n° 51 – Ano XVII – Setembro de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Artigo

Livros de artista no Circuito Polímatas

Integraram a exposição obras que exploram relações entre as diversas áreas do conhecimento, da vídeo instalação ao livro de artista, envolvendo também as performances

Maria do Carmo de Freitas Veneroso e Marília Andrés Ribeiro – ABCA / Minas Gerais

O Circuito Polímatas[1], realizado em parceria com o Departamento de Ação Cultural da Universidade Federal de Minas Gerais, entre 21 de maio e 13 de setembro de 2019, reuniu um conjunto de mostras que integraram a programação do II Colóquio Internacional Escrita, Som, Imagem, organizado pelo Grupo Intermídia da Escola de Belas Artes, Faculdade de Letras, Escola de Música e Departamento de Comunicação da UFMG.

Integraram a exposição obras que exploram relações entre as diversas áreas do conhecimento, da vídeo instalação ao livro de artista, envolvendo também as performances. Idealizado e com a curadoria compartilhada entre Maria do Carmo de Freitas Veneroso, Marília Andrés Ribeiro, Pedro Veneroso e Tânia Araújo, o Circuito Polímatas reuniu uma gama diversificada de artistas que trabalham na fronteira entre as diversas artes e tecnologias.

Vários eixos temáticos ou possibilidades de leitura se cruzam no Circuito Polímatas, seja através do conceito, da técnica, das linguagens, ou da maneira como as obras abordam a intermidialidade, a transmidialidade e a transdisciplinaridade. As relações entre palavras e imagens estão presentes em muitos trabalhos, podendo ser vistas também como um eixo que perpassa vários outros.

Faremos um recorte onde abordaremos as interseções entre as palavras e as imagens nos livros e bibliotecas de artista.  Podemos pensar a presença dos livros e bibliotecas de artista no Circuito Polímatas a partir da ideia de que livros de artista podem ser considerados, pela sua própria natureza, obras com características intermidiáticas. Eles muitas vezes apresentam, em diálogo, palavras e imagens, ou palavras/imagens; alguns deles, os livros-objeto, exploram a tridimensionalidade, outros utilizam diferentes materiais na sua construção. Também as relações transdisciplinares são exploradas nos livros de artista, através de diálogos entre diferentes campos do saber, apontando para uma visão unificada do conhecimento.

Dentro dessa perspectiva o Circuito Polímatas, na sua proposta de explorar as interseções entre diferentes mídias, linguagens e disciplinas, diluindo as fronteiras entre a arte, a ciência e a tecnologia, contribui para uma compreensão da arte a partir de sua interseção com as diversas áreas do conhecimento.

Assim, no Circuito Polímatas o termo livro de artista é utilizado no seu sentido amplo, incluindo os livros objeto e os livros instalações…”

Na exposição Polimatas são apresentados: livros de artista, chegando até as bibliotecas de artista; livros editados, que adotam ou remetem ao formato do códice, apresentando, muitas vezes, palavras e imagens em diálogo; interseções do livro com arquivos e coleções; livros únicos, que dialogam com o desenho, a fotografia, a pintura, a música e os saberes afro-brasileiros; livros com tendência conceitual e performática; livros-objeto, que exploram a tridimensionalidade, o espaço, em diálogo com a arquitetura.

Assim, no Circuito Polímatas o termo livro de artista é utilizado no seu sentido amplo, incluindo os livros objeto e os livros instalações, considerando que o livro de artista está localizado em uma zona fronteiriça entre as artes, as mídias e outros saberes.

Dick Higgins, no texto “Declarações sobre a intermídia”, escrito em 1966, já afirmava que:

Nos últimos dez anos, mais ou menos, os artistas mudaram as suas mídias para se adequarem à situação, até o ponto em que as mídias desmoronaram em suas formas tradicionais, e se tornaram apenas pontos de referência puristas.[2]

Nessas colocações, Higgins aponta para a dificuldade de se manter as separações entre as mídias e a possibilidade de fusão entre os diferentes campos do saber.

Selecionamos algumas obras para exemplificar os diversos eixos de abordagem dos livros de artista que dialogam entre si e formam uma rede comunicante presente no Circuito Polímatas.

  1. Livros editados, que adotam ou remetem ao formato do códice, apresentando, muitas vezes, palavras e imagens em diálogo, ou palavras como imagens, a exemplo dos livros de Edith Derdyk.

A artista trabalha com a interdição do livro, através de diferentes dispositivos, como o parafuso, a linha, o espaço expositivo e se estende para além das artes visuais, em uma abordagem transdisciplinar, envolvendo também a poesia e a filosofia. A linha, o texto e a imagem são elementos constantes no seu trabalho, lembrando que a palavra “texto” vem de tecer, tessitura, trama, tecido, têxtil. Derdyk inicialmente costurava em papel, usando fio de algodão, passando mais tarde a explorar o potencial artístico da linha, que sai do papel, entrelaçando objetos e paredes, de modo a criar também desenhos tridimensionais, nas suas instalações.  A artista utiliza a linha em diferentes contextos, como elemento estruturante do trabalho, seja em livros de artista editados, como Desenhos, seja em suas instalações, tensionando os limites da linha, como material e como conceito. Em Desenhos (Fig.1), a linha toma diferentes configurações: é linha traçada com a pena, é linha que costura o livro, e, finalmente, é linha que envolve o livro, interditando-o, fazendo com que o leitor tenha que romper aquele emaranhado de linhas, se quiser ter acesso ao seu conteúdo.

A interdição ocorre também no livro de artista Cifrado (Fig.2), no centro do qual há um furo, no qual foi inserido um parafuso, que impede a sua abertura, mantendo seu conteúdo inacessível. Nesse livro, a artista explora a forma física dos livros, para compor as imagens, feitas a partir de fotos das laterais de livros empilhados. As imagens resultantes remetem a uma espécie de escrita, somente sugerida: mancha gráfica, borrão de tinta. No texto que acompanha o livro pode-se ler: “CIFRADO é tudo aquilo que se cifrou, que se fechou em si, que depende de um código para ser decifrado, descodificado, que se dá por conhecer, interpretar, traduzir, revelar”. É assim que a artista convida o leitor/espectador a remover o parafuso que sela o livro, a fim de decifrá-lo.

(Fig. 1) Edith Derdyk, Desenhos. São Paulo: Edições A, 2007. Impressão offset – Gráfica Águia. Tiragem: 100 exemplares. Foto: Sara Não Tem Nome.
(Fig. 2) Edith Derdyk, Cifrado. São Paulo: Edições A, 2014. Impressão offset – gráfica Águia. Tiragem: 100 exemplares numerados e assinados. Foto: Sara Não Tem Nome.
  1. O livro, o espaço arquitetônico e a biblioteca de artista são exemplificados nas obras de Adriana Penido, artista que atualmente dedica-se à produção e à pesquisa de doutorado, ambas relativas ao livro e à biblioteca de artista em diálogo com a obra de Aby Warburg.

As obras expostas por Adriana Penido, no Circuito Polímatas, dialogam com os livros de Edith Derdyk, constituindo o que Adriana denomina, poeticamente, bibliotecas de artista, ou seja, a biblioteca como um suporte para as reflexões sobre a arte e o fazer artístico.  A artista explora o livro/a biblioteca interditada em Biblioteca da (r)existência (Fig.3,4), composta por uma coleção de livros, envoltos em uma camada de lama, que faz com que seu conteúdo seja quase inacessível ao espectador, como acontece nos livros de Derdyk. Adriana pontua que a obra reflete o momento sócio-político-ambiental que estamos testemunhando no Brasil, que tem nos conduzido a um eminente colapso ecológico, marcado por dois terríveis desastres, o rompimento das barragens da mineradora VALE, em Mariana e Brumadinho, crimes de enormes proporções.

De outro jeito (da série Arranjos Metodológicos) (Fig.5,6), outra obra de Adriana Penido, é uma biblioteca de artista composta por uma coleção de livros que sofreram interferências, que velaram suas capas. A estante onde eles se encontram foi envolvida por uma trama, tecida com linha de bordar, que cria diferentes conexões entre os livros, também sugeridas através de palavras e imagens, inseridas nessa teia. A obra foi inspirada na metodologia denominada Lei da boa vizinhança, criada pelo historiador Aby Warburg, para organizar sua emblemática biblioteca. Esta metodologia considerava que uma obra remete a outra e novamente a outra, infinitamente. A narrativa criada por essas associações determinava a posição dos livros em sua biblioteca e cada vez que era alterada, criava novas narrativas. Também na obra De outro jeito, é criada uma infinita rede de relações, dialogando diretamente com a proposta do Circuito Polímatas, de ligar e aproximar áreas do conhecimento que costumam ser abordadas separadamente.

(Fig. 3) Adriana Penido, Biblioteca da (r) esistência, instalação (livros, lama, cabo de aço, madeira), 2019. Foto: Maria do Carmo Freitas.
(Fig. 4) Adriana Penido, Biblioteca da (r) esistência, instalação (livros, lama, cabo de aço, madeira), 2019 (detalhe). Foto: Víctor Galvão.
(Fig. 5) Adriana Penido, De outro jeito (da série Arranjos Metodológicos), instalação (livros, madeira, fio de cânhamo), 2019. Foto: Víctor Galvão.
(Fig. 6) Adriana Penido, De outro jeito (da série Arranjos Metodológicos), instalação (livros, madeira, fio de cânhamo), 2019, detalhe. Foto: Víctor Galvão.
  1. O livro, a história da arte e o espaço arquitetônico (ou espaço instalativo)

O livro de artista The Tempest (Fig.7), exposto por Cinthia Marcelle no Circuito Polímatas, integra a instalação Dust never sleeps (O pó nunca adormece), realizada no Secession’s Graphiches Kabinett, em Viena. Em um processo transdisciplinar, (circulando entre a história e as artes visuais), a intervenção foi inspirada na pesquisa da artista sobre a história do edifício art nouveau, que teve grande parte destruída, depois de ter sido atingido por uma bomba durante a Segunda Guerra Mundial. Cinthia recobriu as paredes e o chão da sala com pó preto, realçando os estragos e a dilapidação pela qual o prédio passou, tornando-os visíveis e palpáveis. Foi deixada uma estreita faixa do cômodo, limpa de qualquer interferência, por onde os visitantes tinham acesso à obra. Como outros trabalhos da artista, esta obra pode ser considerada um antimonumento,  que aborda a ruína e a história através de um processo de declínio inexorável.

O livro de artista The Tempest acompanhava a exposição, trazendo uma série de frottages, uma reprodução da pintura La Tempesta (1508), de Giorgione, que deu nome à obra, e um texto de Emílio Maciel. Ao aproximarmos a instalação Dust never sleeps e o livro The Tempest, notamos que o mesmo fino pó preto, usado na instalação para cobrir paredes e piso, é usado também nas frottages (Fig.8), que são impressões de páginas dobradas, que poderiam ser as próprias páginas do livro, em um jogo de mise-en-abyme. A capa do livro remete a um cômodo vazio, cujos limites são definidos por uma linha e por uma sombra, ambas produzidas com o fino pó preto, permitindo-nos adentrar o livro, como se adentra uma casa. As imagens das páginas seguintes podem ser comparadas aos cômodos de uma casa, aproximando-as do salão que abriga a instalação, com suas paredes e piso cobertos por uma espécie de fuligem negra, como se ali também tivesse sido feita uma frottage, que revela todos os detalhes e relevos presentes naquela edificação. Assim, através da produção das impressões das folhas de papel dobradas, e a aplicação do pó preto no cômodo vazio, a artista circula entre um universo micro e um universo macro, que se complementam, deixando entrever, suavemente, marcas e sinais que resgatam memórias de tempos e espaços.

(Fig. 7) Cinthia Marcelle, The Tempest, livro de artista (frottage s/ papel), 2014. Foto: Sara Não Tem Nome.
(Fig. 8) Cinthia Marcelle, The Tempest, livro de artista (frottage s/ papel), 2014, detalhe. Foto: Sara Não Tem Nome.

“A instalação reconfigura a memória histórica brasileira a partir de um processo narrativo, que manipula, poeticamente, documentos da cultura…”

  1. O livro, a memória, a política e o espaço instalativo.

O trabalho Inferno Verde, de Ricardo Burgarelli e Luísa Horta, dialoga com The Tempest, de Cinthia Marcelle. Inferno Verde (Fig.9, 10) é uma instalação centrada no contexto dos movimentos revolucionários dos anos 1920, no Brasil, época de um estado de exceção. Trata-se do relato da história de uma colônia penal de trabalhos forçados, pouco conhecida, que passou a funcionar no extremo norte do Brasil, na região do Oiapoque. Ali havia anteriormente o Núcleo Colonial-Agrícola Cleveland, que passou a ser denominado Colônia Penal de Clevelândia. Para lá foram deportados cerca de mil prisioneiros, “políticos” e “comuns”, desterrados de diferentes regiões do Brasil, por motivos diversos. Entre os presos políticos estava, por exemplo, um grupo de anarquistas editores do jornal libertário A Plebe. Inferno Verde foi o nome utilizado pelos presidiários e opositores à política vigente, ao se referirem à colônia penal.

Na obra, os artistas fazem uma abordagem política de narrativas históricas, na qual “o espaço instalativo passa a ser o lugar do relato”, como pontua Burgarelli. A narrativa fragmentária que os artistas constroem através do conjunto de resquícios coletados durante sua visita a Clevelândia é tanto documental quanto ficcional. Entrevistas com habitantes da cidade, que relatam fatos vinculados à época em que a colônia penal ainda existia, complementadas por fotografias e filmagens no local contribuíram para construir uma narrativa, que, no entanto, é cheia de lacunas preenchidas a partir de uma fabulação.

A instalação reconfigura a memória histórica brasileira a partir de um processo narrativo, que manipula, poeticamente, documentos da cultura. O trabalho não é apresentado apenas como instalação, mas também como tradução do espaço instalativo para o formato livro de artista (Fig.11). É assim que Ricardo e Luísa transitam entre diferentes linguagens artísticas, preservando o valor das metáforas e analogias presentes no Inferno Verde, contribuindo para a proposta multidisciplinar do Circuito Polímatas, ao circularem pela arte e pela história, a partir de um método com um viés etnográfico.

(Fig. 9) Luísa Horta e Ricardo Burgarelli, Inferno Verde, instalação com fotografias, serigrafias, objetos, dimensões variáveis, 2015. Foto: Sara Não Tem Nome.
(Fig. 10) Luísa Horta e Ricardo Burgarelli, Inferno Verde, instalação com fotografias, serigrafias, objetos, dimensões variáveis, 2015, detalhe. Foto: Sara Não Tem Nome.
(Fig. 11) Luísa Horta e Ricardo Burgarelli, Inferno Verde (Clevelândia do norte / Oiapoque / Saint Georges e Santo Antônio / Tampack e Galibi), livros de artista impressos digitalmente, 2015, detalhe. Foto: Maria do Carmo Freitas.
  1. Interseções do livro com arquivos e coleções e o artista como colecionador.

Tratando das interseções do livro com arquivos e coleções, o livro como exposição e o artista como colecionador abordaremos a Coleção Duda Miranda (Fig.12) de Marilá Dardot e Matheus Rocha Pitta, artistas que trabalham nas interseções entre as linguagens, muitas vezes explorando as interfaces entre palavras e imagens. Duda Miranda é um colecionador fictício, “personagem conceitual”, criado pelos artistas, cuja identidade também se confunde com a deles. O livro foi concebido como catálogo da exposição A de arte – A Coleção Duda Miranda, realizada de 14 de maio a 21 de agosto de 2006, no apartamento 11 do edifício Duval de Barros, na Rua Sergipe 250, no centro de Belo Horizonte. Porém, finda a exposição, o livro ganhou autonomia e passou a existir como obra, tornando-se ele próprio uma exposição. Nele são apresentadas as obras que compõem a Coleção Duda Miranda e que são, na verdade, cópias de obras de arte pré-existentes, de diferentes artistas.  As obras vão desde a Caixa de fósforo arte total, até um simulacro da obra de Félix Gonzalez-Torres, Perfect Lovers, que é composta por dois relógios fabricados industrialmente, ready-mades emparelhados. No depoimento, Duda afirma: “O critério da minha coleção é justamente a possibilidade de se refazer os trabalhos sem perda. Quando realizo os trabalhos, o que mais quero é vê-los iguais, indiscerníveis daqueles que vemos nos livros e exposições, esse é meu desejo”. O livro apresenta, além de entrevistas concedidas por Duda Miranda, correspondências trocadas por artistas e curadores com o colecionador, nas quais são tecidas várias considerações sobre o trabalho e reflexões sobre a prática da apropriação. Assim, o próprio trabalho apresenta, de forma instigante, em um processo metalinguístico,  reflexões críticas sobre o seu próprio conteúdo.

(Fig. 12) Matheus Rocha Pitta e Marilá Dardot,  A Coleção Duda Miranda. Livro de artista, impressão offset, 2007. Foto: Sara Não Tem Nome.

“Desde os anos 1970 Jorge dos Anjos pesquisa as várias possibilidades expressivas das artes visuais – a linha, a cor, o aço, a pedra, a madeira, as marcas do ferro na tela e do fogo no feltro – e retoma sua matriz cultural…”

  1. O livro como performance e resgate dos saberes afro-brasileiros

Finalmente, mostraremos como o Livro Queimado (Fig.13, 14) de Jorge dos Anjos dialoga com a performance do artista e o resgate da tradição afro-brasileira.

Desde os anos 1970 Jorge dos Anjos pesquisa as várias possibilidades expressivas das artes visuais – a linha, a cor, o aço, a pedra, a madeira, as marcas do ferro na tela e do fogo no feltro – e retoma sua matriz cultural trabalhando com imagens arquetípicas que remetem às fontes africanas. Suas experiências recentes incluem as Gravaduras realizadas com ferro e fogo sobre feltro, os Desenhos de Fogo feitos com pólvora, cola e fogo sobre o plástico, e as performances. As marcas de ferro que ele imprime nos tecidos de feltro, usando o corpo e o ferro em brasa como ferramentas, possibilitam resgatar as marcas ancestrais da violência dos opressores na pele dos escravos negros. Essas marcas de violência, registradas no tecido, são purificadas nos rituais performáticos realizados pelo artista no seu ateliê ou nos espaços públicos. Nesse território de liberdade, impregnado de música e dança, o artista estende o feltro no chão e constrói com seu corpo, usando o ferro e o fogo, desenhos geométricos que pulsam, revelando os símbolos dos orixás e os pontos de fogo usados nos rituais de purificação do candomblé. Quando essas performances são realizadas junto aos Vissungos, que são cantigas em língua africana ouvidas antigamente nos trabalhos de mineração, elas resgatam as vozes ancestrais da África no território de Minas Gerais.

O Livro Queimado, realizado em 2009 e apresentado na exposição Polímatas, dialoga diretamente com as Gravaduras. São as marcas de violência, registradas com ferro e fogo na pele do tecido, que o artista usou para construir o seu livro de artista. Encadernou as páginas e encapou com borracha negra. Dentro dele, Jorge escreveu um poema que fala da poiésis, de seu processo de criação, envolvendo o corpo e a sensorialidade, provocando no sujeito receptor/participante a visualidade, o tato e o olfato, deixando um “rastro do cheiro queimado no ar”.

Esta relação transmidiática entre a imagem, o texto, a música e o corpo do artista é uma das várias possibilidades de leitura do livro de artista no Circuito Polímatas.

(Fig. 13) Jorge dos Anjos, Livro queimado, Livro de artista (borracha e impressão de ferro e fogo sobre feltro), 2009. Foto: Marilia Andrés.
(Fig. 14) Jorge dos Anjos, Gravadura e Livro queimado, (borracha e impressão de ferro e fogo sobre feltro), 2009. Foto: Sara Não Tem Nome.

 

NOTAS

[1] Polímata, que em grego significa “aquele que aprendeu muito”, representa o indivíduo cujo conhecimento não está restrito a uma única área.

[2] HIGGINS, Dick. In: FERREIRA, Glória; COTRIM, Cecília (orgs.) Escritos de artistas anos 60/70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006, p. 140.

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