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Artigo

O incêndio que destruiu o Museu Nacional

Considerando apenas a relação de artistas plásticos – pintores e escultores –, este acervo incluía 47 autores como Rodolfo Amoedo, Henrique Bernardelli, Joseph A. Conde de Gobineau, Cândido Portinari, Domingos A. de Sequeira, Simplício R. de Sá, Johann M. Rugendas e Nicolas-Antoine Taunay…

Zuzana Paternostro – ABCA / Rio de Janeiro

Johann M. Rugendas, Vista do Palácio de São Cristóvão. Lápis sobre papel,19 x 33,5 cm.

Foram aterradoras as imagens das labaredas consumindo, durante horas, o extenso prédio do Museu Nacional: sua fachada, paredes, espaços internos, consumindo milhões de objetos de seu precioso acervo, sobretudo científico.

No entanto, minha apreensão como historiadora e crítica da arte não estava voltada – naturalmente – para coleções de biologia, paleontologia, etnologia ou sequer centrada em coleção de objetos da arqueologia clássica, de artefatos das escavações em Pompéia e Herculano. Muito embora estas peças – por mérito da imperatriz Teresa Cristina – constituíssem um belo acervo trazido para o Brasil¹.

Meu interesse e preocupação estavam focados nas obras e objetos que faziam parte do acervo histórico-artístico documental do Museu Nacional representado por pinturas, gravuras e esculturas bem como por fotografias, mobiliário e artefatos diversos. Incluia ainda exemplos de numismática, diplomas comemorativos e instrumentais histórico-científicos utilizados ao longo da existência do Museu Nacional como centro de pesquisa natural².

Considerando apenas a relação de artistas plásticos – pintores e escultores –, este acervo incluía 47 autores como Rodolfo Amoedo, Henrique Bernardelli, Joseph A. Conde de Gobineau, Cândido Portinari, Domingos A. de Sequeira, Simplício R. de Sá, Johann M. Rugendas e Nicolas-Antoine Taunay.

De acordo com nosso levantamento, ambas as obras de Johann Moritz Rugendas – tanto o desenho a lápis de um esboço da Vista do Palácio de São Cristóvão quanto a pintura a óleo Retrato de Ludwig Riedel (doação da Prof.ª Amélia Riedel) foram guardados no cofre da Diretoria, por seu valor e tamanhos reduzidos. É possível que tenham escapado da destruição. Quem sabe? Por enquanto, ainda aguardamos por notícias mais animadoras.

Perdida maior paisagem carioca sobre Quinta da Boa Vista

Nicolas-Antoine Taunay, Primeiro Passeio de D. João VI e D Leopoldina na Quinta da Boa Vista. Óleo sobre tela, 92,5 x 146,5 cm.

Retornando ao passado, em 1826 o olhar anônimo de um carioca é noticiado na Astrea, uma publicação editada e impressa pela tipografia da Rua da Alfândega, nº 426, dizendo:

“Aqui neste Muzeu³ – se vê huma obra prima de Taunay, Pay. Como he bela Paisagem! Que Arvores, que frescura, que colorido; estava vendo a Quinta do Monarcha. Taunay se deo a imortalidade: viverá no Rio de Janeiro sempre que existir este seo Painel (…)”.4

A tela atualmente intitulada Primeiro passeio de D. João VI e D. Leopoldina na Quinta da Boa Vista, de autoria de Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830), era a única de autoria do artista no acervo do Museu e, lamentavelmente, não sobreviveu. Esta notícia já se confirmou: o majestoso e importante quadro não escapou. Um fogo impiedoso engoliu a imensa imagem panorâmica – a maior de todas – realizada no Brasil. Uma composição extensa como esta era pouco frequente na produção do artista, que cultivava pinturas diminutas e intimistas.

Taunay, destacado pintor e um dos membros da Missão Artística Francesa de 1816, foi mestre de quadros de pequenas dimensões. Retratou o Brasil em diversas paisagens: vistas do Rio de Janeiro, seus aspectos urbanos com edifícios profanos e religiosos, habitações singelas, palacetes da nobreza e outras moradias locais, além de diversas vistas da baía de Guanabara, marinhas de águas calmas salpicadas de veleiros e pequenas embarcações a remo. Sempre com a presença de minúsculas figuras humanas da sociedade que tanto o surpreenderam quanto o cativaram. Que experiência!

Devemos salientar que o pintor foi, antes de tudo, observador atento da natureza em volta de sua moradia e também retratista, particularmente de sua própria família. Não era chegado – ao contrário do seu compatriota Jean-Baptiste Debret (1768-1848), outro membro da Missão – aos registros pictóricos em homenagem à Família Real portuguesa.

Entre os mais destacados membros da Corte, Taunay não disputou atenção nem insistiu em encomendas vantajosas. Restrito ao ensino na Escola Real de Artes e Ofícios, retratou a realeza em uma única – porém espetacular – exceção, numa paisagem em São Cristóvão, no Rio de Janeiro.

Foi esta a pintura onde focalizou a Quinta da Boa Vista com a presença logo de três retratos significativos. Numa carruagem, levando dois personagens ilustres: o Rei D. João VI e sua nora Dona Leopoldina. Outra terceira se refere a si próprio, num autorretrato, reverenciando as duas figuras ilustres com chapéu na mão.

Ao filho do artista, Théodore, não escapa os personagens da cena. Observa o séquito de cortesãos, cavaleiros e “o som da passagem”. A obra foi assim por ele comentada, em 1830:

“(…) Vejo, da cidade, um grupo avançando;
Inquietos cortesãos que o dever anima
Em direção à mão real que beijam a cada noite.
São os brilhantes cavaleiros e os cortejos numerosos,
As carruagens voam, seguidas por traços poeirentos;
E a ponte, abalada sob o azul radiante,
Revela, através do fogo dos corcéis, o som da passagem”.5

Nicolas-Antoine Taunay, Primeiro Passeio de D. João VI e D Leopoldina na Quinta da Boa Vista (detalhe – autorretrato do artista).

E quanto às figuras Reais?6

Seria procedente o titulo tradicional que herdei do quadro, dito original?

Conheci a pintura com o título em francês – D. João et Dona Carlota Joaquina passant la Quinta de Boa Vista près du Palais de São Cristóvão (D. João e D. Carlota Joaquina passando na Quinta da Boa Vista perto do Palácio de São Cristóvão). Foi assim que o denominei, ao concluir o levantamento do acervo histórico-documental das dependências do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tomei por base, nessa análise, listas e comunicados burocráticos (muitos em rascunho e sem data) do arquivo daquele Museu, e algumas notícias publicadas na imprensa.

E assim o apresentei à pesquisadora francesa Claudine Lebrun Jouve, a quem acompanhei para ver a obra in loco na Quinta da Boa Vista, nos idos de 1988-89. Como não houve manifestação em contrário, minha certeza de que se tratava de D. João VI, bem como a suposição de que a acompanhante seria sua esposa, a rainha Carlota Joaquina, esta informação passou ao catálogo raisonnée da grande especialista em Taunay e sua obra.

Nicolas-Antoine Taunay, Primeiro Passeio de D. João VI e D Leopoldina na Quinta da Boa Vista (detalhe – D. João VI e D. Leopoldina).

No entanto, a mulher na carruagem sempre me intrigou não parecendo ser D. Carlota Joaquina. Os traços fisionômicos da rainha, à época da feitura do quadro, eram de uma mulher de idade, madura e magra, de rosto nada redondo. Para reafirmar isto, ainda, todos os seus retratos conhecidos – tais como o de Debret, o de Domingos de Sequeira (1768-1837), o de Manuel Dias de Oliveira (“o Brasiliense”, 1764-1837) e o do próprio Taunay – retratam uma figura angulosa, de faces cavadas.

O rosto retratado nesse quadro era jovem, bochechudo, queixo duplo, típico e saliente. Este último traço, tão característico, está, no entanto, presente em todos os quadros que retratam a arquiduquesa Leopoldina de Habsburgo, a então recém-chegada nora de D. João. A massa corpórea da figura sentada ao lado do rei, no passeio na Quinta, corresponde ao retrato pintado por Debret em seu estudo para o Desembarque de D. Leopoldina no Brasil, pintura pertencente ao Museu Nacional de Belas Artes (MNBA).

Jean-Baptiste Debret. À esquerda D. Carlota Joaquina, à direita D. Leopoldina. Água-forte. Biblioteca Nacional.

Tanto seu perfil quanto o colo e os braços roliços, característicos de ambos os quadros, são idênticos, não encontrando paralelo nos retratos existentes da rainha ou mesmo de suas filhas. Comparem-se, por exemplo, a figura feminina em passeio na Quinta com duas gravuras (águas-fortes) coloridas em formato circular que, segundo Debret, retratam-na em separado, em ambas aparecendo de perfil, obras que atualmente integram o acervo da Biblioteca Nacional.

Chegamos à conclusão de que o monarca português teria a iniciativa de fazer-se acompanhar pela nora em passeio pelas redondezas do Palácio, sendo notório o pouco interesse do príncipe D. Pedro, esposo da arquiduquesa d’Áustria, por passeios de cortesia, e suas preferências por companhias menos oficiais e caseiras.

Além disso, encontramos ainda uma antiga suposição de se tratar de D. Leopoldina no texto de Afonso d’Escragnolle Taunay em um dos anuários do Museu Nacional de Belas Artes (1947-48): “(…) o Rei vai com uma infanta ou quiçá a Princesa Real, D. Leopoldina”. Tudo corroborando com nossa nova identificação, acreditamos, por fim, que estivesse correta.

As imagens que, assim, se constroem dessa obra de Taunay formam um tecido de enredos multissensoriais que impressionam a vista e os sentidos. História e histórias, apreciação de significados orientada pelos fatos e pelas ideias que fazemos dos fatos, essa matéria orgânica da atenção presente no olhar anônimo, ou no olhar do connaisseur. Assim foi consolidada, para nós, a identidade da personagem feminina do quadro de Taunay.

Preservada no consciente coletivo

Recém-chegada ao país e tomando conhecimento da história e cultura nacionais, tive meu primeiro contato com a obra em 1972, em uma extensa exposição organizada pela efeméride de 150 anos de Independência do Brasil7, exposta em 1.400m2 nos dois andares do Museu Nacional de Belas Artes.

Fiquei tão profundamente marcada pela obra que, anos mais tarde, em 1988-89, ao receber no MNBA a visita da já citada pesquisadora francesa Claudine Lebrun, indiquei a existência e importância da obra, que passou a fazer parte do catálogo raisonnée publicado pela especialista.

Novamente, em 2008, o quadro ganhou atenção especial e restauro sob iniciativa de Lilia Moritz Schwartz, e teve um capítulo dedicado à obra publicada em seu livro, onde tive o prazer de discutir os aspectos relativos à mudança da personagem D. Leopoldina, presente também nesse artigo que, ademais, contou com palestra ministrada no Museu Nacional de Belas Artes.

Em suma, este quadro me marcou de forma especial. Eu, que já estava ligada ao país por afeto, tive o destino selado pelo contato envolvente com a riqueza da natureza, exuberância da flora e dos panoramas paisagísticos de vegetação pouco frequentes em meu país de origem.

Essa obra consolidou o meu amor pelo Brasil e me levou a querer contribuir para resguardar a sua história, particularmente artística. Infelizmente, a materialidade do quadro foi perdida.

Espero, porém, que esse depoimento, assim como a profusão de conhecimento acadêmico, em geral retido em publicações diversas a seu respeito, rendam homenagens preservando sua importante memória e valiosa existência entre nós.

Rio de Janeiro, 21 de novembro de 2018.

 

Dedico este artigo à Lygia Martins Costa (1914-) que devotou durante mais de meio século à área museal brasileira e que, para mim, é um exemplo de ética, carisma aliados ao vasto conhecimento e qualidade de seu brilhante trabalho.

 

Referências:

ARQUIVO NACIONAL. Dom Pedro II e a Cultura. Rio de Janeiro: Ministério da Justiça, 1977.

ARQUIVO NACIONAL. Arquivo da Mordomia da Casa Imperial. 1857

JOUVE, Claudine Lebrun. Nicolas-Antoine Taunay 1755-1830. Paris: Arthena. 2003.

LAGO, Pedro Corrêa do. Taunay e o Brasil: obra completa | 1816 – 1821. Rio de Janeiro: Capivara Editora Ltda. 2008

MNBA. BOLETIM DO MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES. Rio de Janeiro: Departamentos Técnicos e de Educação do MNBA. ANO VII – n.19/20/21. 1988

PATERNOSTRO, Zuzana. A quinta do “monarca”, a nobreza do olhar e a visão do artista. In: SCHWARTZ, Lilia Moritz; DIAS, Elaine (Org.). Nicolas-Antoine Taunay no Brasil: Uma leitura dos trópicos. Rio de Janeiro: Editora Sextante. 2008 pp.176-181

PATERNOSTRO, Zuzana. Levantamento Histórico-Artístico do acervo documental do Museu Nacional. Levantamento realizado no museu por Zuzana Paternostro entre anos de 1986 a 1988 (inédito).

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