Entrevista

O desafio de apresentar Schwanke na sua plenitude

A pesquisadora Maria José Justino monta no Museu Oscar Niemeyer uma exposição de fôlego sobre o artista joinvilense que viveu no Paraná.

Néri Pedroso – ABCA/ Santa Catarina

Maria José Justino, curadora da mostra Schwanke, uma Poética Labiríntica, idealizada para o Museu do Olho, em Curitiba (PR). Foto Divulgação.

Maria José Justino, mestre em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1983), doutora em estética e ciências das artes pela Universidade de Paris VIII (1991) e com pós-doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris/2008) vive e atua em Curitiba (PR), onde tem larga contribuição no campo das artes visuais. Ela começou 2021 com noites insones diante da responsabilidade da curadoria da mostra Schwanke, uma Poética Labiríntica, que ocupará o Museu Oscar Niemeyer (MON), entre março e junho. Com vasta experiência em curadorias, essa é bastante desafiadora pelo volume de trabalhos e pela complexidade do pensamento do artista Luiz Henrique Schwanke (1951-1992), catarinense que vive 15 anos na capital paranaense, onde começa uma trajetória artística primeiro no teatro, como ator e cenógrafo, e depois nas artes visuais.

Os livros, pesquisas e propostas curatoriais de Justino transitam entre história da arte brasileira, crítica de arte, história da arte paranaense, estética, arte e sociedade. Atualmente, trabalha como curadora, crítica de arte e professora adjunto da Escola de Música e Belas Artes do Paraná Embap/Unespar.

Como curadora, é legitimada pelo Prêmio Maria Eugênia Franco concedido pela Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) à curadoria da exposição O Estado da Arte – 40 Anos de Arte Contemporânea, realizada no Museu Oscar Niemeyer entre 2010 e 2011.

À luz de autores, como Julio Cortazar, Umberto Eco, Merleau-Ponty, Gaston Bachelard, Friedrich Nietzsche e Walter Benjamin, entre outros estudos, Justino mergulha na produção do artista a partir da singularidade de seu repertório e arquivo. Analisa as filiações e pertencimentos inscritos na história da arte, as experimentações que reverberam até hoje.

Nesta conversa, Justino revela os enfrentamentos teóricos com Schwanke que “conheceu de soslaio”, mas cuja produção a trouxe na atualidade até o Museu do Olho numa curadoria que tem o maior volume de trabalhos já reunidos desde a morte do artista há 28 anos. Generosa, expõe também os princípios, os desafios e cuidados adotados na curadoria, uma atividade que, segundo ela, equivale a de um guardião. “O desafio é apresentar a obra na sua plenitude”, diz ela.

De uma Conversa com o Paulo sobre Mondrian (1976), pintura com decalcomania. Foto: Divulgação.

Néri Pedroso – Antes de tudo: conheceu Schwanke? Como e quando entrou em contato com a produção do artista?

Maria José Justino – Conheci Schwanke apenas de soslaio. Esbarrando em exposições, principalmente no Salão Paranaense e na Universidade. Não me lembro de nenhuma prosa com ele. Mas sempre me espantei quando me deparava com alguma obra dele. Em 1985, no Salão Paranaense, foi a grande revelação. Sou uma amante inveterada da pintura, como muitos são do piano ou do violino, do teatro ou do cinema. A pintura mexe muito comigo. Por mais que esteja situada no Renascimento, me espanto diante de Klein do mesmo jeito que me espanto com Paula Rego ou Lucien Freud. São narrativas diferentes, criações de outra ordem. Quando vi os Linguarudos de Schwanke veio, de imediato, à minha memória, o Grupo Cobra e a Art Brut. Então, conversando com os meus botões, disse-me: este cara é especial. Schwanke passou a fazer parte das minhas aulas. Mas a escrita sobre Schwanke começou apenas em 1996, por ocasião da bela exposição O Universo Poético de Schwanke, Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre (RS).

Pintura, os Perfis ou Linguarudos, como ficaram conhecidos e com os quais o artista conquistou inúmeros prêmios nos anos 1980. Foto: Peninha Machado.

NP – De fôlego, a mostra Schwanke, uma Poética Labiríntica oferece para Curitiba obras nunca vistas na cidade. Qual o eixo principal do seu pensamento curatorial?

MJJ – Esses dois últimos anos passei a conviver com a obra de Schwanke de forma mais intensa. Frequentei algumas vezes o magnifico acervo que Maria Regina Schwanke Schroeder, irmã do artista, guardiã zelosa e do acervo. Confesso que, no início, fiquei atordoada com a quantidade e a qualidade. Joinville está perdendo a grande oportunidade de criar de fato (ele já existe no papel) o MAC Schwanke. Será um manancial para os grandes pesquisadores e amantes da arte, e, sem dúvida, um marco para o turismo. Quem ouviu falar em Bilbao antes do Guggenheim ali aportar? Falta no Brasil mecenas da sociedade civil ou governantes que sejam, efetivamente, estadistas, que invistam em cultura e educação e não apenas em estradas. Se não alcançam a importância da cultura, pelo menos entendam que cultura também rende dinheiro e empregos.

Nesse meio tempo, imaginando como seria a apresentação do artista em toda a sua produção, deparei-me com a pintura O Labirinto Destruído, de Paul Klee. Caiu como luvas para a ideia que estava se formando em minha cabeça, a noção de labirinto, de como apresentar o artista neste magnífico lugar que é O Olho (MON), com várias entradas para a sua obra. Uma pena que O Olho tenha apenas uma entrada geral. Organizei a exposição como um labirinto em rede (Eco), em núcleos (dentro do Olho e nos jardins), cada um falando por si só e dialogando com os outros. O visitante já se perde quando se depara com as duas imensas paredes côncavas, de um lado, carinhosamente batizei de A Loucura, ele se vê frente à multiplicidade dos Perfis expressionistas (cerca de 500 Linguarudos), um acotovelando o outro; de outro, também os Perfis, de outra ordem, concisos e conceituais. Essa dualidade já é uma perturbação. Expressão e conceito. E o desafio dos materiais. Como uma simples mangueira de plástico vira uma Mandala? Círculo místico, símbolo irradiador a partir de um material prosaico. Quanto ao ineditismo nesta exposição, ainda não fizemos o cálculo exato, mas seguramente, mais de 70% da obra aqui exposta é inédita.

Mandala (1989) tem 1,5 metros de diâmetro e é feita a partir de mangueiras de plástico e madeira. Foto: Paulo de Araújo.

NP – Quais as maiores dificuldades na estruturação conceitual da curadoria, quais os desafios mentais diante desta produção?

MJJ – Antes de tudo, entender que uma curadoria é uma realização coletiva. Em primeiro lugar, é preciso ter empatia com a obra. E uma relação de confiança com o artista, se vivo. Não saberia fazer uma curadoria de um artista que não me toca, que não me fala. Sensibilidade acima de tudo. A partir daí, o desafio maior é dialogar com a obra. Escutar o que ela tem a dizer e as perguntas que devo fazer. E como operar a seleção a ser mostrada. Outro desafio é o de lidar com as competências: saber dialogar com a equipe, a expografia e os dirigentes da instituição. Outra dificuldade, é a montagem. Uma instigação à equipe técnica, nesta do Schwanke, é a montagem da parede intitulada A Loucura e as instalações com luz. Por fim, a provocação maior, é fazer com que essa riqueza chegue ao visitante, como apresentar ao público, permitir que ele se transforme com essa interação. Nesse sentido, a proposta educativa dirigida por Alena Marmo, é uma parceria fundamental. E, finalmente, um catálogo à altura da obra e do artista.

NP – Labirinto sem repouso, você escreve no catálogo. Em suas últimas experiências, nos trabalhos em que usa energia elétrica, Schwanke foi minimalista. Sua curadoria inclui três obras desta fase, algo inédito. Fale um pouco sobre essa produção.

MJJ  Schwanke foi além do minimalismo. Sim, labirinto sem repouso, pois cada obra é chamada pela e para outra. A figura de labirinto guarda inúmeros sentidos. Umberto Eco fala em três tipos de labirinto: o clássico (Knosos) unodirecional e com centro e saída; o maneirista (Irrweg) e o de rede. Inspirei-me neste último, o de rede, como uma trama com infinitos corredores ou núcleos, em que cada um pode conectar-se com outro. Um labirinto tecido de formas suas e de outros, em que Schwanke extrai uma narrativa, uma simbologia e opera uma admirável poética que rivaliza com os grandes artistas contemporâneos. Uma poética original. A chegada à essas três obras (A Casa Tomada, Deposição de Cristo e Paralelepípedo de Luz) sintetiza uma sedução antiga de Schwanke pela luz. Vejam aos desenhos/pinturas, o apogeu do claro-escuro pós Caravaggio e La Tour. A luz já está ali, como energia, como uma indagação metafísica.

A Casa Tomada (1980), obra de Schwanke apresentada pela primeira vez na Galeria Sergio Milliet, no Rio de Janeiro. Foto Divulgação.

NP – É possível dizer que algumas obras estão datadas ou o conjunto em sua totalidade continua com frescor, ajuda a pensar o tempo contemporâneo?

MJJ  A obra continua extremamente viva e provocativa. Toda ela tem aquele apelo merleaupontiano: ela nos instala em um mundo que se abre em que o sentido não cessa de se desenvolver. Schwanke nos ensina a ver. Trata-se de uma obra contemporânea, que faz sentido no presente.

NP – No texto curatorial você menciona insólitas imagens. Quais as que mais fascinam?

MJJ  Difícil selecionar diante de tantas obras especiais, de um manancial tão rico. Destaco algumas A Casa Tomada, as Mancúspias, as Mandalas, a Cobra Coral, os Perfis, tanto os Linguarudos como os ‘minimalistas’, em especial Sem Título (1991), da coleção Sylvia G.Thomazi. Deus do céu, que dificuldade! Não posso deixar de fora a série citacionista da história da arte (de Caravaggio à Mondrian). Tudo nele é extraordinário.

Incluo no texto curatorial (catálogo) uma obra que infelizmente está fora da exposição, pelo alto custo, mas que pretendemos tê-la em Curitiba até 2022: Templo. Em pleno 1976, quando o universo artístico conspirava a favor da Minimal Art, Schwanke, instalado no costado curitibano – longe até de São Paulo e Rio, quanto mais da Europa e dos Estados Unidos – arquitetou uma escultura de 120 colunas prateadas emergindo das águas, um templo que nos conduz à Grécia e aos minimalistas. Tenho a honra de estar fazendo a curadoria dessa obra que continua inédita. O conselho do MON aceitou a doação do Templo (montagem nº 1) generosamente feita pela família Schwanke. Já iniciamos os trabalhos do projeto e apoiadores para torná-la possível. E uma obra chave na produção de Schwanke.

Em sua 11ª montagem, Cobra Coral volta ao MON depois de ser vista na exposição O Estado da Arte – 40 Anos de Arte Contemporânea, em 2011.

NP – É mais fácil fazer curadoria de artista vivo ou de artista que já morreu? Quando faz a curadoria, qual o lugar que o artista ocupa na sua vida?

MJJ – São diferentes. Antes de tudo é preciso ter em mente que o artista pode ser seu próprio curador. Mas quando você aceita curar, você é o guardião. Claro, tomo sempre o cuidado de não afrontar o artista, para isso é preciso muito diálogo.

Tive uma experiência extraordinária quando vi pela primeira vez Las Niñas de Vélasquez, no Prado (em 1988), em Madri, na Espanha. Era a obra em destaque e estava apresentada em uma ampla sala, única, nos tons cinza do Vélasquez e iluminada de tal forma que era como se houvesse uma janela real fazendo a luz invadir e iluminar a pintura. A emoção foi indescritível. Voltei ao Prado em 1992 e corri para rever Las Ninãs. O esforço foi grande para abstraí-la das obras vizinhas. É uma obra que merece estar em uma sala única. A obra é a mesma, muda a forma como é apresentada. Isso é curadoria.

Com o artista vivo você discute com ele, mas tem de ter o cuidado de não se deixar levar pelo discurso e deixar a obra falar. É o maior desafio. Nem sempre o artista é o melhor juiz da sua obra. Croce, o grande esteta italiano, não tinha dúvida: a pessoa física separa-se da estética. É isso possível? Sabemos que determinada obra só é possível oriunda daquela vida, mas quando ela surge, corta o cordão umbilical com o seu autor, a obra é independente. Tanto é que muitas vezes a obra fala coisas que o próprio artista não se deu conta. Trata-se do processo criativo em que o inconsciente faz parte. Encontrar essa magia é papel do curador. E claro, o grande desafio é compartilhá-la com os outros.

Com o artista morto, a provocação é de outra ordem, deixar a obra falar, apesar de tudo o que se disse dela (estudiosos, críticos, amantes). A força do já dito pode virar forca. Mas também, quando se trata de um verdadeiro pensador, pode iluminar. Em qualquer dos casos, o desafio é apresentar a obra na sua plenitude e dividir com o público o fascínio experimentado.

Schwanke no Museu Fritz Alt, em Joinville, diante da obra Sem Título (1991), hoje pertencente ao acervo de Sylvia Grossenbacher Thomazi . Foto: Paulo de Araújo.

Mostra Schwanke, uma Póetica Labiríntica, de 31 de março a  6 de junho de 2021. De terça a domingo, 10h às 18h (ingressos e acesso às salas até 17h30. Quarta gratuita, 10h às 18h.

Local: Museu Oscar Niemeyer, rua. Mal. Hermes, 999, Centro Cívico, Curitiba (PR), tel.: (41) 3350-4400. Ingressos: R$ 20/R$ 10 (para professores e estudantes com identificação; doadores de sangue; pessoas com deficiência; titulares da ID Jovem; portadores de câncer com documento)

Realização: Museu Oscar Niemeyer e Museu de Arte Contemporânea Luiz Henriqueenrique Schwanke Schwanke (MAC Schwanke)

Saiba mais: www.schwanke.org.br

n° 56 – Ano XIX – Março de 2021 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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