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Museu Intercontinental África Brasil: espetáculo de assombrações

Milhares de peças neste museu situado no norte do Espírito Santo evocam nosso passado escravocrata e o descaso público para com a memória brasileira.

Alessandra Simões – ABCA / Bahia

O Museu reúne 30 quadros do pintor e músico carioca Heitor dos Prazeres (1898-1966). Imagem: Divulgação.

A vida é um assombro. E suas evidências prevalecem na paisagem intrigante da cidade de São Mateus, no extremo norte do Espírito Santo. Como muitas dessas pequeninas cidades históricas litorâneas, suas ruas e ladeiras sinuosas escondem, sob a aparente normalidade cotidiana, a monstruosa sombra do legado escravocrata. Desconhecida no ranking turístico nacional, São Mateus guarda ainda alguns casarios coloniais. Mas sua história pode ser sentida mesmo a partir da observação cuidadosa da vista para o imenso vale do rio Cricaré, contemplado de alguns pontos de suas ladeiras. Serpenteando a mata a perder de vista, guarda no silêncio e na névoa os ecos dos quilombolas e povos originários que ali habitaram.

Museu Intercontinental África Brasil: um casario histórico próximo ao porto. Foto: Divulgação.

Este relato trata de visita recente ao Museu Intercontinental África Brasil, instituição particular que expõe essa chaga  por meio de milhares de peças artísticas e históricas, que dão conta de um amplo panorama da história da escravidão no Brasil e detalhes de seus desdobramentos em um dos maiores entrepostos de comércio de escravos no período colonial, o porto de São Mateus. O descaso das iniciativas públicas e privadas é desproporcional ao fôlego deste riquíssimo acervo: sem verbas, o museu fechou suas portas, teve conta de luz suspensa e hoje sofre com a falta de espaço, de manutenção e de profissionais especializados para cuidar do acervo.

É possível agendar visitas, e fui ao local para levar uma turma de alunos da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), onde sou professora no curso de artes. Fiquei sabendo do local por sugestão de uma colega de trabalho e constatei que realmente é bastante desconhecido, inclusive, no meio artístico e cultural. Também aproveitamos a oportunidade para visitar o Museu Municipal de São Mateus, casario do século 18, que abriga ossadas indígenas e enormes urnas funerárias de origem tupi e aratu, encontradas na região, que detém ainda expressivo legado arqueológico também largado ao descaso.

A experiência no Museu Intercontinental África Brasil foi tão forte que demorei bastante tempo para digerir o que vivenciamos naquele dia. A começar pela reação de uma das alunas, que em algum momento ajoelhou-se para chorar. Lamento, até hoje, não tê-la abraçado naquele momento para ajudá-la a abarcar as dores de suas reminiscências despertadas.

O museu reúne quase 5 mil obras. Entre elas, há peças provenientes de 140 grupos étnicos da África, produzidas entre os séculos XVII e XX...”

Chegamos ao belo casario histórico, próximo ao porto, na cidade baixa, embalados ainda pela alegria e espontaneidade estudantil acaloradas pelos quase cem quilômetros de viagem percorridos a partir de Teixeira de Freitas, na Bahia, onde está um dos três campi da universidade. Ao entrarmos no museu, nos aguardava o pesquisador e escritor Maciel de Aguiar, fundador da casa, cuja feição solene e primeiras palavras despertaram o silêncio, a atenção e o respeito de todos, que a partir dali sentiram o peso do que seria aquela dolorosa viagem pelo passado de nosso país. História essa que continua viva e reverberando nas janelas quebradas do museu, cujos estilhaços de vidros são mantidos no chão como prova da intolerância religiosa de alguns transeuntes daquelas paragens.

Livros de Maciel de Aguiar: legado com 150 publicações. Foto: Divulgação.

A propósito, a história viva se traduz pela própria figura de Maciel, cujo testemunho de mais de seis décadas de vivência na região compõe o retrato fiel das atrocidades do regime escravocrata que neste ponto inóspito, isolado e esquecido do Brasil revelou os requintes de crueldade da violenta elite capixaba. Maciel contou sobre seu interessante percurso pessoal dedicado ao assunto, que começou ainda na adolescência, quando percorria o vale do rio Cricaré a cavalo com seu avô. Passou a entrevistar os mais velhos, o que resultou numa coleção de 40 livros sobre as principais figuras de descendência africana na região a partir da metodologia da história oral, pesquisas em arquivos e com uma prosa desenvolta. Durante as cavalgadas, Maciel percorreu trilhas utilizadas pelos negros fugidos, relembrando as lutas da sua bisavó paterna, Clara Maria do Rosário, ex-escrava conhecida por escutar as conversas dos senhores feudais e ler as noticias dos jornais para manter informados os quilombolas. Ela participou ativamente do Movimento Abolicionista, o que lhe custou a vida ao ser emboscada em 1890.

Muitos anos se passaram até a fundação do museu, em 2012. Iniciativa que contou com recursos próprios de Maciel e que até hoje não conta com apoio público ou privado significativo. O museu reúne quase 5 mil obras. Entre elas, há peças provenientes de 140 grupos étnicos da África, produzidas entre os séculos XVII e XX. Muitas contribuem de maneira significativa para a reconstrução da identidade afro-brasileira, porém nem todas estão expostas por falta de espaço e infra-estrutura. São milhares de peças, entre, máscaras, escudos, estatuetas e cetros reais, além de esculturas representativas de  rituais religiosos e hierarquias. Reunidas por Maciel durante quase quarenta anos, por meio de aquisições privadas e doações recebidas de colecionadores e estudiosos, as obras se destacam em pela riqueza cultural, estética e histórica.

Milhares de peças entre máscaras, escudos, estatuetas. Foto: Divulgação.

“Fiquei pagando as despesas durantes dez anos do próprio bolso. Agora o museu está fechado porque não aguento mais arcar com os custos”, me contou Maciel em conversa recente por telefone. Ele afirmou que criou o museu porque nunca acreditou na versão da historiografia oficial a respeito da escravidão. “Querem apagar nosso passado, esconder as mazelas da escravidão. A gente deveria agir como os judeus e mostrar o holocausto para todos. Mostrar que nosso sofrimento tem uma dívida impagável”, desabafou Maciel, lembrando o episódio em que Rui Barbosa, então Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Fazenda e Presidente do Tribunal do Tesouro Nacional, em 14 de dezembro de 1890, baixou uma resolução determinando “a queima e destruição dos livros papéis relativos à escravidão”. A resolução está em um cartaz fixado logo na entrada do museu.

De tudo não sobrou nada, a não ser os espectros do vale do Cricaré. Das frondosas árvores seculares, dos guerreiros aimorés, dos quilombolas com seus ritos e mitos afro...”

É impressionante e me pergunto quando o governo federal irá tomar alguma atitude no sentido de ajudar na preservação desse vultuoso acervo, que conta ainda com um significativo conjunto de cerca de 30 quadros do pintor e músico carioca Heitor dos Prazeres (1898-1966), amigo de Maciel e um dos grandes nomes da cena artística moderna, com quadros e composições testemunhas das transformações estéticas brasileiras. Suas telas e músicas representam a alegria do samba carioca, os personagens símbolo da migração baiano-carioca das primeiras décadas do século 20, e a força e a vivacidade da poética negra. “É um contraponto a todo o sofrimento mostrado no museu”, afirmou Maciel.

Heitor dos Prazeres. Foto: Divulgação.

Além do museu, o legado de Maciel está em suas publicações, cerca de 150 livros, entre eles, um suntuoso perfil do jogador Pelé e obras a respeito da ditadura no Brasil. Entre os personagens retratados em suas obras sobre figuras da região norte do Espírito Santo, está Teodorinho Trinca-Ferro, o capoeirista do Vale do Cricaré que lutava contra os capitães do mato; ou ainda Zacimba Gaba, a princesa guerreira da nação Cabimda, que liderou a formação de um quilombo às margens do Riacho Doce, nas proximidades do que é hoje o povoado da Vila de Itaúnas, no extremo norte do estado. Muitas dessas figuras foram recriadas em esculturas de fibra de vidro com cerca de dois metros de altura, em estilo naturalista, pelo artista Jonas da Conceição.

Durante a visita, ficamos todos impressionados com os diversos cintos de castidade expostos, inclusive masculinos, não apenas pelas peças em si, mas a história que carregam. Segundo Maciel, dado fundamental não registrado nos livros escolares é que após 1850, com a aprovação da Lei Eusébio de Queirós, que acabou definitivamente com o tráfico negreiro, fazendas da região de São Mateus foram usadas para a reprodução controlada de negros em larga escala. Chegaram a funcionar 16 fazendas com esse propósito.

As belas fotografias de Rogério Medeiros na entrada do museu revelam um mundo que não existe mais: as festas populares e “pagãs” da região e as feições expressivas dos personagens negros que tinham orgulho de sua origem afro. Medeiros começou a trabalhar no início dos anos 1950 como auxiliar de campo do famoso botânico capixaba Augusto Ruschi (1915-1986), outro visionário como Maciel de Aguiar. Passou pela grande imprensa nacional, mas se tornou mesmo símbolo do melhor jornalismo crítico capixaba (hoje no resistente jornal Século Diário). Além de fotos, produziu reportagens e textos críticos temperados pela sagacidade política e militância ecológica de quem testemunhou a brutal devastação da mata atlântica no norte do Espírito Santo, hoje um deserto verde de eucaliptos.

Maciel de Aguiar luta para preservar o museu. Foto: Divulgação.

De tudo não sobrou nada, a não ser os espectros do vale do Cricaré. Das frondosas árvores seculares, dos guerreiros aimorés, dos quilombolas com seus ritos e mitos afro. Restaram apenas vestígios que poderiam estar expostos neste museu fechado pelo descaso público, em um país que prefere se dobrar aos interesses econômicos internacionais e cuja identidade cultural vem sendo progressivamente devastada pela intolerância religiosa. Por isso, o Museu Intercontinental África Brasil é o museu das assombrações. Elas estão ali à espreita, para lembrar aos omissos que o maior de todos os pecados é o apagamento de nossa memória.

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