n° 52 – Ano XVII – Dezembro de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Artigo

A leveza da matéria.
Yutaka Toyota.

Uma obra de arte é feita de sonho – alguém a sonhou – imaginação e matéria, concretude e desejo, signo e símbolo. É este conjunto que define a natureza da obra e nos diz de sua dimensão e de seu alcance. E de sua grandeza intrínseca…

Jacob Klintowitz – ABCA/São Paulo

A maior obra de arte de que se tem notícia foi concebida na nossa época. Existe uma linha invisível que percorre boa parte da superfície do nosso planeta e une duas peças escultóricas localizadas respectivamente nas cidades de São Paulo, no Brasil, e Yokohama, no Japão. Estas duas peças são, na verdade, partes da mesma obra, dois componentes físicos que unidos por um continuum psíquico e geográfico se constituem em uma só escultura. Estas partes metálicas são similares e estão colocadas de tal maneira que o vértice de uma corresponde ao vértice da outra. O nome da escultura é “Espaço Arco-Íris”. Em Yokohama, ela se situa no parque Minato Mirai (Porto do Futuro), em São Paulo, ela será instalada no Metrô Santos – Imigrantes.

Quem sonhou esta escultura que une dois continentes e povos foi um artista chamado Yutaka Toyota.

Espaço Vibração, 1985. Aço inox e latão. Hotel Tivoli Moffarej, SP, Brasil

Uma obra de arte é feita de sonho – alguém a sonhou – imaginação e matéria, concretude e desejo, signo e símbolo. É este conjunto que define a natureza da obra e nos diz de sua dimensão e de seu alcance. E de sua grandeza intrínseca.

Imaginação não é arte. O entendimento fundamentalista de uma frase de Leonardo da Vinci, “Arte é coisa mental”, criou uma série de “obras” de caráter puramente imaginário. Olho as nuvens e vejo nelas guerreiras com lanças imensas, baleias, tempestades e até, quem sabe, a Madame Esmengarda? Em Leonardo “coisa mental” se contrapõe ao artesanato e não à concretude da obra. E coisa mental pode ser entendido como conceituação, intuição, percepção, historicidade.

Existe uma mitologia contemporânea a respeito da participação do público na obra de arte. A democracia, na sua versão populista e demagógica, tem criado o entendimento de uma atuação física. Ou seja, não há diferenciação entre os seres, todos são iguais e, portanto, todos são artistas. A partir daí, todos podem contribuir e modificar a obra de artista. Até alguns vândalos tem se valido deste argumento. O critério de democracia deste tipo é falsamente estatístico. Todos são artistas, a opinião de todos tem valor igual. É evidente que os arautos deste engano de massa não aplicam esta teoria quando eventualmente devem fazer um procedimento cardíaco. Ai vale a opinião do cirurgião consagrado, mesmo que cinco faxineiros tenham opinião contrária…

Hino ao Futuro e a História, 2008. 23x16x16 m. Aço inox, concreto e granito. Londrina, PR, Brasil

Participar não significa desmontar a obra de arte, chutá-la, sentar nela, e coisas do gênero. Certamente existem alguns artistas que planejam uma intervenção do público nas suas obras. Alguns desvendamentos, nos casos mais sutis. Jogos de armar, nos de temperamento lúdico. Mas são casos e situações especiais.

Também uma obra de arte não tem a sua validade e eficácia baseada na excentricidade ou no choque. Estes têm sido recursos amplamente utilizados numa época onde os meios de comunicação tem um caráter amplo, global e instantâneo. Em muitos casos o tempo de comunicação é o chamado tempo real, ou seja, enquanto o acontecimento ocorre simultaneamente ele está sendo transmitido. As excentricidades têm se multiplicado devido a necessidade de chocar com o inusitado. É o deslocamento. Desta maneira, um cadáver conservado em formal pode ser colocado na sala de exposições. E coisas congêneres.

É a repetição, até a náusea, da atitude de Marcel Duchamp de, em 1917, enviar um urinol para o Salão dos Independentes, de Nova York. Duchamp assinou “R.Mutt”, o urinol de porcelana branca está invertido, e recebeu o título de “Fonte”. O “Ready Made”, objeto achado, consiste em utilizar um objeto anônimo, de fabricação em massa, e deslocá-lo para o ambiente de arte, o circuito de arte. Há muitas interpretações para a ação de Duchamp, a mais habitual é que esta atitude coloca em cheque o conceito de arte e o de validade da arte, concedido pelo circuito de arte. É possível também levar em conta a contradição do título, uma vez que “Fonte” jorra, ao contrário do urinol destinado a receber urina. E a posição do urinol equilibrado sobre uma base é o contrário da peça quando colocada na parede. É possível igualmente entender freudianamente esta ação, dado a semelhança esquemática do objeto com o útero. Aliás, nesta linha, pouca ação humana escapará ao Freud… Enfim, tudo isto já se discutiu à exaustão, o que falta discutir mais longamente é a repetição do mesmo gesto tantas milhares de vezes e de como esta repetição encontra validade no circuito de arte… Este acordo não parece uma traição à intenção de Duchamp, a de questionar o circuito de arte e a própria validação da obra como obra de arte, se é que esta era mesmo a sua ideia?

“Yutaka convida o público a meditar sobre a essência do real, a descartar a aparência como verdade e a perceber o oculto como parte do existente…”

A obra de Yutaka Toyota está distante destas questões. A permanente participação do público na sua obra tem outro caráter e é de natureza diversa. Yutaka convida o público a meditar sobre a essência do real, a descartar a aparência como verdade e a perceber o oculto como parte do existente. Mais até do que isto, a obra de Yutaka Toyota se oferece ao público para partilhar certo estado de percepção. Não para saber a verdade do invisível, do não visto, mas para estar neste espaço do oculto.

Espaço Harmonia, 2019. 165x270x165 cm. Aço inox, pintura epoxi

Nesta escultura pensada para ocupar dois continentes Yutaka Toyota convida o público a sonhar com ele e a utilizar o pensamento como energia unificadora. Não se trata de um delírio dissociado, mas de criar um desenho magnífico em si mesmo, em tornar o mundo interior uma forma planetária.

A concepção desta escultura, o maior arco-íris do mundo é, também, a simbolização de uma aliança entre os povos. Um arco-íris feito de aço e ritmos. Podemos pensar, igualmente, que as pontas desta escultura unem-se apenas em nós mesmos, no nosso pensamento. Mas haverá melhor lugar para se unirem?

Arco-íris e o seu mistério simbólico. A decomposição da luz nas gotas de água suspensas: a luz do sol que se abre e se divide na criação do tesouro cromático. As esferas cromáticas. A maior obra de arte do mundo é o círculo cromático, segundo Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832).

Mas o arco-íris de Yutaka Toyota não é uma miríade de cores. E isto não contraria o sentido simbólico. Lembremos que existe o arco-íris branco, o mais raro deles. Há um encontro histórico de Goethe, em Erfurt, Alemanha, com o arco-íris branco numa viagem destinada ao repouso. E a anotação de Goethe, as suas palavras, tem um encanto oracular (citado por Haroldo de Campos, no ensaio “O arco-íris branco de Goethe”): “ O arco-íris é branco, sem dúvida,  mas é, no entanto, um arco celeste. Se teus cabelos são brancos, não obstante, tu amarás.”

Arco-íris é também conhecido como arco-celeste, arco-de-chuva, arco-de-deus e arco-da-aliança. Deus faz um acordo com os homens após o Dilúvio e o arco-íris, após a chuva, representa esta aliança entre o Céu e a Terra.

Existe a lírica lenda popular de que no final do arco-íris, naquele ponto em que ele encontra a terra, existe um tesouro. Às vezes, na lenda, este tesouro é identificado com um pote cheio de ouro. O ouro tem sido o metal sagrado porque é incorruptível, não oxida, e simboliza a alma, também ela indestrutível.

O tesouro que Yutaka Toyota encontra no final do arco-íris, no ponto exato em que o céu toca a terra, é a imaginação, a flexibilidade do entendimento, a incorporação da beleza e da subjetividade.

Espaço Núcleo, 1983. 80x160x25 cm. Aço inox sobre madeira

Diante de nós o esplendor,

 Raios do sol e água,

Lá no alto templo de luz.

“Faz parte do mistério Toyota a capacidade que estes materiais tão fortes e tecnológicos se apresentem de maneira doce…”

O processo criativo de Yutaka Toyota se constitui a partir de dois estamentos constantes e exatos. O primeiro é a intuição, o sonho, o conceito, nesta ordem. Ele sonha com universos. Yutaka pensa o espaço sideral. E o segundo, é o minucioso trabalho de construtor que o leva à busca da forma impecável executada de maneira justa, perfeita, similar ao que a intuição lhe mostrara. Um engenheiro cósmico. É o método Yutaka Toyota.

Espaço Sideral, 1979. Aço inox e alumínio. 50x4x4 m. Átrio do Hotel Maksoud Plaza, São Paulo, Brasil

É óbvio que Yutaka Toyota tem uma profunda formação tecnológica. Basta olhar o cuidado com que são confeccionadas as suas peças, a objetividade e a precisão com que trata diversos materiais, entre eles o aço. Além disso, na sua obra bidimensional, pintura e gravura, é primorosa a execução, o aporte de tintas especiais e o rigor de uma geometria pessoal. Não a convencional, à que tantos têm se acostumado, mas uma que obedeça à sua visão do mundo e mostre, permanentemente, uma dinâmica estrutural na qual o mundo se entremostra. Faz parte do mistério Toyota a capacidade que estes materiais tão fortes e tecnológicos se apresentem de maneira doce. É como se eles estivessem dispostos a travar um diálogo com o público. É o contrário da Esfinge – decifra-me ou te devoro – pois a alternativa para o não entendimento é o simples recomeço: olhe novamente. Ou espere o momento certo.

O outro mistério é o que um artista dotado para a alta tecnologia, no modo de executar, e para a filosofia oriental, tão voltada para a introspecção, faz no Brasil. Por que este artista que poderia ter o seu ateliê em tantos lugares do mundo, optou pelo Brasil, tão deficiente naquela época destes dois elementos, a tecnologia e o zen budismo?

A primeira impressão do Brasil: grandeza, imensidão. É o que declara Toyota. Esta sensação está impregnada na personalidade do artista, perdura há cinquenta anos. E, na verdade, esta avassaladora impressão inicial corresponde à grandeza do projeto e ambição do artista.

O trabalho do artista está resumido por ele da seguinte maneira, como síntese de sua vida artística: “Espaço Cósmico. É este o meu assunto, é este o meu tema, é isto que desenvolvo.”.

Espaço Cósmico, 1979. Aço inox. 400x400x400 cm. Hokkaido, Japão
Espaço Cósmico II, 1990. 701x190x350 cm. Nani Mau Garden, Havaí, EUA
Espaço Cósmico, 2020. União pela Paz. 320x283x283 cm. Aço inox e pintura

A obra de Yutaka Toyota é um percurso em direção a uma extraordinária objetividade. Sabemos que a obra é dele por suas características estilísticas. E sabemos mais ainda que a obra é dele devido ao conceito que emana dela, à sua consideração sobre o infinito e este jogo metafísico entre o oculto e o mostrado, entre o presumido e o evidente. Entretanto, a obra tem uma existência independente, ela é em si mesmo, ela não reflete a cada momento o cotidiano contingente do artista.

Neste sentido, à medida que o artista avança na sua procura e identificação do invisível, mais a sua obra é feita de desprendimento. O seu aprendizado é o de tornar-se, por sua vez, invisível. A escultura de Yutaka Toyota é feita de visibilidade e invisibilidade, de oculto e evidência, de claro e escuro, de cor e não cor. Entretanto, a obra é visível e o autor, cada vez mais, invisível.

A obra de Yutaka Toyota nos traz uma nova visão do mundo. Ela não quer nos ensinar algo e não tem, como boa parte da arte atual, a pretensão de nos transformar. De maneira nenhuma ela se propõe a intervir na nossa vida e nos oferecer um determinado paraíso ideológico. É uma obra que está aí, silenciosa e luminosa. Diante dela e na contemplação dela o importante é que a nossa sensibilidade se envolva com a obra. Trata-se de uma transmutação. Esta sensibilidade para interagir com a obra potencializa várias valências humanas, como o sentimento, o coração, a inteligência, a sensação e, contudo, não se fixa em nenhum deles, mas está num espaço aparte, algum lugar onde o ser se identifica com o universo, faz parte dele, mas não se dissolve nele. É a consciência do todo que permanece consciência individual.

A obra de Yutaka Toyota não se fecha em um conceito e não nos diz, com clareza, a que veio. Podemos escolher várias possibilidades de entendimento a partir de sua obra. Algumas das peças escultóricas, por vezes, têm partes móveis que podem ser manipuladas pelo público. Mas esta escolha do que é a obra, ou do vir a ser da obra, este perceber o seu ser, só existe a partir da própria obra. Manipular, sim, mas não de maneira arbitrária. Com manipulação, ou sem ela, não é um processo de projeção da personalidade do público, mas um estar de acordo, um diálogo da obra com o público onde ele se eleva dentro de suas próprias características. Na verdade, a obra de Yutaka Toyota quando ela se coloca à disposição e permite ao público escolher o que dela lhe serve, revela ao público, ao ser que contempla, o que ele é. Neste decidir sobre a obra, quem decide, também decide sobre si mesmo, o que é e o que pretende ser.

“Talvez, Yutaka Toyota não afirme nada e a sua obra seja sugestão. Aquela parte da poesia que está entre uma palavra e outra palavra, A intensa poesia do espaço vazio.”

A obra de Yutaka Toyota situa-se entre dois mundos. O visível e o oculto. O espaço terreno e o metafisico. O material e o evanescente. Somos frágeis diante da obra, pois o nosso é o tempo cronológico. Somos frágeis porque temporários. Mas no diálogo com esta obra a cronologia é suspensa e o tempo se torna imóvel, ou seja, infinito. Aliás, um tema permanente neste artista. Yutaka Toyota estabelece pontes entre os vários mundos ou as várias faces do real. E nos permite olhar através de uma fresta, uma fimbria, uma pequena incisão, a grandeza da ordem universal.

Talvez, Yutaka Toyota não afirme nada e a sua obra seja sugestão. Aquela parte da poesia que está entre uma palavra e outra palavra, A intensa poesia do espaço vazio.

Espaço Transmutação, 1989. Museu de Arte da Cidade de Tendo, Yamagata, Japão. Terraço com obras de Yutaka Toyota

Há também um dado que não pode ser esquecido. Yutaka nos revela sempre a sua intuição, a sua percepção da complexidade do existente. A sua é uma obra de revelações. Ela não se afirma como um corpo doutrinário. O autor é impermanente e nos apresenta os seus infinitos, as cores ocultas, as superfícies espelhadas. Ele não elide a nossa temporalidade. É como se ele fosse solidário na impermanência. A suprema riqueza no breve tempo.

Existe um haiku de Enamoto Kikaku (1661-1707), em tradução espanhola de Octavio Paz, vertido para o português pela poeta Olga Savary, que expressa com precisão este aparente paradoxo do esplendor no temporário:

Ah, o mendigo!

No verão foi visto só,

Com a terra e o céu.

Na obra de Yutaka Toyota estamos sempre no presente. Ela não nos narra uma história, não impõe uma doutrina, não quer nos ensinar. Ela está ali e o que nos pede é que também estejamos no mesmo lugar. Uma sintonia secreta. De certa maneira, para o contato com a obra de Yutaka Toyota não precisamos estar previamente preparados. Esse contato, este estar juntos, esta comunhão, parte do princípio de que é possível este “ser juntos” porque a iluminação ocorre de repente.  Neste caso, o ponto de partida da obra de Yutaka Toyota poderia estar amparado nas inúmeras descrições, em várias escrituras sagradas, do momento de iluminação dos homens santos. Mas como esta obra é objetiva e é em si mesmo ela não incorpora a história neste sentido, pois ela é sempre um estado inicial.

Yutaka Toyota é um artista brasileiro que marcou a nossa modernidade e é um dos escultores mais significativos em atividade no mundo. Nascido no Japão e residindo no Brasil há mais de 50 anos, contribuiu decisivamente para o desenvolvimento tecnológico da nossa arte tridimensional e introduziu, entre nós, um refinamento temático que serviu de inspiração para muitos artistas jovens. Yutaka Toyota trabalha com materiais contemporâneos, em especial o aço, e é autor de obras públicas em diversos lugares do planeta e em muitas cidades brasileiras. Do ponto de vista conceitual, a obra do artista se estrutura em dois elementos, as formas dinâmicas e móveis que o aço possibilita e o reflexo de cor nas partes internas das esculturas, devido a um cuidadoso planejamento. Também pintor e gravador, os seus temas na bidimensionalidade são os estudos da matéria, a percepção dos planos e a invenção de contrastes cromáticos em torno das cores primárias.

Formação do artista, estudos de arte no Japão, estudos universitários, estudos de alta tecnologia do aço. Yutaka Toyota também foi preparado para ser piloto de avião de caça.

Toyota estudo e morou, além do Japão, na Itália e na Argentina.

A obra de Yutaka Toyota pode ser compreendida, em seu sentido profundo, como uma expressão da filosofia oriental, especialmente o zen budismo.  Ela é próxima da arte tradicional japonesa, da maneira como se percebe a arte desde o século dezessete, ainda que de aparência tão contemporânea e utilizando materiais da nossa época. Somente no Brasil, com as constantes perguntas sobre a sua base filosófica, o seu entendimento do mundo, foi que Yutaka Toyota estudou a teoria do zen budismo. Mas isto em nada alterou a sua maneira de ser e fazer, pois esta é a sua natureza. A sua estética contem elementos da filosofia profunda e do sentimento sagrado do mundo. Aliás, existem correntes que acreditam não ser necessária qualquer teoria, ensinamento, ou mesmo as palavras de Buda, pois a iluminação ocorre de repente.

Espaço Vitória, 2000. 470x85x85 cm. Centro Brasileiro Britânico, SP, Brasil

Formação do artista no Oriente, formação do artista no Ocidente, uma síntese entre dois mundos ou, ele próprio, uma ponte entre estas duas visões tão diferentes da realidade.

Talvez o lugar onde ficou mais evidente esta junção entre dois mundos e duas tradicionais, tenha sido na arte cinética onde Yutaka Toyota é um pioneiro.

A leveza da flor.

É universal o fascínio que a escultura do brasileiro Yutaka Toyota exerce, como o demonstra a sua intensa presença pública em lugares tão díspares como o Japão, a Itália e o Brasil. É curioso como a sutil combinação de materiais, o conceito espiritual subjacente e a produção tecnológica, não afasta o público, mas o aproxima. A sua é uma escultura de combinações inesperadas. Uma estrutura de aço cromado que multiplica a cor. Ou a articulada montagem de elementos em alumínio com a leveza da flor. E esculturas metálicas de perfeita geometria, movimentadas e transformadas devido à passagem do vento. O ar e Yutaka Toyota criam uma nova magia.

Eapaço Vibração Nº 3, 2017. 200x180x100 cm. Aço inox e tinta acrílica sobre madeira

É possível dizer que a junção e a aparente contradição entre a dureza e o macio, a espontaneidade e a reflexão, o volume e a leveza, a geometria estável e o equilíbrio instável, são companheiros constantes de Yutaka, fazem parte do mundo que inventou e são a origem da empatia do público. Mas, conhecer os componentes da poção mágica não resolve o mistério. Saber aumenta o mistério da realidade. Descobrimos as equivalências da escultura e o prazer da contemplação é ainda maior.

A alta tecnologia é indissociável da sua delicada concepção. E temos a sensação de que este voo só existe embalado nestes materiais e em contrastes incomuns.

Yutaka Toyota enriquece o nosso olhar neste jogo essencial feito de aço, alumínio, reflexos cromáticos de pigmentos ocultos, e movimentos eólicos.  Éolo, deus dos ventos, filho de Zeus, e Yutaka Toyota, e algumas esculturas tão próximas da natureza e do gesto humano. Uma produção de nossa época. Não seria possível imagina-la na Antiguidade.

Voo de prata. Carícia do vento e reflexo das luzes. Linha geométrica a recortar e reconstruir o espaço. Paradoxo, tudo parece natural.

A arte cinética de Yutaka Toyota

e o  encanto da qualidade.

A obra do artista Yutaka Toyota é um exemplo vivo da contribuição da arte cinética à nossa compreensão do real. É uma obra única  por unir tantos elementos proféticos da cultura contemporânea, tais como os contrastes simultâneos de cor, a visualidade do oculto, o movimento do ar, a ideia topológica do dentro e do fora, a harmonia dos contrários, o fascínio dos espelhos, o Yn e o Yang, o Ocidente e o Oriente.

Declaração de Yutaka Toyota: “Eu quero mostrar o invisível…”

A nossa é uma civilização da informática. Os experimentos visuais, a ilusão de ótica, as combinações cromáticas, a vertigem de certas geometrias, fazem parte do cotidiano da comunicação comercial. Não há limites para a sua utilização nas marcas comerciais, logotipos, identificação visual, material promocional, artes gráficas, aberturas de filmes, efeitos especiais, desenho animado, programas de televisão, ad infinitun.

A arte cinética profetizou o mundo atual. E Yutaka Toyota ajudou a apontar a nova onda tecnológica e mental ao Brasil.  E é uma das nossas referências.

A cor oculta. O espectador olha o reflexo da cor. O mundo é uma “ilusão”. O que se vê é aparência…”

Yutaka Toyota multiplica o tempo e o espaço através de espelhos e reflexos. O desenvolvimento temático do percurso da luz na escultura, as formas com cores refletidas internamente, a elaboração de formas originais.

A cor oculta. O espectador olha o reflexo da cor. O mundo é uma “ilusão”. O que se vê é aparência. A maior parte do universo é feito de matéria escura, invisível, pois não reflete a luz.

A união do que se vê e do que existe.

Forma e reflexo. A forma que se completa no invisível, no não visto.

Forma e reflexo. A forma que se completa no invisível, no não visto.

O império do tempo imóvel.

No trabalho de Toyota as superfícies refletoras tem uma função essencial. Elas não refletem o individuo que contempla, mas reflete as partes escondidas, não vistas, das esculturas. O artista nos revela o que permaneceria desconhecido. E esta revelação nos traz formas e cores. Nós recebemos a luminosidade através de um jogo de reflexos. Este jogo de espelhos refletores é intrigante, pois se trata sempre de um revelar. E extremamente moderno, pois na história recente da arte uma das premissas mais fortes é a possibilidade de mostrar tudo ao público, não só o processo de fazer, como a parte oculta dos objetos. Esta é a verdadeira essência do cubismo. E é um retomar da história pois os espelhos atuais tem cerca de 400 anos e a tradição é a de espelho feitos com a superfície polida do metal.

A superfície polida de Toyota reflete a si mesmo, e nos apresenta aquilo que habitualmente não se vê. Não o homem habituado ao seu próprio rosto, mas a entranha cromática da forma.

Mais de uma vez Jorge Luis Borges, escritor de labirintos, infinitos e espelhos, falou do seu receio dos espelhos e do seu fascínio. Ou de sua ojeriza. Numa tarde de outubro de 1982, em Nova York, Borges deu uma entrevista ao New York Times, para Michiko Kakutani. E sobre o pretexto de falar de sua cidade, Buenos Aires, comentou sobre o infinito e os espelhos:

 “Existem as planícies e os pampas, mas é uma cidade tropical. Sente-se o interminável número de eventos, pessoas, folhas, mosquitos, de todos os tipos de insetos, de serpentes. Procriação e espelhos são odiosos porque multiplicam o número das coisas.”

A ideia de infinito, da multiplicação para sempre, eterna, de imagens é assustadora. E os espelhos quando paralelos levam ao infinito.

Espaço Infinito, 2007 (díptico). 59x19x93 cm. Aço inox sobre madeira

Existe igualmente a relação do espelho com o mistério, o que se esconde atrás de sua superfície. Que imagens e segredos ele poderia guardar no seu além?

Em alguns casos, o espelho pode ser oracular. Não é ao espelho que a Bruxa Má pergunta sobre a beleza? E o espelho, já na sua história primeira, a da água parada e refletora, serve ao homem para o reconhecimento de si mesmo. É por esta visão que Narciso se apaixona.

Nas lendas e na literatura o espelho pode ser um portal. Através do espelho penetramos em outra realidade, em mundos paralelos, em histórias surreais. Penetramos através do espelho e encontramos um mundo em que os animais falam e dominam a linguagem e onde a lógica não é sequencial e os efeitos podem vir antes das causas.

Talvez o espelho guarde na sua memória de cristal todas as imagens que nele se refletiram…

Para a tradição romântica os olhos são os espelhos da alma. Estes espelhos refletiriam o mundo interior, não o exterior, e seriam capazes de formatar o que de mais íntimo o seu proprietário possui.

Para Yutaka Toyota e a sua obra o espelho, feito a moda antiga, reflete igualmente o mundo interior, o que dá o sentido à escultura, o seu objetivo final, apresentar este mundo não visível, da estrutura essencial, da geometria como medida da terra, da matemática como medida sideral.

Para Yutaka Toyota três vetores o movem no mundo da impermanência onde vivemos. A primeira é o espaço sideral. A segunda é mostrar o invisível. A terceira é aproximar num único sistema o que parece impensável: o positivo e o negativo; o claro e o escuro; o visível e o invisível; a matéria e a anti-matéria; o estável e o movimento; o Yin e o Yang.

Quarto Escuro, instalação imersiva apresentada na X Bienal de Internacional de Arte de São Paulo. Acrílico pintado e luz negra.

Proposta do artista. Objetos de seu interesse.

O espaço invisível.

A parte invisível do cosmo. As oposições e as complementaridades.

O ouro e a prata nos trabalhos, nas obras bidimensionais, a simbolizar as oposições e o universo nobre, incorruptível.

O circulo, o quadrado e o triângulo, é a base de todo o meu trabalho, diz Yutaka Toyota.

Formas geométricas partidas, segmentadas e refeitas em outra ordem, em outro ritmo.

A cor no verso que se mostra no anverso e torna visível o invisível.

A noite estrelada da Amazônia transformada no trabalho do Toyota em pontos de intensa luz.

A vibração que emana do cosmos.

O reflexo invertido das pessoas no “Monumento a Imigração”.

Cidade de Registro, Brasil, 2007, uma série de esculturas lúdicas e suaves, feitas com o material histórico utilizado pelos imigrantes japoneses, os instrumentos, máquinas, roldanas, eixos, moedas, objetos obsoletos que retornaram à vida agora tornados memórias, forma e prazer.

O inventor construtor Yutaka Toyota:

Dirige a implantação e o uso da tecnologia.

Dirige a montagem da peça.

Pinta as superfícies.

Mede o formato: três metros!

Desenha a planta industrial, confere a escala, a definição de materiais.

Duas citações históricas.

“(…) mais do que qualquer outro artista nipo-brasileiro, ele se insere francamente num contexto internacionalizante, e produz uma obra onde confluem, a meu ver, Ocidente e Oriente. Sua linguagem aglutina diversas tendências – sobretudo européias – dos últimos vinte anos. Na base, fica uma consciência construtiva, disciplinada, que busca a organização objetiva e nítida das formas – e que já representa, por si mesma, uma das facetas também existentes na alma oriental. (Sempre me impressionou a aula de ‘design’ que é a própria bandeira japonesa; e não custa lembrar a simplicidade despojada dos jardins ‘zen’, à sua maneira uma pura expressão de arte minimalista.) Sobre esse pano de fundo construtivista, Toyota superpõe seu gosto por jogos óticos, um cinetismo virtual – vez por outra, atual – o render-se a materiais industrializados de alta sofisticação e assepsia, e, na produção mais recente, o conceito de ‘ópera aberta’. Sem serem propriamente ‘móbiles’, seus últimos relevos, em madeira esmaltada, admitem a interferência de forças naturais, ou a manipulação pelo espectador”.

Walter Zanini

ZANINI, Walter (org.). História geral da arte no Brasil – II,  São Paulo: Instituto Walther Moreira Salles: Fundação Djalma Guimarães, 1983. p.688.

“No Japão fez pintura figurativa, sobretudo paisagens, desenvolvendo aqui entre nós a sua modalidade pessoal de pintura abstrata simbólica. Em São Paulo entrou em relações com o budismo Hookekyo, cujas concepções influenciaram consideravelmente a sua cosmovisão e a sua arte. Toyota associa em sua pintura o cósmico e o humano, com um sentimento imanentista que funde a angústia espiritual com o dinamismo intrínseco da matéria e liga a esperança humana a um senso de espacialidade. Vive intensamente a tensão alucinante de nossa época e a tragédia do homem coagido e esmagado por condições sociais alienadoras. Aspira por um mundo de paz e de expansão ilimitada da personalidade humana. O desejo quase obsessivo de escapar da coação e a busca dos amplos espaços são a nota característica de seus magníficos quadros dos últimos anos. (…) O círculo é o símbolo fundamental para Toyota. Símbolo multivalente do mundo da energia, da paz e do homem, que traduz o esmagamento pela alienação e a expansão libertadora. Seus quadros contêm sempre círculos, mandalas budistas, ‘mundos pequenos’ de angústia e ‘mundos grandes’ de esperança e integração cósmica”.

Mário Schenberg

SCHENBERG, Mário. Pensando a arte. São Paulo: Nova Stella, 1988.

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