n° 52 – Ano XVII – Dezembro de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Homenagem

Isa Aderne no nordeste de suas xilogravuras

Herdeira do legado expressionista “goeldiano”, Isa estabeleceu um trânsitocriativo entre o imaginário popular e o universo da arte “culta”, promovendo circularidade entre as respectivas criações, desconstruindo tradicionais fronteiras

Maria Luisa Luz Tavora

No dia 4 de fevereiro deste ano de 2019, faleceu no Rio de Janeiro, a artista Isa Aderne. Destaco sua participação no processo de circulação da xilogravura, no Rio de Janeiro, nos anos 1960. Nesse processo histórico de ativação da gravura artística no Brasil, Isa contribuiu de maneira singular para a assimilação da xilogravura não só como meio moderno de expressão, mas como instrumento para a formação de crianças e adultos, atenta ao problemas sociais. A atividade artística, o ensino e a pesquisa teórica integraram-se na trajetória desta artista.[1] Herdeira do legado expressionista “goeldiano”, Isa estabeleceu um trânsito criativo entre o imaginário popular e o universo da arte “culta”, promovendo circularidade entre as respectivas criações, desconstruindo tradicionais fronteiras.

 Nascida em Cajazeiras, em 1923, viveu em constantes mudanças de domicílio no Nordeste, para onde seu pai era enviado a serviço como “engenheiro das secas”. Nesta geografia e com o destino de migrações sucessivas dividiu sua infância com a cidade do Rio de Janeiro, onde foi batizada. A fome, a miséria e doenças como o tifo constituíram o cenário de sua experiência de mundo.

Seu interesse por arte manifestou-se quando passou a estudar em um colégio de freiras, muito distante de sua casa, onde permaneceu interna. Ali começou a desenhar e a pintar, fazendo cópias de imagens de livros, o que logo abandonou por um desenho próprio. No Rio de Janeiro, uma amizade familiar aproximara Isa do neto de Modesto Brocos, com quem brincava em seu ateliê. Isa mantinha vivamente na memória, os desenhos e pinturas deste artista que a motivavam a seguir sua aproximação com a arte.

Ainda no colégio de freiras, decorava as capas de seus cadernos com imagens de carimbos que fazia com a casca de cajá, madeira usada pelos artistas gravadores do cordel. Violeiros e cantadores alegravam as festas que seu pai promovia para os operários das obras, num cenário de “livrinhos pendurados”, “gravurinhas” que encantavam Isa.

Com quinze anos, Isa veio para o Rio de Janeiro com a família, onde passou a estudar no Colégio Anglo-Americano. Em sua sala de aula, estavam dispostos vários modelos  em gesso de obras de Bernardelli. Durante as aulas de matemática, de latim e outras que considerava enfadonhas, a artista se distraia desenhando os tais modelos. Desenhou muito para seus colegas. Ficou famosa no colégio por causa de seus desenhos.

Embora seu pai projetasse para ela um futuro na arquitetura, em 1947, Isa prestou exame para a Escola Nacional de Belas Artes. Escolheu o curso de pintura que só concluiu em 1960, após sucessivas interrupções para casar e ter seus quatro filhos. A artista acompanhava como ouvinte, com muito interesse, as atividades do ateliê do curso de especialização de gravura[2], um “refúgio” para a livre criação, onde sua irmã Laís Aderne era orientada por Oswaldo Goeldi. Projetava ser aluna do mestre, tão logo finalizasse o curso de pintura.

Embora seduzida pela orientação do mestre Goeldi, Isa não chegou a ser sua aluna como pretendia, a partir de março de 1961. Goeldi falecera em fevereiro, sendo substituído por Adir Botelho, até então seu assistente, garantindo a continuidade de um ensino moderno. Isa concluiu o curso de gravura em três anos, durante os quais esteve muito mobilizada pela obra de Paul Gauguin. Interesse despertado pelo manuseio do livro artesanal de Gauguin – NOA-NOA, adquirido por Adir Botelho e disponibilizado para os frequentadores do ateliê, desde o período sob a orientação de Goeldi.

Todavia, o mestre Goeldi continuava sua referência, seu “orientador espiritual”, de quem apreciava os pretos e a luminosidade sutil, obtida com delicados cortes. Isa elegeu a via expressionista para seu trabalho e a xilogravura como meio preferencial de expressão, impregnando sua obra de intensidade e energia.[3]

Em 1964, tendo concluído o curso de gravura, a artista foi chamada a substituir sua irmã Laís Aderne no ateliê da Escolinha de Arte do Brasil, no Rio de Janeiro. Esta experiência na Escolinha foi relevante para os rumos de sua xilogravura, àquela altura muito influenciada pelo trabalho de Goeldi. Isa reconheceu esta situação revelando a via de amadurecimento de sua gravura, a partir desta atuação na Escolinha:“[…] eu comecei a ter influência da gravura popular do Nordeste, no convívio com meus alunos de Pernambuco, me lembrando do que eu tinha visto lá.[…].”[4] O salutar contato com os irmãos José e Antônio Barbosa, entalhadores, despertou-lhe um acervo existencial de imagens adormecidas, como os livrinhos de cordel, que a motivaram a decorar as capas para seus cadernos infantis, com carimbos de casca de cajá.

Reanimadas em sua memória, estas imagens e outras mais transformaram o processo imaginativo de suas xilogravuras. Voltou-se para os aspectos culturais que lhe eram próprios, como afirmou: “[…] fui esquecendo o Goeldi, comecei a jogar tudo aquilo da minha infância, da seca, de tudo que eu vi, também a parte estética do cordel. Tudo isso passou a influenciar o meu pensamento.”[5] Com esta consciência, o processo de criação de Isa passou a refletir um permanente diálogo com sua vida, associação visceral entre obra e vida, questão tão cara ao trabalho do artista popular. Cabe-lhe o que escreveu o historiador Argan sobre Paul Gauguin, artista que tanto admirava: “[…] em seu pensamento, a imaginação não se opõe contra, nem vai além da consciência da realidade, mas é uma extensão da consciência, que assim também compreende a vida vivida, o passado.” (ARGAN, 1992:134)

Movida pelo processo pessoal de retomada de suas raízes nordestinas, Isa privilegiava a dimensão política da existência. Inseriu-se no debate cultural dos anos 1960, quando a preocupação com as tradições brasileiras afirmava o caráter nacionalista da cultura popular. A Escolinha de Arte do Brasil constituía o lugar de valorização desta postura. Para seu fundador Augusto Rodrigues e parte significativa de intelectuais modernistas a arte popular constituía um corpo de referência de aproximação com a realidade brasileira. A xilogravura, afinada ao traço popular, recebeu destaque com aceitação e premiações a seus criadores, nos anos 1960,[6] na importante instância oficial de legitimação das artes plásticas de então, – o Salão Nacional de Arte Moderna.

Além do legado deste entendimento na Escolinha, a experiência do ensino da gravura no Uruguai, em 1968, contribuiu para o processo imaginativo de Isa. A convite da Divisão Cultural do Itamaraty, a artista trabalhou em Salto, cidade situada a quase 500km de Montevidéu, espaço tensionado por guerrilha urbana com atentados a bombas e sequestros de embaixadores, praticados pelos Tupamaros e seus apoiadores. Muito descontentamento e muitas reivindicações da população ao governo uruguaio. Os alunos de Isa integraram suas gravuras às lutas e resistência política: “Queremos escolas” eram, por exemplo, frases gravadas em suas “obras-panfletos”.

Ao retornar ao Brasil, Isa renovou seu interesse pela gravura com acentuado caráter político como se observa nas obras que destaco da série “Queremos Chuva”, ou em “Parem os Ventos”, “Procura-se um Padroeiro” e “E agora José ?”. São gravuras  realizadas em 1968, ano difícil para a vida brasileira, atormentada pela repressão à liberdade de expressão imposta pelo regime militar, desde 1964. Questão que se aprofundou com o Ato Institucional-n.5, em dezembro daquele ano.

Fig.1 – Queremos Chuva II, 1968- Isa Aderne
Xilogravura em preto e branco sobre papel de arroz, 55,5x 21,1 cm.
Acervo particular. Foto-José Augusto Fialho Rodrigues.

Em “Queremos chuva II”(Fig.1),figuras de frente para o observador, faces distorcidas com expressão grave, afrontam a tragédia natural da seca nordestina. Referência direta à reinvindicações dos alunos uruguaios. Isa participa de um sentimento nacional, conforme afirmou: “[…] eu escrevia “queremos chuva” porque eu era nordestina,[…] eram caras em posições diferentes, com uma expressão de que elas estavam angustiadas, querendo alguma coisa.”[7] Para a série “Queremos chuva”, Isa explorou a memória nacional do sofrimento gerado pela seca, colocando o observador diante de uma angústia contemporânea, a reivindicação da liberdade. A iconografia do pesadelo nordestino estendia-se como metáfora dos pesadelos de muitos brasileiros. Um modo de significar algo que não podia ser dito comentado.

Fig.2 – Parem os Ventos! 1968. –Isa Aderne
Xilogravura em preto e branco sobre papel de arroz, 60x20cm.
Acervo da artista. Foto-José Augusto Fialho Rodrigues.

Em “Parem os Ventos”(Fig.2),[8] tem-se uma ordem, diferentemente do apelo sofrido do “Queremos Chuva”. Inspirada na literatura bíblica do Apocalipse, Isa apresenta numa síntese eloquente, rostos e mãos dos quatro anjos da Terra, seres superiores, no momento em que surgem das alturas dando ordens aos ventos. Homens? mulheres? aplacam a ação devastadora da Natureza. De que outros “parem” estaria tratando esta gravura? Parem a dominação, parem a censura, parem as perseguições…

Fig. 3 – Procura-se um Padroeiro. 1968 – Isa Aderne
Xilogravura em preto e branco sobre papel de arroz, 34,2x70cm.
Acervo particular. Foto José Augusto Fialho Rodrigues.

Ousadia merecedora de destaque é a gravura “Procura-se um Padroeiro”(Fig.3). Baseada na tradição oral do sertão baiano, a mãe de Isa lhe contava que as prostitutas tinham um padroeiro, Santo Onofre, que na iconografia cristã era apresentado com o corpo nu e longos cabelos cobrindo seu corpo. No âmbito da religiosidade popular, carregando seu santinho em suas bolsas, estas mulheres acreditavam que receberiam ajuda deste santo para “arranjar freguês”. Isa conjuga as tradições cristã e sertaneja à visão dos cartazes que eram fixados em áreas de grande circulação das massas, como aeroportos, correios, rodoviárias, etc. Cartazes com fotos da identidade dos perseguidos políticos, de frente e de perfil, encimadas em letras garrafais com o alerta “Procura-se”.

Ávida por registrar em sua arte repúdio a tal estratégia, Isa compõe uma gravura na dominante vertical, com a figura do Santo Onofre, ao centro, em conformidade à tradição religiosa. Abaixo, o mesmo alerta “Procura-se” e figuras femininas dispostas de frente e de perfil, à semelhança dos cartazes políticos. Todo este universo ambivalente da tradição popular e da realidade política recebe uma moldura gravada como uma renda de bilro. Uma sofisticação gráfica, resultado da maestria técnica da artista sobre a madeira. Estava Isa traduzindo um fragmento vivo de sua própria existência. Esta gravura participou do XVIII Salão Nacional de Arte Moderna. Embora fosse uma alusão política mais explícita, Isa não sofreu censura conforme seu depoimento: “Botei isto no Salão Nacional de Arte Moderna. Ninguém entendeu. Ninguém entendeu também “Queremos Chuva”, mas era uma posição política e o pessoal mais próximo achava graça de como eu fazia politica com a gravura”.[9]

Suas xilogravuras ofereciam-se a uma dupla abordagem: considerar e remeter as imagens ao universo da cultura nordestina,- a tragédia da seca, suas histórias, sonhos e pesadelos, e/ou percebê-las em outro registro de ação e de diálogo permanente com as questões político-sociais vividas no Brasil, submetido ao regime militar. Não se tratava apenas de puro estímulo intelectual mas uma posição crítica em relação às “tendências sociais existentes”.(SHUSTERMAN,1998:109). Isa cria um modo singular de equacionar tradição e contemporaneidade. O traço é espontâneo, aparentemente ingênuo, mas sua gravura exige do observador maior envolvimento com uma arte que se quer uma modalidade de intervenção na realidade. Isa, através do seu risco, de sua força, de seu corte, apela para a consciência e ação políticas.

Fig.4 – E agora, José? 1968 – Isa Aderne
Xilogravura em preto e branco sobre papel de arroz, 49×19,5cm.
Acervo da artista- Foto Catálogo Isa Aderne Gravuras, SESC / São João de Meriti, jul. 1998.

“E agora, José ? (Fig. 4) foi o novo título dado a uma obra feita antes de Isa ir para Salto, no Uruguai. Constituía-se de duas gravuras, originalmente nomeadas, “Vacas gordas”  e “Vacas Magras” a serem expostas lado a lado. Uma tratava da abundância e a outra da carência, oferecendo-se como metáforas para o observador contemporâneo.

Impactada pela decretação do Ato Institucional n. 5, em dezembro de 1968, Isa preferiu substituir o título “Vacas Magras” por uma pergunta “E agora, José?” por certo, uma indagação de boa parte dos brasileiros. Incisões irregulares, num ritmo assustador, traduziam o desespero, a angústia diante de um território devastado.

Não mais um pedido, nem uma ordem e sim uma indagação. A órbita de sua gravura era o presente vivido. Isa promovia o encontro de uma sensibilidade expressionista, potencializada de subjetivações, com o universo da cultura popular, agudizando a relação arte-existência.

Manejando um repertório da visualidade popular do universo nordestino, colando tempos e exercitando suas memórias, Isa qualificou suas xilogravuras como espaço de reflexões, partilhando-o com o observador. A gravura popular transformou-se em virtude. A artista simplificou a forma para ampliar o olhar. Para o observador, uma exigência: atentar-se aos problemas éticos, morais e políticos que lhe eram contemporâneos “Um exercício significativo do drama de estar no mundo”.(BRITO, 2003:123)

Foi assim que Isa Aderne gravou na madeira suas imagens, na urgência de significar “seus agoras”.

NOTAS

[1] – A artista trabalhou no Museu da República/RJ, na área de restauração, tornando-se chefe de pesquisa deste setor. A atribuição do quadro de D. João VI e Dona Carlota Joaquina (1815)ao pintor Manuel Dias  Oliveira foi de sua autoria; no âmbito do ensino da arte, sua atuação estendeu-se por vários pontos do país, com destaque para os trabalhos realizados  para a Secretaria de Educação da Bahia, com meninos de rua na comunidade Nordeste de Amaralina assim como a criação do NUCLEARTE, um curso de gravura; na PUC, do Rio de Janeiro, como professora agregada,  trabalhou junto com seus alunos de Prática de Ensino em atividades de gravura também com meninos de rua. Além do ensino, Isa fez ilustrações, produziu, e nos anos 1990, cenografias para o Grupo Hombu, com destaque para a peça Fala Palhaço, trabalho destacado com Prêmio Coca-Cola de Melhor Cenografia, em 1991.

[2] – Tratava-se do “Curso de Especialização da Gravura de Talho-doce, da Água-forte e Xilografia”, criado em 1951. Até então, orientavam a oficina Raimundo Cela até 1954; Oswaldo Goeldi  de 1955/61, Com a morte de Goeldi, Adir Botelho que fora assistente dos dois mestres, assumiu o ensino. Esta oficina não estava atrelada à estrutura curricular da ENBA. Seus professores eram contratados como técnicos, categoria que não tinha acento nos colegiados deliberatórios, a Congregação e o Conselho Departamental. Tal autonomia possibilitou-lhes a implantação de uma metodologia de ensino livre do quadro ideológico e ainda conservador da ENBA, que concebia a gravura como arte menor, atividade de especialista. Sobre o assunto ver TAVORA, 1999, p. 52-67.

[3] – Outros artistas, contemporâneos de Isa, ampliaram o campo da xilogravura a partir de múltiplas abordagens conceituais, tais como Lygia Pape na pesquisa neoconcretista; Fayga Ostrower com pesquisa na abstração sensível; Gilvan Samico com um simbolismo refinado do traço popular e Roberto Magalhães na xilogravura alegórica e satírica.

[4] – ADERNE, Isa. Em depoimento gravado à autora. 1/10/1996.

[5] – Idem.

[6] – Isa Aderne foi aceita em todos os Salões de Arte Moderna a partir de 1961; Samico teve Isenção de Júri, em 1961, recebeu o prêmio de Viagem ao País, em 1962 e o de Viagem ao Exterior, em 1968. Newton Cavalcanti, por sua vez, teve isenção de Júri, em 1963; foi contemplado com os prêmios de Viagem ao País, em 1964 e de Viagem ao Exterior, em 1972.

[7] – Em depoimento gravado à autora. Rio de Janeiro, 4/3/1999.

[8] – Primeira gravura que Isa realizou ao voltar do Uruguai. Apresentou-a no Salão da Bússola, em 1969, no MAM-Rio.

[9] – ADERNE, Isa. Em depoimento gravado à autora em 1/10/1996.

REFERÊNCIAS

BRITO, Ronaldo. Iberê Camargo: Carretéis. In Diálogos com Iberê Camargo. In SALTZSTEIN, Sônia (org.) Diálogos com Iberê Camargo. São Paulo: Cosac Naify, 2003.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Do Iluminismo aos movimentos contemporâneos. Tradução Denise Bottmann e Frederico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

GRAVURA BRASILEIRA HOJE: depoimentos. FERREIRA, Heloisa & TAVORA, Maria Luisa Luz (org.) vol. II, SESC/RJ, 1996.

SHUSTERMAN, Richard. Vivendo a Arte. O pensamento pragmatista e a estética popular. São Paulo: Ed. 34, 1998.

TAVORA, Maria Luisa Luz. A gravura  Artística  Brasileira Contemporânea posta  em questão: anos 50 e 60. PPG em História Social /IFCS / UFRJ (tese de doutoramento), 1999.

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