n° 52 – Ano XVII – Dezembro de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Artigo

O SESC nos imaginários urbanos:
Um estudo na representação gráfica da instituição, ao longo da sua história

A partir dos conceitos dos Imaginários Urbanos de Armando Silva, montamos um grupo de pesquisa transdisciplinar e colaborativo para estudar sete décadas do Sesc São Paulo, tendo eleito o design gráfico da instituição, como objeto de nosso trabalho, uma das representações paralelas no viés da estética e produção de sentidos.

Hélcio Magalhães – ABCA/São Paulo

Neste artigo trago algumas reflexões a partir de minha pesquisa de pós-doutorado, orientada pelo Pro. Dr. Armando Silva, pela Universidad Externado de Colombia, em Bogotá. Trata-se de um foco original inserido nos estudos de Imaginários Urbanos, que vem ocupando a atenção do pesquisador colombiano. Armando dirige um grande grupo internacional estudando as cidades imaginadas. Eu me vinculo a esse grupo, a partir da pesquisa São Paulo Imaginada, coordenada localmente pela Profa. Dra. Lisbeth Rebollo, pela ECA e pelo PROLAM, Programa de Pós-Graduação Interunidades da América Latina, da Universidade de São Paulo, há cerca de vinte anos.

Cartaz de inauguração do Sesc Pompéia

A partir dos conceitos dos Imaginários Urbanos de Armando Silva, montamos um grupo de pesquisa transdisciplinar e colaborativo para estudar sete décadas do Sesc São Paulo, tendo eleito o design gráfico da instituição, como objeto de nosso trabalho, uma das representações paralelas no viés da estética e produção de sentidos.

O conceito de “Imaginários Urbanos” desenvolvido pelo pesquisador, filósofo  e professor Armando Silva ao longo de uma das pesquisas sobre a constituição e o funcionamento do imaginário em diferentes práticas sócio simbólicas, no sentido de identificar a maneira pela qual os cidadãos se inserem na urbanidade, por seus imaginários,  é um estudo de natureza comparativa e que procura compreender problemáticas das culturas urbanas através de um olhar transdisciplinar, a partir de ferramentas teóricas e metodológicas da Antropologia, da Psicanálise, da Teoria da Comunicação, da Estética e da História, para a construção mental de um “Urbanismo Cidadão”.

“O enfoque original em meu novo estudo dirige-se não uma cidade e sim uma instituição cultural, o Sesc São Paulo…”

O trabalho partiu das cidades latino-americanas como territorialidade imaginada e como cenário. Hoje várias cidades no mundo, inclusive nos EUA e Europa participam dessa investigação, guiadas por Armando Silva. O enfoque original em meu novo estudo dirige-se não uma cidade e sim uma instituição cultural, o Sesc São Paulo. Mergulhamos em uma pesquisa profunda a partir de uma das “Representações Paralelas”, que sustentam as ferramentas dos estudos propostos por Armando Silva:  o design gráfico – em nosso estudo analisamos as artes gráficas da instituição durante sete décadas para entender como, ao longo da história da entidade, o design gráfico, no Sesc estabeleceu e interagiu em grandes diálogos com os públicos, como fortaleceu a ideia de um Sesc Imaginado.

Ao trazemos esse lume dos entendimentos do pensador colombiano, para um mergulho na instituição Sesc São Paulo, pelo recorte de seu material gráfico, objetivamos estudar, por meio de um conjunto de imagens selecionadas, as evocações visuais desse tipo de representação, o que nos leva aos modos sensíveis da instituição ao longo do tempo, e a maneira pela qual a instituição se conta, por uma espécie de álbum de imagens, editado a partir de um grande arquivo de memória; ou seja, pela estética. Para Armando Silva o mundo real, é cada vez mais imaginado e menos físico, o que afeta diretamente o conceito que temos de territorialidade. As interações sociais e os modos sensíveis de viver e experimentar os territórios produzem as criações arquetípicas desses espaços imaginados. As questões registradas ao longo do tempo em suas peças gráficas ofertam uma dinâmica de diálogos e ressonâncias da instituição com seus públicos e centros culturais e desportivos: Como a instituição se mostra, na linha do tempo e, por consequência, as inferências nos e dos cidadãos, pela expressão estética.

O conceito trabalhado por Armando Silva em imaginários urbanos sempre teve grande atenção no movimento relacional entre o real e o mental, para se entender as percepções cidadãs e, nesse sentido o estético ganha ressonância, pois é pelos modos sensíveis que se geram significados, a partir dos territórios vividos, experimentados, sentidos, aos territórios imaginados. A centralidade do conceito aqui tratada, se apresenta na separação da territorialidade urbana física para a territorialidade mental, conceitualizada pelo pesquisador como “Urbanismos Cidadãos”[1],– o ponto central da teoria de Armando está nessa relação.

“Essa pesquisa a qual trouxe à cena a discussão de sete décadas de estética gráfica, permite uma visão ao longo do tempo, nas grandes transformações dos modos de se vivenciar as experiências urbanas…”

As inscrições e interações com os diversos públicos, por meio do design gráfico e sua presença na territorialidade física do Sesc, sem dúvida alguma, um dos instrumentos para se entender essas percepções, ou, uma das representações paralelas para se estudar um conjunto de elementos que inferem nos imaginários; a maneira pela qual a instituição circula, organiza e preserva seus arquivos, permite  que ela mesma se exponha, por suas experiências, conte suas próprias histórias, pela guarda e edição de seus próprios arquivos visuais.

Páginas iniciais, anos 1950

Essa pesquisa a qual trouxe à cena a discussão de sete décadas de estética gráfica, permite uma visão ao longo do tempo, nas grandes transformações dos modos de se vivenciar as experiências urbanas e, do tradicional ao contemporâneo, promovido por meio das novas tecnologias, os modos de circulações do pensamento, a partir do design gráfico nas diversas formas e diferentes desdobramentos, e como essas experiências se transmutam para uma mentalidade cidadã coletiva. À maneira transdisciplinar, tal qual se desenvolvem as pesquisas em Imaginários Urbanos, montamos um grupo colaborativo formado por pesquisadores de diversas áreas, designers, jornalistas, técnicos do Sesc, fotógrafos e produtores, por mim dirigidos.

O grupo chegou em mais de trezentas imagens visuais e junto com elas, suas próprias histórias. A organização das leituras desses materiais foram ainda divididos em três grupos temáticos: Design da Identidade, as operações para a construção da autoimagem da instituição; design editorial, obras essas que permitem uma ampla leitura das interações das atividades da instituição com seus públicos e ainda outras que pretendem prestar contas de suas ações, como ainda, as referência  no acompanhamento do espírito do tempo, as diversas formas de aplicações, inclusive as aderências à quarta revolução industrial, com o aplicativo Sesc e a plataforma digital; e o design de difusão em ações de democratização de acessos.

A edição desse material, como um álbum de imagens, foi organizada em três camadas:  o objeto editado, as imagens coletadas e as histórias arquitetadas. Esse modelo também segue a referência de uma outra pesquisa de Armando Silva: “ Álbum de Família, as histórias de nós mesmos”[2]. E, por essa referência apresentamos nessa pesquisa um livro álbum, com mais de 300 imagens visuais representativas do design gráfico do Sesc, e uma narrativa paralela de vozes da própria instituição.

A metodologia criada por Armando, para a compreensão de álbuns de família como arquivos privados de representação, sob os aspectos simbólicos de como as famílias contam suas próprias histórias, foi aqui aplicada. Por meio das coleções de fotografias privadas encontram-se as enunciações de grupos particulares, como a de nós mesmos. Imagens as quais permitem-nos trabalhar nossas próprias expressões a ponto de tutelar esse tipo de imaginário, conduzidos pelos arquivos privados familiares. Nossa estratégia nessa pesquisa, foi a de revelar como a instituição se apresenta, a partir de seus arquivos de memória, tal qual o investimento conceitual dos álbuns privados.

Armando aponta que o álbum, enquanto objeto cultural, possui uma condição trial que o define sob uma lógica de encenação contemporânea, constituídos assim, por um sujeito: a família; por um objeto que se faz possível mostra-lo visualmente: a fotografia e o modo de arquivar essas imagens: o álbum de fotografias, a maneira como editado e narrado.

Ao longo da representação visual do Sesc Gráfico estabelecemos uma analogia `a maneira pela qual a instituição investe e preserva suas memórias, em um arquivo privado, a partir desse arquivo foi possível editar as mais de 300 imagens que compõe essa edição e sua análise. Aqui tratamos não de um arquivo privado de fotografias, mas de objetos gráficos dotados de significação, o que nos permitiu a comparação com a ordem lógica dos álbuns de família. O sujeito tratado nessas imagens é a própria instituição, o objeto que nos permite mostra-lo visualmente: as peças gráficas; a organização do arquivo, uma espécie de álbum de imagens com suas evocações.

O recorte que fizemos, a partir de um grupo colaborativo de pessoas ligadas direta e indiretamente à instituição levou-nos ao modo de que o próprio Sesc contasse suas histórias por meio de suas imagens gráficas durante sete décadas.

Essa relação permitiu-nos desvendar o Sesc como sujeito da representação; as peças gráficas como imagens icônicas possíveis de representação visual e a edição que se organiza como um álbum com suas narrativas permitidas pela coletânea das imagens a partir das escutas daqueles que vivenciaram o Sesc ao longo desse tempo.

NOTAS

[1] O Prof. Armando descreve a centralidade de seu trabalho na obra: Imaginário, el asombro social. Universidad Externado de Colombia, 2003. Editado em português, pelas Edições Sesc SP: Imaginários: estranhamentos urbanos/ Armando Silva, 2014.

[2] O ‘Álbum de família’ conta histórias a partir de fotografias e objetos – cartões, avisos, recortes de jornais e relíquias. Mas vai além e inclui umbigos de recém-nascidos, gotas de sangue de casamentos de palavra, mechas de cabelo de apaixonados, unhas de mãos e marcas de pés de bebês. As imagens do álbum revelam a intimidade de uma família e, por extensão, de uma sociedade – seus ritos, fetiches, posses, paixões e segredos. Álbum de Família: as histórias de nós mesmos, Armando Silva. Editado pelas Edições Sesc, em 2008.

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