniker, DJ Lê Bafão, La Leuca, Mulamba, Fernanda Magalhães, Luciana Petrelli, Coletivo de mulheres Abrasabarca, Cores de Aidê, Fatto a Femme, Kia Sajo, Roseli Pereira, Virginia Vianna, Marília Amaral, Ale Mujica Rodríguez, Carmen Lucia. Dandara Manoela, Camila Durães, Ida Mara Freire, Gika Voigt, Ana Paula da Silva, Lilian Amaral, Bia Santos, Luciana Bortoletto, Clarisse Tarran, Mônica Galvão, Sissy Eiko, Suzete Venturelli, Regina Carmona, Ana Teixeira, Kika Nicolela, Maribel Domenech, Elisa Lozano, Patricia Escario Jover, Pepa lopez Poquet, Carmen Marcos, Amparo Carbonell Tatay, Dolores Furió Vita, Mª Ángeles López, Marina González,Teresa Marín, Anja Krakowski,  Elia Torrecilla, Cristina Ghetti, Laboluz e Sandra Alves.

Apresentação de Cores de Aidê. Praia do Sambaqui, 2019. Foto: Francine Goudel.

ILHAS DE FORÇA, de Luciana Petrelli, curadoria de Juliana Crispe

Ilhas de Força se constitui como uma série fotográfica iniciada pela artista Luciana Petrelli em 2016, que se desdobra em outros meios como vídeo, instalação, performance. Nesta série, realizada e performada em parceria com a banda Mulamba, Luciana afirma a forma e a beleza em ser resistência através do elemento da pedra. Entre a força da natureza e as relações do mineral e outros elementos como a água, a pedra repete-se como fonte que perturba e resiste, reinventa territórios e desestabiliza fronteiras.

Da Série Ilhas de Força, 2017, de Luciana Petrelli. Colagens de lãs e cordas sobre impressão em lona, 110x165cm. Foto: Divulgação.

GRASSA CRUA, de Fernanda Magalhães, curadoria de Juliana Crispe

A performance Grassa Crua, de Fernanda Magalhães, propõe uma série de ativamentos do corpo da mulher gorda e suas relações com o espaço, nos movimentos de outras mulheres e outros corpos presentes em audiência. Fernanda faz repensar os corpos em confinamentos, as exclusões possíveis, as vaidades, formatações, ilusões, frustrações, desejos, movimentos, espaços de poder, potências e liberdades. Uma fala de si que se conta pelo outro e pelo encontro com o outro.

Performance Grassa Crua, de Fernanda Magalhães. Espaço Cultural Armazém – Coletivo Elza, 2019. Foto: Tainá Bernard.

EXTRAVIOS, de Lela Martorano, curadoria de Francine Goudel – FRONTEIRAS COLABORATIVAS

Entre as fronteiras de água e terra, os naufrágios são, por excelência, parte constituinte do imaginário e história de países litorâneos. O naufrágio é a imagem dos que não chegaram, dos que em extravio não escreveram a história e configuram um fantasma de possibilidades futuras. Através da exploração e manipulação de arquivos fotográficos antigos, Lela cria uma instalação que possibilita a ativação de um imaginário coletivo, que ativam a noção de reconhecença e sinalizam o território poético e amargo do desaparecimento.

Vista da exposição Extravios, de Lela Martorano. Galeria de Arte Pedro Paulo Vecchietti, 2019. Foto: Francine Goudel.

ÍNDICE, de Sérgio Adriano H, curadoria de Francine Goudel, Juliana Crispe e Sandra Makowiecky

A exposição Índice de Sérgio Adriano H toma este termo para travar uma dialética com o significado do glossário e os objetos ressignificados na mostra. Índice quer dizer uma lista, alfabética, que inclui todos ou quase todos os itens que se consideram de maior importância, refere-se a algo indicador, um registro, o “Índice” de Sérgio reúne livros e outras materialidades que fazem parte da formação de uma consciência histórica brasileira, evidenciando a erosão entre as fronteiras propostas: o ocultamento/desvelamento do negro como produtor e partícipe da construção de nossa história.

Guia dos Bens Tom_Ados do Brasil II, 2018, de Sérgio Adriano H. Mapa formado com recorte 526 páginas do livro Guia dos Bens Tombados do Brasil | 2/10, 20x20x3,5cm. Foto: Divulgação.

INVENTÁRIO, de Beatriz Rodrigues, curadoria de Gustavo Reginato – FRONTEIRAS COLABORATIVAS

Através do suporte da fotografia, que logo ultrapassa a linguagem e traslada para escultura e instalação, o “inventário” de Beatriz Rodrigues nos apresenta imagens de fragmentos de uma história em ruína. A artista durante mais de 10 anos coletou imagens e materiais de ruínas, buscando entender e problematizar a noção do cuidado humano com o patrimônio arquitetônico.

Estruturas de sustentação, 2019, de Beatriz Rodrigues. Fotografia em papel vegetal, 85x120cm. Foto: Divulgação.

RIO ENGANO, de Raquel Stolf e Helder Martinovsky – FRONTEIRAS COLABORATIVAS

A exposição apresenta uma instalação construída em parceria entre a artista Raquel Stolf e o artista Helder Martinovsky, que desde 2016 estabelecem uma relação com o Rio Engano, localizado na cidade de Angelina e respectivamente na cidade de Alfredo Wagner, em Santa Catarina. A mostra é composta em três trabalhos, o primeiro chama-se “rio Engano”, uma projeção de um filme em 16mm, que apresenta as margens e fluxos dos dois rios. O segundo uma proposição sonora e textual de Raquel Stolf, chamada “sou toda ouvidos”, que utiliza as redes de telefonia como um canal de intercâmbio entre falas e escutas ou impossibilidade de conversação. Por fim, “estudos de rios” apresenta fotografias em PB, de Helder Martinovsky, sobre a pesquisa.

Rio Engano, 2016, de Helder Martinovsky e Raquel Stolf. Foto: Divulgação.

CONVERS[A]TIVA, de Priscila Costa Oliveira – FRONTEIRAS COLABORATIVAS

A exposição CONVERS[A]TIVA é em sua essência um espaço de proposição de conversa. Através de oito encontros com artistas, Priscila delimita e propõe espaços de fala e escuta, silêncio e som, baixo alguns títulos designados. O público é peça chave na ação, ele é incitado e convidado a participar de forma ativa, transformando-se ao final em parte do trabalho.

Abertura da exposição CONVERS[A]TIVA, 2019, de Priscila Costa Oliveira. Foto: Divulgação.

FRONTEIRAS EM ABERTO, de Adriana Mdos Santos, Alejandro Lloret, Aline Dias, Andrea Eichenberger, Andressa Argenta, Andrey Roca, Anna Moraes, Atomic Shadows Art (Marco Ramos e Olavo Kucker), Claudia Zimmer, Coletivo Inço (Diana Chiodelli e Audrian Cassanelli), Cristina Brattig Almeida, Cyntia Werner, Diego Rayck, Dirce Körbes, Dora Naspolini, Elke Hulse, Fabio Dudas, Fê Luz, Flávia Duzzo, Gustavo Reginato, Henry Goulart, Ilca Barcellos, Isadora Stähelin e Sofia Brightwell, Jairo Valdati, Jan M.O, Janaina Corá, Janor Vasconcelos, João Miot, José Maria Dias da Cruz, Kellyn Batistela, LaÏs Krücken, Leandro Jung, Leandro Maman, Leandro Serpa, Lena Peixer, Letícia Cardoso, Lilian Barbon, Lucila Horn, Marivone Dias, Marta Facco, Marta Berger, Martha Ozol, Odete Calderan, Patricia Di Loreto, Ricardo Ramos, Rosane Cechinel, Rosangela Becker, Sara Ramos, Sarah Uriarte e Kim Coimbra, Sebastião G. Branco, Simone Milak, Sofia Brito, Sonia Loren, Tarcisio Ullrich e TiroTTi, curadoria de Francine Goudel, Juliana Crispe e Sandra Makowiecky

Através de uma chamada aberta aos artistas que nasceram ou que vivem e produzem em SC, a mostra busca evidenciar o conceito que investiga a noção de fronteira em sentido ampliado.

Embora não se trate de um Panorama clássico, esta coletiva apresenta a particularidade de colocar em mostra uma visão ampliada da produção que se dispôs a se inscrever na chamada e foi selecionada através de uma comissão composta por Francine Goudel, Juliana Crispe, Sandra Makowiecky, Daniele Zacarão, Franzoi, Fernando Boppré e Susana Bianchini, no intuito de abranger um cenário de reconhecimento ampliado do estado.

O resultado é a ocupação de quatro grandes salas do MASC, que evidenciam trabalhos que transitam entre as relações de fronteiras na paisagem, na geografia, na política, no corpo e na subjetividade, evidenciando também artistas estabelecidos e em processo inicial de carreira, bem como provindos de distintas cidades do estado.

Vista da exposição coletiva Fronteiras em Aberto. MASC, 2019. Foto: Marcio Martins.

FARDO, de Diego de los Campos, curadoria de Francine Goudel, Juliana Crispe e Sandra Makowiecky

Uma única instalação compõe a exposição de Diego de los Campos. A obra que leva o mesmo título da mostra, trata-se de uma máquina. Como uma alusão ao movimento dos títeres, o corpo se adapta à vontade da máquina, que dita a ordem de ação e inércia. “Fardo”, busca evidenciar as fronteiras invisíveis que as máquinas, em sua ampla escala e conceito, definem o movimento e quietude do homem, entre leveza, peso, aprisionamento e condição.

Fardo, 2019, de Diego de los Campos. Foto: Divulgação.

DEPOISANTES, de Fernando Lindote, curadoria de Francine Goudel, Juliana Crispe e Sandra Makowiecky

De criação do próprio artista, o termo “depoisantes”, trata da relação entre as fronteiras do tempo. Entre origens e possíveis sucessões, a questão posta por Fernando Lindote demarca uma reflexão sobre o sentido de procedência, a gênese e expansão da história da arte, literatura, filosofia.

Na fatura precisa e intencional, o artista elabora seu conceito em pinturas que mostram, à primeira vista, uma exuberante flora e fauna. “Depoisantes” trata de um movimento engenhoso onde a história da arte inicia nos trópicos, depois da própria história da arte.

A Imperatriz Antropófaga, 2017, de Fernando Lindote. Óleo sobre tela, 150x140cm. Coleção Jeanine e Marcelo Collaço Paulo. Foto: Isaias Martins.

DES-TEMPO, de Meg Tomio Roussenq, curadoria de Juliana Crispe – FRONTEIRAS COLABORATIVAS

Des-tempo propõe, através da mostra e relação entre uma pintura da artista, do ano de 2003, pertencente ao acervo do MASC, e três novas séries de 2018-2019, dialogar sobre seu processo matérico, bem como sobre camadas da memória.

No diálogo com o passado, Meg flexiona imagens e relações entre vida e morte, entre carne, afecções, em processo de (de)composição do que somos; entre a realidade e a ficção, em uma arquitetura que compõe vários planos.

Detalhe da obra Informes, 2018, de Meg Tomio Roussenq. Óleo sobre madeira, 80x110cm. Foto: Divulgação.

PANORÂMICAS DO DESEJO, de Ana Sabiá, curadoria de Francine Goudel, Juliana Crispe e Sandra Makowiecky

A exposição propõe o diálogo entre imagens reais e construções oníricas, que perpassam os devaneios, sonhos, vigílias e delírios que se desenrolam a partir de acontecimentos cotidianos, tanto composto de banalidades como, também, de eventos extraordinários que esbarram no processo artístico de Ana Sabiá nas fronteiras entre real e imaginário. Através da parceria com o artista Antonio Colangelo, Panorâmicas do desejo propõe além das imagens um Soundscape criado pelo artista, que busca na sua relação com a paisagem e as estações do ano em sua cidade a construção do som que ambienta a instalação.

Vista da exposição Panorâmicas do Desejo, da artista Ana Sabiá. Galeria Municipal de Arte Pedro Paulo Vecchietti, 2019. Foto: Marcio Martins.

FLORESTAS, de Juliana Hoffmann, curadoria de Juliana Crispe

Na experiência da floresta o homem está apenas como expectador, observador passivo. Quando este se torna agente de transformação dos meios naturais, a natureza deixa de ser produto cultural a ser contemplada para torna-se uma variante artificial. Estes fatores são questões que perpassam pela exposição Florestas, de Juliana Hoffmann. Fronteiras entre a vida e a morte, o real e o artificial, o existir e o não existir.

Da Série “The Surviving Forest”, de Juliana Hoffmann, 2019. Técnica mista sobre tela, 110x150cm. Foto: Divulgação.

ALMACORPOMARTERRA , de Franzoi, curadoria de Juliana Crispe

Diferença e repetição parecem ser forças geradoras no conjunto das obras de Franzoi. Suas performances implicam ter um pedaço de si no outro e um do outro em si; instala-se um entre nesse corpo-paisagem. O corpo ausente permanece como memória, como impressão, como resquício. Há um certo tipo de toque que não toca, está em plena deriva, e escapa.

Em almacorpomarterra Franzoi relaciona-se com a paisagem do local das performances. As ações dialogam com mar e terra, o ambiente da Praia do Sambaqui em Florianópolis e o Espaço Cultural Armazém – Coletivo Elza, como um site specific para as relações fronteiriças entre corpo e alma, presença-ausência, espaço e ambiência.

Still do vídeo registro da performance Almacorpomarterra, 2019. Praia do Sambaqui, Florianópolis. Foto: Divulgação.

RUDIS MATERÌA, de Marilyn Green, Susan Mckinley, Peter Lindenberg, Dagmar Diekmann, Yara Guasque, Rubens Oestroem, Sandra Favero, Juliana Hoffmann e Tom Drake Bennett, curadoria de Francine Goudel, Juliana Crispe e Sandra Makowiecky

A exposição propõe colocar à mostra o diálogo de produções contemporâneas de nove artistas entre Brasil e Alemanha. O intercâmbio, estabelecido desde o início de 2019, possibilitou o encontro das pesquisas, as junções dos processos criativos que tratam das fronteiras entre o princípio bruto da forma, entre técnica e transformação da matéria.

Nesta, o processo de pesquisa da forma das obras apresentadas em Rudis Materìa ensaia a poética bruta e lírica da matéria.

Detalhe da obra Da série Pelas peles, pelas penas, pelos pelos, 2002, de Sandra Favero. Impressões xilográficas sobre papel sulfurizê, 51x138cm. Foto: Divulgação

INTERSECÇÕES COM A PAISAGEM, de Bento Ribeiro B`Ro, Bianca Scliar e Lab. Ei. Laboratório de Ensaios e Imprevistos, Bruna Ribeiro, Caio Villa de Lima, Carla Linhares, Carol Garlet, Coletivo Dual (Alê Abreu e Álvaro H. Fieri), Cristina Luviza Battiston, Diana Chiodelli, Evandro Machado, Gabriel Guaraciaba, Manuela Valls, Marcos Serafim, Steevens Simeon e Zé Kielwagen, Marcos Walickosky, Osmar Domingos, Silvana Leal, Vanessa Neuber, Violeta Sutili e Wladymir Lima, curadoria de Francine Goudel e Juliana Crispe

A exposição coletiva de vídeo-arte Intersecções com a Paisagem propõe apresentar e problematizar dentro do campo artístico as diversas possibilidades da paisagem na contemporaneidade.

A proposição trata-se da 3ª edição da mostra idealizada por Juliana Crispe e que neste marco da 14ª Bienal de Curitiba – Polo SC foi concebida em uma chamada direcionada aos artistas que nasceram ou vivem e produzem em SC, com objetivo de democratizar o acesso e dar visibilidade a vídeo-arte que se produz no estado. A exposição foi idealizada para o espaço O Sítio – Arte e Tecnologia, em Florianópolis, que privilegia a produção artística ligada aos processos tecnológicos.

Still do vídeo Casa <-> Movente I, 2016, de Diana Chiodelli. Foto: Divulgação.

PROJETO GURBAH, de Adel Alloush, Silvana Macêdo e Yara Osman, curadoria de Francine Goudel, Juliana Crispe e Sandra Makowiecky

Projeto Gurbah é uma mostra-instalação idealizada pela artista brasileira Silvana Macedo em parceria com os refugiados sírios Yara Osman e Adel Alloush, que busca explorar as fronteiras conceituais e sentimentais da questão e da situação da migração.

Gurbahem, em árabe, é um termo complexo de se traduzir para o Português. Segundo Yara e Adel, seu significado seria algo como “saudade de seu local, e profunda falta de algo importante, acompanhado por um doloroso sentimento de estranhamento e desejo por algo familiar essencial ao seu bem-estar”. Explora, dessa forma, a ideia da fronteira invisível das culturas em seu encontro, permeando as relações sentimentais, emocionais e físicas dos indivíduos que se lançam na experiência do viver fora do seu local de origem.

Still do vídeo Gurbah Gurbah, 2019, de Adel Alloush, Silvana Macêdo e Yara Osman. Foto: Divulgação.

IDÍLIOS CÓSMICOS, de Meyer Filho e Kelly Kreis, curadoria de Francine Goudel, Juliana Crispe e Sandra Makowiecky

Meyer Filho, considerado um dos importantes artistas modernos de SC, criou em 1950 a primeira pintura fantástica que se tem conhecimento. Na contramão da produção vigente no eixo Rio-São Paulo, entre 1950 a 80, porém expondo nestas cidades, Meyer deixa para a história da arte brasileira uma potente produção de imagens de seres híbridos, resultantes de uma vigorosa imaginação. Por sua vez, Kelly Kreis, artista contemporânea, cria seres híbridos em 2007. Dois artistas separados pelo tempo, mas unidos pelo cosmos. A exposição trata de uma relação entre fronteiras abertas de sonhos, devaneios e realidades que permeiam nossas relações com seres animados e inanimados, no imenso cosmos.

Feiticeiros Cósmicos, 1972, de Meyer Filho. Acrílica sobre Eucatex, 60x68cm. Foto: Divulgação.

DES(E)POEMAS, de Carlos Asp, curadoria de Francine Goudel e Juliana Crispe

Em novembro de 2019, o artista Carlos Asp completa 70 anos de vida e muitas décadas de dedicação ao seu processo criativo. Des(e)poemas é uma exposição que propõe pensar e celebrar uma vida dentro da arte, pronunciar sobre a fronteira do tempo, sobre a existência desse artista nômade de personalidade ímpar, artista-fractal.

Des(e)poemas apresenta 70 obras para celebrar cada ano de sua existência, por obras que se realizam  em um processo de pulsão, que retiram de seu cotidiano, da poesia visual colhida pelo artista, aproximação entre arte e vida.

ART SC, 2019, de Carlos Asp. Lápis de cor sobre bula de remédio, 22x56cm. Foto: Divulgação.

A NOÇÃO DE UM TODO CONSTRUÍDO EM PARTES, de Matheus Abel, curadoria de Juliana Crispe – FRONTEIRAS COLABORATIVAS

Em gesto processual que transborda e contamina as fronteiras entre desenho e palavra, Matheus Abel investiga a noção de um todo construído em partes, que se dá por operações que surgem de esquemas/mapas/diagramas. Os diagramas de Matheus se esbarram, provocando mobilidades, derivas, flâneurs nas cartografias dos esquemas-partes-de-um-todo.


Mapa/esquema/diagrama, 2018, de Matheus Abel. Caneta sobre papel, 29x21cm. Foto: Divulgação.

COSMOGRAFIAS ATEMPORAIS, de Amanda Melo da Mota, curadoria de Juliana Crispe.

Em residência artística no Coletivo Elza, a artista desenvolve desde 2017 um processo que busca e reflete as relações estabelecidas na cidade, com o coletivo e com os eventos de observação dos solstícios e equinócios que são realizados nos sítios arqueológicos e monumentos megalíticos da ilha.

A pesquisa de Amanda investiga um dos mais ricos acervos rupestres do planeta, contendo 65 sítios arqueológicos com centenas de inscrições e dezenas de pedras orientadas. Mapeia os tempos e por eles perfura o passado, devolvendo-o ao presente, nessa investigação que parte também de ações performáticas realizadas pela artista.

Mono-marco, 2018, de Amanda Melo da Mota. Fotografia, 50x80cm. Foto: Divulgação.

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