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Artigo

O que você vê não é o que você vê

Dono de verve invejável, Alfredo Nicolaiewsky nos desvela a sua poética: não apenas o seu processo, mas também, impressões marcantes da infância e da adolescência, revelando a profunda ligação da sua experiência estética com o cinema.

Icleia Borsa Cattani – ABCA / Rio Grande do Sul

Alfredo Nicolaiewsky, sem título, fotografia, 2001/2018, 51 x 600 cm.

A exposição de Alfredo Nicolaiewsky no Museu de Arte de Santa Maria, com curadoria de Nara Cristina Santos, (de 8 de maio a 3 de junho), trouxe ao público um trabalho exemplar de pesquisa em artes visuais. Intitulada Arte/Cinema: tensão e silêncio, ela foi acompanhada pelo lançamento do livro Alfredo Nicolaiewsky, A Ira de Deus: Prequelas e Sequelas.

Tanto a publicação quanto a mostra trazem os trabalhos que o artista realizou durante seu Estágio Sênior na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, em 2015 – 2016. Seu projeto, que trazia o mesmo título do livro agora publicado, teve como premissa aludir ao histórico terremoto do século XVIII.

Ocorrido em data religiosa, ele foi denominado, à época, A Ira de Deus pelos que o viram como um castigo pelos pecados da população. De grandes proporções, ele foi seguido por maremoto e incêndios, que destruíram grande parte de Lisboa.

Ao mencionar suas “prequelas” e “seqüelas”, Alfredo alude, utilizando-se de termos correntes na cultura portuguesa, aos seus trabalhos que antecederam e aos que sucederam o encontro com este fato histórico e traumático, sobre o qual realizou extensa pesquisa durante o estágio.

Alfredo Nicolaiewsky, A Ira de Deus – Sequela nº 2, 2016. Imagem digital sobre papel Epson Somerset Velvet, 255g. Impressão pigmento mineral, 50 x 149 cm. Edição: 5 exemplares + 2 PA.
Alfredo Nicolaiewsky, A Ira de Deus – Sequela nº 5, 2016. Imagem digital sobre papel Epson Somerset Velvet, 255g. Impressão pigmento mineral, 50 x 162 cm. Edição: 5 exemplares + 2 PA.

No livro recentemente lançado, o artista estabelece vinculações entre os trabalhos realizados nos períodos anteriores de sua trajetória e os que constituem a série atual. De certo modo, ele rememora o que já havia sido realizado no livro Alfredo Nicolaiewsky¹. Mas, se o livro precedente apresentava, ao lado das reflexões do artista, textos de outros autores, a publicação atual conta exclusivamente com texto do próprio artista, que de certo modo reconstitui e revê as diversas etapas que estruturaram o seu trabalho ao longo dos anos.

Trata-se de uma narrativa pessoal, despretensiosa e saborosa (mas, não esqueçamos que saber e sabor têm a mesma origem etimológica). Dono de verve invejável, Alfredo nos desvela a sua poética: não apenas o seu processo, mas também, impressões marcantes da infância e da adolescência, revelando a profunda ligação da sua experiência estética com o cinema. Os fatos acontecidos são narrados à margem do texto principal, em inserções denominadas Comentários afetivos. Essas criam uma situação original, pois o leitor é convidado a transitar de um texto simultaneamente descritivo e analítico, a pequenas narrativas de cunho subjetivo – como se o autor fizesse apartes no que escreve.

No texto principal, ele disseca aspectos da sua produção nas sucessivas fases, identificando semelhanças e diferenças na poiética e na poética das obras, por meio de uma reflexão que, embora informal, é sistemática e aprofundada.

Embora tenha como eixo a produção mais recente, presente na exposição, esse livro também aborda pela primeira vez os trabalhos realizados no doutorado e após, posteriores à primeira publicação sobre o artista. Toda a sua produção até 2017 se encontra, assim, registrada.

“Trabalhando sempre com um princípio serial, Alfredo realizou, cronologicamente, várias séries, todas de longa duração e com meios diversos…”

Alfredo Nicolaiewsky, A Ira de Deus – Sequela nº 14, 2016. Imagem digital sobre papel Epson Somerset Velvet, 255g. Impressão pigmento mineral, 50 x 164 cm. Edição: 5 exemplares + 2 PA.
Alfredo Nicolaiewsky, A Ira de Deus – Sequela nº 19, 2016. Imagem digital sobre papel Epson Somerset Velvet, 255g. Impressão pigmento mineral, 50 x 182 cm. Edição: 5 exemplares + 2 PA.

Embora alguns procedimentos tenham sido constantes na poética de Alfredo – a apropriação de objetos e de imagens, o princípio serial, as justaposições de elementos de origens diversas, as mestiçagens² – são efetivamente as produções realizadas do doutorado até agora as que mais se aproximam. E, essa aproximação ocorre por meio do cinema e suas derivações contemporâneas.

Trabalhando sempre com um princípio serial, Alfredo realizou, cronologicamente, várias séries, todas de longa duração e com meios diversos. Dos desenhos dos anos 1980, que justapunham imagens quase planas de interiores domésticos (principalmente, paredes forradas de papéis de flores com quadros ou estatuetas sobrepostos) a fragmentos de corpos masculinos seminus em situações eróticas, ele passou à pintura, na qual diferentes formas, técnicas e suporte conviviam. A essas, seguiram-se justaposições de desenhos de grandes dimensões, com imagens e textos realizados à mão e, a seguir, imagens de diferentes origens foram colocadas lado a lado, ressignificando-se mutuamente.

Séries importantes marcaram sua produção durante os cursos de mestrado e doutorado: no primeiro, trabalhou com conjuntos que, unidos por uma temática comum (santinhos, chapéus, etc), traziam elementos e formas heteróclitos como desenhos, cópias xerox pintadas à mão, materiais impressos, estatuetas de gesso e outros materiais, formando verdadeiras instalações bidimensionais. Foi durante o doutorado que descobriu a possibilidade de isolar frames de filmes em VHS, ampliá-los como fotografias autônomas e justapô-los a outros, de filmes diferentes. O encadeamento de imagens assim dispostas provocava livres associações, sugerindo narrativas abertas e subjetivas. O espectador poderia criar as suas próprias, a partir de cada trabalho. Conjuntos mestiços, neles as imagens, separadas por pequenos vãos, faziam surgir novos e perturbadores sentidos.

Alfredo Nicolaiewsky, A Ira de Deus – Sequela nº 27, 2016. Imagem digital sobre papel Epson Somerset Velvet, 255g. Impressão pigmento mineral, 50 x 180 cm. Edição: 5 exemplares + 2 PA.

No momento atual, se o processo de captação de imagens fílmicas mudou expressivamente, pelo próprio avanço tecnológico, o princípio de constituição das obras permaneceu o mesmo: a apropriação de frames e a sua justaposição, em ordem horizontal ou vertical, que provocam sua “leitura” dentro de narrativas pessoais. Se os frames foram utilizados com exclusividade do doutorado até a produção atual, nesta, o artista se permitiu romper o protocolo que havia definido para si próprio. Assim, passou a justapor àqueles, imagens oriundas de outros contextos: fotografias de cenas cotidianas, de figuras, de texturas, realizadas por ele mesmo. Assim fazendo, rompeu em parte com o princípio narrativo vigente até então nas suas obras, criando outras modalidades de estranhamento e sugerindo novas possibilidades de leituras. Conforme aponta Nara Cristina Santos no texto curatorial, “as imagens retomam a tensão de um desejo latente insinuado na narrativa da montagem, da fotografia e do cinema, em que se justapõem imagens de pessoas, de lugares, de paisagens, de objetos, em cenas descontínuas, intimistas e inquietantes.” ³

A tensão, que o artista voluntariamente provoca pelas imagens que justapõe é, simultaneamente, enfatizada e desmentida pela inserção de elementos como uma superfície azulejada, ou um ramo de flores, ou um espaço museológico. As diferentes ordens de imagens podem ser percebidas por detalhes sutis de cor, de nitidez, ou de ausência de encenação, que criam disjunções e evocam, neste sentido, os desenhos realizados no início dos anos 80. Essa disjunção, não só temática, mas também formal, temporal e de situação (bidimensionalidade – tridimensionalidade, espaço decorativo – corpo humano, instante – duração), retorna mais de trinta anos depois, nos trabalhos atuais.

“Constata-se também na exposição, ao visualizar as imagens a certa distância, o rico cromatismo de cada conjunto, criado na alternância das imagens captadas de filmes e das que o próprio artista fotografa…”

Alfredo Nicolaiewsky, A Ira de Deus – Sequela nº 29, 2016. Imagem digital sobre papel Epson Somerset Velvet, 255g. Impressão pigmento mineral, 50 x 146 cm. Edição: 5 exemplares + 2 PA.
Alfredo Nicolaiewsky, A Ira de Deus – Sequela nº 32, 2016. Imagem digital sobre papel Epson Somerset Velvet, 255g. Impressão pigmento mineral, 50 x 179 cm. Edição: 5 exemplares + 2 PA.

Se os observadores são livres para criar suas próprias interpretações, o artista, no entanto, não deixa de conduzi-las em parte, por um elemento que faz parte da lógica serial utilizada: todos os conjuntos são denominados “Sequela”, com o número correspondente à sua localização na série. Ora, quem fala em sequela, pelo menos no português do Brasil, evoca algum tipo de disfunção: sequela de um acidente, de uma doença, de algum tipo de fato negativo, tanto orgânico quanto estrutural. Assim, somos levados a pensar em acidentes ou catástrofes, algo que, em termos de outra época, evocaria “a ira de Deus”.

Constata-se também na exposição, ao visualizar as imagens a certa distância, o rico cromatismo de cada conjunto, criado na alternância das imagens captadas de filmes e das que o próprio artista fotografa. Privilegiando tonalidades quentes e baixas, confrontando-as com o preto e branco ou com superfícies de cores fortes que surgem de modo esparso, as obras evidenciam suas qualidades visuais, para além do princípio narrativo.  Do mesmo modo, a instigante justaposição de figuras com padrões geométricos, de rostos em gros plan com cenas em perspectiva, de paisagens e objetos com personagens, cria uma dinâmica própria e instigante.

Também merece destaque, a relação estabelecida entre as obras e o espaço expositivo. Este último, amplo e com o pé direito relativamente baixo, favoreceu a percepção da horizontalidade das obras, reforçando simultaneamente suas possibilidades de interpretação como texto visual, próximo da escrita. Esse aspecto foi reforçado pelo trabalho mais recente exposto: reunindo imagens captadas em VHS no tempo do doutorado em nova configuração, Alfredo criou um trabalho de 51cm X 600 cm. Ele foi exposto, segundo suas indicações, em ângulo de 90 graus, passando de uma parede à outra – como um livro aberto.

Atualizando seu trabalho precedente, integrando-o com o atual, ressignificando-o pelas novas justaposições de imagens e relações espaciais, o artista reforça o princípio narrativo de seu trabalho, ao mesmo tempo em que o desmente pelas contradições imagéticas voluntárias, que lança ao espectador, como provocações. Como se, simultaneamente à criação de pseudonarrativas, ele afirmasse ao que olha os seus trabalhos: “o que você vê não é o que você vê”. Bela provocação à modernidade e, simultaneamente, afirmação de um princípio contemporâneo.

Alfredo Nicolaiewsky, A Ira de Deus – Sequela nº 36, 2016. Imagem digital sobre papel Epson Somerset Velvet, 255g. Impressão pigmento mineral, 50 x 175 cm. Edição: 5 exemplares + 2 PA.

REFERÊNCIAS:

Brites, B. et allii. Alfredo Nicolaiewsky. Porto Alegre: Fumproarte, 1999

Nicolaiewsky, Alfredo. Da ordem do enigma. In: Cattani, Icleia (Org.) Mestiçagens na Arte Contemporânea. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2007

Santos, Nara Cristina. Texto curatorial. Exposição Arte/Cinema: tensão e silêncio. Museu de Arte de Santa Maria, de 08 de maio a 03 de junho de 2018.

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