n° 50 – Ano XVII – Junho de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Artigo

Louvre Abu Dhabi irradia a cultura nos Emirados Árabes Unidos

Rembrandt, Vermeer e a Era de Ouro Holandesa: mais um tema eurocentrista?

Zuzana Trepková Paternostro – ABCA / Rio de Janeiro, especial Louvre Emirados Árabes Unidos para o Arte&Crítica

Vista do prédio Louvre Abu Dhabi. Design- Baizidon com. Departamento de Cultura e Turismo, Abu Dhabi.

A tendência de aproximar obras de arte universais, de valor artístico consagrado, a um número sempre crescente de espectadores está se processando no nosso mundo globalizado numa escalada cada vez mais intensa. Em decorrência disso, passam a se movimentar para exibição em extensões geográficas, antes remotas e pouco prováveis.

As questões técnicas e sua operacionalização são superadas por meio de tecnologias novas, incluindo as digitais, em aperfeiçoamento permanente. As obras encontram soluções para seus deslocamentos – incluídos os custos, estratégias de transporte e ambientações, com as condições idênticas dos espaços da origem destas obras. Tudo com o intuito de intensificar o intercâmbio não apenas de ideias e imagens, mas, bem além disso, o contato físico multidimensional com a arte que, desse modo, assegura a sua genuína fruição estética.

Ocorre-me um episódio mais que conhecido por meio de publicações nacionais: a lembrança das exposições pioneiras de obras, particularmente pinturas – aquisições corajosas e imperdíveis do acervo do Museu de Arte de São Paulo, MASP, na década de 50 do século passado.

Este acervo, de arte europeia antiga, nesta época ainda em formação, foi intencionalmente exposto na Europa e nos Estados Unidos em circulação por seus museus e galerias consagradas. O propósito primordial era submetê-lo ao olhar, sobretudo, de críticos de arte renomados, a fim de conferir credibilidade estética e valor de autenticidade a esta recente coleção, surgida em terras brasileiras. Mencionada ação assim, proporcionou visibilidade a obras apresentadas em importantes museus enquanto, simultaneamente, ajudou a divulgar a existência delas no panorama internacional, particularmente, no Brasil.

“Seguindo esta corrente, a ideia vital e ao mesmo tempo estratégica foi a de transformar a cidade capital dos Emirados Árabes Unidos – Abu Dhabi – num centro irradiador de turismo especialmente cultural…”

E não é apenas este momento histórico nacional, aqui lembrado, que vincula as mostras atualmente em vias de percorrer o mundo a frequentes exposições de artefatos cada vez mais volumosas. Há também o fato de se apresentar o colecionismo contemporâneo, seja institucional ou particular, da maneira como ambos desejam – além de exibir o resultado de seu esforço, buscam sua aprovação, e visibilidade internacional.

Bilhetes de entradas com reproduções de obras do acervo permanente da instituição dos dias 9, 12 e 14 de março de 2019.

Seguindo esta corrente, a ideia vital e ao mesmo tempo estratégica foi a de transformar a cidade capital dos Emirados Árabes Unidos – Abu Dhabi – num centro irradiador de turismo especialmente cultural. Com esta orientação de sua inserção no circuito mundial das artes plásticas, surgiu a construção de um espaço multimídia que, concomitantemente, funcionasse como museu – afinal denominado (com a devida escolha e tratativas) como a atual “filial” do famoso museu francês situado em Paris – o novo Louvre Abu Dhabi [1].

Aberto indistintamente a todas as manifestações artísticas de todos os tempos, o Louvre Abu Dhabi foi finalmente inaugurado com sucesso em 2017. Desde então, já abrigou outras mostras internacionais e, dessa vez, se tornou o cenário de apresentação de pinturas holandesas, em particular de algumas poucas obras-primas de Rembrandt e Vermeer advindas do acervo do Louvre – sem dúvida em função do próprio nome do Museu – bem como de uma coleção particular, incluindo um elenco apreciável de dezenas de mestres da arte neerlandesa do século XVII.

Nos primeiros três meses (de fevereiro a maio), numa das múltiplas alas o Museu abrigou esta exposição temporária Rembrandt, Vermeer e a Era de Ouro Holandesa, além do acervo permanente sempre disponibilizado.

Perto de uma centena de obras, em sua maioria pertencente a uma coleção particular – e ainda de alguns verdadeiros ícones do próprio Louvre de autoria dos mestres Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669) e Johannes Vermeer van Delft (1632-1675) – outros provenientes do Museu Estatal de Amsterdã (Rijksmuseum) e da Biblioteca Nacional da França e de poucos outros acervos expostos a título de completar o cenário da época – proposta original – foi alcançada com sucesso.

O principal conjunto era resultado do colecionismo do casal americano Thomas S. Kaplan[2] e Daphne Recanati Kaplan, especializados em pinturas do século XVII em torno da cidade de Leiden. Centrado no núcleo citado – Leiden – cidade natal de Rembrandt, esta coleção também leva o nome apropriado de The Leiden Collection. Ao lado dela, como já lembrado aqui, não deixam de figurar outros exemplos que ilustram a produção pictórica da época em questão. Esta coleção também já foi exposta em alguns importantes museus de outros países[3]. Primeiramente – o que é compreensível – no Louvre, em Paris, e em seguida na longínqua Ásia bem como na Rússia: respectivamente, no Museu Nacional da China Beijing, no Museu Long (West Bund) de Shangai, no Museu de Belas Artes de Pushkin, em Moscou, e no Museu Estatal Hermitage, de São Petersburgo.

Recebi o convite para visitar Abu Dhabi há tempos, porém nunca levei a sério a possibilidade de realizar esta longa quase peregrinação. Até que, no início do mês de março passado, o reiterado convite veio com imagens num folder anunciando exposição de pinturas holandesas do século XVII. Fiquei intrigada, e logo reavaliei tanto o convite como a própria viagem.

“O Louvre Abu Dhabi se constitui, a rigor, como um complexo cultural, preparado para acolher diversas exposições e grandes mostras com seu aspecto avantajado…”

Conhecer outras tantas obras do meu interesse me era muito atraente e minha curiosidade profissional acabou vencendo: logo eu que, durante muitos anos como membro da CODART[4], tive inúmeras possibilidades contínuas de conhecer obras holandesas em museus (sobretudo na Holanda e na Bélgica) e em toda a Europa, Rússia e, ainda, propriedades institucionais e de particulares da América. Assim, considerei visita aos Emirados Árabes uma extravagância. No final, reconheci que se tratava de uma coleção que nunca havia encontrado em viagens anteriores e acabei encarando a questão como mais um desafio profissional.

Não posso me lamentar: o Louvre Abu Dhabi se constitui, a rigor, como um complexo cultural, preparado para acolher diversas exposições e grandes mostras com seu aspecto avantajado. Dos seis dias da minha permanência, fiquei quatro no Museu, todos na exposição holandesa – exceto uma tarde no auditório, assistindo à um belo filme sobre Rembrandt[5].

Sem dúvida, a apreciação de obras de pintores nascidos ou ativos em Leiden em um local tão distante de sua origem e verdadeiramente exótico, tal como a cidade de Abu Dhabi, proporcionou um amplo panorama de obras e compeliu para a observação atenta de inúmeros detalhes o que, sem dúvida, foi uma grata recompensa pela longa viagem. Verdadeiramente, não esperava que obras-primas de grandes mestres fossem cedidas pelo Louvre, em quantidade, para esta exposição aqui em foco. Este evento constituiu, ainda, uma rara oportunidade de observar in loco diversas obras

(estudos e pinturas) do admirável Jan Lievens (1607-1674), pintor que viveu, injustamente, na sombra de seu conterrâneo. Como ainda um elenco de quadros criados na oficina de Rembrandt (Retrato do jovem Antonie Coopal, 1635 com etiqueta individual com informação de que a pintura possui uma moldura de madeira brasileira – sucupira), e obras de outros pequenos mestres que me possibilitaram melhor aproximação com algumas atribuições ou cópias, existentes no acervo do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Particularmente, cenas de Jan Steen (1626-1679), e figuras femininas da sociedade de Frans van Mieris (1635-1681), dentre outros.

Apreciei muito os esboços a lápis e gravuras de Rembrandt. Seus desenhos, eram indescritíveis e foram expostos, com respeitoso destaque. Relativos aos animais selvagens (leões), conhecidos na época dos kunstkamer[6] e de outros cativeiros europeus, além da bela Bordadeira de Vermeer van Delft eram argumentos a favor do curioso título do museu (e da própria exposição) nos distantes Emirados Árabes.

Tive ainda um surpreendente encontro com quadro, da autoria de Cornelis De Man (1621-1706) nome que conheci ainda no Rio de Janeiro, em razão de uma pintura vinculada a história do Brasil. De Man, nascido e ativo em Delft, seguindo a receita do seu concidadão Vermeer, criou retratos em composições menores, intimistas, focalizando espaços privados de estudos, com livros e instrumentos científicos, sendo retratados mergulhados em assuntos de suas pesquisas. Mais que estudo da face, ou cenário habitual, esses objetos dispostos ao redor completavam o perfil do sujeito, ao representar tanto sua posição social quanto sua função na comunidade.

Bilhetes de entradas com reproduções de obras do acervo permanente da instituição dos dias 9, 12 e 14 de março de 2019

Curiosamente, em 2009, um quadro menor de De Man foi assunto da historiadora brasileira Mariana Françozo[7]. Ambos os quadros – o que foi abordado pela pesquisadora e o da exposição – possuem as características comentadas anteriormente: retrato de homem em um interior doméstico, cercado de livros e objetos. Porém, estas duas obras se diferenciam em dois aspectos interessantes: o primeiro apresenta, num detalhe, um mapa com vista parcial de Pernambuco, no Brasil; o segundo, o Retrato do farmacêutico Ysbrand Ysbrandsz, da Coleção Leiden. A última, mostra o farmacêutico exibindo sua face ao espectador ao contrário de retratos de estudiosos realizados por Vermeer, esta era uma característica do próprio De Man.

Também não poderia deixar passar em branco, neste relato, o conjunto de quadros (até presente conhecidos apenas quatro) da Alegoria dos cinco sentidos: Alegoria da audição, Alegoria do toque e Alegoria do olfato[8] (1624/25). Esta última obra citada conta com uma história de aquisição interessante: em 2015, a família Landau, de Nova Jersey, recebeu um quadro como herança, descrito como pintura holandesa de pintor desconhecido.

Assim, o quadro foi colocado à venda em um leilão, listado como óleo em madeira, enquanto “retrato triplo com moça desmaiada”[9], com lance inicial estipulado no valor de 800 dólares norte-americanos.  Enfim, após a devida apreciação, ficou consolidado [10] que a obra se tratava da Alegoria do olfato, datada do período de juventude de Rembrandt van Rijn e posteriormente adquirida pela Leiden Collection.

Para finalizar, faz-se necessário ressaltar que a viagem foi altamente positiva, sendo que apenas lamento ter perdido a oportunidade de encontrar meu estimado colega Blaise Ducos, que fez um admirável trabalho como curador da exposição e, nesta função, pronunciou o discurso de abertura do evento um mês antes da minha chegada lá.[11]

Foi assim, com esta minha indecisão em viajar por causa da distância, que perdi a chance de parabenizá-lo pessoalmente. Por outro lado, confirmei na prática a validade de um provérbio universal – “Antes tarde do que nunca” – e, ainda por cima, pude saborear um verso imortal de Fernando Pessoa (1888-1935) que me soou definitivo: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.”

Voltei para o Brasil com a imensa alma dos artistas na bagagem, depois desta viagem que me valeu muito… Valeu muito a pena.

 

NOTAS

[1] O Museu Universal Louvre Abu Dhabi, uma edificação bastante arrojada, é uma obra circular projetada com 180 metros de diâmetro pelo arquiteto (vencedor do concurso internacional) o francês Jean Nouvel.

[2] Presidente da Aliança para Proteção de Patrimônios da Humanidade em Localidades Ameaçadas, fundação constituída pelos Emirados Árabes Unidos em parceria com a França.

[3] Mais uma vez, lembrando a inusitada e admirável iniciativa brasileira do MASP em meados do século passado.

[4] Fui convidada ( em 2001) a ser representante do Brasil no CODART (Associação de Curadores de Arte Flamenga e Holandesa), pelo Dr. Gary Schwartz, de Amsterdã, fundador desta associação e especialista nas obras de Rembrandt. Eu – pelo Brasil, e mais um colega argentino : o professor universitário  Dr. Angel Navarro, éramos naquela associação únicos representantes  do continente sul-americano.

[5] Projeção de um clássico de 1936: o longa-metragem Rembrandt, dirigido por Alexandre Korda, (Kellner, Sándor László), cineasta húngaro radicado na Inglaterra, utilizando técnica de iluminação dramática com registros psicológicos do pintor (interpretado por Charles Laughton), a ponto da obra de Rembrandt ganhar uma excecional visibilidade.

[6] Gabinete de curiosidades. Entre eles lembraremos o do imperador Rodolfo II em Praga, que acolheu diversos cientistas mas principalmente artistas inclusive do círculo neerlandês como o Roelandt Savery ( 1576 – 1639) presente com uma obra magnífica, assinada e datada (Paraíso terrestre), no acervo do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.

[7] FRANÇOZO, Mariana. Um toque de além-mar: Na época em que a Holanda ensaiava dominar o mundo, era chique decorar as casas com mapas e objetos brasileiros. Ver ainda: PATERNOSTRO, Zuzana Obras repatriadas. Revista Nossa História, 2009. Disponível em: <historianovest.blogspot.com/2009/03/um-toque-de-alem-mar.html>. Acesso em 15 abr. 2019. Publicação, cuja imagem ilustrativa se deve à colaboração e gentileza do Dr. Walter Liedtke (in memoriam), curador do MET (Metropolitan Museum) em Nova York.

[8] O Sentido da visão integra a coleção do Lakenhal Museum, em Leiden (Holanda).

[9] The Unconscious Patient (The Smell). Relatório Mercado Arte, 2016.

[10] Ver bibliografia: Van Tuinen, 2016; Alexandra B. Libby, Ilona van Tuinen e Arthur K. Wheelock Jr. Catálogo da exposição: Ducos, Blaise; Yeager-Crasselt, Lara: Rembrandt, Vermeer and the Dutch Golden Age: Masterpieces from The Leiden Collection and the Musée du Louvre. pg 78. (Ed.) Louvre Abu Dhabi, 2019.

[11] Aproveito para parabenizar, pelos primorosos textos e bom trabalho com a edição do catálogo, os especialistas citados a seguir: Jean-Luc Martinez, diretor do Louvre; Manuel Rabaté, diretor do Louvre Abu Dhabi; Mohamed Khalifa Al Mubarak, do Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi; Thomas S. Kaplan: Sobre a Coleção Leiden; Lara Yeager-Crasselt: Coleção Leiden e época de ouro; Olivia Savatier: Desenhos de Rembrandt; Jan Blanc: Época de Ouro holandesa; e Blaise Ducos: O milagre holandês, autor do texto principal.

 

REFERÊNCIAS

DUCOS, Blaise; YEAGER-CRASSELT, Lara (Ed.) Rembrandt, Vermeer and the Dutch Golden Age: Masterpieces from The Leiden Collection and the Musée du Louvre. Catálogo da exposição. Louvre Abu Dhabi, 2019

LIBBY, Alexandra, Ilona van Tuinen, and Arthur K. Wheelock Jr. “Allegory of Hearing, Allegory of Smell, Allegory of Touch, from The Series of the Five Senses”. In The Leiden Collection Catalogue. Edited by Arthur K. Wheelock Jr. New York

RUSINA, Ivan. Majstrovské diela nizozemského umenia da Slovensku. Slovenská národná galéria v Bratislave. Bratislava. Slovenská Republika. 2006.

SCHWARTZ, Gary. The Rembrandt Book. Editora: Harry N. Abrams, Nova York, 2006.

SEVCÍK, Anja K. Rembrandt &Co. Príbehy umení ve století blahobytu. (Hana Seifertová, Blanka Kubíková Stefan Bartilla). Národní galérie v Praze a Sternberský Palác.Vydala Národní Galérie. Praha, Republika Ceská. 2012.

VOGELAAR, Christiaan [et al.]. Rembrandt & Lievens in Leiden : a pair of young and noble painters. Catálogo da exposição. De Lakenhal Museum,1991;

https://www.northjersey.com/story/news/essex/bloomfield/2018/01/11/rembrandt-found-essex-basement-air-strange-inheritance/1021705001/

http://historianovest.blogspot.com/2009/03/um-toque-de-alem-mar.html

 

REPRODUÇÕES

CAPA) Vista do prédio Louvre Abu Dhabi. Foto: Divulgação / www.louvreabudhabi.ae

1) – Vista do prédio Louvre Abu Dhabi. Design: Baizidon com. Departamento de Cultura e Turismo, Abu Dhabi.

2 e 3) – Bilhetes de entradas com reproduções de obras do acervo permanente da instituição dos dias 9, 12 e 14 de março de 2019.

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