n° 47 – Ano XVI – Setembro de 2018  →   VOLTAR

Exposição

O que havia e o que resta: pinturas de Estela Sandrini

“É uma pintora verdadeira e sincera, coerente desde seus inícios, uma profissional que domina sua técnica com cuidado…”

Dois textos de Fernando Bini e Maria José Justino – ABCA / Paraná

Memória do Branco, 2018. Óleo s/ tela, 135×184 cm. Foto: divulgação.

Estela (Teca) Carmen Pereira Sandrini – Desenhista, escultora, gravadora, pintora, professora e agente cultural.

Fernando Bini – ABCA / Paraná

Desde 1968 se dedica principalmente ao desenho e a pintura, a escultura lhe serviu para se libertar da forma e lhe dar a noção de espacialidade. A sua responsabilidade social e política, que sempre está presente na sua obra, também é de extrema importância seja como agente cultural no processo administrativo, ou seja, na atividade de incentivadora e professora de arte.

Apesar de grande desenhista, pois é uma artista essencialmente gráfica, é a cor o que sempre a atrai, lembrando Paul Klee quando se decide pela pintura: “A cor me possui. Não preciso ir atrás dela. Ela me possui para sempre, eu sei. Esse é o significado dessa hora feliz: a cor e eu somos um. Sou pintor” (Diários, 16/4/1914).

Em Buenos Aires, quando começou a estudar escultura trabalhou com a figura humana, abandonando gradativamente os resquícios acadêmicos da Escola de Belas Artes. Nesse momento seus trabalhos apresentavam figuras femininas nos afazeres domésticos, cabeças bicudas como aves, mulheres gordas, agigantadas ou objetos caseiros. Esse espaço da copa e da cozinha começa a ser sintetizado com janelas, gavetas ou cadeiras: “a cadeira representa a espera, o descanso e o pensar” diz Teca. Seus quadros transpiram uma angústia, a dúvida da artista ou a dúvida de ser artista; é uma pintura enjaulada, contida dentro de uma parede – “a prisão da pintura”, ou melhor, a necessidade da pintura como algo existencial, íntimo e apaixonado; no entanto aquelas cenas enigmáticas vão se transformando predominantemente em cor.

A forma ortogonal das gavetas, das grades, das janelas ou das cadeiras vai se tornando elíptica até formarem um todo colorido. Pintura como cor até a exaustão. Lentamente o centro das telas vai clareando, expulsando os objetos para as suas bordas, que partem do cinza, ao creme e ao branco. Ficam os vestígios desses objetos, como os sons de uma música ao longe (a música, a sua fiel companheira), “texturas, transparências, planos, matizes, tonalidades, luz” e também “sombras e gestos”.

As linhas não foram abandonadas, é como se a artista partisse de um tratamento geométrico e balizadas pelos vestígios de uma perspectiva paralela, mas é na cor que ela mostra a sua liberdade plástica e toda a sua sensibilidade, fundamento de seu compromisso social e político quando provoca a reflexão, seja pelo desvendamento do universo feminino ou pela revolução cromática.

Teca busca sempre a novidade, mas sua pintura é sempre a mesma: questionadora, com vontade de querer fazer, de se sentir no mundo, de existir; “fome de pintura”, de “pintura como pintura” na explosão do colorido. “Sonhar em vão” a sensualidade da cor, na magia da pintura que no início é “fantástica” e que, no fim, deixam todas as dúvidas, mas “sem sentir o medo da loucura consentida” e com “nada de limites entre o visual e o emotivo”. Sua pintura é tátil, pois é a mão e as pontas dos dedos que dividem o trabalho com a espátula e o pincel nessa “necessidade de traduzir o invisível” (Teca), construções que partem da memória da artista e se transformam em grandes massas policromadas.

É uma pintora verdadeira e sincera, coerente desde seus inícios, uma profissional que domina sua técnica com cuidado, deixando, contudo, as portas abertas para o diálogo com o espectador, uma pintura que é de questionamentos o tempo todo e que provoca nesse espectador o mesmo prazer, a mesma angústia e as mesmas dúvidas experimentadas pela artista.

 

Sem Título, 2018. Óleo s/tela, 109×43 cm. Foto: divulgação.

Estela Sandrini, a memória da cor

Maria José Justino – ABCA / Paraná

Repetindo a mesma forma até ao cansaço, fazendo verdadeiras progressões matemáticas, banindo a mão do artista e recorrendo à fabricação industrial, os minimalistas produzem uma arte que, não raro, resulta impessoal, cerebral e fria. Estela Sandrini também repete à exaustão suas cadeiras, atingindo a saturação, mas no ponto mesmo em que se cruzam é que se distanciam métodos e principalmente resultados. Sem o rigor da ciência, nem tampouco reduzindo sua atuação física, a mão lhe é fundamental, por isso mesmo suja suas telas de subjetividade, apresentando uma arte apaixonada.

Sandrini precisa dessa materialidade. Independentemente das escolas e movimentos, constrói um trabalho em escala pessoal. Cézanne pintou inúmeras vezes a mesma montanha, a eterna Saint-Victoire; Monet, as ninféias; Donald Judd, os módulos geométricos… Sandrini continua atrás dos objetos domésticos. Tudo se resume na casa, é ela ainda o sentido de sua pintura. Só que agora essas tralhas aparecem de forma camuflada, quase invisíveis, ocultas pelas manchas, ora incompletas na sua presença (fragmentos de objetos), ora completas na não-presença (os vazios das cadeiras e das gavetas).

Passional, dramática, bruta na lida com os pincéis, é moldada quase que exclusivamente pela cor e pela paixão de pintar. Cézanne dizia escutar a pintura. Diante das Noces de Cana (Veronese), ordenava “Feche os olhos, aguarde, não pense em nada. Escute-as.” Nossa artista pratica esse exercício. A diminuição da visibilidade, de que vem sofrendo, vai conduzindo-a a pintar quase que de memória. Hoje, ela escuta a pintura muito mais do que a vê, e dessa espreita auditiva advém a visão. Ela pinta o invisível do visível pela riqueza da memória e pela relação biológica com a cor. Tudo se passa por meio da luz, pois, com a dificuldade que tem, é esta quem lhe oferece o contraste.  Mas a luz, que ilumina, também cega. É quando então a artista tira partido do silencioso branco.  Sua pintura permanece com traços fortes, só que mais do que linhas, agora são pinceladas grossas de cor, buscando sempre atingir a essência dos vermelhos, dos terras, dos azuis. Mesmo quando são visíveis, os traços nada mais são do que o derramamento de cores.

Sandrini encontra prazer em pelejar com o banal. Do interior da trama doméstica, a seleção pela cadeira e pelas gavetas (lugar do segredo, dos escondidos, mas também das revelações: as gavetas se fecham, mas também se abrem) quase que reclama uma psicanálise. Não é o caso. Ela exercita sua angústia pela pintura. Seus últimos trabalhos invadem nosso espaço com explosões de cores, trágicas e sensíveis, a química familiar da cor nos regalando com soberbas imagens poéticas. Charles Fourrier foi iluminado ao perceber que o homem está todo inteiro nas suas paixões. Sandrini só se mostra por inteiro na vivência impetuosa com a arte.

Sede de Olhar, 2018. Óleo s/tela, 100×150 cm. Foto: divulgação.

 

SERVIÇO:

O que havia e o que resta: pinturas de Estela Sandrini

De 18 de agosto à 28 de outubro de 2018.

Local: Instituto Internacional Juarez Machado, R. Lages, 994 – América, Joinville – SC

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