n° 53 – Ano XVIII – Março de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Artigo

O rigor lírico de Goca Moreno

Com uma linguagem plural, além de técnicas e materiais diversificados, o artista baiano destaca-se pela coerência e identidade de seu trabalho

Alessandra Simões – ABCA/Bahia

Goca Moreno, Varetas

Visitar o Espaço Goca Moreno, em Ilhéus, litoral sul da Bahia, é uma experiência  estética prazerosa. Esculturas, objetos, gravuras, telas, desenhos se espalham pela galeria que se tornou referência obrigatória no roteiro histórico da cidade. Marcado pela diversidade de suportes, técnicas e materiais, seu trabalho apresenta jogos formais figurativos e cromáticos, que se encadeiam de maneira a compor a identidade inconfundível deste artista baiano. Goca arquiteta um construtivismo afetuoso ao criar uma poética enviezada pelo lirismo nordestino e pela precisão da construção plástica. Sobre este paradoxo repousa a força de sua arte.

Para chegar a este ponto, o artista não precisou dar muitas voltas históricas. Sua trajetória se iniciou com a mudança nos anos 1980 de Ilhéus, sua terra natal, para Salvador, onde cursou a  Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. E continuou com uma produção artística prolífera ao retornar para sua cidade, que não seria a mesma não fosse a presença deste filho pródigo que mantém sua galeria no centro e obras em espaços públicos e privados os mais diversos. Sim, a identidade de Ilhéus vai além das referências ao escritor Jorge Amado e da herança arquitetônica e urbanísica barroca e neoclássica; se constitui como uma cidade permeada pela riqueza cultural de artistas das mais variadas áreas. Goca ocupa o panteão das artes visuais com obras de grande vulto, como o painel “As dançarinas voltaram”, no hall de entrada do Teatro Municipal, um diálogo entre os orixás femininos e a dança.

Em Salvador, Goca estudou com Mario Cravo Júnior (1923-2018), com quem aprendeu técnicas de escultura com sucata e pintura. Auxiliou o artista em trabalhos de grande porte, como “Orixás”, para a nova sede dos Correios, no bairro da Pituba. Desta experiência tenha talvez brotado seu apreço pelo trabalho árduo com materiais pesados, grandes dimensões, soluções construtivas e diversidade de materiais, como ferro, madeira, pedra, inox e resina. Do mestre também herdou o gosto pelas tradições populares nordestinas, como a cerâmica e as mitologias afro-brasileira e católica.

“Visitar a galeria de Goca significa percorrer uma fruição a “la Rancière”. É como adentrar em um universo à parte, fabricado por metáforas do cotidiano de Ilhéus e signos gocanianos…”

Na busca pela elaboração de sua poética, o artista passou a transitar entre o imaginário arcaico da cultura popular e um dos espólios mais contudentes da arte latino-americana: as variadas vertentes concretistas que imprimiram boa dose de lirismo ao rigor racional e matemático das vertentes construtivistas. Em Goca, há algo de Hélio Oiticica (1937-1980), Lygia Clark (1920-1988), Xul Solar (1887-1963) e Joaquín Torres García (1874-1945). Entretanto, não abraçou a verve engajada de seus antecessores; sua arte é política enquanto arte. Afinal, a estética promove uma “partilha do sensível”, como pontua o filósofo Jacques Rancière ao identificar certos caminhos percorridos pela arte para balizar o mundo que habitamos, a maneira pela qual o mundo nos é visível ou, por fim, para desvelar as fronteiras imperceptíveis entre a linguagem da arte e a linguagem da vida.

Visitar a galeria de Goca significa percorrer uma fruição a “la Rancière”. É como adentrar em um universo à parte, fabricado por metáforas do cotidiano de Ilhéus e signos “gocanianos”. Passarinhos, casinhas coloridas, iemanjás, sereias, São Jorges (padroeiro da cidade), máquinas fotográficas, rosários gigantescos, personagens que brotam da sucada compõem um relicário da alegria barroca tipicamente baiana. Paradoxalmente, tudo em Goca está milimetricamente ordenado. Suas imagens incorporam o universo popular e da cultura de massa e apresentam, ao mesmo tempo, um especial refinamento tecnológico.

Um exemplo é a série “SIMPLE” (2020), telas em acrílica, cuja modulação de formas geométricas ad infinitum permite uma reinvenção permanente de composições variadas, que ora lembram espaços figurativos (o mar, os barcos, o céu, a lua), ora os mistérios das imagens abstratas, como a profundidade do azul cobalto, que extrapola ao máximo a potência do espaço geometrizado. A série revela, assim, as variadas conotações da abstração formal, com seus jogos de percepção que não são pura visualidade e sim produtos da subjetividade do artista ou de quem observa a obra. Volumes e linhas alternantes lembram o legado único do artista Athos Bulcão (1918-2008), o pioneiro que fez da arte da azulejaria uma ode à utopia modernista de unir arte e vida, como seus murais cujos módulos de formas e cores pulsantes podiam ser montados a partir da escolha dos próprios operários.

No trabalho de Goca, simplicidade não significa ingenuidade gratuita, apenas um modus operandi consciente da estima do artista pelo humor e ludicidade. Como nas imagens que exaltam o tradicional jogo de varedas e suas potencialidades formais. “Casulo” (2012), uma enorme bola formada pelo emaranhado expansivo de linhas finas e coloridas, é um mergulho nessas possibilidades, uma síntese e uma expansão. As telas de grandes dimensões inspiradas na imagem das varetas ao serem jogadas ao chão extrapolam as faculdades do abstracionismo abstrato de um Jackson Pollock (1912-1956) para compor o olhar contemporâneo benevolente com os pequenos objetos do cotidiano. Com seus “passatempos poéticos”, Goca lapida a opacidade da vida ordinária.

Quando salta para a tridimensionalidade, sua criatividade expande-se. As pequenas esculturas da série “Circo para Malu” (2019/2020) mostram trapezistas, bailarinas, equilibrisstas, domadores de focas e elefantes e malabaristas sobre pedestais que liberam o objeto escultural para saltos e desenhos no espaço, com jogos delicados de equilíbrio e graça que remontam aos encantadores móbiles de Alexander Calder (1898-1976), que também se dedicou a criar um circo em miniatura. As esculturas de rostos feitas por Goca em aço inox, ferro, madeira e cores diversas, sinalizam que a tradição do retrato na história da arte pode ser sempre reiventada. A propósito, o artista se vale de sua herança moderna ao homenagear Constantin Brancusi (1876-1957), um dos maiores escultores da vanguarda histórica europeia, com a opulenta série de esculturas e desenhos intitulada “Beijo” (iniciada há 20 anos com peças em pedra, e revisitada em 2019 com pedras, madeira, resina de poliéster e ferro). O mesmo vale para as grandes esculturas feitas de sucatas que impressionam pela sofisticação técnica, como o enorme “Catitu” (2020) em aço e inox, cuja forma é composta por uma profusão de pequenos componentes. Ou ainda o rosto de Jorge Amado (2019), composto por uma infinidade de faixas de sucata de ferro.

Goca com a série Circo para Malu.

“Com o atual isolamento social, Goca disse ter sido necessário olhar de uma nova forma para sua obra, se recriar perante a necessidade do próprio mundo em se readaptar…”

O diálogo entre o figurativo e a abstração é outro ponto forte de seu trabalho. É possível atestar isso na série “Carnaval” (iniciada há 20 anos), uma profusão de corpos humanos coloridos na qual é possível vislumubrar uma articulação com a série “Varetas”. Como se as linhas finas das varetas tivessem de transformado em corpos, entre uma série e outra. E quando mantém a mão firme na geometrização das formas puras, Goca também acerta, como nas esculturas construtivistas que exaltam o valor do material, como ferro e madeira, ou ainda os relevos monocromáticos que transferem seu peso escultural para a parede. Mesmo nesses trabalhos geometricamente mais rigorosos e que aparentam certo feitio industrial, há sempre um empirismo, algo que identifica a experiência subjetiva do artista, sua emoção no ato poético de escolher cortes, curvas, cores, entre outras opções construtivas.

Goca e a neta Malu.

Ao escolher por não seguir caminhos únicos na liguagem artística e apostar na diversidade de suportes e estilos, Goca não resvala para os perigos de um desleixo autoral ou indolência estética. Um Goca é sempre um Goca; e isso é muito marcante para quem vive em Ilhéus e está acostumado a reconhecer suas obras prontamente em vários locais. Como ele faz isso?  A partir da constante auto-reflexão, que permite ao artista mergulhar em suas experiências e trajetórias teóricas e práticas, seja na vida ou na arte. Em sua página no instagram, Goca diz que sempre volta a pintar alguma tela de uma fase antiga, a exemplo de suas fachadas de casas, marcadas pelo jogo de inversão entre planos horizontais e verticais das janelas e telhados, que remontam à paisagem montanhosa de Ilhéus ou Salvador, ou mesmo a referências históricas universalizantes, como a do pitor Alfredo Volpi (1896-1988).

Com o atual isolamento social, Goca disse ter sido necessário olhar de uma nova forma para sua obra, se recriar perante a necessidade do próprio mundo em se readaptar. Continua produzindo sempre com este hábito da auto reflexão, tão importante para o processo criativo, matendo-se fiel a sua busca por esta linhagem construtiva baseada na leveza e no lirismo. Assim, revela que a arte é mais do que ofício, é um modo de operar o mundo a partir de novos sentidos, da imaginação. Com sua poética otimista, o artista parece sinalizar para as potencialidades de um mundo possível, quem sabe na existência do amanhã.

ESPAÇO GOCA MORENO

Rua Antonio Lavigne de Lemos, 76, centro

Sitio Historico Quarteirão Jorge Amado, Ilhéus, BA

Instagram: @gocamoreno

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