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Lindolf Bell – despir a crítica

Nota-se nas críticas assinadas por ele algumas características essenciais do crítico-poeta tais como a preocupação em sensibilizar os leitores para a importância da arte enquanto elemento essencial do humano; concepção cara ao maior de nossos críticos de arte, Mário Pedrosa…

Ana Lúcia Beck – ABCA/Goiás

do reino da indiferença
nada sei
Também não visto
as roupas das diferenças
(Lindolf Bell, O código das águas)

Lindolf Bell nos deixou há 23 anos. De lá pra cá, sua produção em poesia tem recebido ampla investigação pelo meio acadêmico e editorial catarinense. Todavia, o poeta teve também atuação decisiva no circuito artístico em Santa Catarina, estado onde atuou como galerista, crítico de arte e marchand por três décadas. Sob essa segunda atuação, porém, recai uma lacuna historiográfica e investigativa que Lindolf Bell – crítica de arte em Santa Catarina visa sanar. Em 516 páginas, intercaladas com rica seleção de fotografias de época, a publicação pela Editora Humana, apresenta o resultado da imprescindível pesquisa de arquivo realizada pela organizadora do volume, Daiana Schvartz. O grande mérito da edição é recuperar a atuação de Bell na crítica de arte em Santa Catarina entre 1972 e 1995. A publicação confere acesso a futuros pesquisadores, historiadores e apreciadores da arte da totalidade das matérias assinadas por Bell para o Jornal de Santa Catarina nesse período e se origina em pesquisa realizada no Arquivo Histórico José Ferreira da Silva. Desse arquivo esquecido por longo tempo, Schvartz resgatou de forma efetiva, em seus gestos de pesquisadora e editora, o entendimento do próprio poeta sobre os arquivos. Aqui, a pesquisa em artes visuais aproxima-se da prática da poesia, pois, como recupera a autora nas palavras de Bell que abrem o volume, a poesia pode ser entendida como um “Fixar o espaço, fixar o tempo. Retirar do mundo vivo o material perecível, transformando-o em arquivo, mas arquivo vivo, arquivivido.” Ora, é o arquiviver que, em movimento de resgatar, avaliar, disponibilizar, organizar e publicar permitiu a Schvartz reviver o arquivo de Bell, tornando-o vivo para nossa leitura. O arquiviver, assim, se inscreve no devir da significação que atribuímos aos textos, à arte, e à própria vida.

Lindolf Bell autografando na década de 1980. Fotografia: acervo Pedro Hering Bell.

Já na apresentação de Lindolf Bell – crítica de arte em Santa Catarina, identificam-se vários méritos da pesquisa e edição da publicação que vão além do simples situar as críticas de Bell no tempo e no espaço. Pesquisadora há vários anos também da atuação de Elke Hering, Schvartz possui um entendimento único da maneira como os textos de crítica de arte de Bell se inscrevem no panorama mais amplo de sua atuação frente à Galeria Açu-Açu, de sua relação com a poesia, bem como sua relação com o protagonismo de Elke Hering nas iniciativas que culminaram na atuação de Bell à frente da galeria Açu-Açu e no Jornal de Santa Catarina em estreita articulação com esta. Ainda que não caiba em uma apresentação uma investigação mais aprofundada destas questões, tal cuidado por parte da pesquisadora sinaliza o olhar atento que será necessário da parte dos pesquisadores que venham a se aprofundar no futuro nas investigações sobre a atuação de Bell nas artes visuais. Afinal, Schvartz situa a produção de Bell de forma crítica, escapando do simplismo com que muitas vezes é abordada a relação entre arte e vida nas artes visuais.

“Mas, este homem de seu tempo possuía preocupações situadas por vezes além do momento que lhe foi contemporâneo na teoria das artes visuais brasileiras…”

Nesse sentido, a apresentação faz jus ao cuidado que devemos ter ao lermos as críticas de Bell. Nota-se nas críticas assinadas por ele algumas características essenciais do crítico-poeta tais como a preocupação em sensibilizar os leitores para a importância da arte enquanto elemento essencial do humano; concepção cara ao maior de nossos críticos de arte, Mário Pedrosa. Tal traço da arte se alia aos esforços de expressão de si e de comunicação com o outro, na constituição de uma complexa equação fundamentada na premissa da necessidade imperativa – e atávica – de uma subjetividade compartilhada que recuperaria a esperança em dias melhores. A esperança na vida capaz de sobreviver às tragédias de toda ordem, que insistem em nos lembrar da constância da morte na vida. Mas, este homem de seu tempo possuía preocupações situadas por vezes além do momento que lhe foi contemporâneo na teoria das artes visuais brasileiras. Nota-se sua preocupação com a valorização da produção também daquelas vertentes e artistas que se distanciam do ideário europeu de ordem renascentista. Percebe-se a preocupação em valorizar não somente os grandes nomes da história da arte, mas também os artistas autodidatas, o artesanato, as produções de raiz africana ou indígena, ainda que o crítico carecesse de um conhecimento mais aprofundado e sistematizado sobre as teorias da arte. Nem por isso devemos deixar que tal lacuna diminua o reconhecimento de seu esforço em sensibilizar o público para a diversidade das expressões artísticas, nem o de sua atuação incansável para que o universo da arte e da cultura se tornassem mais acessíveis a todos. Questões como estas, além de muitas outras que ainda precisam ser localizadas, poderão ser percebidas na leitura minuciosa dos textos que constituem essa edição que contribui efetivamente para os estudos sobre a história da crítica de arte no Brasil.

Capa da publicação organizada por Schvartz e lançada pela Editora Humana em 2020.

A cuidadosa edição, que pode ser adquirida pela Estante Virtual ou diretamente com a Editora Humana, garante destaque também para os documentos visuais e fotografias do período, especialmente as dos acervos dos filhos de Bell, Rafaela e Pedro Hering Bell, o que constitui uma obra de agradável apreciação para os interessados pelas Artes Visuais e pela carreira e persona de Lindolf Bell. Organizada cronologicamente, com índices de data das matérias, índice de imagens e índice onomástico, constitui referência fundamental para pesquisas futuras sobre essa atuação, que virão certamente a preencher a lacuna historiográfica sobre a crítica de arte no Brasil e as artes visuais em Santa Catarina no que diz respeito à constituição, personagens e atores de seu circuito. A publicação nos relembra também de outra preocupação constante de Bell; a necessidade de que o estado mantenha políticas públicas que permitam a constituição e manutenção de acervos sobre a atuação e produção de seus artistas, bem como de fomento a pesquisas voltadas ao estudo e preservação de tais acervos, permitindo que os mesmos sejam sempre novamente revividos. Bem sabia o poeta que essa possibilidade sustenta o viver nas diferenças, assim como o significar enquanto perpétuo devir.

 

Lindolf Bell: Crítica de arte em Santa Catarina. Organização Daiana SchvartzChapecó: Humana Editora, 2020. 516 páginas. Edição Contemplada no “Edital nº 252/2018” promovido pela Secretaria de Cultura da Prefeitura Municipal de Chapecó.

Maiores informações: humanalivrariaeditora@gmail.com / (49 ) 3316-4566

Vendas online: www.humanasebolivraria.com.br/editora – valor: 45 reais.

Para conhecer mais sobre a produção em crítica de arte de Lindolf Bell:

BECK, Ana Lúcia e SCHVARTZ, Daiana (orgs). Lindolf Bell e as artes visuais em Santa Catarina. Palestra on-line via ZOOM. Florianopolis: Fundação Cultural Badesc, Julho de 2020. Disponível em: www.youtube.com/watch?v=HagIJFUI91s&t=39s

BECK, Ana Lúcia. Lindolf Bell – dispersão e horizonte crítico. Anais do 29º Encontro Nacional da ANPAP: Dispersões. Organização Manoela dos Anjos Afonso Rodrigues e Cleomar de Sousa Rocha. Goiânia: Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, 2020. p. 997-1014. Disponível em: www.anpap.org.br/anais/2020/pdf/Ana_Lucia_Beck_ANPAP_2020_ArtigoFinal-94.pdf

BECK, Ana Lúcia. Vanguarda – poesia – enchentes – periferia: Lindolf Bell e o exercício crítico. Anais da Jornada da ABCA 2019 – síntese das artes: memória e atualidade. Organização: Elisa de Sousa Martinez e Maria Amélia Bulhões. São Paulo, ABCA, 2019. p. 19-27. Disponível em: www.abca.art.br/httpdocs/wp-content/uploads/2020/08/E-book-Jornada-ABCA-2019.pdf

n° 56 – Ano XIX – Março de 2021 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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