Artigo

O invisível que torna visível o que se escolheu não ver

Da noite para o dia o mundo é obrigado a interromper seu curso de ação e reavaliar o modo como vivemos. É neste ponto que a pandemia coloca um espelho diante da humanidade.

Sylvia Werneck – ABCA/São Paulo

E eis que um organismo microscópico ameaça o planeta e obriga a uma mudança abrupta na dinâmica das sociedades. Primeiro a hesitação, então a constatação de que estamos diante de um problema com o qual não sabemos ao certo como lidar – chefes de Estado adotam as mais variadas medidas, tão díspares que vão do fechamento de fronteiras à negação da ciência, do pronto investimento em pesquisas para testes e vacinas às acusações contra os órgãos de imprensa que veiculam informações sobre a disseminação do vírus. O ponto em comum entre todas estas atitudes é, sem dúvida, o medo. Da noite para o dia o mundo é obrigado a interromper seu curso de ação e reavaliar o modo como vivemos. É neste ponto que a pandemia coloca um espelho diante da humanidade, e a imagem que aquele lhe devolve não é nada bela. Mais que um reflexo, o que se escancara são as mazelas que teimávamos em varrer para debaixo do tapete. Desigualdades históricas há tanto abafadas vêm à superfície e não é mais possível olhar para o outro lado, pois elas estão em toda parte. Morre mais quem tem menos – menos acesso à informação, menos possibilidades de se proteger, menos recursos para se manter em condições minimamente dignas de existência.

A verdade saindo do poço armada do seu chicote para castigar a humanidade. Jean-Léon Gérôme, 1896.

A morte se torna uma possibilidade real não apenas pela doença em si, mas pela interrupção ou diminuição das atividades econômicas das quais depende o sustento das pessoas, e que, assim como a covid, afeta com mais virulência grupos desprivilegiados da população, entre eles os mais pobres, os indígenas, os trabalhadores informais, e também, no nosso meio, os profissionais da cultura. Foi este o primeiro setor a interromper suas atividades, e provavelmente será o último a retomá-las. A arte existe para ser vista, é o olhar (quando não a participação) do espectador que motiva, justifica e viabiliza a criação de obras musicais, teatrais e visuais. Na impossibilidade de haver este encontro com o público, todo o campo é atingido.

Museus, casas de espetáculo, centros culturais e galerias se viram repentinamente obrigados a  fechar as portas, e vêm buscando se adaptar ao ambiente digital, para onde foi transferida toda a visualização de obras de arte. Até o momento, o que vemos é uma tentativa de reproduzir virtualmente o encontro com o espectador. Para as galerias, ainda que possa haver prejuízo (a ver) nas vendas, a migração tende a ser menos traumática, já que seus clientes podem ter acesso às imagens das obras pelas quais se interessem. As relações entre colecionadores e galeristas sempre foram, afinal, mais diretas e pessoais. A apreciação, neste caso, é individual – obra a obra -, da mesma maneira que o esforço de venda é feito cliente a cliente. Uma abertura de exposição em uma galeria é, antes de tudo, um evento social onde oferta e demanda são mediadas por conversas amenas e descontraídas que têm como fim estreitar a proximidade entre as partes para que ambas venham a negociar com mais assertividade quando for o momento. Para movimentar a cena e seguir mostrando o que têm a oferecer, galerias vêm disponibilizando viewing rooms, lives com artistas e críticos e visitas virtuais a ateliês.

A funda morada, Thiago Rocha Pitta, 2020. (em exibição no site da Galeria Triângulo).

“Preocupante é também a situação dos educadores, montadores, e tantos outros profissionais de apoio que dependem diretamente da existência de exposições para trabalhar e, muitas vezes, não têm vínculo empregatício com as instituições…”

Os museus e centros culturais, por outro lado, enfrentam dificuldades bem maiores para manter seu funcionamento, uma vez que são organizações sem fins lucrativos. Ainda que alguns recebam (cada vez menos) recursos do poder público ou de investidores privados, parte de sua verba vem da bilheteria e das lojas ou cafés que hospedam. Com o fechamento, crescem as demissões de funcionários e medidas de diminuição de atividades. É importante lembrar o impacto social ampliado disto, já que, além dos curadores, conservadores e diretores, as instituições culturais também empregam pessoas de áreas não diretamente relacionadas à cultura – da limpeza à tecnologia da informação, passando pela segurança e serviços administrativos, muitos estão sob risco de perderem seu ganha-pão. Preocupante é também a situação dos educadores, montadores, e tantos outros profissionais de apoio que dependem diretamente da existência de exposições para trabalhar e, muitas vezes, não têm vínculo empregatício com as instituições.

Em relação às exposições de arte no ambiente museal, por conta de sua condição não comercial, a dinâmica é bastante diferente daquela das galerias. Aqui, as mostras são construídas para contar histórias, sejam elas sobre determinado momento dentro da história da arte, sobre a trajetória de um artista ou de um movimento, ou sobre um aspecto da vida para além dos muros da instituição. Mais ainda, são recortes da criação artística dispostos segundo reflexões, que instigam outras reflexões e contribuem para a formação de pensamento crítico. Como descreve Nicolas Bourriaud, uma exposição funciona como um interstício social:

(…) a diferencia de la televisión o la literatura, que reenvían a un espacio de consumo privado y del teatro o el cine, que reúnen pequeñas colectividades frente a imágenes unívocas: no se comenta lo que se ve, el tiempo de la discusión es posterior a la función. A la inversa, en una exposición, aunque se trate de formas inertes, la posibilidad de una discusión inmediata surge en los dos sentidos: percibo, comento, me muevo en un único y mismo espacio.[1]

Esta característica fica impedida de se realizar na conjuntura de uma pandemia. Por mais que museus ofereçam tours virtuais, a experiência não tem a mesma potência da fruição in loco. Mesmo depois da reabertura, provavelmente terão que ser criadas novas modalidades de visitação, talvez com regras mais rígidas sobre quantidade de público e “etiqueta sanitária”. O futuro ainda é incerto e qualquer prognóstico, a esta altura, é prematuro.

“Outro aspecto que concerne a arte em tempos pandêmicos é o efeito sobre os próprios artistas, tanto em termos do processo criativo em si, quanto de como gerar renda sem poder exibir suas obras…”

A situação de exceção deixou clara uma verdade conhecida, porém pouco comentada – existem dois mundos da arte: um ligado à produção de objetos para consumo e outro mais afeito à manutenção e expansão do repertório cultural da sociedade. Há muito que estes dois mundos se comunicam, o primeiro tendo o segundo como legitimador do capital simbólico dos objetos que são postos em circulação. Este relacionamento, por vezes, pode chegar a configurações questionáveis que beneficiam poucos colecionadores/investidores hábeis em fazer os valores de suas peças subirem vertiginosamente (lembremos que a arte é um mercado não regulado. Após a crise financeira mundial de 2008, foi dos poucos setores que não sofreu grandes abalos). Como tudo o mais neste espelho que a pandemia ergue diante de nós, trata-se de colocar às claras coisas para as quais se costuma fazer vista grossa, como a capacidade do mercado de transformar mesmo as formas de arte mais conceituais e críticas ao sistema em mercadoria. Esta constatação sequer é nova, tendo sido explorada pelos próprios artistas em diversas ocasiões, frequentemente usando de expedientes irônicos – do urinol de Duchamp, passando pelos Rituais para a transferência de uma Zona de sensibilidade pictórica imaterial de Yves Klein até chegar à banana atada à parede com silvertape de Maurizio Cattelan[2]. Todos estes atos performáticos, é verdade, foram realizados por artistas que contavam com o respaldo de carreiras consolidadas, estando numa posição confortável o bastante para lhes permitir uma grande liberdade de ação sem colocar em risco real a continuidade de seu trabalho.

Comedian, Maurizio Cattelan, 2019.

Outro aspecto que concerne a arte em tempos pandêmicos é o efeito sobre os próprios artistas, tanto em termos do processo criativo em si, quanto de como gerar renda sem poder exibir suas obras. Este segundo aspecto pode ter solução por via das galerias que, mesmo virtualmente, continuam operando. Mas, é claro, isto só se aplica a artistas já inseridos no circuito e que são representados por galerias (mesmo estes não têm garantia de que suas obras serão compradas), e exclui uma expressiva massa de criadores independentes, especialmente aqueles que vivem nas periferias dos grandes centros urbanos ou em regiões fora do eixo “quente” da arte, concentrado entre São Paulo e Rio de Janeiro.

“Muitos outros projetos vêm se concretizando para amenizar os efeitos da crise, e sua existência traz algum alento sobre o comportamento geralmente desumano em relação ao outro, mesmo que nenhum deles seja capaz de alcançar todos os atingidos.”

Na tentativa de acudir artistas, vários editais de organizações públicas e privadas vêm sendo criados em caráter emergencial. A maioria, elaborada às pressas, acontece de maneira um tanto atropelada, com valores ínfimos e prazos exíguos

Na tentativa de acudir artistas, vários editais de organizações públicas e privadas vêm sendo criados em caráter emergencial. A maioria, elaborada às pressas, acontece de maneira um tanto atropelada, com valores ínfimos e prazos exíguos. Acabam também sendo excludentes, já que muitos artistas periféricos não têm boa conexão de internet ou familiaridade com a linguagem própria dos editais. Além do mais, estas chamadas se destinam a artistas, mas quais são as alternativas para quem presta serviços de apoio, como monitores, iluminadores, montadores, etc.? Consequentemente, tendem a ser contemplados artistas em melhores condições sociais, geralmente aqueles com mais formação e informação. Abandonados pelo governo federal, os profissionais da cultura nem sempre se enquadram nos requisitos para receberem o auxílio emergencial, que os partidos políticos de oposição conseguiram elevar dos risíveis R$200 oferecidos pelo Poder Executivo para os ainda insuficientes R$600. Se a situação já era precária antes do coronavírus, sem plano para o setor e com um silêncio sepulcral sobre o Sistema Nacional de Cultura, agora é desesperadora. Enquanto escrevo, a Lei Aldir Blanc, destinada a prestar auxílio financeiro aos trabalhadores do meio, é sancionada. Resta saber como os montantes serão distribuídos para os Estados e municípios, onde a destinação dos recursos esbarra em disputas entre políticos locais.

Em paralelo, surgem pequenas lufadas de esperança solidária em pequena escala, com várias iniciativas de socorro a grupos vulneráveis ganhando forma, num ato de resistência que lembra a flor de Drummond que desafia o caos e teima em nascer na dureza do asfalto.[3] Coletivos de artistas se organizam para vender obras de arte e destinar os valores a pessoas em situação precária, como o Birico[4], que reúne 30 artistas oferecendo trabalhos a preços especiais para ajudar moradores do entorno da Cracolândia, em São Paulo, ou o Awêry Manūtiáp[5], com 96 fotógrafos de todo o Brasil disponibilizando o valor das vendas para doação de cestas básicas a professores indígenas Pataxó que tiveram seus contratos rescindidos.

Kayapó, Rosa Gauditano.

Muitos outros projetos vêm se concretizando para amenizar os efeitos da crise, e sua existência traz algum alento sobre o comportamento geralmente desumano em relação ao outro, mesmo que nenhum deles seja capaz de alcançar todos os atingidos. Uma ação abrangente dependeria de poderes mais robustos movidos por uma consciência acima dos interesses individuais, algo que, lamentavelmente, não aparece no horizonte. Grandes avanços exigem grandes mudanças de paradigma, e isso é algo que leva tempo, e quando se dá, é invariavelmente por meio dos valores e modos de vida das sociedades, ou seja, através da cultura. Filha desta, a arte, assim como a flor do poeta, sempre pode insistir em sonhar com dias melhores que comecem com pequenos atos de resistência.

Atenção: isto pode ser um poema, Coletivo Transverso, 2011. Foto: Cauê Maia.

 

NOTAS:

[1] BOURRIAUD, Nicolas. Estética relacional. Adriana Hidalgo Editora: Buenos Aires, 2006. (p. 15)

[2] Entre o final da década de 1950 e início da de 1960, Yves Klein realizou várias operações de venda de uma dada medida de vazio, pela qual o comprador deveria pagar certa quantia em barras de ouro, recebendo em troca um recibo assinado por Klein. Caso quisesse, o comprador participaria de um ritual com a presença de um diretor de museu, crítico de arte ou galerista reconhecido e duas testemunhas. Nesta ocasião, o comprador queimaria o recibo e o artista jogaria metade das barras de ouro em um rio ou no mar de modo que não pudessem ser recuperadas. Um relato destas ações pode ser lido em “Ritual for the Transfer of a Zone of Immaterial Pictorial Sensibility”, 1959, Overcoming the problematics of Art -The writings of Yves Klein, Spring Publications, 2007.

Em 2019, durante a edição da Art Basel em Miami Beach, o artista conceitual Maurizio Cattelan expôs na Galeria Perrotin uma série de 3 objetos que consistiam em uma banana fresca presa à parede com silvertape. Duas delas foram vendidas por US$120.000 cada. Uma delas, ainda em exposição, foi comida pelo artista David Datuna, que nomeou seu ato como a performance Hungry Artist. A banana foi subsequentemente reposta.

[3] “A flor e a náusea”, poema de Carlos Drummond de Andrade publicado no livro A rosa do povo, escrito entre 1943 e 1945.

[4] Perfil no Instagram: @birico.arte. Birico é a gíria que descreve a pedra de crack repartida.

[5] Perfil no Instagram: @96awery. Awêry Manūtiáp significa “Obrigado, artistas!”

n° 54 – Ano XVIII – Junho de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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