n° 51 – Ano XVII – Setembro de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Artigo

Fronteiras em Aberto mostra como a Bienal de Curitiba resiste ao momento

O tema da mostra surge das comemorações dos 30 anos da queda do muro de Berlim que reconfigurou parte do mundo, em particular o Leste Europeu

Leonor Amarante – ABCA / São Paulo

A 14ª Bienal de Curitiba toma para si um dos temas chave da atualidade, Fronteiras em Aberto, e coloca em pauta questões de fuga, deslocamento, racismo, indiferença, opressão. A porosidade da arte é sensível às mudanças da sociedade e às questões contemporâneas de toda ordem. Tereza de Arruda, brasileira que vive na Alemanha, e o espanhol Adolfo Montejo Navas assinam a curadoria geral e entendem fronteira como elemento muito além do espaço geográfico. O tema da mostra surge das comemorações dos 30 anos da queda do muro de Berlim que reconfigurou parte do mundo, em particular o Leste Europeu. Outros subtítulos gravitam em vários eixos da exposição e contam com curadores estrangeiros: Massimo Scaringella (Itália/Argentina), Gabriela Urtiaga (Argentina), Ernestine White (África do Sul), Esebjia Bannan (Rússia), Julie Dumont (Bélgica).

Algumas obras traduzem o momento de opressão vivido hoje no mundo. O jovem francês Emmanuel Bornstein mostra a série Run (Corra), cinco pinturas expressionistas, das quais quatro delas retratam um corpo de mulher nua em fuga. “O que aconteceu a elas? De onde são? Para onde vão? ” O artista pergunta a si mesmo e diz que a cicatriz da violência deveria perturbar quem a testemunhou, mas não perturba. Na quinta tela ele exibe o rosto indiferente do único homem da série, pintado de azul. “Falo da passividade do ser humano diante do que vê ao seu redor e nada faz, fato comum nos dias de hoje”. Pintor de gestos rápidos e largos ele atua em Berlim onde mora e atualmente expõe na cidade com Immendorf, estrela do neoexpressionismo alemão.

Emmanuel Bornstein, Run 1, 2019. Óleo sobre tela. 200x150x4 cm. Foto: Sebastian Schobbert,

“O volume de obras desta edição chega a 400 e algumas emergem do contato traumático com a existência…”

Hito Steyerl, still do vídeo “Factory of the sun”, 2015.

Imagine um olho inquieto que quer denunciar as mazelas do mundo por meio de aventuras entrecortadas do cyber espaço. É assim que trabalha a retina de Hito Steyerl, cineasta, crítica cultural e cyber artista alemã, um dos nomes chave desta 14ª Bienal. Dois aspectos marcam sua obra Factory of the Sun: foco nos privilegiados do sistema, que ela chama de “pessoas do mundo” e nos seres humanos forçados à diáspora. O vídeo na verdade é um game temperado com denúncias e humor. A personagem principal, Yulia, um tipo cyborg, faz uma narração em que discute, entre outros temas, o exílio forçado de sua família judia para a Rússia.  Um dos pontos fortes do discurso é a maneira como ela simula a infiltração e a influência do dinheiro no mundo da arte. Hito tornou-se conhecida por assumir uma posição política, sem medo de desafiar o poder do mercado. A artista tem exposto em vários países e representou a Alemanha na Bienal de Veneza de 2015.

O volume de obras desta edição chega a 400 e algumas emergem do contato traumático com a existência. A francesa de origem vietnamita Thu Van Tran nasceu em Ho Chi Minh e foi para a França com a família quando criança, como exilada política. Seus conceitos refletem a coexistência de identidades contraditórias, pressionadas por regimes diferentes. Tereza de Arruda lembra que toda pesquisa de Thu Van Tran está ligada ao movimento pós-colonial e suas mazelas. “Ela se interessa pelo processo que ainda mantém alguns territórios sob um tipo de colonialismo. A artista visitou a Amazônia sozinha para descobrir a história da exploração da borracha na região e desvendar as camadas obscuras que envolvem a escravidão humana neste processo”. Sua vivência gerou um trabalho sobre memória em que compara os instrumentos controladores do trabalho escravo na Amazônia aos do Vietnã. As pinturas decorrentes dessa pesquisa, executadas em látex em Curitiba, com formas orgânicas, trazem as marcas de seu posicionamento crítico sobre o local onde a matéria prima foi extraída.

Mosako Wa Nako, “Rio de Sangue”, performance de Lerato Shadi. Foto: Ana Eduarda Diehl.

A Rússia, Índia, China e África do Sul foram reunidas no segmento Brics, com curadoria de Ernestine White-Mifetu, Esenija Bannan, Lu Zhengyuan, além de Tereza de Arruda. A confluência da memória e da denúncia está presente em toda a obra da africana Lerato Shadi, que vive entre Berlim e Johannesburgo. Ela explora situações problemáticas projetadas no corpo negro feminino. Suas performances são longas e podem se estender por dias a fio. Em Curitiba, Mosako Wa Nako, “Rio de Sangue”, apresentada na abertura Bienal durou nove dias. Como em um ritual, ela permaneceu em silêncio tecendo um longo tapete com lã vermelha, referência à vida sofrida da avó e às questões que envolvem o trabalho feminino, a falta de espaço para atuarem, o tempo perdido e o apagamento das mulheres negras da história universal.

Obra de Rakhi Teswani. Foto: Vitoria Bramatti.
Berna Reale, O mito, 2011. Fotografia de performance. 165×111 cm. Acervo Sérgio de Carvalho.
Cildo Meireles, Cruzeiro do Sul, 1969. Cubo de madeira com uma secção de pinho e a outra de carvalho. 9mm³.

A indiana Rakhi Teswani, nome recorrente do mercado de seu país, registra em tecidos transparentes, textos de semelhanças e dessemelhanças sociais escritos por autoras ativistas de renome, entre elas a legendária Susan Sontag e Toni Morrison, a primeira mulher negra a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Experimentar confrontos e analogias aproxima Leonardo Kossoy, com sua cena de teatro feita com madeiras recolhidas em viagens, às obras de Ilya e Emilia Kabakov, criadas pelo casal especialmente para uma ópera. Eles representam os artistas do circuito mainstream das artes visuais que as bienais nunca abandonam. A paraense Berna Reale visitou todos os países do Brics para compor uma série de obras. Para ela a arte é um embate permanente de ideias e seu trabalho é repleto de paralelismos e transversalidades que tocam na situação política brasileira. Sobre o momento que o País atravessa ela entende que para criar, nada melhor do que o caos, e vê que agora é uma grande oportunidade. “Para mim isto não é novidade porque, independente de governo, sempre vivi o lado cruel da vida”. Berna trabalha direto com a violência, no seu dia a dia como legista. “Estou nesta Bienal com trabalhos que fiz no Brasil e na América Latina, retratos com os símbolos que estão aí desde sempre: poder, machismo, soberba, elementos que norteiam a sociedade em que vivemos”. Bienais são territórios heterogêneos com fragmentação de maneiras de produzir. Nesse campo não há limites de dimensões ou escalas. A sala de Cildo Meirelles se ilumina com Cruzeiro do Sul, 1969/1970, uma escultura ínfima que cabe na ponta de um dedo e se agiganta ao tomar o centro da sala sob um holofote. O bloquinho de madeira demarca território em um sentido político e estabelece conexão entre a escultura e a constelação de mesmo nome gerando, desde a sua criação, infinitas interpretações. Como fecho da Bienal, sob a curadoria de Montejo Navas, o músico, multi-instrumentista, compositor e arranjador Hermeto Pascoal, um dos mais conceituados artistas vivos, foi homenageado como destaque desta edição com a mostra Ars Sonora em exposição no Hall do Teatro Guaíra. A exposição que é interativa, coloca um piano à disposição do visitante e reúne os mais diferentes objetos, que também podem ser tocados, com interferências artísticas do músico, conhecido por sua inventividade e experimentalismo no campo sonoro.

Ars Sonora, instalação interativa de Hermeto Pascoal. Foto: Claiton Biaggi.

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