n° 46 – Ano XVI – Junho de 2018  →   VOLTAR

Artigo

Pintura Cuzquenha no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro

Em busca de informações sobre a coleção de quadros cuzquenhos do MNBA: visita ao Museo Nacional de Arqueología, Antropología y Historia del Perú – MNAAHP, em Lima.

Zuzana Trepková Paternostro – ABCA / Rio de Janeiro

O universo de pinturas estrangeiras do acervo do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro abriga, em sua grande maioria, obras de origem italiana, francesa e holandesa anteriores ao século XX. No entanto, ainda engloba pequenos núcleos de quadros de outras nacionalidades e estilos variados não menos interessantes cuja presença, em razão da sua reduzida quantidade apesar da qualidade expressiva, não ganhou até o presente a merecida atenção. Dentre estas pinturas – até onde se tenha conhecimento –, encontra-se um conjunto de cinco quadros identificados como pertencentes à Escola Cuzquenha.

Estes cinco quadros, indubitavelmente, constituem obras antigas cuja execução se situa em época anterior aos dois últimos séculos. Classificadas no MNBA como pinturas provenientes de Cuzco, o conhecimento a respeito das mesmas esgota-se por aí. Como fazem parte do Patrimônio Nacional – que inclui muitas obras estrangeiras de qualidade – levamos ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) a nossa iniciativa de ampliar o conhecimento sobre elas, apesar de sua classificação estar aparentemente correta. Este foi o objetivo maior da nossa procura: reconhecer os respectivos detalhes e elementos particulares existentes em cada um destes cinco quadros.

Além de registros genéricos, estas obras possuem pouquíssimas informações: por constituírem um conjunto exíguo, nenhuma pesquisa foi realizada ou tampouco uma análise que permitisse apresentá-lo em exposições como exemplo de arte pós- colombiana. Consequentemente, permaneceram – exceto uma referência como reprodução – ausentes de catálogos e publicações oficiais do MNBA.[1]

No início deste ano de 2018, recebi o convite para assumir a curadoria de uma exposição de Arte europeia contemporânea promovida numa das Embaixadas estrangeiras – no caso, na do México.[2] Após entendimentos tratados com Lima, fui aguardada com disposição e sem limitações de tempo para ouvir o possível sobre a “Escola de Cuzco”. Nesta oportunidade pude notar, nestas pinturas do MNBA aqui em questão, características estilísticas e detalhes iconográficos que, anteriormente a esta visita, me escapariam despercebidos.

“Estas obras nunca foram priorizadas em pesquisas. Poderíamos alegar que foram seguidas preferências históricas em todos os museus públicos brasileiros, ênfase à tendência do “eurocentrismo” dos séculos XIX e XX…”

O senhor Enrique Quispe Cueva – Catalogador de Bienes Culturales del Museo Nacional de Arqueología, Antropología y Historia del Perú (MNAAHP), que me atendeu na condição de Conservador técnico e historiador da Arte do Museu citado – não mediu tempo nem atenção ao examinar minhas reproduções das pinturas, pois nem todas as fotos eram de boa qualidade. Confesso que uma de suas francas sentenças – Es un bello lienzo (!) – me deixou aliviada e com coragem de prosseguir na apresentação do material. Muitas fotos eram mesmo péssimas. Como este conjunto não era exposto, há tempos aguardava também as devidas higienização ou restauração, além de ser fotografado adequadamente. Assim, a leitura do historiador da Arte Enrique Quispe ficou prejudicada na apreciação de obras. Disponibilizadas generosamente, devem ter sido as únicas existentes no MNBA. No entanto, a qualidade das reproduções não abalou o interesse do colega peruano, que sequer declinou das avaliações de datação.

Não apenas o material escasso e difícil de identificar que levei fez com que me sentisse pouco à vontade. Faltou – da minha parte – tempo necessário para esta rara oportunidade de consulta in loco. E, sem dúvida, ainda somando a isso o meu conhecimento raso sobre o assunto. Estas obras nunca foram priorizadas em pesquisas. Poderíamos alegar que foram seguidas preferências históricas em todos os museus públicos brasileiros, ênfase à tendência do “eurocentrismo” dos séculos XIX e XX vinculada à quantidade de exemplares, além da qualidade geral nesta época inegavelmente em voga, perfil atualmente manifestado (não fosse pelas obras brasileiras chamadas de “Prêmios de Viagem”) pelo acervo do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.

Iniciando observação referente às reproduções, de pronto foi eliminada a pintura Virgem e o Menino Jesus (N.2420), uma aquisição de 1961. Na opinião do colega peruano, este quadro certamente não é cuzquenho e provavelmente tampouco peruano, situando-se sua execução com a maior probabilidade apenas no século XIX.

Outra obra, intitulada Figura de um santo (N.2287) e mencionada como transferência[3] da Escola Nacional de Belas Artes em 1937, foi considerada possivelmente de Cuzco. Situada no século XVIII, foi identificada como São Tomás Apóstolo por meio de atributos: por ostentar um esquadro, um dos ferramentais da profissão de pedreiro, e um livro sinalizando a sua missão evangelizadora.

A pintura Coroação da Virgem (N.2265) menciona, como época de execução, o século XVIII: passível apenas tratando-se de original, já que é uma composição frequentemente repetida. Pela restauração pouco sucedida, sua datação mais provável seria a segunda metade do século XVIII. Enquanto sua atribuição não a invalidou de pertencer à Escola cuzquenha, sugerindo ao mesmo tempo, o título Coroação da Virgem pela Santíssima Trindade.

Coroação da Virgem (N.2265) / Acervo MNBA – IBRAM.

Já a obra N. S. de La Almudena (N.2335), considerada melhor, foi inspirada num culto mariano originário de Madri, cidade da qual é a padroeira.[4] A atribuição da obra à Escola cuzquenha foi considerada correta. Para confirmação da sua datação (1650) na ficha catalográfica, foi-me sugerido estudar comparações mais extensas, que revelariam confrontos de analogia formal, além de apreciação – dentre outros – dos elementos decorativos da composição. Seu estado de conservação foi insuficiente para afirmação mais consistente da datação da pintura que, rigorosamente, não seria a mais antiga do conjunto em questão. Lembrando de sua origem, estas duas pinturas (N.2265 e N.2335) entraram no acervo por aquisições, respectivamente, em 1953 e 1951.

Nossa Senhora de La Almudena (N.2335) / Acervo MNBA – IBRAM.

“Representação da Virgem da Imaculada Concepção, segundo o historiador peruano: Letanias Laurenanas eram formas de súplicas à Maria…”

Finalizando, o objetivo da nossa consulta em Lima há de mencionar o quadro Nossa Senhora da Conceição (N.2336) como a obra de melhor qualidade dentre todas as relacionadas. Seu bom estado de conservação contribuiu para a aproximação da época de sua execução, situada na primeira metade do século XVIII. Representação da Virgem da Imaculada Concepção, segundo o historiador peruano: Letanias Laurenanas eram formas de súplicas à Maria, dentre elas a figura da besta com sete cabeças, incluindo a Tota Pulchra – referências à Virgem Apocalíptica como se descreve em Apocalipsis 12,1-6. Estes diferentes elementos estão todos diretamente relacionados à defesa da Conceptione Beata Virginis Marieae.[5] Para concluir, a composição registra diferentes símbolos em ambas as laterais do quadro, passíveis de identificações futuras, bem como ainda ostenta um elemento decorativo, excepcional e impressionante exemplo de capa da Santa executado em seda, ricamente bordado em fios de ouro com técnica de tecelagem chamada “brocado”.

Nossa Senhora da Conceição (N.2336) ) / Acervo MNBA – IBRAM.

É importante enfatizar que escrevi este artigo baseado em uma breve consulta das pinturas por parte dos profissionais do MNAAHP a partir de fotografias de baixa qualidade, de obras que por sua vez também necessitam de restauração. Assim, esta coleção precisa de uma análise mais detalhada e aprofundada para que se possa obter maior aproximação cronológica e estilística. Um dos meus principais intuitos com este artigo foi apontar a existência das referidas pinturas, assim como, despertar o interesse pela pesquisa para avançar na identificação e aprimoramento dos conhecimentos deste conjunto, único que representa a arte de pintura antiga dos demais países latino-americanos no acervo do MNBA.

Minha visita ao mais importante museu de história e arte de Perú (MNAAHP) não pode deixar de mencionar a oportunidade de observar a exposição Arte do Vice-reinado (Sala de La Arte Virreinal) que apresentou um conciso panorama de pinturas peruanas dos séculos XVII e XVIII. Esta mostra, juntamente com extremamente positivo e bem cuidado complexo do referido Museo necessita da minha parte, além de acolhimento já mencionado, uma admiração geral em forma de um grande:  Muchas Gracias!

Fachada do Museo Nacional de Arqueología, Antropología y Historia del Perú.

NOTAS:

[1] Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, São Paulo: Ed. Banco Safra, 1985, 386p, il. Outras fontes e informações (relatório de Mário Barata) disponíveis apenas  nos documentos do Arquivo do próprio MNBA.

[2] Esta viagem possibilitou interromper o destino direto ao CDMX-México e proporcionou uma breve permanência em Lima, Perú. Assim, tornou-se possível aproveitar este deslocamento para realizar a consulta ao Museu peruano acima citado no título.

[3] Uma solução “diplomática” resolvendo a escassez de recursos humanos qualificados, frequente no âmbito da Arte e, particularmente, nos  museus nacionais. No entanto houve uma pesquisa inédita de 2011 a 2013 que recuperou a procedência das obras realizada por SILVA, Carlos Henrique Gomes. O Estado Novo (1937-1945) e a política de aquisição de acervo do Museu Nacional de Belas Artes. Orientadora: Profª Drª Lena Vania Ribeiro Pinheiro. Dissertação (Mestrado em Museologia e Patrimônio) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO); Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), Rio de Janeiro, 2013.

[4] O seu nome provém do árabe Al Mudayna, “o castelo”.

[5] Sermo seu tractatus San Bernardini Senensis. De Conceptiones B. Mariae Virginis. Alva y Astorga, Pedro de (1665).

 

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