Artigo

A perplexidade e o desencanto do presente

A arte produzida nessas circunstâncias nasce de uma concepção contaminada por outras vertentes como a sociologia, política e psicanálise.

Leonor Amarante – ABCA/São Paulo

O Grito (1893), de Edvard Munch, Óleo sobre tela, Têmpera e Pastel sobre cartão, Galeria Nacional, Oslo.

A instabilidade gerada nestes dias de isolamento pela pandemia da Covid modifica o sistema de produção de arte. Com galerias e museus fechados, os artistas iniciam um diálogo com seu público por meio do espaço expandido das redes sociais. Experimentam tempos difíceis em que o medo do desconhecido perturba e imobiliza. A desorientação e a perplexidade do presente se relacionam diretamente com a inviabilidade de um futuro mais promissor que não chega.

A arte produzida nessas circunstâncias nasce de uma concepção contaminada por outras vertentes como a sociologia, política, psicanálise. Esse é o tempo em que o lugar da fala emerge também nas lives, com debates, cursos, palestras que revelam para o grande público imagens de alguns especialistas que até então só eram conhecidos por textos. Galerias tradicionais do circuito, supostamente restritas, descem do pedestal e em encontros virtuais dão voz a personagens que no cotidiano das artes eram praticamente invisíveis. Algumas pautas revelam que a produção artística atua muito bem em situações de ócio criativo, com digressões feitas no prazer. Rompendo os discursos políticos e da saúde, um grupo de artistas, curadores, jornalistas se lançam em um flashback lúdico convidando um colega a postar por dez dias consecutivos, obras de arte, filmes ou discos preferidos. Essa atitude nasce do cansaço, da repetição exaustiva dos noticiários políticos, sem a perspectiva de uma volta tão cedo à normalidade. No livro O Leopardo, Tomasi di Lampedusa aconselha: “mude tudo para que tudo fique como está”. Se há algum triunfo para se comemorar, neste momento pesado, é a descoberta da gravidade. Até bem pouco tempo a humanidade, com raras exceções, gravitava em torno do planeta voltada para sua própria existência. O caos social, sanitário e político que abala muitos países, converte o mundo em um experimento generalizado. No Brasil, esse balão de ensaio é pior por conta de um governo despreparado para gerenciar a saúde, colocando o País entre os primeiros em número de vítimas.

  A comunidade artística acuada tenta criar novas interrogantes, com trabalhos mais subjetivos e com indagações matizadas. Os artistas acentuam a necessidade de conectar a arte com a vida e suas contradições, tensionando as fronteiras da realidade. “É no cotidiano que as formas de percepção incorporam e ganham força social”, diz o sociólogo Magnum Enzensberg.

“Muitas lives dispersas na internet tentam compreender o que se passa no mundo e sinalizar pontes para o futuro. Nessa incômoda distância física, a produção ganhou mais independência do esteticismo global…”

A arte excedeu, de maneira exemplar, a simples execução de objetos artísticos para transformar-se em pensamento. Dessa forma, a arte não se interessa pela linguagem, mas como discurso da performidade do momento.

Muitas lives dispersas na internet tentam compreender o que se passa no mundo e sinalizar pontes para o futuro. Nessa incômoda distância física, a produção ganhou mais independência do esteticismo global. Desmontou alguns mecanismos ritualizados e provocou a liberação de ações mais espontâneas. A pandemia tem efeito horizontal de contaminação na arte, onde todo mundo pode se expressar de maneira democrática. Muitas formas expressivas vigentes se defrontam com as emergências estéticas vindas de artistas emergentes e desconhecidos. Alguns deles reafirmando que um trabalho pode tornar-se interessante quando une coisas que  jamais haviam estado numa produção.

Em torno do mercado foram catalizadas energias para criar galerias e museus como o Covid Art Museum, na Espanha, onde a pandemia registrou número alarmante de infectados, além do projeto Covid Photodiaries, uma crônica diária sobre a pandemia.

O tédio, que toma conta de parte da população confinada, explode nas sacadas dos prédios em ruidoso panelaço contra o governo de Bolsonaro. O ato que se repete diariamente às 20h30, desde o início da quarentena, anima, mas ao mesmo tempo entristece pelo caos em que fomos afundados. Os efeitos da mutação do cotidiano estão estampados nos rostos tensos de especialistas que participam de debates virtuais. O coeficiente zen e natural, que já foi moda na academia e no jornalismo desaparece e uma nova forma de narrativa revela a impaciência e a irritação geral. As passeatas antirracistas deflagradas nos Estados Unidos pela morte de George Floyd, reverberam no Brasil. Nas manifestações brasileiras é lembrado que milhares de negros morreram na escravidão, e a indignação se estende aos escravos indígenas. Está na pauta a polêmica sobre as homenagens aos supostos “vultos” da história, como Borba Gato, notório caçador de índios para o sistema escravocrata. Sua extravagante estátua em São Paulo, além de provocação histórica é também uma aberração estética e parece ter seus dias contados.

O lado positivo desses tempos é que sacudiu a população de vários países governados por regimes autoritários e fascistas. Hoje, milhares de pessoas estão nas ruas exigindo o fim do racismo e igualdades democráticas de toda ordem.

n° 54 – Ano XVIII – Junho de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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