n° 51 – Ano XVII – Setembro de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Artigo

Maria Lucia Cattani: a potência dos pequenos gestos

A artista não hesita em ir sempre além, duplicar, espelhar, repetir. Empregando recursos rudimentares ou tecnologias digitais, de forma isolada ou em associação, reinventa os mesmos elementos e coloca em questão os limites da reprodutibilidade…

Maristela Salvatori – ABCA / Rio Grande do Sul

Encontramos na prática criativa da artista brasileira Maria Lucia Cattani (Garibaldi, 1958 – Porto Alegre, 2015) uma grande vitalidade e versatilidade no expressivo legado composto de numerosos desenhos, gravuras, pinturas, instalações, objetos, livros-de-artista e vídeos. Sua sólida formação em gravura e seu apreço pela matemática reverberam no uso da serialização e na utilização de procedimentos identificados com a prática da gravura tais como cortar, sulcar, carimbar, estampar e repetir que configuram obras de pequenos formatos a instalações que ocupam espaços arquitetônicos.

Durante o desenvolvimento de seu doutorado no Reino Unido[1], reduzindo recursos técnicos, a artista muniu-se de um pequeno carimbo, pincel e tinta guache, e realizou Venetian red Chinese orange[2], dois painéis que seguem uma mesma estratégia construtiva – um deles estampado sobre finos papéis orientais colados em justaposição e o outro diretamente sobre parede. Construídos modularmente com uma matriz forjada por rápidos cortes sobre uma singela borracha e que recebia tinta esporadicamente. O gesto de carimbar era repetido até o desvanecimento da camada de tinta, momento que o carimbo recebia reposição de tinta e o gesto de carimbar voltava a ser repetido até a tinta esvanecer-se novamente, assim sucessivamente até o preenchimento de toda a superfície, conforme as guias estabelecidas.

Maria Lucia Cattani, Venetian red Chinese Orange, guache sobre parede, 350 x 350 cm, 1998, Reading, UK, e guache sobre papel, 345 x 345 cm, 1998. Fonte: Acervo Nick Rands.
Maria Lucia Cattani, Venetian red Chinese Orange, detalhe. Fonte: Acervo Nick Rands.

Deste mesmo período encontramos uma série de obras que empregam esta mesma estratégia de construção modular, utilizando carimbos de borracha e tinta guache. Se há um frequente engajamento corporal, com gestos repetidos que deixam marcas que são constantemente desdobradas, a estes somam-se outros recursos técnicos, como na instalação ¼ de 144 vezes[3], de 2002, onde a artista utiliza estampas de carimbos dispostos como réguas, digitalizados, impressos em jato de tinta sobre papel e colados sobre alumínio, adquirindo dimensões variadas quando de suas apresentações.

Maria Lucia Cattani, ¼ de 144 vezes, jato de tinta sobre papel e colado sobre alumínio, 184 x 228 cm cada conjunto de 36 réguas (4 conjuntos), 2002. Fonte: Acervo Nick Rands.
Maria Lucia Cattani, ¼ de 144 vezes, detalhe. Fonte: Acervo Nick Rands.

Os carimbos, estampados à exaustão, resultaram em cores esmaecidas a cada nova impressão …”

Em trabalhos como A5 P8[4], criado para a 5ª Bienal do Mercosul (Porto Alegre, Brasil, 2005), Maria Lucia utiliza recursos próprios à pintura e à gravura. Tendo pintado, com tinta acrílica sobre a parede, quadrados justapostos, sobre estes estampou milhares de quadrados menores com um carimbo, também feito de borracha com pequenos cortes. Os carimbos, estampados à exaustão, resultaram em cores esmaecidas a cada nova impressão. Logo gravou numerosos sulcos cujos cortes revelavam a base de gesso da parede, formando linhas brancas em ritmos regulares. Assim, na obra foram utilizados recursos da gravura, remetendo a seus processos e valorizando algumas de suas características, como o relevo, porém, em uma lógica sequencial bastante diferenciada do usual. Posteriormente, Cattani recuperou as marcas do relevo do painel A5 P8, através de frotagem, transformando deste modo o painel – a parede pintada e sulcada – em matriz. Finalmente, em um processo de sistemático recomeço a partir de vestígios de obras anteriores, ao destruir os painéis construídos sobre as paredes, erguidas provisória e exclusivamente para a bienal, a artista reuniu seus fragmentos diversos em pequenas caixas de madeira tais quais relicários.

Maria Lucia Cattani, A5 P8, lado esquerdo, 5a Bienal do Mercosul – Porto Alegre, acrílica e incisões sobre parede, 400 x 840 cm, 2005. Fonte: Acervo Nick Rands.
Maria Lucia Cattani, A5 P8, detalhe. Fonte: Acervo Nick Rands.

Estes traços nervosos, decorrentes da repetição de pequenos gestos, que permeiam grande parte de sua produção, ao longo dos anos constituíram uma espécie de escrita própria, presente em inúmeras obras, como na complexa instalação Quadrantes-Quadrants, de 2008, composta por quatro caixas-livro, um livro-de-artista e um vídeo que enfocam quatro bibliotecas universitárias frequentadas pela artista. Quatro painéis foram criados com corte a laser sobre tinta acrílica sobre gesso, cada caixa-livro foi depositária de um painel e de gravuras dos outros três painéis. As gravuras, de grande definição e extrema delicadeza de texturas, são facilmente confundidas com impressões artesanais, embora resultem de impressões de jato de tinta e as incisões deste texto gráfico pessoal que resultaram de corte a laser sobre papel, sem qualquer interferência direta da mão da artista.

“Maria Lucia Cattani percorreu um caminho de construção e desconstrução, mesclando saberes, conciliando gestos atávicos e novas tecnologias….”

 

Maria Lucia Cattani, Quadrantes-Quadrants, Caixa: Gravura digital, jato de tinta e corte a laser sobre papel, 25,5 x 20 cm e Painel, corte a laser sobre tinta acrílica sobre gesso, 25,5 x 20 cm, 2008. Fonte: Acervo Nick Rands.

O livro-de-artista de Quadrantes-Quadrants foi composto manualmente e impresso em tipografia, contendo uma versão reduzida das gravuras impressas em jato de tinta, fotografias das bibliotecas em tipografia e um fragmento original (lápis sobre papel) da caligrafia desta escrita autoral, enquanto o vídeo que acompanha a instalação foi produzido com fotos destas mesmas bibliotecas tratadas com solarização, repetições e espelhamentos, compondo imagens em preto e branco.

Cattani demonstra um grande prazer na manipulação dos matérias e na articulação de conceitos. Estabelecendo um constante jogo com formas e recursos técnicos, sua prática evidencia um pensamento refinado. A artista não hesita em ir sempre além, duplicar, espelhar, repetir. Empregando recursos rudimentares ou tecnologias digitais, de forma isolada ou em associação, reinventa os mesmos elementos e coloca em questão os limites da reprodutibilidade.

Jogando harmoniosamente com síntese e acúmulo, os gestos e formas exaustivamente repetidas pela artista configuram semelhanças e diferenças que, longe de estabelecer padrões monótonos, revelam vibração, beleza, e leveza e equilíbrio. Perfazendo um percurso do único ao múltiplo e do múltiplo ao único, Maria Lucia Cattani percorreu um caminho de construção e desconstrução, mesclando saberes, conciliando gestos atávicos e novas tecnologias.

A artista que, ao longo de sua obra, explorou incessantemente possibilidades poéticas da repetição que traz a diferença, graduou-se em Artes Plásticas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Porto Alegre, Brasil), onde, posteriormente, foi professora de 1985 à 2013. Realizou estudos de pós-graduação no Estados Unidos e no Reino Unido (Master of Fine Arts, pelo Pratt Institute, Nova York, PhD pela University of Reading, Inglaterra e Pós-Doutorado na University of the Arts London). Além de respeitável trajetória no circuito artístico brasileiro, tem obras em importantes coleções do Brasil, EUA, Ásia e Europa.

 

NOTAS

[1] University of Reading, 1998.

[2] Guache sobre parede, 350 x 350 cm, 1998, Reading, UK, e guache sobre papel, 345 x 345 cm, 1998.

[3] Conjunto realizado com jato de tinta sobre papel e colado sobre alumínio, 184 x 228 cm cada conjunto de 36 réguas (4 conjuntos), 2002.

[4] A5 P8, 5a Bienal do Mercosul – Porto Alegre, acrílica e incisões sobre parede, 400 x 840 cm, 2005.

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