Artigo

No reino do amor e do perdão: a linguagem das pedras

Ativista nas áreas de educação ambiental e artística, Denise Milan, de modo interdisciplinar, nos apresenta o exercício de escuta e leitura que envolve as pedras

Alecsandra Matias de Oliveira – ABCA/São Paulo

Denise Milan, O coração de Francisco, 2012. Foto: Tim Wintemberg.

Passaram-se quase dez anos da instalação No reino do amor e do perdão: a linguagem das pedras, de Denise Milan[1], com curadoria de Franca Di Valerio, no Palazzo del Monte Frumentario, em Assis (Itália)[2]. Porém, sua experiência ainda guarda lições sobre arte, natureza e vida. Cabe-nos, neste momento de convulsão ecológica, econômica, mas, acima de tudo, humanitária, dedicar atenções sobre os ensinamentos que aquele conjunto de obras já pontuava em 2012. Da reconstrução dos conceitos que moveram o trabalho, extraem-se as proposições que “a pedra azul”, metáfora atribuída pela artista ao planeta Terra, traz para o religare, ou seja, para a reconexão entre o homem, o meio natural e o divino.

Ativista nas áreas de educação ambiental e artística, Denise Milan, de modo interdisciplinar, nos apresenta o exercício de escuta e leitura que envolve as pedras – e, mais ainda, coloca o quartzo, mineral presente em 70% da crosta terrestre, como o comum – aquele que reconecta às origens, à criação. Ela nos convoca ao dizer “eu descobri uma linguagem universal”, a linguagem da Terra como sujeito e não objeto – como um organismo vivo e em permanente transformação. Naquela ocasião, em Assis, seu convite destinava-se à partilha desse conhecimento e, hoje, nos permite à reflexão e, principalmente à busca do equilíbrio há muito perdido.

Denise Milan, Mandala de pedra, 2012. Foto Mauro Berti.

A cidade de Assis, descrita por Dante ao narrar os passos de São Francisco (no canto XI de Paraíso), os afrescos de Giotto e a própria paisagem italiana tornaram-se fatores relevantes nesta instalação planejada por Milan. No reino do amor e do perdão: a linguagem das pedras apresentava nove trabalhos, incluindo três fotos-colagens da série Estrelas, três esculturas e três mandalas que aqui merecem destaque.

A primeira delas é O coração de Francisco, suspensa no ar, na janela do Palazzo, essa mandala era formada por uma fatia de geodo de quartzo, envolta por moldura de aço. No centro, uma área vazada insinuava o formato de um coração – a artista não desenhou ou entalhou, apenas selecionou os minerais em seu estado natural. A incidência da luz do sol sobre a peça viajava para dentro do espaço repousando na próxima mandala. Sim, a luz poderia ser o caminho para a observação.

Por fim, o trabalho de Denise Milan nos faz lembrar a frase de São Francisco: “apenas um raio de sol é suficiente para afastar várias sombras”

Já a segunda obra, Mandala de pedra, era construída a partir de pedras vindas do Monte Subásio na Umbria, Itália, onde São Francisco de Assis meditava sobre seu amor pela natureza. Disposta no chão, a mandala assemelhava-se a um instrumento de navegação. Mas, também, nos remetia à estrela de seis pontas e ao átomo do quartzo, como um padrão geométrico comum ao universo e ao humano. Construída de pedra calcária rosa e branca, contando com mão-de-obra local, a obra tinha no centro uma meia esfera azul de sodalita brasileira – a “pedra azul”. Em 2013, a peça foi agregada à coleção da cidade de Assis e instalada na Piazza Santa Maria degli Angeli – mais uma obra pública de Milan, que como pioneira e entusiasta da arte pública, tem seus trabalhos em diversos locais.

Denise Milan, O coração da terra, 2012. Foto: Tim Wintemberg.

O coração da terra era a terceira mandala. Igualmente depositada ao chão e inspirada na estrela de seis pontas, também era semelhante à roseta empregada na decoração das igrejas de Assis – uma referência ao sagrado e à história italiana. Ela novamente trazia a estrutura atômica do quartzo, tendo o caixilho produzido a partir de madeira preta, onde se inseriam pequenos vítreos. No ponto central, estava outra metade da “pedra azul”, a sodalita brasileira, e a partir dela se expandiam raios de cristal translúcido. Embora o contorno da estrela fosse escuro, do conjunto, composto por cristais, fragmentos de vidro e espelho, irradiava um brilho.

E, talvez, a luz fosse guia afetuosa entre as peças que compunham a instalação, Do Coração de Francisco ao Coração da terra, a cintilação do sol, acrescida pela translucidez das pedras, poderia afastar os tempos difíceis, trazendo amor, perdão e, sobretudo, esperança. A preocupação com o religare, motivadora da instalação No reino do amor e do perdão: a linguagem das pedras, no fundo é a apreensão com o outro (o cuidado com o próximo), entendendo que natureza e humanidade têm mútua pertença, sendo a arte instrumento desta relação. Por fim, o trabalho de Denise Milan nos faz lembrar a frase de São Francisco: “apenas um raio de sol é suficiente para afastar várias sombras”.

NOTAS:

[1] Denise Milan (São Paulo, 1954) inicia sua relação com o mundo da arte através da dança, música e poesia, tendo colaborado com o Haroldo de Campos em muitas ações. Trabalha com esculturas, foto-colagens e outros meios. Já expôs em instituições brasileiras e em cidades, tais como, Chapingo, Chicago, Hakone, Hannover, Londres, Nova York, Osaka, Paris, Taiwan e Washington.

[2] A obra foi comissionada pela Fetzer Institute.

n° 57 – Ano XIX – Março de 2021 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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