Pinacoteca Ruben Berta de Porto Alegre apresenta exposição “O tempo das coisas – módulo 2”

Coordenação de Artes Plásticas da Secretaria de Cultura de Porto Alegre apresenta a segunda parte de “O tempo das coisas”. Intitulada “Módulo 2”, a nova exposição tem lugar na Pinacoteca Ruben Berta, com abertura no dia 17/5, às 18h30min. No dia 19/5, a mostra integra a programação da Noite dos Museus, recebendo o público das 19h até 1h da madrugada do dia seguinte.

“O tempo das coisas – módulo 2” apresenta obras dos artistas contemporâneos Antônio Augusto BuenoBruno BorneFrantzPaulo NenflídioTúlio Pinto, do russo Fyodor Pavlov-Andreevich e do duo Ío (formado por Laura Cattani e Munir Klamt). 

Entre os trabalhos, alguns foram desenvolvidos especialmente para a exposição, tendo como ponto de partida o próprio espaço arquitetônico do antigo casarão da Ruben Berta ou de sua área externa. Há, ainda, proposições de artistas que abordam a coleção da Pinacoteca. 

Além disso, também integram a exposição 6 obras pertencentes ao respectivo acervo, a partir de um recorte curatorial que traz a público uma escultura de Hildegardo Leão Velloso e pinturas de Batista da Costa, Fernando Duval, Jeronimus Van Diest, Oscar Crusius e Tomie Ohtake.

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O projeto “O tempo das coisas” tem concepção e curadoria do crítico de arte, jornalista e pesquisador Francisco Dalcol. A primeira mostra foi inaugurada em 19/3 e segue aberta até 1º/6, no Porão da Pinacoteca Aldo Locatelli, no Paço Municipal de Porto Alegre, com trabalhos de Bruno BorneFyodor Pavlov-Andreevich, Ío e Túlio Pinto.

Configurando-se como uma segunda exposição interligada à primeira, o “Módulo 2” agora apresenta novos trabalhos dos artistas da mostra de estreia, desta vez ao lado de outros artistas que passam a integrar esta nova exposição juntamente às referidas obras da Pinacoteca Ruben Berta, que são mobilizadas pela curadoria com interesse em propor diálogos e confrontos no espaço expositivo. 

A coleção da Pinacoteca Ruben Berta, como já dito, é o ponto de partida de 2 proposições que desenvolvem distintas estratégias artísticas interessadas em abordar as obras e mesmo o acervo. É o que fazem Frantz, que promove uma interferência no catálogo da Pinacoteca e se apropria de uma pintura de Tomie Ohtake para compor uma das salas da exposição, e também o duo Ío, que desenvolve uma investigação artística a partir do caso do sumiço da obra de Alberto da Veiga Guignard pertencente à Ruben Berta.

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Os demais artistas do “Módulo 2” igualmente apresentam trabalhos novos ou inéditos em Porto Alegre. 

Bruno Borne oferece um desdobramento do que desenvolveu para o “Módulo 1”. Em sua pesquisa em torno do espaço arquitetônico e da linguagem da animação digital, agora mostra um vídeo em que aborda os espaços físicos do casarão da Ruben Berta — no trabalho da primeira exposição, seu interesse foi a arquitetura do Porão do Paço. 

Fyodor Pavlov-Andreevich participa desta vez com um microfilme que registra uma performance que realizou ao longo de 7 horas. O trabalho do artista russo enfatiza os aspectos de duração e resistência física e psicológica nos modos como explora os limites do corpo enquanto suporte expressivo em suas práticas artísticas, explicitando questões sociais que o mobilizam, tais como as condições de escravidão que identifica na sociedade contemporânea.

Paulo Nenflídio integra a exposição com uma escultura sonora. É um conjunto de objetos construídos em madeira e metal, configurados como um sistema de pêndulos percussivos afinados na escala pentatônica. A estrutura é alimentada por uma fonte eletromagnética que mantém os pêndulos em movimento constante. Na extremidade do objeto, há um sino metálico pendurado num suporte com trilho e manivela. Com o balanço do sino, ora ocorre a percussão, ora não.

Túlio Pinto apresenta 2 trabalhos que se vinculam à sua pesquisa sobre a prática e o pensamento escultóricos aplicados à linguagem contemporânea que endereça a seus objetos e estruturas, todos caracterizados pelo estado de tensão e suspensão. São obras feitas de materiais industriais como metal, vidro e madeira, compondo uma produção de trabalhos que se interligam ao lidar com os equilíbrios, os pesos, as densidades e as força dos sistemas instalativos que os configuram. 

Além dessas obras no espaço expositivo da Pinacoteca Ruben Berta, “O tempo das coisas – módulo 2” também traz a público um trabalho desenvolvido na área externa do casarão. No pátio aos fundos, Antônio Augusto Bueno apresenta uma grande escultura ao ar livre, desenvolvida no próprio local. A instalação é composta por gravetos que o artista recolheu na Lomba do Pinheiro, destino para onde são levados em Porto Alegre os resíduos de coleta e poda urbanas. Em suas diversas idas ao aterro municipal para a realização do projeto, Antônio realizou fotografias e vídeos que integram uma segunda parte do trabalho, esta apresentada em uma mesa e uma TV, dentro do casarão da Ruben Berta.

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Encerramento do “Módulo 1” com desdobramentos de projeto artístico

Em exibição até 1º/6 no Porão do Paço Municipal, a primeira parte de “O tempo das coisas” terá uma ação antes de seu encerramento. No dia 21/5, o duo Ío promoverá a etapa final do trabalho intitulado “Ilinx”: a sua planejada e esperada destruição. A obra foi construída no próprio espaço expositivo para integrar o “Módulo 1”. 

Evocando certo fascínio da destruição sem propósito, a instalação é orientada pelos princípios de reação em cadeia – ou, ainda, jogos infantis, que têm como único objetivo a queda e a bagunça. “Ilinx” constitui-se como uma queda de dominós, sendo que barras de concreto, chocolate escorrido, vidro estilhaçado e pedras serão os vestígios remanescentes desse processo. Após a destruição da estrutura, os acontecimentos, os encaixes entre as partes e o encadeamento desse dispositivo de desabamento – assim como o exíguo tempo de duração – passarão a existir apenas na imaginação do espectador.

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TEXTO CURATORIAL:

O que se insinua sob a aparência das coisas

Uma coisa é sempre algo em condições de ser e existir. Não só enquanto evidência de um fato consumado ou de um ato praticado, como daquilo que ainda pode vir-a-ser. É algo assim a sugestão que encontramos ao revisitar as reflexões de Martin Heidegger em suas conferências de 1936 reunidas no livro “A origem da obra de arte”. Ao teorizar o que chama de “aspecto coisal da obra de arte”, afirma o filósofo alemão: 

“Todas as obras têm este caráter de coisa. (…) A obra de arte é, com efeito, uma coisa, uma coisa fabricada, mas ela diz ainda algo de diferente do que a simples coisa é. A obra dá publicamente a conhecer outra coisa, revela-nos outra coisa”.  

Essa dimensão enigmática, capaz de desestabilizar a aparência do óbvio que repousa sobre as coisas, é tomada neste projeto curatorial como uma noção especulativa com a qual se procura aprofundar uma meditação sobre a experiência com a arte em seus modos de instauração no contexto e na circunstância expositiva. Assim, “O tempo das coisas” é uma investigação interessada nos atravessamentos, nas contaminações e nos atritos entre processos artísticos, estratégias expositivas e procedimentos curatoriais. 

Inicialmente, partindo de Heidegger, a ideia de que uma obra sempre se endereça a alguma coisa para logo a seguir dar lugar a outra coisa. Algo que se dá não apenas por meio da materialidade com que afirma sua presença no mundo das coisas todas, como também pela potencialidade de fundar o seu próprio tempo de acontecimento entre as demais coisas. 

Se a obra é “uma coisa à qual adere ainda algo de outro”, como argumenta o nosso evocado filósofo, ela o é porque remete ao que está para além do que parece dar a ver. Assim, tende a ser coisa ao mesmo tempo em que se revela e esconde, em que se apresenta e desvia. Esse jogo engendrado pela noção de coisa conforme aqui convocada contém em si a probabilidade de um acontecimento a se desvelar como um devenir incerto, impreciso e indeterminado, ao qual diversificadas práticas artísticas contemporâneas parecem confluir em seus distintos processos e estratégias.

Para tentar sondar o invisível e o indizível que se encondem sob a aparência das obras enquanto coisas, tomemos novamente as palavras de Heidegger, para quem “tudo o que se queira entrepor entre nós e a coisa como concepção e enunciado deve ser afastado”, pois somente assim “poderemos abandonar-nos à presença não mascarada da coisa”.

Francisco Dalcol
Crítico de arte, jornalista e pesquisador. Curador do projeto “O tempo das coisas”

 

PINACOTECA RUBEN BERTA
Porto Alegre (RS)
(Duque de Caxias, 973, Centro Histórico)

Abertura 17/5/2018, 18h30min
Visitação 18/5/2018 a 27/7/2018
(segunda a sexta, 10h às 18h, gratuito)

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