Artigo

Marcone Moreira, Xiloteca: matéria e significação

A materialidade da madeira serve de ponto de partida para novas investigações do artista, retomando questões que permeiam sua produção e explorando novos caminhos.

Gil Vieira Costa – ABCA/Pará

Marcone Moreira desenvolve uma produção de grande interesse para a arte contemporânea brasileira. Nascido em Pio XII (Maranhão), 1982, ele teve sua formação artística em Marabá (Pará), no final dos anos 1990. Desde o início dos anos 2000 o artista participa ativamente do circuito nacional de artes visuais. Radicado no movimento e no trânsito, está uma vez mais em Marabá – cidade que parece ter mobilizado muitos dos elementos habituais em sua obra. Xiloteca é um de seus trabalhos mais novos, que reaviva algumas questões sempre presentes no horizonte do artista.

Marcone Moreira, Xiloteca, 2021. Instalação, dimensões variáveis. Marabá/PA.

Desde o início de sua produção, na virada do século 20 para o 21, Marcone Moreira demonstrou singular interesse pela matéria, ou pelo modo como a materialidade participa do jogo da representação e significação nas artes visuais. Um dos primeiros elementos que utilizou foi a madeira – das embarcações, carrocerias de caminhões, tábuas, tabuleiros, porteiras, porretes e tantas outras sobras que o artista maneja. Não é de surpreender, portanto, que mais recentemente Marcone Moreira tenha se debruçado (em paralelo às atividades de artista contemporâneo) sobre a marcenaria, fabricando bancos, mesas de centro, poltronas e outros móveis, privilegiando o design autoral, a materialidade e o tratamento da madeira.

Essa breve contextualização sobre o artista é importante para nos aproximarmos do projeto Xiloteca – palavra que designa uma coleção de madeiras, catalogadas com as respectivas informações pertinentes. No projeto de Marcone Moreira, são apresentadas mais de trinta peças (com a perspectiva de ampliação futura do conjunto), cada uma confeccionada a partir de uma espécie diferente de árvore. Sendo um país rico em biodiversidade, foi possível reunir uma variedade de cores, texturas, veios, densidades. A esses distintos pedaços de madeira, o artista atribuiu uma forma comum: bandeiras juninas, variando as suas dimensões. Mais do que uma lógica de arquivo, cujo objetivo pragmático é o de documentação e informação, sua Xiloteca recorre à lógica da instalação, agrupando essas peças no espaço como experiência estética.

Aqui temos uma primeira questão que vale investigar, situando Xiloteca no conjunto da obra de Marcone Moreira, ou até mesmo para contextualizar as relações desse trabalho com aquilo que habitualmente é chamado de arte brasileira. O formato conferido às peças de Xiloteca não é gratuito: as bandeiras juninas são uma nítida referência a Alfredo Volpi (1896-1988), um dos grandes nomes da arte brasileira do século 20. Em sua pintura à têmpera que, inclusive, se aproxima da textura de madeira trabalhada, Volpi conjugou elementos da chamada cultura popular (como as bandeiras juninas e a arquitetura colonial remanescente em cidades interioranas) com uma visualidade de rigor geométrico, vinda das correntes formalistas da arte especializada. Essa junção muitas vezes tem sido pensada (ou denunciada) pela crítica como uma busca identitária, como uma tentativa de síntese da identidade cultural brasileira nas artes visuais.

“O caminho trilhado por Volpi, e por tantos outros artistas, foi revisitado e ampliado por Marcone Moreira ao longo de sua produção, se apropriando de restos e reorganizando essa matéria sob uma lógica formal e construtiva”

Alfredo Volpi, Bandeiras e mastros, sem data. Têmpera sobre tela, 68cm x 102cm. Acervo do Museu de Arte de São Paulo.

Volpi mergulhou no diálogo com a visualidade popular sem ceder a uma representação de fácil acolhida. Ele optou por um diálogo estético que reconhecia o saber visual das camadas sociais populares – e com isso produziu uma obra de grande originalidade. O caminho trilhado por Volpi, e por tantos outros artistas, foi revisitado e ampliado por Marcone Moreira ao longo de sua produção, se apropriando de restos e reorganizando essa matéria sob uma lógica formal e construtiva. Aqui, Xiloteca guarda uma diferença em relação aos trabalhos anteriores do artista, já que ele não realiza as apropriações que tanto lhe caracterizam.

Na maioria dos trabalhos que projetaram Marcone Moreira nos circuitos brasileiros, havia um nítido interesse pela “matéria exausta”, desgastada e marcada pelos usos e pelo tempo. Esse flerte com as sobras – um tipo de poética das ruínas – funciona como um indício dos corpos por trás dessa matéria. Diz-se que as sobras de carrocerias ou de embarcações possuem uma “memória impregnada no material” (MOREIRA; SANTOS, 2012, p. 62), pois esses objetos apontam para indivíduos ou grupos sociais que os produziram e manejaram. As apropriações que o artista realiza, portanto, convocam a presença (estética e simbólica) de pintores populares, quebradeiras de coco babaçu, vendedores ambulantes etc., dentro do mundo da arte especializada.

“Tomando [a obra de Marcone Moreira] em seu conjunto, é cada vez mais patente que os objetos que coleta e usa lhe interessam, sobretudo, por serem indícios de trabalho humano ou rastros de movimentos feitos em um dado espaço. Por serem vestígios que (…) sutilmente evocam conflitos do mundo do trabalho motivados pela posse ou por deslocamentos forçados de territórios” (ANJOS, 2016, [p. 20]).

“Marcone Moreira sobrepõe suas bandeiras a muros e calçadas, que ecoam a plasticidade construtiva em sua organização formal”

Em Xiloteca a apropriação da matéria gasta é parcialmente abandonada. Ainda que algumas peças tenham vindo de madeira de demolição, todas elas foram planejadas, executadas e tratadas com o rigor da carpintaria e da marcenaria. Marcone Moreira já havia feito algo semelhante em Banzeiro (2010) ou, pelas próprias mãos, na fabricação de mobiliário autoral. A materialidade da madeira “nova” adquire um outro sentido, distinto da madeira gasta e impregnada de trabalho humano.

Marcone Moreira, Xiloteca, 2021. Instalação, dimensões variáveis. Marabá/PA.

Ainda assim, os grupos sociais que tanto interessam ao artista não deixam de comparecer, quando ele opta por instalar Xiloteca no espaço urbano de Marabá, aproveitando a arquitetura popular como suporte. A relação com a obra de Volpi é, mais uma vez, bastante pertinente. Marcone Moreira sobrepõe suas bandeiras a muros e calçadas, que ecoam a plasticidade construtiva em sua organização formal. Ademais, a matéria exausta passa a ser a do próprio suporte que acolhe a instalação: arquitetura desgastada e cheia de marcas. É evidente que, a depender do espaço que acolha a instalação, a materialidade das madeiras pode se vincular a diferentes significados.

O próprio interesse pela marcenaria – essa “arte menor”, posto que seja artesania e arte aplicada – pode ser considerado um aspecto dessas tensões que o artista manipula, friccionando o campo da arte contemporânea com visualidades e tradições populares. A relação entre culturas visuais de classes sociais distintas (arte especializada e “cultura popular”) tem sido um caminho explorado de diversos modos na arte brasileira, e me parece que Marcone Moreira o faz desde uma posição de classe – quando consideramos sua origem social, filho de agricultor, e sua formação artística que não passou por academias ou universidades. Ele insiste no reconhecimento do valor estético da visualidade produzida por grupos sociais jamais encarados como artistas, e materializa em obras as similaridades dessas culturas visuais com algumas tradições da arte especializada. Essa postura, ainda que dentro do jogo da arte contemporânea institucional, guarda algum aspecto do que hoje tem sido considerado como pensamento decolonial nas artes.

Marcone Moreira, Banzeiro, 2010. Instalação, dimensões variáveis. Marabá/PA.

Voltemos a Banzeiro. Nesse trabalho de 2010, Marcone Moreira propôs uma instalação composta por um conjunto de peças de madeira, em formato de cavername de embarcação. A disposição dessas peças em espaços públicos apontava para o movimento oscilante da superfície das águas, designado pelo termo que dá nome à obra. Em Xiloteca o artista retoma ao menos quatro elementos já explorados em Banzeiro: o uso da madeira “nova” e crua; a tensão entre repertórios ou heranças artísticas especializadas (instalação, escultura) e não especializadas (carpintaria, marcenaria); o ritmo ou repetição de uma determinada forma simbólica; e, por fim, o aspecto relacional da instalação com os espaços em que é montada. Xiloteca adiciona, ainda, o diálogo nítido com a história da arte. Esse trabalho, portanto, aprofunda questões que Marcone Moreira vem enfrentando em sua obra, como a investigação formal e espacial na prática da escultura e da instalação, e a reflexão sobre a identidade cultural na chamada arte brasileira.

Marcone Moreira, Xiloteca, 2021. Instalação, dimensões variáveis. Marabá/PA.

Dada a sua atratividade estética, a dimensão lúdica de Xiloteca também pode ser ressaltada, sem esquecer que essa ludicidade (que afinal reverbera muitas das práticas da cultura popular) pode ser ampliada a uma dimensão crítica ou ecológica. O bioma amazônico e os demais ecossistemas existentes no Brasil possuem grande variedade de espécies vegetais, resultando em uma relação bastante consolidada com o uso de madeira em diversas atividades. Diz-se que o próprio nome do país deriva de um desses tipos de madeira explorados no território nacional. Essa relação com os recursos naturais nem sempre levou em conta ideias recentes como economia sustentável e impacto ambiental. Algumas vezes a exploração desenfreada de certas madeiras de grande qualidade resultou na ameaça de extinção a algumas espécies de árvores. Xiloteca pode estimular debates nessa direção.

O uso itinerante da instalação abre possibilidades de contato com diferentes públicos e comunidades, mobilizando desdobramentos diversos, potencializados pelo apelo estético, espacial, e mesmo monumental de Xiloteca. Mais que informações sobre espécies e tipos variados de madeira, o que o trabalho nos apresenta é a própria materialidade das madeiras como informação estética, artística e crítica.

 

REFERÊNCIAS:

ANJOS, Moacir dos. As marcas das coisas e as dobras políticas. In: ANJOS, Moacir dos (cur.). Marcone Moreira. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, 2016 [p. 10-22].

MOREIRA, Marcone; SANTOS, Laymert Garcia dos. Laymert Garcia dos Santos entrevista Marcone Moreira. In: SERVIÇO Social da Indústria. Prêmio CNI SESI Marcantonio Vilaça artes plásticas: 2011-12. Brasília: SESI, 2012, p. 61-76.

n° 56 – Ano XIX – Março de 2021 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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