n° 50 – Ano XVII – Junho de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Internacional

O Congresso da Associação Internacional de Críticos de Arte será em Berlim

A presidente da AICA – Alemanha, Danièle Perrier, dá detalhes sobre o evento que ocorre em outubro

Lisbeth Rebollo Gonçalves – ABCA / São Paulo

“Nosso Congresso se propõe, de início, a uma busca de definição do populismo, do ponto de vista filosófico e artístico. Depois, analisaremos mais particularmente a situação na Alemanha, com uma discussão em torno do Fórum Humboldt, para passar às nuaças dos populismos e de suas mises en scène artisticas, frequentemente polivantes, e à atitude da crítica de arte diante desta  realidade.” – A presidente da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA), da Alemanha, Danièle Perrier dá uma entrevista especial ao jornal Arte & Crítica e comenta a importância do próximo Congresso da AICA a ser realizado em outubro próximo em Berlim.

A seguir, a conversa com Danièle Perrier, presidente da AICA Alemanha:

Danièle Perrier, presidente da AICA Alemanha – Foto: acervo pessoal.

Lisbeth Rebollo – Quando aconteceu o último Congresso da Associação Internacional de Críticos de Arte na Alemanha, qual foi o tema discutido e qual sua importância na época?

Danièle Perrier – Foi em 1977.  O 12º Congresso Internacional da AICA aconteceu em Colonia, quando da 24ª Assembleia Geral , sob a presidencia de Horst Richter, que faleceu recentemente. Ele se dedicava ao estudo do tema  Arte nos anos 1970 . Nesse evento da AICA, aconteceram 26 conferencias dedicadas a três questões fundamentais  para a crítica de arte : « Teoria e métodos da crítica de arte contemporânea », « Problemas do realismo de nossos dias » e « Expansão da arte ».

Os dois primeiros temas tiveram grande ressonância entre os participantes, bem como entre os jornalistas convidados a acompanhar o Congresso. As críticas matizadas que apareceram na imprensa da Alemanha Ocidental e dos países da Europa Ocidental deram uma imagem matizada entre a afirmação e a contradição, uma característica presente na crítica de arte como na arte, ambas sendo fundamentadas sobre dados em constante movimento.

Mas se quisermos compreender tais fatos em  uma Alemanha dividida, não podemos esquecer que na 24ª Assembléia Geral em 1974, um congresso menor, mas não menos importante, foi realizado na RDA, especificamente em Dresden e Berlim. Foi dedicado à « Função da arte nos movimentos sociais contemporâneos ».  Olhando em retrospectiva, pode-se falar em instrumentalização da arte aos fins socialistas, ou  mesmo comunistas.  Este tema permitiu, entretanto,  que se  veiculasse discretamente aos colegas ocidentais  a informação sobre o estado precário dos museus.

LR – Você pode nos dar algumas informações sobre o programa que está preparando para o congresso da AICA, em outubro deste ano, em Berlim?

DP Se mencionei o congresso de Dresden, é porque na Alemanha, talvez mais que em outras partes, as palavras « populista e nacionalista » tornaram-se virulentas, de direita, desta vez, e é necessário salvaguardar a liberdade de expressão. Quero dizer com isso que a arte se politiza novamente, muitas vezes em detrimento da estética.

Nosso Congresso se propõe, de início, a uma busca de definição do populismo, do ponto de vista filosófico e artístico. Depois, analisaremos mais particularmente a situação na Alemanha, com uma discussão em torno do Fórum Humboldt, para passar às nuaças dos populismos e de suas mises en scène artisticas, frequentemente polivantes, e à atitude da crítica de arte diante desta  realidade. Discutiremos, então, o estudo dos formatos metodológicos da crítica de arte e de sua aptidão para conquistar o público (por exemplo, formatos de pesquisa, de expertise, de envolvimento da imaginação, de provocação).  Dedicaremos também uma sessão à importância da distribuição da informação através das redes sociais, seu impacto sobre o jornalismo e  também trataremos das questões concernentes à crítica frente ao espaço público. O último dia será consagrado à censura e à autocensura ditadas pelos populismos diversos.

“O que é importante para nós é que o nosso congresso abra o diálogo sobre todos estes tópicos dos quais vamos tratar…”

LR –  Qual a importância, para a Associação Internacional de Críticos de Arte, de um debate sobre nacionalismo e populismo?

DP Há uma infinidade de tópicos que merecem ser abordados, incluindo a questão da precariedade de nossa profissão, que nos preocupa muito seriamente. Não desenvolvemos  meios  capazes de remediá-la. Então qual seria o ponto a lamentar?

Por outro lado, a ascensão do populismo, muitas vezes ligada ao nacionalismo, tomou conta da mídia no campo da crítica e da cultura da arte. Com o populismo, a simplificação deixa de servir à comunicação de fatos complexos e cai em uma retórica redutora que desfigura, tanto o artístico como o político.É imprescindível ouvir a intervenção de críticos de arte em debates político-culturais sobre o “populismo”, como agentes influentes, para posicionar a arte como uma expressão da sociedade e não como um produto de luxo e investimento – e isso no que diz respeito à evolução da situação a nível internacional e “à frente de nossas portas”.

LR –  Como a arte colabora para este importante debate do tempo presente?

DP As polêmicas em torno da retirada de obras de arte controversas de exposições  e a interferência do debate Me Too no campo artístico estão sendo impostas nos espaços de notícia. Critérios de avaliação étnica tentam se impor, quando os artistas se apropriam em suas obras desses valores culturais, com ou sem a intenção de provocação.  Que nos dizem todas estas polêmicas entre adeptos da etnicidade e  da estética sobre nossa compreensão de uma arte «responsável» e sobre uma aproximação da crítica de arte que possa parecer  politicamente «adequada»? Parece-nos importante discutir onde e como traçar os limites da liberdade artística numa época em que a censura e a autocensura se tornam moeda corrente.

O que é importante para nós é que o nosso congresso abra o diálogo sobre todos estes tópicos dos quais vamos tratar. É por isso que planejamos ter discussões mediadas por um moderador, após cada conferência, ou até duas organizadas em sessões separadas. Por outro lado, haverá também painéis reunindo agentes do campo artístico, trazendo diversas experiências sobre o tema do nacionalismo, por exemplo. Todos estão cordialmente convidados a enriquecer-nos com seus pontos de vista.

Saiba mais sobre o congresso da AICA em outubro próximo, em Berlim acessando:

https://aicainternational.news

https://www.aica.de

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