n° 47 – Ano XVI – Setembro de 2018  →   VOLTAR

Exposições

Mostras incitam a reflexão sobre os 50 anos do AI-5 e os 130 anos da abolição da escravidão

“O Instituto Tomie Ohtake toma posição frente aos desafios de uma realidade complexa e intranquila que vivemos hoje, quando censura e violência estão na ordem dos debates…”

Maria Amélia Bulhões – ABCA / Rio Grande do Sul

“Para que pode servir uma instituição de arte em um país como o Brasil, hoje, em 2018?”

Com esta difícil e desafiadora pergunta o Instituto Tomie Ohtake abre o texto do fôlder relativo à sua mostra “AI-5 50 anos. Ainda não terminou de acabar”. Este questionamento da instituição não se esgota ali, ele se desdobra na outra mostra que também compõe seu quadro de eventos: “Histórias Afro-Atlânticas”, realizada em conjunto com o Museu de Arte de São Paulo, MASP. Elas documentam dois importantes e renegados eventos de nossa história. Os 50 anos da implantação do Ato Institucional nº 5, que deu respaldo jurídico para um rígido período de perseguição e censura que se instalou, em 1968, no País, e os 130 anos da abolição da escravidão nas terras brasileiras. Um passado “doloroso e controverso, marcado pelo trauma, pela frustração e pela repetição” que estas exposições querem fazer ver de forma renovada porquanto colocado em tensão pelas imagens da arte.

Com estas mostras o Instituto Tomie Ohtake toma posição frente aos desafios de uma realidade complexa e intranquila que vivemos hoje, quando censura e violência estão na ordem dos debates. É preciso destacar que estas mostras são resultantes de projetos de pesquisa que se debruçam sobre nossa história para trazer reflexões sobre nosso presente. As minuciosas e aprofundadas investigações que as sustentam ficam evidentes no farto material que apresentam. Além de pinturas, desenhos, gravuras, objetos etc., disponibilizam fotografias, vídeos, documentos, folhetos e depoimentos, para fazerem o público refletir sobre um passado não tão distante, mas bastante recalcado. Aliás, parece que nossa sociedade tem no ocultamento um mecanismo de negação de um passado do qual não se orgulha, mas que tampouco busca superar para construir um outro futuro.

Caminhando por entre as peças expostas em “Histórias Afro-Atlânticas” vamos descobrindo ou confirmando a violência e a crueldade com que os negros foram tratados durante o largo período de quase 400 anos de sua escravidão nas Américas. O texto do fôlder destaca: “Nosso país, o último do Ocidente a dar fim a esse sistema, foi também o que mais estrondosamente se beneficiou do tráfico de africanos. Como resultado temos a maior população negra do mundo, perdendo apenas para a Nigéria”. É sobre esse passado que as imagens se debruçam e, de forma muito mais radical do que com palavras, nos colocam frente a frente com uma realidade que negamos quando, por exemplo, somos contra os regimes de cotas. Talvez a arte seja neste caso um excelente veículo para a reflexão, explorando o poder das imagens que alguns críticos, como Georges Didi-Huberman, entre outros, apontam.

Paulo Nazareth, série Para venda, 2011. Foto: Ricardo Miyada.

Provavelmente, haverá objeções à colocação lado a lado de trabalhos de diferentes origens e autores, que estabelecem homogeneidades estéticas entre obras de artistas conceituados da história da arte e outros anônimos ou quase nada conhecidos ou reconhecidos pelo circuito artístico. Penso que esta é uma opção conceitual da curadoria, que pretende intencionalmente diluir barreiras e esgaçar fronteiras ente o erudito e o popular, entre o consagrado e o marginal. Neste sentido, alcança totalmente seus objetivos, estabelecendo ainda relações mais horizontais entre as diferentes nações deste grande continente americano, que tem em comum antes de mais nada uma história colonial escravocrata. Esta mostra de certa forma dá continuidade a “Histórias mestiças”, sediada no Instituto, com curadoria de Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz, em 2014, explorando problemáticas semelhantes e com os mesmos curadores. A grande mostra que em 2018 une as duas instituições (MASP e Tomie Ohtake) expande a anterior para novos espaços (inclui as Américas, o Caribe e a África) e apresenta novas perspectivas. No Instituto Tomie Otake estão instalados dois núcleos: Ativismos e Resistências e Emancipações. Neles ficam evidentes os árduos caminhos dos negros para serem “Mestres de si”, que é o mote do núcleo. Neles está presente tanto a permanente utopia de liberdade quanto o cotidiano de violência e opressão.

Pelo fato de envolver duas instituições de arte respeitadas e consagradas no circuito, este tipo de proposta curatorial ganha mais abrangência e ressonância, contando com peças de importantes acervos internacionais como o Musée du quai Branly (Paris), o Metropolitan Museum of Art (Nova York), o Museu Nacional de Bellas Artes (Havana), o Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e a Pinacoteca do Estado de São Paulo. Assim, podemos ver juntas peças de valor para o campo da arte de diferentes momentos históricos e com diferentes sentidos, como as telas a óleo O segredo da grandeza britânica, de Thomas Jones Barker, a foto da performance de Paulo Nazareth, e o impactante desenho sintético da planta baixa de um navio negreiro, onde as pessoas se justapõem como objetos lado a lado em prateleiras, ou detalhadas reproduções de instrumentos de tortura.

Thomas Barker, O segredo da grandeza britânica, 1813. Foto: Ricardo Miyada.

 

James Phillips, Navio negreiro, plano e secções, 1789. Foto: Ricardo Miyada.

Na mostra “AI-5 50 anos. Ainda não terminou de acabar” o tempo é outro, mas a violência e o autoritarismo que se abatem sobre a sociedade brasileira são os mesmos. A suspensão dos direitos civis, a perseguição, as prisões, a censura, o medo, fizeram parte desses largos anos em que importantes nomes da arte e da cultura brasileira foram perseguidos e coagidos. Artistas que hoje são ícones consagrados, como Caetano Veloso, Cildo Meireles, Antonio Dias, Chico Buarque de Holanda, Nelson Leirner, entre outros, deram seu depoimento gravado em vídeo sobre suas memórias desses tempos difíceis. Os vídeos narram acontecimentos e rememoram situações pouco conhecidas das novas gerações e mesmo de muitos contemporâneos, pois não foram divulgadas pelas grandes mídias. Relatam exílios e retornos, dificuldades e estratégias criativas para sobreviver a esses tempos difíceis. Percebe-se ainda nos trabalhos expostos uma série de elementos experimentais, mostrando a fermentação criativa e a ousadia dessas vanguardas que foram caladas ou afastadas. Ali podem ser vistos em conjunto inúmeros trabalhos dos anos 1960 e 1970 que marcaram nossa história da arte, que muitas vezes já vimos separados, mas que em conjunto ganham densidade e registram um testemunho de época.

“A suspensão dos direitos civis, a perseguição, as prisões, a censura, o medo, fizeram parte desses largos anos em que importantes nomes da arte e da cultura brasileira foram perseguidos e coagidos…”

Vista geral da mostra. Foto: Ricardo Miyada.

Muitos artistas, vários deles presos ou exilados nesse período, abriram seus arquivos e ateliês aos pesquisadores, de forma que podemos ver na mostra ícones da história da arte recente no Brasil como as notas de “Inserções em circuito Ideológico: Quem Matou Herzog e Zero Cruzeiro”, de Cildo Meireles, fotos das trouxas ensanguentadas de Arthur Barrio dispersas pela cidade, desenhos de Carlos Zilio feitos na prisão, desenhos de Nelson Leirner, postais de Anna Bella Geger, fotos de performances de Paulo Bruscky. Algumas obras proibidas, destruídas ou ocultas por largo tempo, junto com outros materiais impressos – arte postal e cartazes –, fizeram parte das estratégias utilizadas pelos artistas para driblar a censura, colocando em circulação propostas e questionamentos. Uma arte que fugia aos cânones tradicionais, mas que correspondia ao momento de exceção em que esses artistas viviam.

Zero Cruzeiro, Foto: Ricardo Miyada.

 

Quem Matou Herzog. Foto: Ricardo Miyada.

Em seu conjunto a exposição se aproxima de um panorama documental ou “exposição-ensaio”, como a nomina seu curador Paulo Miyada, onde um conjunto de desenhos de Antonio Dias e instalações como Berço Esplêndido de Carlos Vergara convivem com cartazes de filmes, panfletos políticos e inúmeros outros materiais gráficos, todos eles compartilhando de uma visualidade pop que se instalava no meio artístico nacional.

Talvez alguns puristas possam questionar o caráter pouco artístico e mais antropológico ou histórico dessas duas exposições, mas devemos nos perguntar sobre a necessidade da arte de sair de posições cômodas e confortáveis para dialogar com a realidade atual. Desconstruindo hierarquias, distinções, limites e territorialidade, de maneira que a arte possa estabelecer possíveis pontes entre o passado, o presente e o futuro.

Nos espaços expositivos do Instituto Tomie Ohtake pode ser encontrado neste momento um público diversificado e bastante intenso de crianças, jovens e adultos de diferentes estratos sociais, que normalmente não têm acesso a exposições de arte. Esse público diferenciado talvez tenha sido atraído por se sentir mais representado nestas mostras do que em outras. Assim, ao tomar uma posição que traz ao centro da cena e dos debates temas e acontecimentos recalcados em nossa memória histórica, o Instituto cumpre um papel importante, formando novos públicos, novos olhares e novas consciências.

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