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Ensaio

Instituto Internacional Juarez Machado: um patrimônio a ser reverenciado

Inaugurado em 2014, é um espaço grandioso, criado para abrigar e expor algumas das obras da vasta coleção do artista.

Luciane Garcez – ABCA / Santa Catarina

Entrada do Instituto. Foto: Luciane Garcez.

Um dos objetivos deste texto é dar visibilidade ao Instituto Juarez Machado, em Joinville, SC, ainda pouco divulgado nacionalmente, e parte de nosso patrimônio artístico e cultural. A visita ao local, no final do mês de novembro, foi uma grata surpresa. Inaugurado em 2014, na antiga casa dos pais do artista, é um espaço grandioso, de excelente estrutura, criado para abrigar e expor algumas das obras da vasta coleção do artista, e oferece também um salão onde acontecem exposições temporárias.

A casa, que é da década de 1940, foi reformada e parte dela transformada em um atelier cenográfico, prefigurando o estilo dos ateliers deste artista, que mantém 3 deles em permanente atividade: um em Joinville, um em Paris e outro no Rio de Janeiro, as três cidades eleitas por ele para viver e produzir. No atelier cenográfico, encontramos o retrato de sua mãe, a famosa bicicleta de “rodas quadradas”, objetos de decoração e móveis antigos; e nem a garrafa de champanhe falta, ícone de um artista que vem há mais de cinco décadas celebrando a vida através de uma arte colorida, alegre, profunda em significados e camadas temporais, que valem a pena o tempo gasto para serem apreendidas e desveladas.

Os salões onde acontecem as exposições, e que foram construídos para este fim no terreno da casa, são amplos, bem iluminados e oferecem um espaço bem planejado, em dois níveis. Neste momento acontece a mostra “Festival de Esculturas Itinerantes”, que vai até 10 de fevereiro de 2019, e tem curadoria de Paulo Branquinho e participação de 26 artistas, nacionais e estrangeiros. Este espaço para exposições transitórias é separado das salas que mantêm uma mostra permanente do artista, em outro pavilhão, acima da loja, onde se encontram diversas peças referentes ao acervo de Juarez Machado, nada deixando a desejar a lojas de museus europeus, e onde está disponibilizada para consulta uma excelente coleção de livros sobre sua trajetória. Não podemos esquecer a cafeteria que vale a pena ser visitada, onde as cadeiras têm estampas de obras do artista, assim como as luminárias forjadas em ferro também remetem à sua obra. Na parede em frente às mesas encontra-se uma instalação fantástica também de Juarez: desenhos, pinturas e colagens sobre sacos de vômitos de companhias aéreas – TAP, LATAM, Air France, etc. – mostrando figuras vomitando arte e cultura dos países a qual pertencem as ditas companhias. Ali temos um certo retrato deste artista: com seu bom humor característico, mostra personagens “vomitando” o que viram e visitaram em suas andanças por diversos países, sendo a arte o meio pelo qual partilham as experiências. A instalação é grande e abrange toda a parede, com cerca de 200 sacos de vômito de avião.

Instalação com sacos de vômito de companhias aéreas. Cafeteria do IIJM. Foto: Luciane Garcez.
Um dos sacos/obra da instalação na cafeteria do IIJM. Foto: Luciane Garcez.

“A coleção de telas do artista foi o que mais impressionou, nos oferece uma caminhada por sua vida artística de uma forma muito bem elaborada pelo próprio Juarez…”

No jardim podemos ver esculturas do artista inseridas no meio de bromélias e frutíferas. Cada espaço do instituto foi pensado para dar uma visão sobre a poética de Juarez Machado, desde esculturas em ferro na grade da entrada, até as placas em acrílico nas portas dos banheiros, indicando feminino e masculino de uma forma muito particular.

Placa do banheiro feminino. Foto: Luciane Garcez.

A coleção de telas do artista foi o que mais impressionou, nos oferece uma caminhada por sua vida artística de uma forma muito bem elaborada pelo próprio Juarez, que arranjou as telas por temáticas correspondentes, nos proporcionando uma imersão em sua longa carreira nas artes. Desde sua primeira tela pintada com tinta, aos 11 anos, outra que conta sobre sua amizade com o poeta Lindolf Bell, algumas que celebram sua vida entre França e Brasil, algumas mais recentes, mas ali, ao passearmos pela coleção, podemos ter uma visão colorida do que tem sido sua trajetória nas artes.

Vista parcial do salão que abriga a coleção de Juarez Machado. Foto: Luciane Garcez.

Artista multifacetado, transitando pela pintura, gravura, desenho, e escultura, foi um pioneiro da animação no país, criou cenários para a televisão e o teatro, sempre se reinventando e contando histórias. Aliás, esta é uma questão fundamental em sua poética: Juarez conta histórias, não pinta telas. E são tantas, que por vezes percebemos uma pintura por cima da outra, resultado de um artista que tem tanto a contar, tanto a dizer, que uma pintura só não basta, uma vida só não basta.

Aos 77 anos Juarez Machado esbanja simpatia, talento, inteligência e vitalidade. Conversamos por mais de 4 horas, e o artista se mostrou uma pessoa generosa, humilde e um curioso pela vida, tanto quanto pela arte. Transitar por entre suas telas foi como ouvir histórias de viagens, de personagens – reais e imaginários –, participar de festas e perceber as múltiplas temporalidades da história da arte, a partir de um artista que estuda e conhece seu meio.

O Instituto promove ainda diversos eventos, tendo se tornado espaço importante para a vida cultural da região, tendo se tornado uma parada obrigatória a quem visita Joinville e arredores. Funciona de terça a domingo, e em quartas-feiras tem entrada gratuita. Detalhe: quem for visitar o instituto de bicicleta também recebe a gratuidade! Sem dúvida patrimônio inestimável para o Estado de Santa Catarina.

A famosa bicicleta de “rodas quadradas”, marca registrada de Juarez Machado. Foto: Luciane Garcez.
Juarez Machado, “A Filha da Chuva”. Coleção do IIJM. Foto fornecida pelo acervo do Instituto.

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