Homenagem

José Neistein, mestre brasileiro

José Neistein. Foto: Divulgação.

O nome dele era José Menache Neistein e para nós, os que convivemos com ele e sabíamos dele, de sua criatividade, cultura, capacidade executiva, e de sua transbordante afetividade, esse nome, José Menache Neistein, permanecerá sempre conosco como um tesouro ao qual tivemos acesso e nos ajudou na jornada.

A sua ausência nos lembrará da nossa perda. Neistein era um homem brilhante e que fez muito pelo Brasil e pela nossa arte. Ele a divulgou, expôs e explicou nos Estados Unidos durante muitos anos, de maneira rara, erudita e sensível. Penso que é fundamental que falemos em arte de maneira sensível. Não basta saber muito e burocraticamente, é necessário perceber a cultura com os olhos de um poeta. É o que José fazia. E não é o convívio com os que sabem ler a cultura com o coração e o olhar do poeta o que nos marca?

Em tudo o que José Neistein tocou, e ele tocou em muita coisa, ficou enobrecido. Eu admirava essa capacidade do José em amar exaltadamente e conservar a consciência alerta. Nós tínhamos uma relação cordialíssima. Sempre me agradou essa sensibilidade aguçada que, nele, convivia com a disponibilidade para viver o presente. Uma espécie de Apolo hedonista, por inacreditável que seja.

Na medida do possível eu acompanhava o seu trabalho e tinha, como subsidio, também o relato dos artistas que ele expunha, apresentava, documentava. E o José Neistein, mesmo à distância, na sua morada americana, se mantinha a par do meu trabalho. Num livro de rara qualidade cujo tema era a bibliografia da arte brasileira, ele me concedeu um espaço respeitoso.

Trocávamos alguma correspondência, era sempre pessoal, mas o motivo inicial era o nosso trabalho. Tanto ele, quanto eu, tínhamos o fazer como parte imprescindível da nossa vida. Quando ele fez um depoimento sobre a sua vida de filho de imigrante para um livro da Professora Maria Luiza Tucci Carneiro o meu encantamento foi extremo. Neistein modestamente contou a sua juventude, os valores éticos de seu pai e que o marcaram para sempre, o seu esforço em busca do conhecimento e o conhecimento como a escolha que o levaria para a liberdade existencial e para a ação ampliada de seu desejo humanista. Creio que foi esse texto, em sua grandeza humana e no seu despojamento o que selou, em nós, a fraternidade sem ressalvas que persistiu até o fim. A minha empatia com este depoimento foi extrema.

José Menache Neistein, mestre cultural, avançado divulgador da nossa arte, figura humana encantadora, sensível cultor da existência, nos deixou e a saudade dele já se instalou em muitos de nós.

Jacob Klintowitz

n° 54 – Ano XVIII – Junho de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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