Reflexões

O prazer na noite.

Ativista nas áreas de educação ambiental e artística, Denise Milan, de modo interdisciplinar, nos apresenta o exercício de escuta e leitura que envolve as pedras

Jacob Klintowitz – ABCA/São Paulo

Essa noite passada reli o ensaio de Borges sobre a “Novelas exemplares”, de Cervantes. Adotei esse método: sempre leio um escritor brilhante antes de dormir. Combate a insônia e me acalma. Tudo parece em ordem quando faço isso. Ou isso ou eu levo para a cama a desordem mental e a entropia militante de certo político brasileiro.

Uma noite dessas li o breve e emocionante texto de Truman Capote sobre Somerset Maugham, uma despedida agradecida ao mestre inglês, próximo da morte, pelo mestre americano. (Levar para a cama os “Ensaios”, de Capote, é prova de fidelidade, pois tem 606 páginas). Truman Capote reconhece a maestria de Maugham, o prazer que os seus escritos lhe deram, em uma frase, apenas uma, é capaz de explicar o estilo de Maugham e em uma outra frase, mais alongada, diz de sua admiração. O talento pode tudo, inclusive dizer tanto em uma frase.

Voltando ao binômio Borges-Cervantes, o cardápio parece diferente. Borges sempre vê o sistema e não o fenômeno isolado. É por isso que ele começa distinguindo o romance psicológico do romance de aventuras. Se Borges fosse astrofísico ele sempre contemplaria a Via Láctea e não o planeta. Depois, ele alinha Cervantes à outras estrelas ardentes da literatura e traz opiniões variadas sobre o seu texto. Nessas opiniões, somadas às opiniões dele próprio, encontra os defeitos do estilo e do próprio texto de Cervantes. E contrapõe esses defeitos à eficiência do texto cervantiano, ao fato inegável de que esse texto deu certo e fala no prazer. Finalmente, para a minha alegria, termina nessa apoteose, e no prazer que o leitor sente ao ler as “Novelas exemplares”.

Curioso, belamente curioso, duas estrelas tão díspares, Borges, o sábio, Capote, a alma, dizerem a mesma coisa, o prazer na arte. Modestamente, sem estar no mesmo firmamento dos dois, eu falo neste prazer na arte desde o meu primeiro texto na grande mídia. Este primeiro texto falava de Kafka, também uma estrela de brilho ofuscante. É claro que o meu texto estava aquém do mestre tcheco. Eu tive a vida inteira, felizmente, para acrescentar anotações. Mas, o que me alegra, e digo isso desta vez sem modéstia, é que nesses sessenta anos que me separam desse texto inaugural, eu continuo a sentir o mesmo prazer no contato com a arte. Talvez, mais justo comigo, dizer que hoje o meu prazer é ainda mais intenso.

Por Luise.

(Fragmentos de ensaio a sair, pós-pandemia, no livro “Luise Weiss. Território da memória”).

O grito silencioso, o grito sem som, o som que intuímos e que ressoa apenas nas nossas mentes e nos nossos olhos, o som inaudível que ecoa da obra de Luise Weiss é de uma pujança inaudita. É o testemunho de uma era.

Essas memórias são pessoais e ficcionais, além de históricas, pois a artista medita sobre o mundo e ao fazê-lo sonha com um mundo que existe, existiu, persiste como dor e volta e voltará a existir e nos ameaçar.

A saga criada por Luise Weiss é idêntica a este sonho, já que ela inventa esse mundo e o reveste de luzes originais e de uma sensibilidade rara que renova as nossas emoções e a própria memória que temos desse assunto.

A artista Luise Weiss se dedicou, não a vestir o vazio, mas a revelar a identidade do ser humano que se esconde entre artefatos, roupas, peruca, nariz de palhaço, ataduras, chapéu. Este vazio que recebe a identidade da artista não é o vazio que precede a iluminação, mas o vazio do ser que é apenas a vestimenta. É como se Luise Weiss, uma vez descartada a persona, encontrasse o ser perdido de si mesmo e nos devolvesse a sua identidade secreta, oculta dele mesmo. Luise Weiss afasta a banalidade do ser-máscara, do ser-persona, do ser vazio de si mesmo, da não identidade, e nos apresenta o ser individualizado e integrado na sua humanidade.

… É essa artista que nos lega um momento poético em que a produção de imagens se esgota nela mesmo, em que o feito se desfeita, em que a realidade é apenas a do registro que o vento leva e a impermanência acentua o gesto como razão de ser. Com os filhos, Weiss dedica um dia a desenhar na areia à beira mar. Anotações, figuras, lembranças, associações, histórias pessoais, fadas, faunos, ninfas, sereias, esfinges.

         Apenas os seus olhos registrarão essas cenas. Algumas fotos amadoras de algumas imagens. Quando o vento passar e revolver esses vestígios, do homem terá ficado o que os seus olhos registraram.

Esperando os bárbaros.

Não podemos perder o sentido da harmonia (beleza). Se, para resistir e protestar, tivermos que perder o desejo de harmonia, então os bárbaros terão vencido.

A beleza é a linguagem.

A barbárie é o caos.

n° 57 – Ano XIX – Março de 2021 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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