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A morte trágica do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista: dois olhares sobre a tragédia da cultura brasileira

Os críticos Carlos Terra e Angela Acora da Luz escrevem sobre a importância do Museu Nacional e seu acervo e a tragédia de sua destruição com o incêndio no último dia 2 de setembro.

Dois textos de Carlos Terra e Angela Acora da Luz – ABCA / Rio de Janeiro

 

O Museu Nacional e seu acervo

Carlos Terra – ABCA / Rio de Janeiro

Museu Nacional. Foto: Carlos Terra.

Com seus 200 anos completados em 2018, o Museu Nacional, pertencente a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi a primeira instituição museológica criada em nosso país. O espaço arquitetônico foi sofrendo modificações ao longo dos anos bem como seu acervo, que pouco a pouco foi se diversificando, tornando-se um dos mais notáveis e destacados no mundo.

Pesquisa e ensino caminharam juntos nessa Instituição, transformando-se em uma referência para todos aqueles que estavam envolvidos com as ciências naturais e a antropologia. Havia um compromisso com a comunidade de divulgar constantemente seu acervo por meio de suas publicações, seminários, encontros, visitas guiadas ao público em geral e aos estudantes das escolas da rede pública.

Falar de seu acervo é falar de um patrimônio extraordinário onde o fascínio em colecionar, catalogar, registrar objetos esteve presente desde o início, começando com a idéia de um gabinete de curiosidades. Seu embrião começa com D. João VI, mas se amplia muito com as expedições de D. Pedro II, pela sua curiosidade, por sua vontade de obter objetos, por uma percepção mais acurada, pelo gosto do belo, pelos presentes que lhe foram dados. A coleção foi tomando vulto no decorrer do seu período como Imperador. Em 1946 o Museu foi incorporado à Universidade do Brasil (atual UFRJ) e um novo entendimento se acentuou a partir desse momento quando a pesquisa e o ensino também começaram a fazer parte de sua estrutura.

Museu Nacional. Foto: Carlos Terra.

Visitar o museu era contemplar a arte, e apreciando seus objetos nos remetíamos a países além-mar, a séculos distantes, a civilizações esquecidas. Era em suas salas que apreciávamos um passado imaginado em nossas mentes e que encontrávamos nos livros de História da Arte – as múmias; Pompeia e Herculano; uma história da evolução do homem; os nossos índios com seus sons, suas cores, sua cerâmica e suas vidas; as culturas mediterrâneas e as do Pacífico.

Ele nos apontava ao mundo da natureza, onde paisagens se formavam na nossa mente vendo a preguiça gigante, as conchas, os corais, as borboletas, a revolução das plantas. E ainda a coleção dos besouros, cada um com sua característica que haviam sido coletados ao longo de muitos anos em nossas florestas, por pesquisadores dedicados. O retorno a pré-história com o tiranoussauro e os fosseis, além do tigre-dente-de-sabre; os vertebrados, com boa parte de hábitos e plumagem das aves brasileiras (algumas espécies de aves empalhadas com quase 200 anos) e invertebrados (insetos, crustáceos, moluscos e quelicerados). Não podemos esquecer o mais antigo fóssil humano encontrado no Brasil que recebeu o nome de “Luzia” e o meteorito que coletado nas proximidades do riacho Bendegó, Bahia, pesando 5,36 toneladas, sendo o maior meteorito brasileiro e um dos maiores do mundo. Colocado na entrada do Museu dava as boas-vindas aos visitantes.

O acervo era composto por aproximadamente 20 milhões de itens abrangendo diferentes áreas da ciência: antropologia biológica, arqueologia, geologia, etnologia, paleontologia e zoologia em suas diversas seções.

Lamentavelmente o dia 2 de setembro de 2018 ficou na história, com o incêndio que dizimou uma parte significativa do acervo do Museu. Muito foi questionado: quem era o culpado? Por que aconteceu? O que fazer? Isso perde a importância quando se sabe que o acervo queimado não retorna. Teremos paredes formando um novo prédio, mas não teremos as obras que significaram muito para a nossa cultura e que a partir dessa data, somente ficaram na memória dos pesquisadores e visitantes daquele espaço.

Acervo incendiado. Foto: Carlos Terra.

Em entrevista dada a Andrei Netto, no dia 08 de setembro de 2018, ao site Terra Notícias (www.terra.com.br) o Presidente do Museu do Museu Nacional de História Natural de Paris, Bruno David, ponderou:

As pessoas não sabem o quanto, na história natural, a perda de um acervo é inestimável e irreparável. Podemos imaginar que uma coleção de aves, ou de plantas, poderia ser substituível. Custa caro, mas poderia. Na verdade, não é. As peças recolhidas e que faziam parte do acervo do Museu Nacional datavam de 100 anos, 150 anos, já que o museu abriu em 1818. Essas espécies, na sua química, na sua bioquímica, traziam informações sobre o meio ambiente da época, como a poluição, por exemplo. Esse ambiente muito provavelmente mudou. Daqui para a frente, não seremos mais capazes de produzir análises sobre essas espécies, porque foram destruídas. Não temos mais a profundidade histórica, ainda que substituamos os exemplares.

Lastimar? Sim… mas a certeza que um novo museu surgirá, nos deixa o alento que as pesquisas e o ensino seguirão, e que tragédias como essa, farão todos crescerem e zelar melhor por nosso patrimônio.

Cuidar de nossos acervos é termos um passado, com um pouco de nossa memória, de nossa cultura, do nosso dia a dia e também garantir as gerações futuras o conhecimento de sua própria história.

 

O destino trágico do Museu Nacional

Angela Ancora da Luz – ABCA / Rio de Janeiro

Fachada majestosa. Foto: Carlos Terra.

O incêndio começou às 19h30m do dia 2 de setembro de 2018, domingo, após o encerramento do horário de visitação pública. A notícia correu como o fogo e se espalhou com rapidez. Com 200 anos de vida o museu sucumbia, vítima do descaso com a cultura em nosso país. Lembro-me do saudoso Reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Dr. Aloísio Teixeira, que, ao alocar uma verba mais generosa que a habitual para a Escola de Belas Artes, explicou a todos: “Eu entendi que arte é cara, mas arte é preciso”.

Logo e quase concomitantemente ao choque que a notícia nos trazia, as promessas pela reconstrução do museu já eram apregoadas. Como reconstruir?  Afinal, o que é um museu? Não se trata de uma arquitetura, museu é acervo. Como diz Paulo Herkenhoff, “museu sem acervo é Espaço Cultural”. Se o acervo queimou o museu foi consumido e como nas grandes tragédias gregas o “heróico patrimônio” que fazia o orgulho dos que apóiam a cultura, passou da dita para a desdita.

Minha reflexão vai buscar o que ouvi de meus mestres no Instituto de Filosofia. Zeus criou divindades capazes de perpetuar a memória e a glória dos Olímpicos. Para isto deitou-se com Mnemósine durante dez noites. No ano seguinte nasceram nove filhas. As musas eram acompanhadas pela lira de Apolo e cantavam o passado, o presente e o futuro. O templo das musas era o Museion, que deu origem a palavra Museu, mantendo o significado de lugar para se cultivar e preservar a memória e a cultura do homem em todos os tempos, conservando sua arte e ciência. Mais uma vez confirmo que, se o acervo foi queimado a memória que se guardava em sua coleção extinguiu-se, ficando apenas, se no futuro houver possibilidade de algumas cópias, o seu simulacro.

O Museu recebeu visitas ilustres ao longo de seus 200 anos de existência, como Albert Einstein em maio de 1925 e, no ano seguinte, em dois de agosto, Marie Curie. Enquanto o mundo científico se rendia diante da coleção do museu, aqui, entre nós, o grande apreço não vinha das autoridades. Sabe-se que o último presidente a visitar o museu foi Juscelino Kubitschek de Oliveira. Entretanto, a comunidade científica e os pesquisadores de um modo geral eram parte importante dos que buscavam o museu. Além disso, havia o público. Crianças e jovens iam com suas famílias à Quinta da Boa Vista e, depois, frequentavam o museu, isto talvez explique a quantidade de pessoas que aparecem em fotos e documentários após o incêndio, chorando diante do prédio. A perda da memória representa a perda da identidade.

Acervo precioso. Foto: divulgação.

Mas há heróis anônimos no meio da tragédia. Segundo relato do professor Paulo Buckup[1], alguns pesquisadores logo surgiram, ainda durante o incêndio, e, junto com ele, procuraram salvar o que seria possível: “O prédio principal (Palácio da Quinta da Boa Vista) foi perda total, com a possível exceção da coleção de material tipo de moluscos que pude ajudar a salvar graças ao Claudio (técnico da Coleção) que nos guiou em meio à escuridão”.

Suas coleções tinham um valor inestimável, como por exemplo, a coleção egípcia, a maior da América Latina. Vou me deter um pouco nela, com alguns dados de minha memória pessoal.

Em 1960 fiz um curso de “Guias de Museus”, no Museu Nacional, passando a estudar suas coleções. O professor de Ciências Naturais, Victor Straviasky era grande conhecedor da coleção egípcia e o designado para nos falar sobre as peças.

A coleção começou a ser adquirida por D.Pedro I, que arrematou do comerciante italiano, Nicolau Fiengo, as peças descobertas na necrópole de Tebas e que seriam levadas para a Argentina. Havia entre as múmias uma especial. Isto porque sua mumificação libertara pernas e braços, sendo enfaixada de modo a revelar as formas do corpo da jovem mulher. Esta possuía, também, duas redes. A primeira sobre o peito, como era normal e a segunda, sobre a região pubiana. O professor Victor especulava e nos dizia que, possivelmente, o embalsamador quis preservá-la no mundo dos mortos. Ele levantava a tampa de vidro para que sentíssemos as emanações de Kherima, como era chamada. Naquele tempo era possível até tocar os pés da múmia, prática que foi abolida, pois a decomposição do membro era um sério risco, conforme começou a ocorrer.

Kherima escapou deste mal, mas não conseguiria se livrar das chamas que a transformaram em pó.

Fachada majestosa. Foto: Carlos Terra.

Luzia, fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil em 1974 teve o mesmo destino. Ela foi descoberta em Minas Gerais pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire. Teria 11.300 anos. Estes são apenas dois exemplos entre os mais de 20 milhões de documentos de história natural e de antropologia da América Latina, da memória brasileira, mas também de diversas regiões de nosso planeta que documentavam povos e civilizações antigas. Perdeu-se o acervo, logo o museu já não existe mais. É certo que outras coleções poderão ser compradas, cópias poderão ser feitas, como a réplica 3D de Luzia, que em seu simulacro já nos contempla, mas nada poderá nos devolver o magnífico acervo que um dia tivemos, conforme declarou Kátia Bogéa, presidente do IPHAN: “Patrimônio não tem como reconstruir. Acabou, acabou.”

Resta-nos esperar que a lição tenha servido. Que o apoio da comunidade internacional e dos homens sábios ajude-nos a resgatar o que é possível, e pensar que um dia, outro museu possa levantar-se para honrar o herói caído e que as autoridades tenham olhos sensíveis para o que, realmente importa: a cultura de um povo.

 

NOTA:

[1] Professor do Programa de Pós-graduação em Ciências Biológicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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