Artigo

Qual é a sua cruz?¹

Exposição coletiva de artistas do centro-oeste brasileiro até 30 de março no Museu de Arte Sacra de São Paulo (Sala MAS/Metrô Tiradentes), composta por 70 cruzes. A curadoria é de  Daisy Estrá [2] com a organização de Gervane de Paula[3].

Laudenir Antonio Gonçalves – ABCA/Mato Grosso

Gervane de Paula, sem título, 2016. Foto: Marcelino Eloy Delminio.

Em tempos de pandemia, Qual é a sua cruz? é um inquietante e sugestivo nome para esta exposição coletiva que segue até o dia 30 de março, no Museu de Arte Sacra de São Paulo (Sala MAS/Metrô Tiradentes), composta por 70 cruzes elaboradas por 50 artistas do centro-oeste brasileiro.

“A coleção constrói uma narrativa imagética que acaba sendo sintética de uma das regiões mais ricas culturalmente do Brasil. (…) Materiais inusitados como chifres, couro de boi, casco e ossos de animais, pedras, cerâmica, lata, borracha, tecido, plástico e tantos outros materiais dialogam entre si, formando uma complexa rede de símbolos e signos. Essa polifonia em diálogo revela a identidade artística da região”, explica a curadora Daisy Estrá.

Cabe esclarecer que esta coleção é oriunda de um projeto original do artista Gervane de Paula denominado “Mundo Animal – uma provocação”, que foi contemplado com o Prêmio Funarte – Conexão Circulação Artes Visuais, edital 2016/2018, Ministério da Cultura/Fundação Nacional de Arte, e que circulou pelas cidades de Cuiabá, Cáceres e Rondonópolis (MT), Belo Horizonte (MG) e Campo Grande (MS). O artista também foi indicado ao prêmio PIPA – A janela para a Arte Contemporânea Brasileira, em 2018, iniciativa do Instituto PIPA e Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro; em 2019, suas obras foram expostas no 36° Panorama da Arte Brasileira: Sertão, Museu de Arte Moderna de São Paulo.[4]

Segundo Aline Figueiredo, “o turbilhão criativo que anima Gervane que, sem sossego e sem perder o fôlego, produz centrado e irreverente nas suas ideias, quase sempre são levadas a cabo, ou seja: ao pé da letra. Aliás, levar a pintar, figurar ou plasmar a ideia ao pé da letra, ou a ideia/palavra, sempre foi o forte ponto de partida criativa em Gervane e em Adir Sodré, desde quando, juntos, respectivamente com 16 e 15 anos, freqüentavam o Ateliê Livre da Fundação Cultural, lá nos idos de 1976, acompanhados por Dalva de Barros e quando também bebiam nas fontes de João Sebastião e Humberto Espíndola”.[5] Os artistas citados acima são homenageados nesta instalação.

“A arte de Gervane de Paula é provocativa, incisiva, política, inovadora e propositiva. Desenha, pinta, esculpe, faz objetos artísticos e realiza grandes instalações, obras autobiográficas e performances…”

Gervane de Paula completou 60 anos de idade, portanto, trabalha há mais de 40 com artes visuais, sem dar tréguas e sempre inovando em suas criações. Teve sua inserção no cenário nacional com a mostra coletiva “Brasil Cuiabá – Pintura Cabloca” em 1980, que percorreu as principais capitais brasileiras; em 1984, participou da exposição “Como Vai Você, Geração 80?”, organizada por Marcus Lontra e Paulo Roberto Leal, realizada na Escola de Artes Visuais, no Parque Lage, no Rio de Janeiro. Essa exposição revelou artistas de várias regiões do país, entre eles Daniel Senise, Leda Catunda, Beatriz Milhazes, Ana Maria Tavares, entre outros e muitos já faleceram.

Gervane de Paula, Homenagem à “Geração 80”, 2016. Foto: Marcelino Eloy Delminio.

A arte de Gervane de Paula é provocativa, incisiva, política, inovadora e propositiva. Desenha, pinta, esculpe, faz objetos artísticos e realiza grandes instalações, obras autobiográficas e performances.  É importante destacar que o artista sempre escreve frases contundentes em suas obras, criadas por ele mesmo, ou retiradas de autores consagrados que admira, ou cria paródias, como, por exemplo, “Arte Aqui eu Mato”, um trocadilho com o nome do livro “Arte aqui é mato”, da crítica de arte mato-grossense, Aline Figueiredo. Esse trocadilho expandiu-se por muitas obras e fases do artista, e uma delas foi apresentada no 36º Panorama da Arte Brasileira; esta referida obra foi produzida com tinta a óleo sobre chapa de ferro, de 92 x 65 cm, com a expressão “Arte aqui eu Mato” escrita na parte superior da chapa e, abaixo, vê-se a figura de um caçador que caminha pela mata adentro, verde, com a espingarda apoiada no ombro, carregando em suas costas uma onça pintada morta. Esta obra teve tanta repercussão no “Panorama” e na imprensa que acabou se transformando na capa da Revista ARTE!Brasileiros, edição 48, publicada em 24/09/2019.

Na presente instalação, vários recados também estão escritos nas cruzes. Cada criador forjou sua criação à sua maneira. Segundo depoimento do artista, “Sofram comigo, vamos dividir esta cruz” (da qual, após um recorte, surgiu a instalação “Qual é a sua cruz?”) começou a ser montada há uns anos atrás, quando ele passou “por alguns momentos difíceis, de puro sofrimento mesmo [6], quando fez a primeira cruz.

No processo de construção da instalação, o artista produziu dezenas de cruzes e saiu distribuindo para os amigos, colegas de profissão, artesãos, artistas amadores e escritores para colaborar com a sua obra, para dividir o seu sofrimento. A obra passou a ser coletiva, criou novas potencialidades. Dessa forma, a cruz deixou de atuar apenas no domínio religioso e se expandiu, ressignificou-se por outros territórios, fragmentados, vastos e democráticos, laicos e profanos. Mesmo em suas exposições individuais, o artista sempre convida “companheiros de luta” para colaborar na construção de alguma obra coletiva, porém, sempre com a temática definida por ele.

E assim, a cruz ganhou novas representações, com interpretações diversas e inusitadas, porém, a maioria das cruzes é de autoria do próprio artista.  E o artista forjou/utilizou e criou cruzes específicas em homenagem a amigos e a artistas, nacionais e internacionais, que influenciaram em sua formação, e que, por isso, merecem serem citados. É o caso de Keit Haring, que influenciou no desenvolvimento do grafite na década de 1980, em Nova York; Jean Michael Basquiat, Andy Warhol, Robert Rauschenberg[7] e Humberto Espíndola, entre outros.

Homenageou também os amigos que colaboraram com esta instalação, mas que faleceram durante o processo de criação. São eles: João Sebastião Costa, Roberto de Almeida, Nilson Pimenta e, mais recentemente, Benedito Nunes, Adir Sodré e Wladimir Dias Pino – criador do símbolo da Universidade Federal de Mato Grosso[8] e que, junto com Álvaro de Sá, criou o “poema-processo”, em 1967, que renovou a linguagem poética no Brasil e no mundo.

Gervane de Paula, Homenagem a Wladimir Dias Pino, 2016. Foto: Marcelino Eloy Delminio.

“Há muitas interpretações sobre este simples signo, composto por duas retas que se cruzam e, neste caso, a cruz passa a ter quatro lados, o número 4, o quadrado, a direção humana para poder caminhar na direção dos pontos cardeais…”

O tema da exposição “Qual é a sua cruz?” é uma pergunta feita diretamente ao público e que pode impactar e provocar as mais diferentes leituras e reações, ou seja, pode ser sentida como um “soco direto no estômago” ou, ao contrário, pode provocar momentos de “sublimação e de religiosidade”, entre outros, devido à complexidade simbólica deste simples sinal. Historiadores afirmam que esse símbolo é conhecido “desde quase 5.000 anos antes de Cristo, no Irã (Babilônia), na China, no Egito e na América Pré-Colombiana, são dois braços (vertical e horizontal) que se cruzam no centro e prolongam-se para o infinito”.[9]

Há muitas interpretações sobre este simples signo, composto por duas retas que se cruzam e, neste caso, a cruz passa a ter quatro lados, o número 4, o quadrado, a direção humana para poder caminhar na direção dos pontos cardeais. Considerando os braços [horizontal], ela é o símbolo da interpenetração de duas esferas opostas [do céu e da terra], do tempo e do espaço.[10]

Na arquitetura, principalmente na construção de templos sagrados e de cidades, a história da arte demonstra que a forma da cruz tem uma presença fundamental: “a cruz grega determina a construção de muitos templos bizantinos e sírios; a cruz latina, as igrejas românicas e góticas.” [11] A cruz é ainda o símbolo da encruzilhada onde o caminho dos vivos e dos mortos se cruza. Para muitas tribos africanas, a encruzilhada abrange o Cosmos, isto é, os homens, espíritos e deuses. É um local sagrado. Talvez por isso encontremos muitos “despachos” nesses locais. Foi exatamente em uma encruzilhada, de noite, que Riobaldo marcou o seu encontro com o Demo, em “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa.

Em algumas culturas da Ásia, o eixo vertical da cruz é um símbolo de energia ativa e subordinada ao céu e refere-se ao princípio masculino, enquanto o eixo horizontal refere-se à energia passiva da água, ao princípio feminino.

“A cruz inscrita em um círculo é a intermediária entre o quadrado e o círculo e simboliza a união entre o céu e a terra. Ela é o símbolo do centro, do equilíbrio entre o ativo e o passivo, do homem perfeito.” [12] Talvez  tenha vindo daí a inspiração para o arquiteto romano, Marcos Vitrúvio Polião (80 a.C.–15 a.C.) para escrever em seu “Tratado sobre Arquitetura”, volumes III e IV, acerca da importância da simetria tanto na arquitetura quanto no próprio ser humano, ao tratar da construção de templos. E essa relação entre a cruz (o homem) e o quadrado e o círculo foi desenvolvida magistralmente por Leonardo da Vinci, em seu famoso “Homem Vitruviano”.[13] Existem muitas outras interpretações sobre este comum, porém complexo, símbolo universal, que acompanha o desenvolvimento da humanidade desde o seu início…

Para finalizar esta apresentação, “Qual é a sua cruz?” se propõe a fornecer ao público um entendimento do centro-oeste brasileiro, região marcada por três biomas diferentes em sua extensão: cerrado, pantanal e floresta amazônica, nos oferecendo uma pluralidade cultural que chega a ser surpreendente.

Segundo a curadora Dayse Estrá: “Não há no projeto uma linha estética engessada e se podem ver produções mais acadêmicas até arte urbana, altamente contestadora e politizada. O que as une, no conjunto, é a criação de uma espécie de RG artístico da região em que atuam, trazendo nomes de gerações distintas para conversar com a contemporaneidade”. Logo, a exposição convida e incentiva o público a mergulhar em reflexões para além do sentido meramente visual. “Trata-se, portanto, de um roteiro sem destino em que as conjecturas estão liberadas para novas conexões tanto sobre o que a vida nos oferece quanto para o que oferecemos a ela”, afirma Dayse Estrá.

 

NOTAS:

[1] Qual é a sua cruz? MAS 2021 – Sala Estação Tiradentes do Metrô. Catálogo virtual: http://museuartesacra.org.br/qual-e-a-sua-cruz/

[2] Daisy Estrá, Curadora do Museu de Arte Sacra de São Paulo

[3] Gervane de Paula é artista plástico mato-grossense, criador da instalação “Sofram comigo, vamos dividir essa cruz”, que deu origem a esta exposição

[4] Depoimento ao autor em 16/03/2016. Cuiabá, Mato Grosso.

[5] 36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão. Organização, Curadoria e Texto: Júlia Rebouças. Ministério da Cidadania. Museu de Arte Moderna de São Paulo: SP. Ipsis Gráfica, 2019. p. 132 a 135.

[6] FIGUEIREDO, Aline. Je suis Gervane: In: catálogo Mundo Animal – uma provocação. Dom Produções, Cuiabá, MT. 2016, p. 08.

[7] BUENO, Maria Lúcia. Artes Plásticas no Século XX. Modernidade e Globalização. Campinas, SP. Editora da Unicamp, 1999.

[8] FIGUEIREDO, Aline. Artes plásticas no centro-oeste. Cuiabá: UFMT/MACP, 1979.

[9] PASTRO, Cláudio. A Arte no Cristianismo: fundamentos, linguagem, espaço. SP. Paulus Editora, 2010, p. 206.

[10] Idem, p. 207.

[11] Idem, p 207.

[12] Idem, p. 207.

[13] ISAACSON, Walter. Leonardo da Vinci. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.

 

REFERÊNCIAS:

REBOUÇAS, Júlia. 36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão. Organização, Curadoria e Texto: Ministério da Cidadania. Museu de Arte Moderna de São Paulo: SP. Ipsis Gráfica, 2019. p. 132 a 135.

FIGUEIREDO, Aline. Artes plásticas no centro-oeste. Cuiabá: UFMT/MACP, 1979.

____________, Je suis Gervane: In: catálogo Mundo Animal – uma provocação. Dom Produções, Cuiabá, MT. 2016, p. 08.

BUENO, Maria Lúcia. Artes Plásticas no Século XX. Modernidade e Globalização. Campinas, SP. Editora da Unicamp, 1999.

PASTRO, Cláudio. A Arte no Cristianismo: fundamentos, linguagem, espaço. SP. Paulus Editora, 2010, p. 206.

ISAACSON, Walter. Leonardo da Vinci. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.

n° 56 – Ano XVIII – Dezembro de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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