n° 50 – Ano XVII – Junho de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Artigo

Pensar arte e natureza é a meta da Káa – Residência Internacional de Artistas

O Instituto Yvy Maraey apresenta um projeto que incentiva a experiência criativa e inovadora e partilha uma oportunidade de encontro e de reconhecimento do patrimônio cultural e natural da região Sul de Porto Alegre.

Maria Amelia Bulhões – ABCA / Rio Grande do Sul

O tempo, como o mundo, tem dois hemisférios: um superior e visível, que é o passado, outro inferior e invisível, que é o futuro. No meio de um e outro hemisfério ficam os horizontes do tempo, que são instantes do presente que imos vivendo, onde o passado termina e o futuro começa”.

Este impactante fragmento do texto de Padre Antônio Vieira, de 1649, recitado na performance “História do futuro”, de Ayrson Heráclito abre nossa reflexão. Acreditamos que pensar sobre arte natureza é, antes de mais nada, refletir sobre estes instantes do presente pelos quais somos responsáveis. O homem tem sido, desde o seu surgimento, o maior modificador da natureza sobre a face da terra. Sua ambição e capacidade de produzir extensões de seu próprio corpo o transformaram em um tipo de superespécie. Entretanto, ele não desenvolveu paralelamente às suas capacidades fabris uma igualmente importante consciência das repercussões e consequências de suas interferências no planeta em diferentes níveis.

Reside aí o sentido da arte de se debruçar sobre o tema da natureza e das múltiplas implicações de suas interações. As práticas artísticas detêm uma condição especial na nossa sociedade: fazer emergir nossa consciência com certa delicadeza e, ao mesmo tempo, com uma profundidade que repercute em nosso ser, em diferentes níveis e por diferentes canais. Como se diz: a arte não modifica o mundo, mas pode tornar melhor os homens.

Na história da humanidade as ideias sobre natureza estão em contínua mutação. O que os gregos na Antiguidade Clássica entendiam como natureza não corresponde ao entendimento do europeu da época da conquista da América, tampouco converge na direção da compreensão dos acadêmicos e artistas viajantes do séc. XIX inspirados pelas teorias de Darwin. E, obviamente, não é o mesmo para nós contemporâneos, que nos movemos em um universo midiático no qual a noção de natureza se multiplica e se redefine em fluxos constantes. Resulta surpreendente e cada vez mais atraente a grande diversidade de definições e sentidos que tem se dado, nos últimos anos, à tão importante conceito. A história das ideias sobre natureza e sua relação com a cultura é uma história de pensamentos e afirmações contraditórias, por isso mesmo, um tema profícuo para os artistas.

“A perspectiva Guarani contempla a interdependência de tudo o que existe e o destino compartilhado entre o lugar e aqueles que o povoam…”

O recente campo de investigação – Arte e Natureza – vem sendo definido pela literatura acadêmica como arte viva, uma declinação das tendências contemporâneas que inclui: o paisagismo, as esculturas efêmeras com materiais naturais, a land art, o environmental art, as ações performativas na paisagem, permacultura, a chamada arte ecológica, mas também a bioart e a arte biotecnológica. Experimentos que incluem materiais orgânicos e inorgânicos, nos quais a vida está sempre presente como mídia.

Na cosmovisão Guarani, a natureza não é vista de fora como no pensamento ocidental – no qual a Natureza e o Ser Humano são coisas distintas em sua essência, importância e fins. A perspectiva Guarani contempla a interdependência de tudo o que existe e o destino compartilhado entre o lugar e aqueles que o povoam. Foi a partir dessa premissa que foi pensada e planejada a Residência Internacional – Kaá, promovida pelo Instituto Yvy Maraey – arte e natureza, cujo projeto foi criado e desenvolvido por Maria Amelia Bulhões e Denis Rodrigues. Nele foi considerada fundamental a interação com esses valores, pois cuidar da terra seria cuidar de si mesmo. O Instituto quer compartilhar essa visão de pluralidades e interdependência ancestral com os artistas residentes e com os visitantes do Instituto.

Se por um lado a residência Kaá apresenta-se como um projeto que incentiva a experiência criativa e inovadora, de outro, ele se oferece como uma oportunidade de encontro, colaboração e de reconhecimento do rico patrimônio cultural e natural da região Sul da cidade de Porto Alegre. Propondo o conhecimento e o reconhecimento da história, das tradições, das populações originárias e as problemáticas urbanísticas e ligadas a posse e demarcação das terras nesta localidade, região que detém um dos maiores índices de preservação e sustentabilidade do município.

O fato de Porto Alegre ter uma zona rural em seu tecido urbano é excepcional no País e deve ser cuidadosamente preservado. O grande escopo do projeto do Instituto Yvy Maraey (Terra prometida na mitologia guaranítica) é favorecer intercâmbios entre a comunidade, artistas locais, nacionais e internacionais, além dos outros agentes de arte também envolvidos no programa. Por se tratar de um programa de residência com abrangência comunitária, várias visitas foram realizadas no entorno do território do Instituto e o mesmo foi aberto à visitação pública. A residência Kaá estimula a criação dessa ligação circunstancial da comunidade circundante ao Instituto com a arte contemporânea emergente, encorajando uma participação ativa nos diálogos culturais da nossa cidade e integrando, assim, a zona rural aos programas culturais da zona urbana.

“O programa do Instituto envolve a pesquisa e o desenvolvimento de projetos individuais e coletivos do início ao fim…”

Por sua forte orientação à prática artística contemporânea, combinando mesas de debates, apresentação de portfólios, percursos com agrônomos, biólogos e paisagistas, oficina de trabalho coletivo e visitas de experts no tema Arte e Natureza, o Instituto Yvy Maraey se dispõe a funcionar como um campo aglutinador de conhecimento específico das Artes Visuais. O programa do Instituto envolve a pesquisa e o desenvolvimento de projetos individuais e coletivos do início ao fim, o que significa que criar uma inovadora estrutura para a apresentação de uma série de novos bens culturais, inclusive através de colaborações interdisciplinares. Promovendo o envolvimento de especialistas de várias áreas, mas também a aproximação de saberes tradicionais ligados à comunidade indígena vizinha, como também às propriedades rurais, valorizando o conhecimento agrícola tradicional e sustentável. As mudanças culturais e a urbanização dos últimos anos colocaram um importante desafio: o de dialogar com a globalização e o cosmopolitismo, tornando relevante e visível as realidades locais.

Para a realização de sua primeira atividade internacional o Instituto Yvy Maraey, sob a presidência do artista plástico Irineu Garcia, recebeu o patrocínio do Fundo de Apoio a Cultura, da Secretaria do estado do Rio Grande do Sul e o apoio do programa Coincidências, da fundação Pró Hevétia, da Suíça. As atividades foram abertas com uma mesa na Associação Vila Flores e encerradas com uma mesa no Goethe Institut que foram parceiros, juntamente com o PPG Artes Visuais da UFRGS.

Participaram da residência os artistas Carlos Monleon (Espanha, Rumen Dimitrov (Bulgária) Miriam Salun (EUA) e Laura Cattani de Porto Alegre, escolhidos por um júri internacional constituído por 10 críticos de arte que examinaram mais de 200 portfólios de artistas que se candidataram, oriundos dos mais diversos países. Dinamizando suas atividades e interagindo com os artistas residentes, outros artistas e críticos estiveram como visitantes ao longo dos 30 dias de desenvolvimento das atividades de trabalho: Maria Isabel Rueda (Colômbia), Ayrson Heráclito (Bahia) Richard Leqlerque (Suiça), Bruna Fetter (Porto Alegre), Michele Sommer (Rio de Jneiro), Leonardo Remor (Madri). O fechamento da residência foi feito no dia 19 de abril, com uma atividade de Open studio, um dia inteiro aberto a visitação, para que o público local possa conhecer os trabalhos desenvolvidos pelos artistas durante a residência.

O Instituto Yvy Maraey, em sua missão de articular arte e natureza, ocupa assim, de forma responsável, um pouco destes “horizontes do tempo, que são instantes do presente que imos vivendo, onde o passado termina e o futuro começa”.

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