n° 46 – Ano XVI – Junho de 2018  →   VOLTAR

Exposição

Lara Janning: Relíquias do Feminino está no Museu da Escola Catarinense

A edificação histórica é o lugar ideal para abrigar as produções recentes desta artista formada em Portugal com o Mestre Soares Branco.

Luana Wedekin – ABCA / Santa Catarina

Lara Janning, As muitas mães, 2018. Assemblage. 124 x 100 cm. Foto: Luana Wedekin

Lara Janning é uma artista catarinense que acaba de ganhar sua primeira mostra individual no Museu da Escola Catarinense, em Florianópolis – SC, com curadoria de Luana Wedekin. A edificação histórica é o lugar ideal para abrigar as produções recentes desta artista formada em Portugal com o Mestre Soares Branco.

No hall do Museu, com suas colunas delgadas e claraboia que ilumina generosamente a entrada e coração do prédio, estão os “véus”. São oito tecidos trabalhados com encáustica pendurados acima dos visitantes, semelhantes a roupas no varal, a captar o vento e a luz natural do museu. Armadilhas de sentidos e afetos, têm papel de fazer da entrada do museu uma passagem, também em seu sentido ritual. Objetos criados no sítio, só sobrevivem aqui porque podem sentir o vento que encana, a luz que emana.

Leves, transparentes, vazados, os véus são “acessórios em movimento”, conceito fundamental do pensamento warburguiano para falar de tempos impuros, de irrupções do passado no presente, de sobrevivências de imagens tremulantes que embaralham significados e não se deixam capturar.

No espaço “Mutações” do Museu estão os demais trabalhos selecionados pela curadoria para esta mostra. O espectador depara-se então, com mais “relíquias” produzidas pela artista. A palavra “relíquia” remete etimologicamente “àquilo que resta”. Lara Janning é uma grande coletora do que “resta” de elementos materiais e simbólicos de imigrantes alemães que chegaram ao pequeno vale próximo ao município de Águas Mornas, em Santa Catarina. Ao mesmo tempo que sua obra está ligada a esta origem local, transcende tais limites geográficos e fala ao universal. Não por acaso, proliferam em suas produções símbolos de mediação entre mundos: a chave, a libélula e o cervo. O cervo alado guia o cortejo dos ancestrais em “Viagem inaugural” (2016) e seu salto no tempo tenta evitar o desaparecimento destas figuras antigas. É no devir das imagens que sobrevivem os antepassados: “partir, ficar, transformar” são possibilidades atualizadas nas impressões sobre tela.

Na tradição cristã, as relíquias estão associadas ao corpo de um santo ou a objetos que mantiveram contiguidade material ou conceitual com o elemento a que se refere. Os ossos de animais, as carcaças das cigarras, as asas encontradas de um beija-flor, de uma libélula, de uma mariposa podem aludir a procedimentos de exumação, mas são especialmente relíquias, pedaços do que parecia extinto… mas vive, sobrevive nas imagens e nelas mantêm sua aura de sacralidade.

“Uma relíquia, em geral, está associada a algo sagrado. Neste caso, trata-se do feminino sagrado…”

Lara Janning, Dona Maria, 2016. Impressão e técnica mista sobre canvas. 162 x 98 cm. Foto: Luana Wedekin.

 Nesta exposição, assumem também formas tradicionais: latas de lembranças, caixa dos noivos. Como guardar o que restou da vida de alguém? Como manter suas memórias? A caixa dos noivos guarda os segredos até um deles partir. A arte de Lara é uma caixa de noivos, abrindo segredos longínquos. Mas, com o poder das imagens sintomais, conservam seus restos, mantêm seu caráter de “usina de estranhezas”. As imagens são reveladas, no duplo sentido de abrir-lhes possibilidades de sentidos e, ao mesmo tempo fechar-lhes, chave simbólica que persiste em várias obras. Como asas de bichos vivos, abrem e fecham para manter seu movimento, e, portanto, não se deixam desvendar (tirar o véu) de todo.

Uma relíquia, em geral, está associada a algo sagrado. Neste caso, trata-se do feminino sagrado. Há as fotografias antigas da bisavó, da dona Maria. Estas mulheres do passado nos fitam sem cessar. A bisavó mítica encarna todas as bisavós do mundo, e talvez nos perguntem sobre o que fizemos de sua herança de sacrifício, de trabalho duro, de dores silenciadas, de alegrias discretas, de corpos dobrados por gestações sucessivas e desejos que não lhes pertenciam.

O que nos leva às outras figuras femininas, imagens que remete à ideia de imagens ready-made, pois foram retiradas de ilustrações antigas. Com elas não há vínculo de procedência direta, mas seus rostos suaves, cujos olhares não cruzam com os nossos, parecem familiares. Faces femininas genéricas montadas em corpos vazados com rendas ou compostos de silhuetas de desenhos anatômicos de corações, úteros. Se as expressões dos rostos pouco revelam, os corpos estão de certa forma expostos, ao mesmo tempo que através das veladuras de cores terrosas e rosadas, das camadas de cera, os elementos viscerais voltam a ser contidos. Mas essa imagem do corpo em raio-x espelha a origem final dos trabalhos: do âmago da criação feminina, no útero-receptáculo (relicário) da vida, no ritmo pulsante do coração.

Lara Janning, Caixa de noivos, 2016. Impressão e técnica mista sobre canvas. 162 x 101 cm. Foto: Luana Wedekin.

Os trabalhos desta exposição articulam processos de materialidade diversos. Metais encontrados – restos-, resgatados de seus destinos de oxidação e dissolução encarnam a matéria pesada e densa. Mas há os trabalhos dos véus, eventualmente associados a retalhos de rendas, leves, transparentes. Entre o peso e a ligeireza, a cera de abelha, passagem “entre” paradoxos, material flexível, maleável, mutável.

Há em toda a série uma operação de camadas: tintas, impressões, colagens. Por fim, a cera que adere e sela, esconde e deixa ver (nesse ponto a cera é também um véu). Os sentidos das imagens só se deixam ver ao exame atento das camadas, respeitando aquilo que é do âmbito do invisível.

Lara Janning empreende aqueles antigos embates que artistas realizavam com os materiais. Mas mesmo formada nas linguagens tradicionais do desenho, pintura e escultura, afirma o uso contemporâneo de materiais diversos, objetos encontrados, imagens ready-made, fotografia, colagem, conjugados à antiquíssima técnica da encáustica, chamada também de “pintura a fogo”, ela própria um paradoxo ao unir água, fogo e ar.

A materialidade das obras reflete as mudanças de estado: da ninfa à cigarra, do feto à velha, num incessante processo de vida-morte-vida das imagens.

Lara Janning, A benção do Self Instintivo – A bisa Mística, 2018. Encáustica sobre tecido. 195 x 130 cm. Foto: Luana Wedekin.

Exposição “Relíquias do Feminino”, de Lara Janning, com curadoria de Luana Wedekin, até 28 de julho, de segunda a sexta-feira, das 13h às 19h, e sábado, das 10h às 16h. Museu da Udesc, Rua Saldanha Marinho, nº 196, Centro, Florianópolis.

 

n° 46 – Ano XVI – Junho de 2018  →   VOLTAR

Leave a Reply

EDIÇÃO 46

ÚLTIMAS EDIÇÕES

Translate

English EN Português PT Español ES